segunda-feira, 16 de outubro de 2017

207 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da tragédia que deu o nome ao poço do chorão 
O poço do chorão situa-se no centro de Ferreira de Capelins, entre as antigas Aldeias de Capelins de Cima  e Capelins de Baixo, junto à estrada para Montejuntos! Dizem que este  poço é histórico porque, embora como charco, já existia há 2.000 anos, na época romana, foi formado pelo encontro de vários cursos de água, vinda de várias direções e encontrando-se nesse lugar! Quando os invernos eram rigorosos, esse charco tinha água pelo verão adiante, permitindo dar de beber a pessoas e animais que ali passavam pela estrada um pouco abaixo, que era única, entre o rio Guadiana e Terena! Quanto à sua designação de "chorão" existem várias versões, sendo a mais comum: "que ali devia ter existido um chorão ou salgueiro", mas ninguém o viu, nem conseguiu ter confirmação dos seus antepassados da sua verdadeira existência! 
A lenda que conhecemos é muito diferente, o chorão não foi uma árvore, mas um homem, que ali muito chorou!
No ano de 1602 havia um lavrador em Terena que, tinha uma filha muito linda, chamada Madalena, que estava em idade casadoira e, perdeu-se de amores por um rapaz chamado António, seu vizinho e também filho de um lavrador cujas herdades encabeçavam existindo grandes desavenças entre eles, pelo que, seria impensável haver algum casamento entre os seus descendentes! Neste caso, quanto mais oposição existia por parte das famílias, mais eles se aproximavam até que, o pai da Madalena contratou uma criada muito severa, uma autentica carcereira para a guardar de dia e noite, as ordens eram para nunca a perder de vista! A Madalena deixou de falar e de ver o António e, nem conseguia mandar-lhe uma carta porque a criada não lhe tirava os olhos de cima e não deixava ninguém aproximar-se dela, estava prisioneira na sua própria casa! A situação tornou-se insuportável, a Madalena pouco comia e passava os dias a chorar! As irmãs e as criadas davam voltas à cabeça sobre a forma de a ajudar, mas nada lhe ocorria, até que, uma das criadas mais velhas disse às meninas que se elas quisessem, tinha maneira de ajudar a menina, porque a bruxa de Terena era sua prima e fazia o que ela lhe pedisse! As meninas aceitaram a oferta da criada porque viam a irmã a definhar! A criada foi ter com a bruxa depressa voltou, trouxe uma mesinha, um pó para deitarem na comida da carcereira que a fazia dormir de dia e noite! A mulher dormia, dormia e a Madalena encontrava-se com o António, mas ambos sabiam que os seus encontros tinham os dias contados, não podiam durar muito mais tempo, então, como não encontravam outra solução, decidiram fugir! Combinaram que desciam para sul até encontrar o rio Guadiana, depois era só descer o mais próximo do rio, que fosse possível, até ao Reino do Algarve e aí começavam a sua vida! Depois de tudo preparado, numa noite muito escura partiram, mas pouco depois da sua partida a carcereira acordou, achou a sua falta e foi a correr acordar o lavrador que, ao fim de poucas horas tinha criados a procurá-los por todas as estradas em redor de Terena! O António e a Madalena aperceberam-se que estavam a ser procurados e, esconderam-se pelos matagais na Defesa de Ferreira! Como todos os caminhos estavam vigiados, também por pessoas a quem o lavrador tinha prometido grandes alvíssaras, durante o dia não podiam sair dos matos e de noite era perigoso e pouco conseguiam avançar para sul! Já tinham passado quase dois meses e não havia nenhum sinal deles, até que um ganadeiro subia o ribeiro da aldeia com as ovelhas e sabendo da existência daquela fonte de água ia na sua direção quando ouviu os seus cães a ladrar, pensou que seria algum lobo perdido e foi averiguar o que se passava , mas ainda estava distante e apercebeu-se do mau cheiro e mudou de ideia, afinal era um animal morto e chamou os cães, mas eles não obedeciam! Como o seu destino era o charco, continuou, mas o cheiro era insuportável e não teve outro remédio senão tapar o nariz com a fralda da camisa, aproximou-se dos cães e com o pau de guardar o rebanho afastou a vegetação e viu dentro do ribeiro, a roupa muito esfarrapada de uma mulher e os cabelos compridos caídos sobre outra pessoa, que pouco se via! Afastou-se imediatamente e, zangou-se com os cães que acabaram por lhe obedecer, chamou o ajuda e disse-lhe para não se aproximar  daquele lugar, mandou-lhe juntar o rebanho e seguir para  a choça que, ele tinha de ir a correr a Terena! 
O ganadeiro seguiu para Terena e foi recebido pelo capitão dos ordenanças, ao qual contou o que tinha encontrado, pareciam duas pessoas, uma mulher e um homem! O capitão pensou logo na Madalena e no António, chamou dois ordenanças, passou-lhe a informação e disse-lhe que fossem com o ganadeiro ao dito lugar confirmar se eram os desaparecidos! Os ordenanças não os reconheceram, mas recolheram as provas possíveis e, foram falar com as famílias que, confirmaram que eram mesmo eles! Foi um grande desgosto para todas as pessoas de Terena, que odiavam e culpavam o lavrador pela tragédia!  Os pais tiveram de ir reconhecê-los, o que só foi possível pela roupa e cabelo! Quando o lavrador se preparava para levar a Madalena para ser sepultada na Igreja Matriz de Terena, o capitão das ordenanças disse-lhe que não podia autorizar, porque já tinha feito uma reconstituição do que teria acontecido e, tudo indicava que eles tinham sido contagiados com peste em alguma fonte, acabando por falecer ali, decerto havia mais de um mês, por isso, tinham de ser sepultados naquele lugar e muito depressa! O lavrador não queria aceitar a ordem do capitão, mas a lei era muito rigorosa e, ele teve de ceder sendo ambos sepultados junto ao dito antigo caminho! O lavrador teve grande desgosto, sentia-se culpado e durante mais de vinte anos, enquanto viveu, foi diariamente onde a filha estava sepultada a pedir-lhe perdão e, enquanto lá estava chorava, chorava, por isso ficou a designar-se por lugar do chorão! 
Cerca de duzentos anos mais tarde, o charco (fonte) foi aprofundado e empedrado, passando a designar-se poço do chorão e, ao longo de séculos deu de beber a pessoas e animais das terras de Capelins e, a quem por ali passava.  


Poço do chorão




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

206 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da Construção da Igreja de Santo António de Capelins 
Conforme consta em documentação conhecida, a primitiva Igreja de Santo António de Capelins, (então Ermida), foi construída cerca dos anos de 1517/1518, na herdade da Sina que, se designava por Cabeça de Sina e, era considerada uma das melhores Montarias do Reino (Coutada), como consta no livro das Montarias do Reino. Nessa época, as caçadas eram muito importantes na vida da fidalguia que, ao mesmo tempo lhe servia de treino militar. Todos os fidalgos queriam caçar nas Montarias mais famosas, entre as quais na Cabeça de Sina, uma das quatro doadas pelo povo de Terena ao Rei D. João I em troca das 1000 libras para ajudar na construção da barbacã e reforço das muralhas do seu Castelo!
Nessa mesma época, existia um fidalgo da Corte do Rei D. Manuel I, capitão de Armadas, o qual, em 1509 comandou uma Armada por terras da India e parte do Oriente que, como consta em diversos documentos, não foi bem sucedido em termos militares mas, devido a alguns bons negócios comercias pessoais, conseguiu enriquecer, o que não o fez esquecer o seu Alandroal de onde era natural e onde a sua família residia, sendo o seu pai o Alcaide Mor desta Vila. Assim. sempre que punha o pé em terra, vinha sempre passar aqui alguns dias e foi numa dessas visitas que mandou preparar mantimentos, cavalos, cães, fusis e tudo o que era necessário para passar algum tempo a caçar nas terras de Terena, ficando a comitiva instalada no Castelo desta Vila e dali deslocavam-se diariamente às melhores Coutadas Reais. Saíram do Alandroal logo de manhã cedo para Terena, a fim de aqui se prepararem e saber junto dos administradores locais, quais eram os melhores lugares para caçar, sendo-lhe indicada a Coutada da Cabeça de Sina, porque não havia por ali nenhuma igual em caça grossa!
Na madrugada seguinte, a comitiva seguiu pelo Monte Branco, Ai Ai, Monte Abaixo, Faleiros, subiram pelo caminho que existia na Cova da herdade da Sina que entrava noutro caminho que vinha dos lados de Ferreira, no lugar onde se situa a Igreja de Santo António, aqui tinham de virar à esquerda para se dirigirem à casa dos guardas e de apoio aos caçadores que ficava a cerca de 100 metros, porém, quando a comitiva ia no referido lugar cruzaram-se com um frade de Jesus da pobre vida, cujos frades eram protegidos pela Diocese de Évora, o qual vinha em sentido contrário! Alguns fidalgos, nem reparavam nele, uma figura muito franzina, sumida nuns trapos, irradiando pobreza à distância, e que só não passou despercebido porque os cavalos pararam repentinamente e fizeram-lhe uma vénia! Os fidalgos ficaram indignados e reagiram mal contra os cavalos, tentando fazê-los avançar, mas eles continuaram parados e nada os fazia sair dali, armando-se uma grande confusão! O frade foi-se afastando  para os lados da serra da Sina e, só depois os cavalos se acalmaram e seguiram o seu caminho! 
Os fidalgos passaram o dia nas caçadas e, pela tardinha voltaram a Terena, mas no momento que estavam a passar no mesmo lugar vinha o pobre frade de volta e, novamente os cavalos tiveram exatamente o mesmo comportamento, só depois do frade se afastar dali, os cavalos continuaram a andar a Terena! 
À noite, durante o jantar e ao serão o assunto foi comentado por todos e, não conseguiram encontrar explicação para o sucedido! 
Na madrugada seguinte, a comitiva seguiu o mesmo caminho de Terena para a Coutada da Cabeça de Sina, quando ali chegaram, lá vinha o pobre frade eremita e repetiu-se tudo como no dia anterior! O fidalgo apeou-se do seu cavalo e foi falar com ele, cumprimentou-o e perguntou-lhe qual era o motivo daquele acontecimento, porque não existia nenhuma dúvida que aquilo, era devido à sua influência! 
O pobre frade pediu desculpa pelo que tinha acontecido e disse-lhe que não tinha feito nada propositadamente, estava ali como mandatário do seu Senhor Santo António, para lhe construir uma Igreja (Ermida) naquele exato lugar, mas era tão pobre e fraco que nem uma pedra conseguia juntar, por isso procurava ajuda! 
O fidalgo ouviu o pobre frade com muita atenção, pensou que fazia mesmo falta ali uma Ermida e logo a seguir disse-lhe: Fica descansado, não precisas de juntar nenhuma pedra, assim que tiver autorização do rei meu senhor a Igreja (Ermida) em honra do teu Senhor Santo António vai ser construída aqui neste lugar, despediu-se, montou a cavalo e a comitiva seguiu sem impedimento! 
À tarde quando voltavam a Terena, chegaram aquele lugar e os fidalgos estavam à espera de encontrar o pobre frade e de tudo se repetir, mas passaram normalmente e nem sinais do frade nem reação dos cavalos! Perguntaram ao fidalgo qual a razão daquela mudança e, ele apenas lhe disse que estava tudo resolvido e não se falava mais no assunto! Os fidalgos continuaram mais alguns dias pelas terras de Terena e, tudo decorreu normalmente! 
O fidalgo, logo que chegou ao Alandroal, escreveu uma carta ao Rei D. Manuel I a pedir autorização para construir uma Igreja (Ermida) a Santo António, nas terras do Reino, no lugar da Cabeça de Sina, por ali ter estado numa caçada e ter sentido a falta de uma Ermida para rezar! Como sabia que, o Rei se encontrava em Estremoz, mandou um ordenança entregar a referida carta e, através do correio enviou igualmente cartas a dar conhecimento ao Arcebispo e Diocese de Évora! 
A autorização do rei não demorou a chegar às suas mãos e, o fidalgo deslocou-se a Terena onde deixou tudo tratado e pago para a construção da Igreja (Ermida) de Santo António, cujas obras começaram imediatamente sob gestão do Prior de Terena! 
A Igreja (Ermida) de Santo António depois de terminada foi benzida e, temos provas de que, no ano de 1518, já aqui eram cantadas e rezadas Missas. 

