sábado, 23 de setembro de 2017

198 - Terras de Capelins

Vidas do Contrabando e dos guardas fiscais nas terras de Capelins 

História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins

As memórias de um tempo em que o contrabando era um modo de vida de muitas pessoas nas terras de Capelins desde há centenas de anos! Existem documentos datados de 1463, do reinado de D. Afonso V, que se referem ao contrabando no Concelho de Terena, que era essencialmente de gado, cereais, armas, couros e mercadorias.
 Os contrabandistas de Ferreira de Capelins, Montejuntos e outras localidades vizinhas entravam em Espanha e dirigiam-se a cidades, vilas e aldeias, como: Olivença, Vila Real, São Bento da Contenda, São Rafael de Olivença, Valverde de Leganés, Almendralejo, Almendral, Táliga, Alconchel, Cheles, Barcarrota e outros lugares, durante a noite, de carga às costas que variava entre os 25 e os 40 quilogramas e, ao longo de distâncias que poderiam atingir mais de 50 quilómetros.
O que ganhavam com o contrabando foi ao longo de séculos, o sustento de muitas famílias da Freguesia de Capelins, sendo, em alguns casos um suplemento dos salários nos trabalhos agrícolas, mas havia muitas famílias que vivam exclusivamente desta atividade. Desses tempos, ficaram as memórias e ainda os testemunhos de algumas personagens, como o Ti Agostinho de Almeida, Joaquim do Assobio, Natalino, Abrantes, Lagarto, Lourenço, Fura, Batista, Jacinto, Varandas, Busca e muitos outros, chegaram a passar o rio Guadiana numa noite mais de 40 homens e respetivas cargas em barcos a remos dos moleiros ou de pescadores como o Ti José Glórias, Venâncio, Faustino, Fura, Varandas e outros. Esses homens mantinham um permanente jogo do gato e do rato no desempenho da sua atividade, entre eles que viviam do contrabando e daqueles que tinham por missão o seu impedimento, a guarda fiscal.
As rotas do contrabando eram, geralmente, por veredas, matagais, pedregulhos, barreiras, buracos, por lugares com mais difícil acesso e que podiam servir de esconderijo para os homens e para as cargas de forma a ludibriar a guarda fiscal do lado de cá ou a guarda civil (carabineiros) do lado de lá! Para que as campanhas tivessem sucesso, existia uma conduta, cumplicidades e entreajuda, mas também das comunidades rurais e urbanas das localidades espanholas colaboravam com os contrabandistas portugueses em alguns casos devido à reciprocidade, ou seja na aquisição de produtos para trazerem de volta.
Os contrabandistas estavam sempre em alerta e avisavam os companheiros da proximidade dos guardas, porque tinham muito medo de serem apanhados e perderem a carga de café, mesmo os que nunca foram detidos pelas autoridades dos dois países, ouviram muitas vezes as balas dos carabineiros a zumbir perto dos ouvidos.
O dia-a-dia não era fácil para os contrabandistas, mas também não era para os guardas fiscais, apelidados de “pica-chouriços”, tal como as rotas, por utilizarem um ferro comprido e aguçado com o qual verificavam se havia alguma carga de contrabando escondidos nos matos ou outros lugares propícios, que se queixavam das condições a que eram sujeitos para desempenhar a sua missão, ficavam em outeiros, com frio e a chover, ou com muito calor, sem poderem sair dali, quase sempre em  pé mais de 12 horas, a vigiar uma determinada área onde poderiam passar os contrabandistas e, no caso de os detetarem teriam de os deter, apreender a carga, preencher um auto de notícia e aplicar uma multa. Mas a guarda fiscal de Montes Juntos não queria apanhar os contrabandistas, quando os viam disparavam alguns tiros para o ar, para eles fugirem e a guarda ficava com a carga de café que, depois era leiloada e, geralmente adquirida pelo fornecedor. Os guardas fiscais colocados na raia tinham uma vida muito dura e, apesar de serem a força armada do Ministério das Finanças tinham ordenados muito baixos, obrigando-os a procurar alternativas de sobrevivência como cultivar hortas e a procurar casas de habitação muito simples, devido ao custo das rendas.
Os produtos transacionados pelos contrabandistas entre os dois países, nos anos 50 a 90, eram variavelmente os seguintes:  Para lá, em grandes quantidades, o café camelo! Para cá: Louças de pyrex e esmaltadas, rebuçados, chocolates, calças de ganga, botas, medicamentos, perfumes, tabaco, roupas, toucinho, azeite, tripas de porco, pneus, peças de automóveis e gado.
Os antigos contrabandistas que ainda estão entre nós, mantêm hoje, uma relação normal com os últimos guardas fiscais, sem nenhum rancor do passado.
Com a abertura das fronteiras no início dos anos 90, o contrabando praticado durante séculos pelas comunidades rurais localizadas na raia, com mais intensidade entre as terras de Capelins e as localidades espanholas acima referidas acabou-se, dispensando o efetivo da Guarda Fiscal concentrado ao longo da fronteira entre os dois países, o mesmo acontecendo com a guarda civil, que só na província de Badajoz, existiam 26 postos distanciados entre si seis quilómetros e, na Freguesia de Capelins, existiam dois postos da guarda fiscal, um no centro da aldeia de Montes Juntos, cujos guardas deviam vigiar a fronteira entre as Azenhas D’ El - Rei e os Moinhos Novos  e, outro designado de Miguéns na herdade do Azinhal Redondo de Baixo, hoje Roncanito, que vigiavam o espaço geográfico entre os Moinhos Novos e o Moinho do Gato.
Existem muitas peripécias passadas na Freguesia de Capelins e nas terras de Espanha entre os contrabandistas, a guarda civil, a guarda fiscal e outros intervenientes que enriquecem a cultura do povo capelinense.
Como existia contrabando, tinha de existir guarda fiscal e, só existia guarda fiscal, porque existia contrabando! No entanto, o contrabando implicava guarda fiscal, mas a guarda fiscal não implicava contrabando!