Quase tudo o que está narrado nesta lenda, foi verdade, não revelamos o nome do fidalgo, porque não temos nenhum documento específico comprovativo! 
O que conhecemos sobre quem mandou construir a referida Igreja, (Ermida) enquadra-se no fidalgo do Alandroal, incluindo uma prova física que, por razões de segurança, não podemos aqui divulgar! 


Igreja de Santo António de Capelins



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

205 - Amigos de Capelins 
História da Vila de Terena escrita pelo Prior Mathias Viegas da Sylva, em Memórias Paroquiais de 17 de Junho de 1758  Villa de Terena
Villa de Terena Comarca de Elvas 
He a Villa de Terena huma das mais antigas da Provincia de Alem Tejo, sita na raya, duas legoas distante do Guadiana termo (Concelho) dos dous reinos, a Lusitania e a Hespanha.
Pertence ao Arcebispado de Evora e à Comarca de Elvas. He Terra hoje da Coroa, antigamente teve Donatário chamado D. Gil Martins.
Tem a Villa e seo contiguo arrabalde 272 visinhos (fogos) e 497 pessoas; exceptuando os menores que ainda não têm lugar no rol das confissões, (os menores de sete anos).
Está situada em huma eminencia que tem mayor subida pelo Poente, e Nascente: e pela parte do Norte há menos declives, por esta corre a mayor parte dos seos edificios.
Tem proprio termo (Concelho), e no desta Freguezia so tem a aldeya chamada das Hortinhas, meya legoa distante desta Villa, que se compõe de 30 visinhos (fogos) e 70 pessoas.
Desta Villa se descobrem as Villas de Monsaras distante três legoas; a de Chelles do Reyno de Castella duas legoas, e mais a de Alconchel no longe de quatro legoas; célebre pelo forte e cerrado do seo Castello, e digno de memória pelas repetidas vezes que se tem visto so gasto pelas armas Portuguezas.
A sua Paróquia, ou Matriz se ve logo da estrada da Villa, e a ella contigua, pela parte do poente, para onde respeita a porta principal da mesma.
Venerão por seo Orago ao Principe dos Apostollos São Pedro, cuja Imagem se ve collocada no Altar Mayor de hua parte, e da outra a da Senhora da Conceição. Tem mais quatro Altares postos a face da Igreja: hum do Santo Nome de Jesus; os outros três de São Miguel, Nossa Senhora do Rozário e de São Francisco. Tem as Irmandades do Sacramento; De São Pedro, que he de Echlesiasticos; de São Miguel e Almas, e do Rozario. A renda da Capella do Santo Nome administra o Prior com hum Escrivão, e Thezoureiro. Sendo todas da jurisdição Real, por serem leigas as Irmandades. Tem São Francisco Sua Ordem Terceira, de que he Comissário o Reverendo Comissário dos Terceiros dos Religiosos observantes do Convento de São Francisco da Villa de Olivença.
He este Templo de huma só nave, e de muito suficiente capacidade para o numero de freguezes por cujo zelo de poucos annos se acha reedificalo.
Tem esta Igreja Matriz um Prior, e dous Beneficiados curados que propriamente são coadjutores do Prior. São da appresentação Real, por serem inteiramente do seo Padroado. Tem de renda o Prior trezentos mil réis; e cada hum dos Beneficiados sincoenta.
Há neste termo (Concelho) duas Parochias: de San Thiago Mayor e de Santo António (Capelins), distantes huma legoa da Villa: creadas para mais fácil, e cómoda administração dos Sacramentos que não poderia haver da Igreja Matriz, por causa da distancia. São estes dous curados da appresentação do Excellentissimo Ordinario; e as Igrejas suffraganeas da matriz, por cujo motivo pagam por titulo de reconhecimento, cada hum dos curas 400 réis annuais ao Prior da Matriz. A sua congrua (imposto que por meio de contribuição ou derrama Paroquial se dá a Curas, Párocos ou Cónegos, para viverem nas Freguesias onde não há os dízimos eclesiásticos) he constituída pelos seus Parochianos, cuja importância com melhor averiguação exporão os ditos curas. 

Não Logra esta Villa ou o seu termo (Concelho) a ventura de ter Convento de alguma família Religiosa. Tem uma caza, a que chamam Hospital, aonde se recebem os pobres passageiros, tão pobres que bem se parece com os mendigos que hospedam. 
Foi frustrada toda a diligencia, que se pôs na indagação dos principios da Caza da Misericórdia desta Villa. Sempre foi timbre dos antigos o empenhar ser mais no obrar, que no escrever. As Cazas da Misericórdia foram constituídas para o exercício da charidade, e obras de Misericórdia nas esmolas, que quotidianamente nellas se dispendem; e o fundador desta Caza talvez accomodandoas com o preceito do Evangelho para que a sem escrito as esmolas, sua mão esquerda não soubesse o que a direita obrava não quiz entregar à memória, deixando-nos em escrito as esmolas, que fazia, na Caza da Misericórdia que fundava. 
A sua renda de cento e quarenta até cento e sinquenta mil réis.
Fora desta Villa em muito pequena distância há duas Ermidas; a de S. Sebastião que pertence à Camera e a de Santo António que pertence ao Prior, como annexa que he da Matriz. Huma e outra têm Cappelão: o de S. Sebastião tem obrigação sommente de Missa nos Domingos; o de Santo António de Missa quotidiana. Tem a Ermida de Santo António três Altares. No principal estão as Imagens de Santo António titular da Caza, São Gregório, e São Bento, que tem sua Confraria. No Altar collateral está a Senhora do Carmo, que tem Irmaons do Bentinho; e outro he de São Vicente Ferrer.
Na distância de oitocentos passos pouco mais ou menos está o antigo Templo da Senhora da Boa Nova, especial Patrona desta Villa. Foi este fundado, [se damos credito aos Autores que assim o escrevem] por Marhabal capitão carthagines, e dedicado a Cupido formado de  fina prata, e a aljava, e o Arco de ouro puro, três mil e seiscentos e três annos depois da Criação do Mundo, e trezentos e sincoenta e nove annos antes do Nascimento de Christo, como consta do Santuário Mariano 66 e da coronica de Fr. Bernardo de Britto. 
He a architetura deste Templo por modo de huma torre Capella de pedra parda na forma de cruz, coroado de ameyas. Alem do Altar Mor, em que está a Imagem da Senhora, tem dous collateraes: hum de Santa Catarina Mártir, e o outro de São Bras. Tem seo Capellão, a quem dá a Comenda que anda na Caza do Conde de Villa Nova (de Portimão) moyo e meyo de trigo, e seis mil réis em dinheiro. Os (?) desta Igreja, e o mais que pertence ao culto divino são obrigaçoens da Comenda. He esta Igreja da Ordem de São Bento de Avis.
A principal festa desta Senhora he no dia, em que a Igreja cellebra a da Senhora dos Prazeres com grande concurso dos pares em roda. São os Pastores desta terra e das circunvizinhas os Mordomos da festa; trazendo em sollene procissão na véspera, depois do sermão, a Sagrada Imagem da Senhora para a Igreja Matriz, e no dia pela manhã com a mesma correndo primeiro as ruas principais da Villa a acompamhão à sua Caza aonde prosseguem os cultos da Sua solene Festa. 
O Senado da Camera desta Villa costuma festejar a mesma Senhora no dia vinte e sinco de Março e oito de Setembro. Em o primeiro Domingo de Mayo he a Festa do Senado de Jeromenha. A Camera do Landroal também festeja a mesma Senhora, porem não tem dia determinado. Os moradores da Freguesia de São Bras, e os da Ribeira de Pardaes vindo em romagem fazem a sua festa à mesma Senhora; aquelles no Domingo do Espirito Santo, e estes na primeira oitava da mesma solenidade. E nos demais tempos do anno são muitas as pessoas, que em romagem visitão a mesma Senhora.
Sabemos por tradição, que foram muitas as visitas, que os Sereníssimos Duques de Bragança fazião a este Sagrado Templo: e em memória desta sua Pia e jenerosa devoção ainda hoje ardem as suas alampadas huma às expensas da ditta Sereníssima Caza.
Foi o ditto Templo, como consta do sobredito Santuário Mariano, consagrado a Maria Santissima com o titulo de Boa Nova pela Rainha Dª Maria molher Del Rey Afonso 11 de Castella no tempo da invasão dos Mouros na Hespanha, filha Del Rey D. Affonso 4º de Portugal, por receber naquelle lugar a nova, que o ditto seu Pay D. Affonso 4º lhe concedia o socorro pedido contra os Mouros, que antes lhe tinha negado.


Os frutos da terra, que em mayor abundancia recolhem os moradores desta Villa são trigo, cevada e senteyo: e de arvores são abundantes os que ressebem do arvoredo de azinho: porque possuem os sobreditos moradores do seo termo (Concelho) sete Erdades, juntas e humas separadas a que chamão Baldios, de montados de azinho, alguas das quaes nos forão deixados pelo seo antigo Donatário D. Gil Martins, para os poderem desfrutar e comer com os seos gados sem que nos ditos possão entrar gados de pessoas de fora: com obrigação porem de suprirem os gastos da Camera, aonde não chegarem as próprias rendas: com o privilegio porem de se não tirar a Terça Real (doação que o Concelho fazia ao Rei da terça parte das suas rendas para que com esse montante o monarca provesse à manutenção das fortalezas do reino) das quantias dadas pelos moradores, como consta de algumas sentenças registadas nos livros da mesma Camera.
Além dos ditos Baldioas ha neste termo (Concelho) sete Defezas (grandes herdades) e trinta e seis Erdades de montados de azinho; pelo que são abundantes os fruttos deste arvoredo.
Teve Juízes Ordinários esta Villa até ao anno de 1753, e o primeiro Juiz de Fora (Presidente da Câmara), que a petição de alguns seos moradores, lhe foi concedido, tomou posse em 8 de Outubro do sobredito anno. Tem Camera sem sojeição a outras justiças.
Tem feira três dias, franca, que tem principio no dia oitavo de Setembro com os mesmo privilégios da feira de S. João de Évora, ainda que pela pequenez do povo dura só hum dia até dois.
Não tem  correyo mas sim hum estafeta posto pela Camera ha seys annos , e pela mesma satisfeito; sendo conduzidas as cartas ao presente da Villa do Redondo distante duas legoas; e chegão na quinta feira por noite e voltão na sexta feira de tarde. O correyo é de Estremoz distante quatro  legoas, donde parte a quinta feira pelo mesmo dia pelo estafeta do Redondo. 
Dista esta Villa de Evora cidade capital do Arcebispado sete legoas, e da Corte de Lisboa vinte e sete. 
Têm os moradores desta Villa e termo (Concelho) o privilégio de não pagarem direito de Portagem, como consta pelo Foral concedido pelo Senhor Rey D. Manoel aos dez de Outubro de 1514, que se acha tombado (arquivado) na torre do Tombo. Também pelo mesmo Foral, lhe he concedido a isenção de tributo algum das carnes ou (?) que se (?) no (?) de Terena ainda sendo pessoas de fora excepto o real da fortificação, que chamão o real de agoa.Tem esta Villa seo castello que se diz ser obra do senhor Rey D. Dinis. Dos edificios interiores, e particulares só se achão vestígios, e os poucos que existem se achão arruinados.
No Terremoto de 1755 cahirão algumas partes superiores do dito castello, são notáveis; e a sua torre grande recebeo algumas aberturas; e a abobeda da mesma que já tinha principio de ruina cahio toda trazendo consigo precipitada huma pequena caza  em que estava recluzo o Relógio governo desta Villa, sem o qual se acha até ao prezente, sem ter experimentado reparo algum, o qual pertence ao Alcaide Mor.
A Ermida de S. Sebastião pertence ao Senado da Camera, como dito está, experimentado algumas aberturas nas suas paredes se julgou conveniente deslançar em terra o seu tecto para que com o seo pezo não fosse mayor a ruína e agora se acha esperando por reparo.
A Igreja Matriz, e a Ermida de Santo António, que pelo Terremoto se virão com algumas aberturas, se achão inteiramente reparadas.

Corre junto desta Villa huma ribeira com o nome de Luçafece, termo divisório dos dous termos (Concelhos) de Terena e Landroal. Tem esta seo nascimento em huma Lagoa que está no sitio de Rio de Moinhos, termo (Concelho) de Estremoz, e de outras agoas, que descem da Serra doça, distante a dita Lagoa desta Villa três legoas: e correndo pelas faldas da mesma Serra, paulatinamente vai engrossando suas correntes: passa pelos termos (Concelhos) de três Villas, Borba, Vila Viçoza e Landroal, correndo em (?) gyros sempre solitária até que se avisinha de Terena em distância para mais (?) daqui passa junto à Ferreira Villa da Sereníssima caza do Infantado, distante huma legoa; depois correndo outra legoa entre o Baldio do Roncão deste termo (Concelho) e a Erdade do Aguilhão, termo (Concelho) do Landroal, entra no Guadiana (?) menos agradecido depois de lhe receber as agoas tira-lhe o nome.
São sinco legoas do lugar aonde nasce até o Guadiana onde morre. Corre do Norte para a parte acima do Sul: Somente conserva a sua corrente neste termo (Concelho), enquanto as chuvas lhe formão as mesmas correntes, que no estio se veem extintas. He o seo curso neste Pais moderado (Clima moderado) sem muita precipitação, por serem planicies os campos por onde passa. He abundante dos peixes, que comummente há nas ribeiras pequenas desta provincia. As mais frequentes pescarias que nela se fazem [que são livres] são no Inverno até aos fins de Abril. Fora mais piscoza esta ribeira se na sua foz não tivera hum açude alto e forte, que lhe impede a subida dos peixes do Guadiana com a do Luçafece subindo muito sobre o dito açude; o qual parece devia ser demolido; porque sempre o bem comum prevaleceo ao particular.
As suas margens neste termo (Concelho) há poucos annos que se vê começarão a cultivar com hortas de melão, e melancia, e os mais frutos, que costumão andar juntos. O arvoredo, que se vê nas suas margens he de azinho, e o silvestre de alandros, de que he abundantissimo ainda no interior da ribeira. He este mato infrutifero, e de tal qualidade, que das suas flores, que só são agradaveis à vista, se não aproveita  a Republica das abelhas para a misterioza fábrica do seo trabalho.
Tem huma ponte muito capaz, que da livre e segura passagem aos passageiros, e ainda às carruagens, composta de seis arcos, obra de cantaria que continua que domina as suas mais sobidas e arrogantes inundações; que começão deste termo (Concelh o) no sitio que vulgarmente chamão o carrascal, descansa na margem opposta  do termo do Landroal na raíz de hum outeiro, em cuja eminência  se venera o gloriozo Martir São Gens em huma Ermida que he da Ordem de São Bento de Aviz.
Tem esta ribeira no termo (Concelho) desta Villa dezasseis Moinhos, e hum Lagar de azeite, a que chamão o Lagar da ribeira: e no Guadiana dentro do mesmo termo, na Freguezia de Santo António (Capelins), se achão nove, e hum no Ribeiro do Azavel.
Entrão na dita ribeira no mesmo termo (Concelho) sette ribeiros de nome; o ribeiro da Silveira, o de Alfardagão, o da Albragaria, dos (?)adros; o Alcayde, o Garrão, (Carrão)  e o Azavel.
No Baldio a que chamão Malhada Alta. há uma fonte, de pouca agoa, a qual chamão santa; pois se tem visto, que bebendoa muitos enfermos especialmente os que padecem de terçons, tiveram remédio nas suas queixas; o que atribuem a favor de huma Imagem de N. Senhora da Conceição, que está pintada na fonte, e não a especial virtude da sua agoa; por cujo motivo he visitada de muitos enfermos.
Esteve fundada esta Villa, ao longo da ribeira por cuja causa só estava a Villa longa, da qual era Matriz e se chamava a Igreja da Senhora da Boa Nova que ainda hoje conserva a Pia Baptismal depois ou por insconstancia dos tempos ou por ser menos saudável pela mismia vizinhança da dita ribeira, pela corrupção das suas agoas.
No tempo do estio, se passou para a eminência aonde se acha; e deixando o nome de Villa Longa (Nunca se conheceu nenhum documento de prova que tivesse oficialmente esta toponimia) tomou o de Terena. Dizem que por clamar neste sitio o postilhão: Ter, ter, à Rainha D. Maria de Castella, que se retirava de Portugal, para lhe dar a nova do subsidio, que já lhe concedia contra os Mouros, como acima fica dito". 




Terena 17 de Junho de 1758

O Prior mathias Viegas da Sylva


Nosso comentário: 
Pensamos que, esta ultima parte escrita pelo Sr. Prior Mathias Viegas da Sylva, não está correta, porque a Vila quando estava situada junto à ribeira de Lucefécit já se designava Terena, assim consta em vários documentos e, nos versos do Rei Afonso X o Sábio, do Reino de Castela. Enquanto Terena foi junto à dita Ribeira, a Matriz era de Santa Maria, conforme provam vários documentos e também os mesmos versos daquele Rei, que foram feitos cerca de 1265/1270!  