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

197 - Terras de Capelins 
Ribeira do Lucefécit 
Já em 1732 assim se descrevia a Ribeira do Lucefécit:
Padre Luiz Cardoso inquéritos de 1732
"Por diante desta Villa (Alandroal) passa o rio Lucefeci por terras muito fragosas, junto ao qual está hum edifício, que nos tempos antigos foy castello, e ainda no tempo presente lhe dão o nome de castello Velho, porém não há certeza de quem fosse.

Memórias Paroquiais:
1758 - Prior Bento Ferrão Castelbranco do Alandroal: 
"A Ribeira de Luçafece nasce no termo de Estremoz na freguezia de Rio de Moinhos de huma lagoa que ahi há, corre para o Nascente e entra a costear este termo em o Sítio dos Galvões e indo dividindo todo o termo pella parte do Sul se mete em o Rio Guadiana onde se sepulta e perde o nome em o Sítio chamado do Aguilhão".

1758 - Parocho Frei Francisco Xavier Pereira, de Rosário: 
"Tem a ditta freguezia de Comprimento duas legoas, principia na parte Norte com as Erdades de Alcalaz Ribeiro que tem seo nascimento próxomo da ditta Villa do Alandroal engtrando pela parte do poente em a Ribeira de Lucem Fecit, correndo da parte Norte para o Sul, cercando a freguezia he entrando em Guadiana na Erdade do Aguilhão".

1758 - Pároco Manoel Ramalho Madeira - Santo António(atual Capelins):
"(...) no sítio desta Freguezia entram nella duas ribeiras pequeinas huma Luçafece e a outra Asavel, as duas que de verão nam correm por nam terem os seos moinhos de pão".

1758 - Prior Mathias Viegas da Sylva, de Terena:
"Corre junto desta villa huma ribeira com o nome de Luçafece, termo divisorio dos dous termos de Terena e Landroal. Tem esta seo nascimento em huma Lagôa que esta no sitio de Rio-de-Moinhos, termo de Estremoz, e de outras agoas, que descem da Serra doça, Distante a dita Lagôa desta villa tres legoas: e correndo pelas faldas da mesma Serra, paulatinamente vai engrossando suas correntes: passa pelo termo de tres villas, Borba, Vila Viçoza e Landroal, correndo em gyros sempre solitária até que se avizinha a Terena em distancia para mais (?) daqui passa junto à Ferreira villa da serenissima Caza do Infantado, distante huma legoa; depois correndo outra legoa entre o Baldio do Roncão deste termo e a Erdade do Aguilhão, termo do Landroal, entra no Guadiana, menos agradecido depois de lhe receber as agoas lhe tira o nome. São cinco legoas do lugar aonde nasce até ao Guadiana onde morre. Corre do Norte para a parte acima do Sul. Somente conserva a sua corrente neste termo, enquanto as chuvas lhe formão as mesmas correntes, que no estio se vem extintas. He o seo curso neste termo moderado sem muita precipitação, por serem planicies os campos por onde passa. He abundante dos peixes que comumente há nas ribeiras pequenas desta provincia. As mais frequentes pescarias que nela se fazem, (que são livres) são no inverno até fins de Abril. Fora mais piscoza esta ribeira se na sua foz não tivera hum açude alto e forte, que lhe impede a subida dos peixes do Guadiana com a do Lucefece subindo muito sobre o dito açude; o qual parece devia ser demolido; porque sempre o bem comum prevaleceo ao particular":  