sábado, 7 de outubro de 2017

204 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Lenda do Açude na Foz da Ribeira de Lucefécit e, o Milagre de Nossa Senhora das Neves
A Ribeira de Lucefécit desde sempre teve muito peixe, porém, a partir do ano de 1750, o peixe começou a ser escasso e, algumas espécies estavam em extinção porque, existia um açude alto e forte na sua foz que não deixava passar os peixes que deviam subir a partir do rio Guadiana! Os peixes da Ribeira do Lucefécit que eram facilmente pescados com os rudimentares apetrechos de então, matavam a fome a muita gente, por isso, as famílias mais afetadas começaram a queixar-se a todas as entidades sobre o que estava a acontecer, por culpa do dito açude, mas ninguém lhe valia! 
Em todas as missas os fregueses pediam ajuda aos Párocos, da Vila de Ferreira ás Neves, Rosário e Terena! Eles compreendiam e, estavam contra aquele açude, ao ponto de constar nas Memórias Paroquias de S. Pedro, Terena, mas como não tinham poder para ordenar a sua destruição, diziam-lhe para rezarem e pedirem aos Santos da sua fé para os ajudarem, mas os anos passavam e, a situação piorava! As pessoas comentavam que: “o melhor seria vir uma grande cheia que levasse o açude para o fundo do pego de Santa Catarina”, mas como os anos iam tão secos, decerto isso nunca aconteceria, porque o açude era tão forte que essa possibilidade não seria fácil de acontecer, a não ser que houvesse um milagre!
O ano de 1782, continuava seco, como os anteriores e, já no mês de Março ainda não tinha chovido quase nada, as searas estavam a sumir-se, adivinhava-se um ano de fome , então os fregueses decidiram fazer uma prece a Nossa Senhora das Neves a pedir chuva! Fizeram a primeira novena e não choveu nada! Esperaram nove dias e continuaram, no final fizeram uma procissão ao longo da Ribeira do Lucefécit, pelo Escrivão, Talaveira, Roncão, até à foz, para que Nossa Senhora das Neves visse a secura dos camposo e, quando chegaram ao rio Guadiana lembraram-se de mais uma vez pedir ajuda a Nossa Senhora para que o dito açude que tanto mal lhe fazia se sumisse dali, aproximando-se a procissão do açude! A fé das pessoas era tanta que, acreditaram na ajuda da Senhora das Neves!
Algumas horas depois de terminar esta procissão, o céu nublou-se e, à noitinha começou a chover torrencialmente, continuando a chover, com pouco alivio, o resto do mês de Março e todo o mês de Abril! Havia água nos regatos, ribeiros, ribeira e nos campos como há muitos anos não se via! Naturalmente, a Ribeira do Lucefécit manteve-se com um caudal muito elevado até ao início de Maio e, quando voltou ao nível normal, as pessoas tiveram uma grande surpresa, a verdade é que não existia nenhum sinal do açude, o mesmo tinha sido arrastado até à última pedra para o fundo do pego de Santa Catarina! Os fregueses ficaram abismados com este acontecimento e, não tiveram dúvidas que foi um milagre de Nossa Senhora das Neves.
O açude nunca mais foi reconstruído e, a Ribeira do Lucefécit renovou-se com muito peixe que, aliviava a fome a muitos necessitados.

Informamos que, quase tudo o que consta nesta narrativa, corresponde à realidade! 

Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

203 - Amigos de Capelins 

História da Villa de Alandroal 

Memórias Paroquiais de 1758 - Prior Bento Ferrão Castelbranco 

Villa de Alandroal 

Alandroal - Comarca de Avis

"Na Provincia do Alentejo que é suposto tenha na Ordem das Provincias Portuguezas logar, ser respectivo à Estremadura que comprehende a Real Cidade de Lizboa metropolis e sede dos nossos Ausgustissimos Monarchas que não se pode negar ser a Princeza das Espanhas como primeira que teve morada e habitada felizmente depois do universal diluvio por Thubal e Seu Irmão Eliza que na foz do rio Sado deram fim à sua laboroza navegação que intrepidos haviam principiado no Porto de Japher hoje em os modernos (Jarpo). 

Nesta Provincia se acha situada a Villa do Alandroal mas nesta villa Bispado de Elvas distante da capital do Reyno 27 legoas da do Bispado de Elvas , a Sua nomenclatura, não são certos os seus Litreyros sem que se possa inda com a ordem da História averiguar qual seja a sua proveniencia ou Fundador, argumento forçozo da Sua antiguidade porque perdidas as memórias já, (?) fundação em o seu sitio onde hoje chamão os Villares que fica ao poente da Villa que existe e dela distante hum tiro de espingarda (?) foi urbana habitação não passa hoje de rustico lugar onde ao tempo da cultura se tem encontrado muitas (?) de ter ali havido populoza povoação porque (?) ossadas nos telhões da grossura de tres dedos que só então hoje assim (?) senão fabricão eh haverá trinta annos cavando se encontrarão hum badallo huns (?) logo depoes se acharam (?) huns (?) de humma então desconhecida na qual (?) com pouca diferença (?) como ella (?) de prata de (?) huma moeda (?) na qual estava estampada huma figura lavrada com um Letreyro na curcunferencia com que se lia = Divus Augusto (?) Noutro lado estava a estampa de outra figura porem sem letreyro. Permissas essas que asegurão consequencia de sua muita antiguidade.

Neste sitio poes são supostas (?) o Alandroal da presente ubicação não sey se foram namorados se do abundante olheyrão de agoa que aqui há de que ao depois em fonte faremos relação.
Não se averigua certamente se quem foy o fundador do mais moderno Alandroal nem tão pouco se averigua se ao tempo que se fabricou o Castello havia já alguma povoação ou que se verificasse ser fundado o Castello por D. Lourenço Afonso nono Mestre de Aviz, em o tempo de el Rey D. Diniz único do nome o que consta de alguns letryros que estão no mesmo Castello que tem a formalidade seguinte.

(Nosso comentário)


Todos os documentos antigos indicam que a primitiva Villa do Alandroal era em Villares, já na época Romana, onde passava uma das vias romanas para Mérida! E conforme diz o Prior foi encontrada um moeda romana nesse lugar! 


Castello 

He o Castello situado no meyo da Villa de sorte que a devide em duas partes de sima que fica para o oriente se chama a Matta e a de bayxo que fica para o occidente se chama o Arrabalde e tem o mesmo Castello no seu recinto sette Torres e huma grande no meyo a qual tem 14 braços de altura e de circunferencia tem todo o Castello 247 braços e tem tres portas a primeira e principal chamão Legali e fica para o Norte,, entre duas Torres ou Rebellins e está na entrada um letreyro que diz assim:

Deus he Deus será

Por quem elle for

Esse vencerá
Sobre esta porta a altura de huma lança está outro letreyro em que se le letra gótica:
Era de 1332 aos 6 dias de Fevereiro 
Começarão a fazer este castello por 
mandado do Mestre de Aviz D. Lou
renço Afonso e elle poz a primeira pedra
(MCCC63) Castello 
Mouro me fez 
Na porta que fica para Nascente chamada a porta da Trayção está huma pedra por fora com a cruz da Ordem de Aviz (?) que são as verdadeiras armas de Aviz e tem hum letreiro algum só em cada hum (?) se ve (?) não pode ter interpretação. Na Torre grande do Castello está outra pedra que tem huma cruz da Ordem de Aviz comum letreyro que diz assim: 
Era de 1336 a 25 dias andados de Fevereiro fez este Castello D. Lourenço Affonso Mestre de Aviz à honra e Serviço de Deos e de Sancta Maria Sua Madre e das Ordens do mui Nobre Senhor D. Deniz Rey de Portugal e do Algarve Reinante em aquelle tempo e em defendimento dos seus Reynos.
Salvator Mundi Salva me 
No canto desta mesma torre grande está huma pedra com o letreyro seguinte: 
Quando quizeres fazer alguma couza
Cata o que te he necessario e depois veras 
Quem de ti se fiar, não o enganes 
Lealdade em todas as couzas 
Destes monumentos todos, que a fortuna nos conservou apezar da voracidade dos tempos se mostra a verdadeira fundação do Castello do Alandroal, e suposto delles conste ser lançada a primeira pedra no anno de 1332. Contudo havemos dizer que principiou na Era de Christo de 1294; tempo este que reynava em Portugal o Senhor Rey D. Deniz, o unico do nome; porque dava dous letreyros Era de Cezar que foy aquella porque em Portugal se contarão os annos desde o Reynado do Senhor Rey D. João o primeiro que no anno de 1460 da Era de Cezar mandou que deixada a dita Era se contassem os annos pelos do nascimento de Christo e como para se contassem os annos segundo o modo presente hera percizo abater 38 annos da Era de Cezar, ficou o anno de 1460 de Cezar sendo o anno de Christo de 1422, isto é da Era vulgar. Nem o letreyro que diz a obra do Castello se principiava no anno de 1332 se pode entender senão da Era de Cezar porque o Castello foi fundado em tempo de El Rey D. Deniz e como este Princepe principiou a reynar no anno de Christo de 1274, e faleceu no anno de Christo de 1325 claro está, que o letreyro sitado he o da Era de Cezar. 
Tem o Castello hum grandioso lugar dentro a que se pode dar o nome de Praça de Armas no meyo da qual está uma cisterna a qual por ocasiam do occio da paz e indescripção da mocidade maleciosa se acha quase intupida e foy percizo mandar se tapar para que o não fizessem de todo.
Tinha nobilissimas cazas em que o lapso de tempo terá introduzido os seus efeytos constituindo-as na ultima ruina sem embargo de ter o Alcayde Mor obrigação de as consertar o que já na vezita geral que por ordem de El rey Fellipe 3º se fez mandando hum menistro Togado no anno de 1606 se deixou em capitullo da vezita que o Alcayde Mor mandasse consertar as cazas do Castello que sem dúvida eram grandes, pões nella se acomodou a Senhora Duqueza de Bragança molher do Duque D. Theodozio desde o anno de 1600 athe ao anno de 1605 e nas mesmas cazas se celebrarão os Nobilissimos desposórios da Senhora Dª Izabel sua filha com D. Miguel Marquez de Villa Real no anno de 1604 o que consta no livro primeiro dos acentos dos cazados nas seguintes palavras:
Aos trinta dias do mez de Junho recebeu D. António Mattos de Noronha Bispo de Elvas nesta Villa de Allandroal D. Miguel Marquez de Villa Real com a Senhora Dª Izabel filha do Duque D. Theodozio e da Senhora Duqueza Dª Brittes. Foram testemunhas o Padre Pero Frade e o Padre Gomez Annes e o Padre Afonso Rodrigues Faleiro e o Padre Gaspar Roiz e outras muitas pessoas e declara que o ditto Bispo deu huma admoestação e dispensou das outras duas e por ver digo eu Rodrigo Peralvo clérigo de missa e Beneficiado na Igreja Matriz desta Villa fiz este que assignei aos 3 dias do mez de Julho de 1604
Rodrigo Peralva
Nam tem o Castello ruina considerável; porque inda que no terramotto do anno de 1755 se observou foi hum espantozo aballo não teve mais ruina que o cahirem algumas ameyas, e fazesse no lado da parte que fica para a Praça da Villa huma quazi impercptivel fenda de alto abaixo, que actualmente existe sem reparo". 
A Matriz 
A Matriz ou Parochia, está tanto no interior da Villa que está dentro do Castello da qual era antigamente Orago Nossa Senhora com o titulo da Graça, como consta da vezita feyta por Ordem de El - Rey Fellipe 3º no anno de 1606; hoje porém he Orago a Senhora com o Nobilissimo Titulo da Conceipção Immaculada desde o primeiro instante Fizico de Seu Ser. 
He a mesma Parochia da Ordem de Aviz de Humma so nave, tem sinco altares e o mayor tem uma Tribuna elevada em que se expõem o Santissimo Sacramento nas festividades e em bayxo logo por sima do Sacrario a parte do Evangelho em o lugar dos Patronos, Oragos ou Padroeyros está a Amabilissima Imagem da Senhora da Conceipção e nesta mesma Parochia há a Irmandade do Santissimo Sacramento com duzentos mil réis de renda. 
No altar collateral da parte do Evangelho está a Senhora do Rozário que tem Sua Irmandade: Noutro altar collateral da parte da Espistola está a Senhora do Monte do Carmo que tem Sua Irmandade a qual forma em breve corpo de terceiros (?) do Carmo, o segundo altar da parte do Evangelho he do Senhor Jesuz, não tem Irmandade o segundo porém da parte da Epistola he o altar das Almas que tem Irmandade e dous capellaes.
Teve a Matriz duas ruinas no Terramoto de 1755 porque raxou pela abobeda do Tecto e se arruinou muito na Torre de sorte que foi percizo tirarem se os sinos e demolir muita parte da torre por não caber ao depoes com danno de algumas vida; as abobedas estão reparadas e o deve ser pela fabrica da mesma Igreja.
O Parocho he Prior destta, o provimento he por Sua Magestade pello expediente da Meza da Consciencia e Ordens que lho consulta tem de renda vinte mil réis em dinheiro, três moyos de trigo e dous de sevada. Tem dous Beneficiados curados também providos por sua Magestade pello mesmo expediente, têm de renda cada hum dez mil réis em dinheiro, dous moyos de trigo e moyo e meyo de sevada:
Os Dizimos pertencem à Comenda que é pequena, antigamente andava esta Comenda que he a Comenda Grande dos Mestres da Ordem de Aviz, de tal sorte que da Coroa e huma orta que está ao pé da Villa junto à fonte cuja orta pertence à Comenda hinda hoje é huma orta do Mestre.
He o Parocho subordinado ao Juiz (?) da Praça de Estremoz distante tres legoas desta Villa (?) e era Prior da Igreja de Santa Maria do Castello daquella Praça, e em sendo Priores daquela mesma Parochia levão igualmente anexo e ficam constituidos Juizes da Ordem da Comarca da dita Villa com sugeiçam porem à Meza da Conciencia.
O governo politico e Civil he expedido por Ministro de Letras com titulo de Juiz de Fora, he provido pellas consultas que se fazem dos Lugares da Coroa; he o seu Juiz de mor alçada e ouvidor de Aviz distante nove legoas de cuja comarca he e da Provedoria da cidade de Elvas que dista sinco legoas tem Senado da Camera de que he Prezidente o Juiz de Fora em termo próprio, e nelle de extenção tres legoas.
O governo militar he executado por hum Cappitão mor que tem subordinadas três Companhias de Ordenanças, em que estão alistados os moradores todos da Villa e campo.
O governo Ecleziastico he praticado por hum Vigário da Vara subordinado ao Vigário Geral da capital do Bispado.
Tem Alcayde mor que apresenta o officio da Alcaydaria da Villa é he Senhor por especial graça e doação das agoas correntes de que lhe pagam foro os que em asenhas ou engenhos se aproveitão dellas. He Alcayde mor o Conde de Villa Nova de Portimão D. Jozé Gregório de Lencastre, e há dilatados annos que anda nesta caza.
Pertence esta Villa à Ordem de São Bento de Aviz. Ignora-se porem qual dos nossos Monarchas foy o que doou à ditta Ordem a Villa; porque na ordem das Hestórias nam vem com clareza esta circunstancia e (?) o que se ve he serem os menistros della providos pellos conselhos da Coroa. 
Tem esta Villa seis Ermidas, cujas são a Ermida de S. Sebastiam situada dentro da Villa que foy edificada por despensas do Conselho e de algumas esmolas particulares, he admenistrada pello mesmo Conselho que todos os annos festeja o Santo; ficou do Terramoto de 1755 com huma raxa por sima da porta principal de que ainda não está reparada.
A Ermida de Santo António he situada sincoenta passos fora da Villa foy feita de esmolas de todo o Povo não tem Padroeiro, teve grande ruina no Terramoto de 1755; de que inda não está reparada.
A Ermida de S. Bento está fora da Villa quatrocentos passos com pouca differença foy fabricada a dispendios do Povo sendo motivo hum nicho (?) do mesmo (?) sendo tão notável como especiozo a esta Villa porque nella hum homem velho chamado João Serigado, todos os dias ia ao lugar onde hoje está a Ermida, e como dali avistava S. Bento da Contenda que está em termo (Concelho) de Olivença ao pé da serra de Olor (Alor) distante desta Villa quatro legoas, se punha a fazer oração ao Sancto athe que lhe apareceu o grande Patriarcha, e mandou que dicesse aos moradores do Alandroal, que lhe edificassem ali huma caza que elle seria seo intercessor diante de Deos. O devotto velho, como outro Moizes, lhe disse = E que signal senhor me daes para que o Povo me creya = tinha o ditto velho huma das mãos aleyjadas por ter os dedos encolhidos e pegados entre si, de sorte que a não podia abrir; o sancto respondeo = Vay e o signal que has de dar he, que abrirás essa mão que não podes abrir, à vista de todo o Povo e ficarás são dela = .
Foy muito alegre o Velho e deo o recado de S. Bento aos da Villa, e de repente abriu a mão, e estendeo os dedos. Deu todo o Povo graças a Deos, e seo Sancto, e logo lhe edificarão a Ermida, e o Sancto também cumpriu a palavra livrando o Povo do Alandroal da peste, e ares corruptos de que então estavão vexados, e de então por diante athe ao presente os tem livrado tanto assim que ardendo em peste Portugal em o anno de 1600 especialmente os lugares vezinhos a esta Villa como erão Villa Viçoza, Borba, estremoz, Redondo, Terena e outros, só o Alandroal estava izento della, respirando ares incorruptos, e se observou que vindo algumas pessoas feridas já da mesma peste, entrando na Villa logo sararão e para esta mesma Villa, então por ocazião da peste se acolheo a Senhora Duqueza de Bragança D. Brittes com a Senhora Dº Izabel sua filha com toda a sua caza eixando Villa Viçoza em que a peste andava, refugiando-se para o couto de S. Bento na segura promessa, que havia feyto a este povo, e sendo grande a equipagem de perigragem tão grande se observou também não infermar pessoa alguma della.
Não há duvida que o Povo desta Villa tem grande fé em S. Bento, de sorte que nas sua mayores aflições logo a elle recorrem e igualmente nelle achão não só abrigo, mas remédio; he milagrozissimo e no seu seguro valimento para com Deos, concorrem à sua Ermida muitas pessoas de romagem de differentes terras, de multiplicados termos (Concelhos), athe quando lhe infermam os gados, em rebanho os mandão benzer no adro da ditta Ermida, e o certo he que logo experimentão milhoras. Festeja-se na segunda (?) da Pascoa tempo em que se lhe faz feira tres dias franca.
A Ermida de S. Pedro está fora da Villa trezentos passos com pouca diferença, foy edificada a dispendios do Povo, nam tem Padroeiro e do Terramoto do anno de 1755 ficou com ruina grande de, que inda não está reparada.
A Ermida da senhora da Consolação também fica fota da Villa quatrocentos passos com pouca diferença, foy edeficada por Diogo Lopes Siqueira (Foi fidalgo da Casa Real), na Era de 1520 e na mesma Ermida collocou a ditta Imagem que havia trazido da India onde tinha sido cappitão mor e instituhio huma capella de Missa quotidiana; porem extincta a sua descendencia e familia se incorporou a mesma Cappela na Coroa: a administração porem tem sua Magestade dado em sua vida a huma D. Maria Magdalena viuva do cappitão (Crivas?) asistente em Estremoz. Tem a fabrica desta Ermida vinte mil réis de renda cada hum anno, e no Terramoto de 1755 teve ruína grande que se acha reparada por conta da mesma fabrica.
Tem esta Ermida mais dous altares: em o que fica da parte da direita da entrada ou aparte da Epistola, está a devotta Imagem de hum Christo Cruxificado que dizem fora achado em huma praya o que constava de hum letreyro que tinha exarado na cruz: Hoje porem sim se percebe ter havido letreyro mas he impraticável a leytura delle; e fica esta Notticia sem mais credito, que a tradição da Voz Vaga de algumas pessoas, o que he de authoridade débil, à vista do que cruditamente provão os grandes Marquez de Santo (?), ao Padre Feyjo, e esta Villa he Totalmente exhausta de memorias inda nos Cartórios.
No Altar que fica da outra parte na da parte do Evangelho está o Senhor dos Passos que tem Irmandade, e com esta Imagem se faz a celebridade da Procissão dos Paços desta Villa.
A Ermida da Senhora das Neves está fora da Villa trezentos paços com pouca differença, antigamente se chamava a Senhora das Ervas (ainda em 1551 num processo de Inquisição, existe uma referência à "Nossa Senhora das Ervas do Alhandroal"), assim o tenho achado em instrumentos antigos, e titulos que muitos tem António Vaz Gançoso (Familia muito importante do Alandroal que chegou a ter Brasão de armas em 1581, mas parece que eram originalmente Ganços), na sua caza. Não se pode averiguar a cauza, ou motivo que houve para se mudar a vocação para o da Senhora das Neves: Nam tem Padroeiro, e celebra-se a sua festa a sinco de Agosto, e em trinta, Sabados ou Domingos de cada hum anno tem Missa de obrigação para o que ha renda". 
Tem esta villa no campo huma Freguesia com titulo de Nossa Senhora do Rozario, a qual he também da Ordem de Aviz, e tem Parocho curado com o titulo de capellão, cujo he provido por El Rey em consulta da Meza da Consciencia e Ordens, o qual dará relação dos fogos e pessoas pois lhe foy dada ordem para isso. 
Além desta Freguezia tem no campo sinco Ermidas a saber, a Ermida de S. Gens em sítio chamado da Canada, distante da Villa huma legoa, a qual foy edificada haverá 30 annos por hum Pastor, que ajuntando pegulhaes (rebanho, porção de ovelhas pertencentes a um pastor e que ele apresenta com as do seu amo), seu cabedal o quis com acerto dispender à honra de Deos, e do seu Sancto; não tem padroeiro.
A Ermida de S. Miguel fica distante huma legoa desta Villa em sima de hum elevado monte: He esta Ermida antiquissima porque foi fundada por Maorbal ao Deos Copido com o titulo de Endovélico, nos annos de 340 antes da vinda de Christo: Era este Simulacro de prata muciça, com hum coração na bocae azas nos pés; asistião a este Simulacro em apozentos, que tinha ao pé humas sacerdotizas a que chamavão Flaminias, as quais governava hum sacerdote com sujeição aos Sacerdotes do Templo de Diana em Évora porque este Templo tinha a primazia Flaminica, que he o mesmo que Pontificia em toda a Luzitania, com todos os Sacerdotes e Sacerdotizas dos mais Templos da mesma Luzitania.
No mesmo Monte onde está esta Ermida, em aquele Templo de Copido Endovéllico haviam várias Antas que he o mesmo que Aras onde se fazião sacrificios e nellas ao mesmo Copido sacrificavão hum cordeyro branco , a quem o sacerdote tirava o coração e deytava nas brasas da Ara: offerecião-lhe ricos e primorozos Dons: Almicar Borcino quando veyo de Cartago, lhe deu arco, aljava e frechas de puro ouro, que tudo permaneceo pendurado naquelle Templo athe que entrando Julio César com mão armada a conquistar este Paiz não só roubarão os seus soldados as riquezas deste Templo de Copido mas também o de Sua may Venus que estava em a Serra de Ossa, como Templo que hoje he dedicado aos Gens.
Foy o Simulacro outra vez restituido por suplicas dos antigos então cegos Lusitanos, que chegavão a matar-se com dor do considerado dezacato, feyto pela irrupção dos soldados de Jullio Cézar o qual commovido das rogativas constrangeo o soldados a que restituissem o que de facto fizerão.
Este tão famozo e venerado Simulacro da errada gentilidade se vio cahido por terra fazendo-se em pedaços, quando a Segunda pessoa da santissima Trindade o Verbo divino nasceo Deos e homem para remédio dos homens.
Por esta causa fizerão segundo Simulacro ou Ídolo de fino mármore cujo Templo sendo ao depões possuidos pellos Christãos na lei da Graça ou purificação e dedicação a S. Miguel e por ocasião das obras que para isso fizerão, meterão o Idollo por ser obra excellente dentro da parede da Igreja onde foy achado quando se abrio huma porta que vay para a caza do Ermitão e os rapazes o quebrarão fazendo-o em pedaços e também se acharão algumas pedras de mármore fino e em huma dellas estava escripto = C. Jullio Novato cumprio o votto feyto ao Deos Endovellico pella saude da (Vivenica) Venusta Manilia cujas palavras estava em latim assim:
C. Jullius Novattus Endiovellico 
pro salute Vivenia
Venusta Manilia Sua
Vottum Saluit
Estas pedras mandou o Senhor Theodozio Duque de Bragança levar para Villa Viçoza e pôr no Portico de S. Agostinho onde se podem ver.
Está também nesta Ermida de S. Miguel huma Bellissima Imagem da Senhora da Piedade à qual concorrem muitas pessoas de romagem não só deste Povo mas da Villa de Terena, todas as sextas feyras de Março: não tem padroeiro.
Há mais huma na Defezza da Granja que he dos religiosos de S. Bento da saúde huma Ermida do mesmo Sancto que edifficarão os mesmo Religiosos e della são Padroeiros.
Na Herdade de Santa Luzia também há huma Ermida à mesma Santa de que he Padroeiro Thomé Jozé de Sousa administrador do Morgado, a que pertence a herdade. 
Na quinta chamada da Pipeira que he dos Religiosos de S. Bento há huma Ermida da vocação de Nossa senhora da Saúde, da qual são Padroeiros os mesmos Religiozos. 
Estas são as Ermidas que há no campo e termo (Concelho) desta Villa por alem destas há huma fora do termo (Concelho) e no termo (Concelho) de Terena a de N. Senhora da Boa Nova que he da Ordem anexa ou filial da Matriz desta mesma Villa, a qual antigamente tinha a vocação da Senhora da Assumpção como consta da vezita que no anno de 1587 por Comissão de El Rey Fellipe 2º fez D. Sebastião Bispo de (Targa) e consta do livro das vezitas da Igreja onde diz assim:
Vezitei a Ermida e Caplania de Terena anexa a esta Igreja Real a Ermida de N. Senhora da Assmpção que he da Ordem de Aviz e o capellão que tem obrigação de dizer missa seis mezes contínuos na Igreja de S. Pedro da Villa de Terena.
Esta Ermida foy no tempo dos Romanos templo do Deos Juppiter Endovellico a qual com grande culto venerava aquella cega gentillidade.

(Nosso comentário)
Parece que, o Prior Castelbranco não conhecia a Igreja de Nossa Senhora da Boa Nova! Existe confusão entre essa Igreaja e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Alandroal (Assumpção)! Nunca se encontrou nenhum documento que nos diga que a Igreja de Nossa Senhora da Boa Nova em 1587 se designava de Assumpção, ou seja da Conceição! Também, não foi aqui nesta Igreja de Nª Senhora da Boa Nova o Templo do Endovélico! 
Parece não estar correta a interpretação feita pelo Prior Castelbranco à escrita sobre a visita feita pelo Bispo D. Sebastião em 1587 ao Alandroal e a Terena! 

Há nesta Villa caza da Mizericordia que tem de renda settecentos mil réis; não se sabe o anno em que foy fundada mas prezume-se ser logo depois do falecimento do Senhor Rey D. Manoel, por Jorze de Mello Pereira o qual se acha enterrado onde hoje he o concistorio ( lugar das reuniões) da mesma Mizericordia que antigamente era a Igreja e falleceo no anno de 1549 como se ve na campa da sua sepultura nas palavras seguintes: 

"Aqui Jaz Jorze de Mello Pereira filho de Duarte de Mello do Conselho de El Rey Nosso Senhor, Alcayde mor que foy de Castello de Vide e D. Guiomar Cabral, faleceo em sinco de Junho de 1549". Hoje porem se acha outra Igreja feyta ao pé de onde era a antiga ficando-lhe esta servindo de concisterio e na Igreja que de nova se fez, há três altares, no mayor há Tribuna elevada e tem na boca da Tribuna que (?) hum Retabulo da Vezitação da Senhora Santa Izabel e no altar que fica à parte direita quando se entra, está a senhora Santa Anna e no que fica à esquerda está S. Francisco e he Cappella da Ordem Terceira que há nesta Villa e seu termo (Concelho). He esta Mizericordia governada pela irmandade que tem de que he cabeça hum Provedor e por ella he socorrida a mayor parte do Povo que he muito pobre. 

havia antigamente nesta Villa Hospital de sorte que na vezita geral que se fez no anno de 1587 pello Bispo de Targa D. Sebastião da Fonseca no tempo de Fellippe 2º de Castella deixou em capitulo de vezita que se reformase o Hospital de roupa e enxergões de que estava falto: hoje porem chora a pobreza esta tão necessária obra de Mizericordia especialmente os peregrinos a falta desta Hospitalidade.

Tem esta Villa o Privilégio de votto em Cortes como o testeficão estoriadores antigos e suposto em hum moderno impreço no anno de 1739 que há dezanove annos, se lhe não expreça este Privilégio ao mesmo tempo que se assevera a outras, digo que aquelles escreveram perto da conceção da graça, e este só do esquecimento; e mais credito se deve dar aos escriptores antigos (?) quando se não encontra que estta Villa ou seus moradores cahisem em delicto que os priva se desta honra e se os escriptores antigos damos credito nas couzas inda de mayor indagação como asim lho havemos tirar em hua couza que respective aquellas he de menos entidade ficando em restituição aos moradores do roubo daquella honra que com razão em tanto a estimação além de que este escriptor moderno também não lhe dá caza de Mizericordia ao mesmo tempo que a tem com settecentos mil réis de renda fundada logo depois do fallecimento do Senhor Rey D. Manoel, no tempo do Senhor Rey D. João 3º e se elle falta a verdade com couza tão clara como se lhe ha de dar authoridade em o que se perciza mayor averiguação. 

Tem desta Villa florecido alguns varões grandes em armas sendo hum delles o Irmão António Alvres da Companhia de Jezus o qual nasceo nesta Villa do Alandroal sendo filho de Gregório Alvres e de Sua molher Maria Vaz: Estudou Letras Humanas e Matemática em as Universidades de Évora e Salamanca: Na aclamação do Senhor Rey D. João o IV asentou praça de soldado, tinha grande inteligência nas formaturas e fortificações militares ocupou o posto de Sargento que exerceo com grande honra, porém dezenganado das inconztantes couzas deste mundo, tomou o habito da Companhia de Jezus para Sacerdotte aos 19 de Outubro de 1659 tendo quarentta annos de idade. Depois de professar foy mandado estudar Filozofia para a cidade de Braga ahonde foy o Reytor daquelle Collegio Cartado Conde do Prado, General da Provincia do Minho ordenando em nome de El Rey ao Padre Reytor lhe mandasse o Irmão António Alvres de cuja pessoa pelos seus prestimos havia necessidade no exército por ter entrado o inimigo com grande poder: Chegado ao campo lhe entregou o General o cuidado da artelharia e entregue deste emprego fez logo novas dispozições, guarnecendo alguns sitios e fazendo jogar a nossa artelharia com tanta felicidade que o mesmo General Castelhano chegou a dizer aos seus que algum homem de grande intelligência melitar tinha chegado ao nosso campo: e como as couzas tomarão milhor semblante com o bom efeyto da nossa artelharia se retirou o inimigo depoes de receber muita perda e fora totalmente dezbaratado se em tudo se seguissem as direcções do ditto Irmão António Alvres ao qual sobrevindo huma febre podre se recolheo ao Collegio de Braga ahonde preparado com os Sacramentos e Signaes de muita piedade veyo brevemente a falecer em o primeiro de Novembro de 1662 deixando em aquela Relligião e nesta Villa huma exemplar e saudoza memoria. 

Também desta Villa foy natural Diogo Lopes Siqueira o qual foy do Conselho de El Rey e seu Almoçaté mor (a quem competia o policiamento dos géneros alimentícios na área do Conselho), e quarto governador e capitão mór dos Estados da India; está enterrado na Ermida de Nossa Senhora da Consolação que assima mencionamos, que elle mesmo mandou edeficar e morreo no anno de 1530 como consta do letreyro que se acha na campa da Sua Sepultura em letra gótica, cujas palavras são:
Aqui Jaz Diogo Lopes de Siqueira do Conselho de El Rey nosso senhor e seu Almotacé mór e cappitão mór que foy da India filho de Lopo Vaz de Siqueira e de D. Cecilia de Menezes, faleceo de sessenta e quatro annos na Era de 1530 annos aos 14 dias do mez de Outubro.
Não menos glória dá nesta Villa seu filho Pedro Rodrigues o qual pellas suas heróicas acções militares se fez distincto; floreceo no reynado do Senhor Rey D. João o primeiro e nas memórias para a estória deste Principe lhe faz também honroza memória o académico Jozé Soares da Silva, e não menos ellogio Pedro de Azevedo do Tojal em Seo Poema Heróico, Carlos Reduzido, Inglaterra Ilustrada canto II outava 35 quando diz:
Olha adiante os dous como arrogante 
a espada empunhão com acção temida
Pedro Rodrigues he o que vez antes
E esseoutro Gil Fernandes se appellida
tens visto os que levas da pátria amantes
a deffenderão dando à Morte a Vida
nota os que com esforço mais que humano 
o Imperio dillatarão Luzitano

E já o nosso Virgilio Luzitano o grande Luiz de Camões lhe tinha ellogiado o seu esforço no canto 8º outava 33 quando o louva assim: 

Na mesma guerra Vé que prezas ganha 

estoutro capitão de pouca gente 

comendadores Vence e o gado apanha 

que levavão roubado ouzadamente: 

outra ves ve que a lança em sangue banha 
destes so por livrar com amor ardente
o prezo amigo, prezo por leal 
Pedro Rodrigues he do Landroal

Foy o ditto Pedro Rodrigues Alcayde mór desta Villa".
As produções desta Villa que no racional a fazem digna de memória, no vegetal a constituem digna de estimação porque he abundante de fructas, especialmente de espinhos com que não so se regalam os seus naturais mas inda aos das povoações vezinhas, e no tempo da Primavera se respira em toda a Villa fragância bella dos mesmos pomares que a cercão sendo igualmente fértil de hortaliças, com que abunda a Villa de que está cercada que são muitas. 

Esta fecundidade com que a natureza especializa esta Villa traz a origem da nobelissima fonte que tem na parte mais inferior da Praça della com a formalidade quadrada em sima do frontespicio tem as Armas Reaes desta Monarquia entre dous meyos corpos de duas figuras laureadas, cada huma com seu dístico, na que fica na parte direita se lê 

Hic maris ora Deos Pandit regnator aquarum 

Tantalia ut fugiat pectore dira sitis

Na parte esquerda se lê:

Huc lacrimat thetis: ut ploras sitibunde viator
Illa ut turideas, bibe ligit amans
lança a agoa pella boca de seis leões onde vão os moradores do povo desta Villa buscala, ahinda de logares e vezinhas Villas sequiozos vem provar se della senão por falta na própria habitação pello preciozo e cristalino da agoa de verão corre muito fresca e de Inverno quasi tépida e se observa ser muito diurética e não haver na Villa queixozos de pedra, de que infiro ser na agoa della sendo remédio para esta queixa não ser della a menor cauza.
Cai a agoa da boca daquelles leões em hum tanque que está formado hem hum patim quazi quadrado e cercado de elementos de cantaria: porem com alguma fundura de sorte que he percizo decer quatro degraus o que lhe não serve de deffeyto pois tem todo o dezafogo que a constituem agradável.
Deste tanque sai a agoa para outro que há da parte de fora do patim onde chegam a beber gados e bestas com dezembaraço e deste se conduz a mesma agoa por hum ducto para outro tanque grande que fica a parte esquerda onde lavão roupa as lavadeiras e pessoas que se servem a si neste ministério e logo sahindo por outro ducto sem detença se condus a mesma agoa a regar os pomares e hortas que chegão a numero vinte e quatro as quaes todas se utelizão deste beneficio com que se fertelizão sendo as horas da rega repartidas por ingiramento que dellas faz a Camera desta Villa. 
He esta fonte sem duvida abundantissima de agoas porque faz moer lagares de azeite e Azenhas e pareseme que no Reyno se não encontra outra nem tão a beira deste nem tão fora porque inda nas fontes, se tem observado conservar-se com a mesma valentia na expedição das agoas circunstancia que a faz inesgotável, e corre esta fonte para poente. 
Alem desta há também ao pé da Villa outra fonte a que chamam a fonte das freyras que corre para o Nascente também com copioza agoa e com ella se regão quatro hortas sendo duas dellas, huma das Religiosas de Santa Cruz de Vila Viçoza, outra das de S. Bento de Évora e por estarem muito próximas à fonte se chama fonte das Freyras, porém originalmente e como o da fonte principal da Villa feyto pella Camera.
Há mais além da Ermida de S. Bento outra fonte a que chamão de S. Bento que corre para Norte, cuja agoa he muito saboroza, e he publico que chegando a beber a algumas pessoas della estando opreças de Sezões ficam sem ellas atribuindo-se este Benefício a effeytos de milagre do ditto Sancto. 
Também em a quinta que os Relligiosos de S. Bento tem no sitio da Pipeyra há uma fonte que corre para o Poente muito abundante de agoas, que não se fecunda o dilatado da quinta mas a quem a procura; poes a não dificultam e ha mais na ditta quinta outros olheiros com abundancia de agoa. 
Há fora da Villa na parte mais superior della em distancia de duzentos passos dous foyos a que chamão Algares com fundura grande para o interior e dentro da terra nos quaes ha tanta agoa que parece ser abismo, como admitio Aristotelles; porque no Algar a que chamão de Santo António desde a aura superficial da terra athe a superficie que está no centro vão cento e sessenta e sinco palmos tudo de agoa e se atribue que deste Algar se communicão as agoas a muitas Villas vezinhas: este Algar se mandou tapar ao tempo em que era Juiz de Fora (Presidente da Camara) o Doutor Francisco Moniz de Lacerda como se ve e lê em o Padrão que se poz naquelle sitio ao tempo que se tapou que diz assim:
Neste sitio há hum Algar muito acommodado para não malefficios que tinha cem palmos em altura athe à superficie de huma concavidade de agoa com profundeza de 165 palmos com comunicação para muitas Villas desta Provincia e que pellos bens deste Concelho mandou tapar o Doutor Francisco Moniz de Lacerda sendo Juiz de Fora desta Villa atendendo ao Serviço de Deos e de El Rey na Era de 1723 a 10 de Mayo.
Outro Algar chamado das Morenas também tem cem palmos athe à agoa e da agoa tem secenta e sinco palmos o que declara o litreyro que está em outro Padrão ao pé que diz:
Neste sitio havia um Algar muito acommodado para não maleficos, chamado das Morenas por se haverem no mesmo fundido humas cazas (?) de humas molheres, por tradição asim chamadas que tinha cem palmos de altura athe à superficie de huma concavidade de agoa que tinha em profundeza cessenta e sinco palmos que pellos bens deste Concelho mandou fazer o Dr. Francisco de Moniz de Lacerda sendo Juiz de Fora desta Villa atendendo ao Serviço de Deos e de El Rey na era de 1723 a 10 de Mayo. (repetido) 
Destes Algares se entende vá a agoa para a Fonte principal desta Villa, e não pode deixar de ser assim não so pelo fixo e seguro della mas pella abundância, porque para chegar a agoa a correr pellas bicas sobe do seu nascimento quatorze palmos, e tapando-se as bicas vay a agoa subindo grandemente de sorte que em hum quarto de ora sobe mais de três palmos.
Também ha mais outro Algar na mesma distância e para a mesma parte a que chamão Algar Seco por não ter agoa, e nelle se vê e há hum furamen (orificio de depressão) que lhe cabe uma pedra do tamanho de hum punho, e largando-se a pedra e aplicando-se o ouvido gasta algum tempo em chegar à fundura e em dando nella faz estrondo ao modo que cay em agoa.

A Freguesia da Matriz he toda a Villa com parte do campo tem duzentos e outenta fogos ou vezinhos na Villa, e noventa fogos no campo e pessoas dentro da Villa tem homens 330, molheres 416 e menores que são só de confição 64 (crianças até aos sete anos de idade) que fazem o numero de 810.
No campo há 175 homens e 109 molheres 22 menores que são só de confição que faz numero de 306 e consta toda esta Freguezia com Villa e campo de 370 fogos e nelles 1116 pessoas de sacramento.
Não tem esta Villa correio e só sim paga a Camera a hum peão (individuo que anda a pé) que todas as quintas feyras vay a Villa Viçoza buscar as cartas ao correio daquella Villa, e as entrega nesta de tarde e na sexta feyra pelo meyo dia, parte desta outra vez levallas a Villa Viçoza que dista huma legoa.
De dentro desta Villa se avistão as Villas de Redondo que dista duas legoas, a Villa de Monsaras, que dista quatro legoas, a Villa de Mourão que dista sinco legoas, e do alto da Ermida de S. António alem de se verem as referidas Villas se avista mais estando o dia claro parte da Cidade de Évora, que dista sette legoas:
Da Ermida de S. Bento se avista a Praça e a Villa de Olivença que dista quatro legoas, e no Reyno de Castella se avista o Castello de Alconxel que dista seis legoas: indo para o sitio da Pipeira ou quinta dos Relligiozos Bentos que asima mencionamos se avista alem de Olivença, Mourão e Monsaras, mais a Villa de Terena, que dista huma legoa, Jeromenha, que dista duas legoas, e no Reyno de Castella alem do Castello de Alconxel se avista a Villa de Xelles que dista sinco legoas, a Cidade e Praça de Badajoz, que dista outo legoas, e Villa Nova, que dista seis legoas.
Os fructos que mais colhem os moradores desta Villa no campo he trigo e senteyo, e em annos de colheyta ordinária produz mil moyos (1 moio=720 Kg ou 60 alqueires) de trigo e outo centos de senteyo o que se averiguou pellos livros dos dizimos.
Ao pé da Villa há huma Serra a que chamão de Carambou (Carambó ou Carambom?) sem que se possa averiguar a Etimologia do seu nome, fica a Norte da Villa e corre para o Poente, mais alta que a Serra de Ossa pella situação se bem se lançaram as linhas matemáticas ou geográficas principia neste termo (Concelho) em a Tapada chamda dos Barreiros entre as Ermidas de S. Bento e de S. Pedro e no mesmo tempo não occupa mais de meyo quarto de legoa, e vay correndo com algumas pequenas quebradas athe à Serra da Vigaria (perto da Serra de Ossa) que he no termo (Concelho) de Villa Viçoza onde perde o nome e com este novo vay continuando athe a Villa ou Praça de Estremoz e dahi athe a Serra de Souzel, porem nella na respectiva parte que tem nesta Villa não tem couza que a especialize e tem o seu terreno povoado de olivaes e vinhas e no cume e superficie, terá cento e sincoenta passos de largura, produz bastante caça de perdizes e coelhos, não tem metaes mas por experiencia propria já observey, que succedendo cavar-se com alguma fundura me vierão à mão algumas pedras, as quais lançadas em fogo ardem e se desfazem em muita parte em hum liquido tal que deyta hum fertum grande de (?) que rectamente se pode inferir ou conjecturar enserrar em esta Serra quantidade grande deste material, e o fruto que mais produz he azeyte:  nam tem lagoa alguma de agoa e so da falda della nasce a fonte das Freyras que para Nascente de que já demos relação.
Ao pé da Serra alem desta Villa, há as Aldeas de Bencatel e Pardaes ambas no termo (Concelho) de Villa Viçoza; o temperamento da Serra he frio.
Do cume desta Serra se avista a Cidade de Évora distante sete legoas, as Villas de Monçaraz distante quatro legoas, a de Mourão sinco legoas, o Redondo duas legoas, Evoramonte sinco legoas, Villa Boim três legoas, Estremoz três legoas, Jeromenha duas legoas, Olivença quatro legoas, a Aldea de Pardaes huma legoa, a Aldea de Bencatel tãobem huma legoa. Em Espanha se avista a Cidade e Praça de Badajoz que dista outo legoas, Valverde sinco legoas, e Castello de Alconxel seis legoas, Xelles três legoas, Villa Nova seis legoas.
No campo desta Villa ha ouro e de facto no tempo do Reynado do Sr. Rey D. Pedro o segundo que descansa em gloria, mandou este que se extrahisse ouro e para esta diligensia com ordem sua, veyo Joze de Souza Leytão cappitam de Dragões o qual fez minarar em sitio que chamão a Granja e he Deffesa dos Relligiozos de S. Bento, onde com effeyto trabalharão e tirarão ouro o que inda hoje demonstrão muitas concavidades que há naquelle sitio, assim na serra nevada como na campanha raza, e no mesmo sitio há um outeiro furado de parte a parte a que com memoria do que então se minarou, inda hoje se chama o outeiro das minas; mas este trabalho que então foy disvelo do que trazia o emprego, foy percizo deixallo ou pollo no esquecimento por não corresponder o lucro à larga dispeza que se fazia. Na mesma Granja ha em sitio da fonte (?) huma mina de Almagre (Argila avermelhada), de que os moradores senão utelizão: fica esta Granja distante desta Villa três legoas sobre o rio Guadiana onde finda o termo (Concelho).
Na herdade dos Botelhos, distante desta Villa três quartos de legoa se tirou no tempo do Sr. Rey D. Pedro o Segundo cobre que chegou a fundire porem não se continuou a extração nem os moradores a cobiça os excita a pertenderem fazello.
No sitio da herdade das Ferrarias distante huma legoa há sobre a terra muitas pedras com parecenças de escumalho de ferreiro, e inferem os moradores e he tradição que ali houve mina de ferro e que por isso chamão a herdade das Ferrarias.
Em o sitio da herdade de Milreo distante três legoas houve antigamente hum Castello talvez do tempo dos Mouros que cahia sobre o Guadiana o qual se acha hoje totalmente arruinado e nam tem mais que os alicerces e dentro leva quatro alqueyres de semeadura quando o lavrão e o semeão: No sitio onde chamão Castello Velho que está sobre a Ribeira do Luçafece houve hum Castello de que hoje não ha mais que ruinas e não tem mais de estabelidade que os alicerces.
Tem este termo (Concelho) três Atalayas fabricadas no tempo do Sr. Rey D. João o quarto, a primeira no Sitio da Granja, a segunda ao Porto chamado da Estacada, e a ultima em a herdade do Stº Ildefonso todas ao pé das margens do Godiana.
O campo da Villa e da Serra de que temos feyto rellação he abundante de caça asim de perdizes como de coelhos e lebres de sorte que vem de termos (Concelhos) differentes caçar a este e no sitio da Granja e Charneca a que chamão de Santa Luzia também ha caça groça como são veados, servos e porcos javardos, ainda que nam com abundância mas há bastantes lobos.

Está esta Villa e seu termo (Concelho) situado entre hum rio e huma ribeyra, o rio Guadiana a que os latinos chamão = Anas = de que trata Pomponio, e nasce no Reyno de Hespanha junto da serra da Alcarraz e depoes de entrar neste reyno, e passar por algumas Terras elle chega ao termo (Concelho) desta Villa em que entra o moinho chamado Mossiços e sem entrar no interior delle e vay costeando e dividindo do Castello athe ao Sitio chamado o Aguilhão. Com agoa delle moem três moinhos situados neste termo, o primeiro o moinho chamado dos Mociços, o segundo chamado do Padre Manoel Infante e o terceyro o moinho das Beatas. Cria muito peixe de várias castas como são Tencas, barbos, Eyrozes, Escarpios, Bogas, Picões, e Serrelhos?: Tem a agoa deste Rio a circunstancia de que não cria sanguexugas, e se sucede hir o gado beber a elle e algum levar sanguexugas logo que bebe lhe cay e fica limpo, (o?) cujo Rio corre para o Sul e costea este termo pella parte do Nascente.
A Ribeyra de Luçafece nasce no termo (Concelho) de Estremoz na freguezia de Rio de Moinhos de huma lagoa que ahi ha, corre para o Nascente e entra a costear este termo em o Sitio dos Galvões e indo dividindo todo  o termo pelo lado do Sul se mete em o Rio Guadiana onde se sepulta e perde o nome em Sitio chamado do Aguilhão: Tem duas partes, huma ao pé da Villa de Terena, outra no moinho chamado dos ouros, que he na estrada que vay para a Villa do Redondo quando ha cheyas: No Sitio chamado o castello Velho, por onde passa a Ribeyra há uma concavidade grande feyta pella natureza que parece hum edificio.
Tem esta Ribeyra abundancia de peyxe, é suposto não tenha Tencas, tem todas as mais castas de peyxe que produz o Guadiana, e alem destes tem também abundancia de pardelhas que são huns peciculos pequenos muito gostozos.
Nesta Ribeyra se mete a Ribeyra do Alandroal que principia à Fonte das Freyras e se mete em Luçafece no Sitio de entre as agoas onde perde o nome, e nesta Ribeyra do Alandroal se mete o Ribeyro dos Machos que principia em o Pego da Moura e se mete na ditta Ribeyra na Coutada onde perde o nome: O Ribeyro da Serrada nasce em o Sitio e herdade do Conjeyto da fonte da pedra metece na Ribeyra do Alandroal em o Sitio chamado da Rectorta onde perde o nome: O Ribeyro da Sovereira principia no Valle da Silveyrinha e mete-se na Ribeyra do Alandroal, por sima do Pego do Touril.
O Ribeyro de Pero Nunes nasce a Penedo de Machos termo de Vila Viçoza e metece já neste termo em o Pego de Maria Neves em Luçafece: O Ribeyro de Bargados principia na herdade da Motta e metece em Luçafece por baxo do Pego das Milharadas. O Ribeyro do Negro principia na herdade da Pipa, e metece em Luçafece ao pé da herdade da Barranca: O Ribeyro da Churreyra principia em Valle de Cágados ao pé do Monte do Outeyro e metece em Luçafece em o Sitio das Agoas Frias de Sima: O Ribeyro dos Ardonhos principia na herdade do Soveral, metece em Luçafece em o Sitio das Agoas Frias de Baxo: O Ribeyro de Alcalate principia em o Sitio chamado das Bispas termo de Villa Viçoza entra neste termo ao pé da orta grande e metece em Luçafece ao pé da herdade da Barranca onde perde o nome; Tem a Ribeyra de Luçafece hum só moinho neste termo, a que chamão o moinho dos ouros.
A Ribeyra de Pardaes principia na Alagoa do mesmo nome e no termo de Villa Viçoza entra no desta Villa em o lugar chamado a Asenha das pedras e vay dividindo o termo da Villa Viçoza e Jeromenha e metece em o Rio Guadiana em o Sitio do Azinhalinho, onde perde o nome. Tem esta Ribeyra de Pardaes neste termo hum moinho chamado dos Asaboeyros?: Tem mais quatro Asenhas a saber de Valverde a do Boticario, a dos Frades, e a da Roxa.
As pescarias que se fazem no Rio Guadiana em as Ribeyras de que temos tratado são livres, fazem-se tão no Inverno: porém no Guadiana e Luçafece todo o anno em os pegos que têm fundura; só o Guadiana, Luçafece e Pardaes corre todo o anno; mas o curso arebatado tão so he de Inverno ao tempo que enxe por cauza das chuvas: Não são navegáveis nem têm aptidão para isso e so o Guadiana o he na latitude e não na longitude porque de Inverno pela longitude he perigozo por ser arebatado e de Verão não leva agoa com capacidade de nadarem embarcações e só nas peguias que conserva todo o anno que são em lugares certos andão as barcas que servem de  transporte.
Não damos a etimologia da Ribeyra de Luçafece porque sobre ella não há couza provavel por mais que alguns com louca prezumpção pertendão descobrir a verdadeyra origem deste nome, porque não podendo nós caminhar sem a guia dos Escriptores antigos, pello vasto e escuro paiz da antiguidade e não havendo hum só que dicesse alguma couza neste particular, tudo o que afirmamos será destituido de fundamento posto que nos queyramos valer de alguma vulgar tradição que he autoridade totalmente débil.
Estas as noticias do antigo e moderno Alandroal agregadas agora com laboriozo trabalho do caos escuro em que estão sepultadas as suas memórias  sem haver Archivo na Camera e falta de muitos livros".

O Prior Bento Ferrão Castelbranco






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