Ano de 1758, o Prior Bento Ferrão Castelbranco escreve o seguinte sobre a Ribeira do Lucefécit:

"Não damos a etimologia da Ribeyra de Luçafece porque sobre ella não há couza provavel por mais que alguns com louca prezunpção pertendão decobrir a verdadeyra origem deste nome, porque não podendo nós caminhar sem a guia dos Escriptores antigos, pello vasto e escuro paiz da antiguidade e não havendo hum só que dicesse alguma couza neste particular, tudo o que afirmarmos será destituído de fundamento posto que nos queyramos valer de alguma vulgar tradição que he autoridade totalmente débil".


Aqui, "acaba" a Ribeira do Lucefécit de hoje, onde se inicia o Grande Lago de Alqueva!


domingo, 17 de setembro de 2017

196 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins 
A lenda da "aleijadinha" de Capelins 
No ano de 1821 chegou a Capelins de Cima uma família vinda da Paróquia de S. Miguel do Adaval, perto da Vila de Redondo. Essa família, era constituída pelo pai o ti Miguel da Sylva, a mãe a ti Antónia Rosa e seis filhos, quatro rapazes e duas raparigas, com idades entre os oito e os dezoito anos e, por influência de um irmão que já residia nesta aldeia o convenceu a mudar-se para cá, porque era uma terra de oportunidades, existia aqui muito trabalho para várias profissões e, principalmente para os seus filhos. Logo que chegaram, os pais e cinco filhos começaram a trabalhar, o pai e o filho mais velho como jornaleiros na Defesa de Ferreira, os restantes três filhos como ajudas de guardadores de gado, a mulher e uma das filhas na monda do trigo! Ficou em casa uma filha de quinze anos, a Maria de Jesus que, era "aleijadinha" tinha os pés tortos e pouca força nas pernas que lhe dificultava a mobilidade. Esta família, ficaram a morar numa casa pequenina em Capelins de Cima, ao lado do Monte Grande e, embora estivessem quase todos empregados eram muito pobrezinhos mas muito unidos, viviam tristes por ver a filha e irmã Maria de Jesus  naquele estado, mas ela ainda vivia mais triste por não poder ajudar a família e por se sentir rejeitada pelas outras crianças e pelo desdém que alguns adultos mostravam quando a viam arrastar-se entre a sua casa e o lugar onde passava a maior parte do tempo, sentada num banco de pedra debaixo de uma oliveira em frente a sua casa e do Monte Grande! 
Ainda nesse verão, estava sozinha em casa e, depois de arrumar o que estava ao seu alcance, foi-se arrastando para o seu lugar habitual que, embora não fosse longe, levava muito tempo a percorrer! Quando chegou, reparou que estava uma senhora muito bem vestida sentada numa cadeira ao lado do banco, parou e ficou indecisa, na dúvida se devia voltar para trás, ou sentar-se nas pedras! Nesse momento, a senhora falou com ela, cumprimentou-a e pediu-lhe para se sentar, para poderem falar, disse que estava ali porque não tinha com quem falar e, assim faziam companhia uma à outra! Esta senhora era uma fidalga da Casa Bragança, mulher de um fidalgo da mesma casa, que gostava muito de caçar e, todos os anos passavam algum tempo no Monte Grande, que era da Casa do Infantado, ou seja ligada à Casa de Bragança e, moravam num palácio em Évora! Esta fidalga, como já tinha reparado na situação da Maria, sentiu vontade de a conhecer e, talvez a ajudasse a melhorar a sua qualidade de vida! 
A fidalga perguntou-lhe o nome, a idade, quantos irmãos tinha e como se chamavam, se era natural dali, o que gostava de fazer e outras perguntas para a pôr à vontade! A Maria respondeu a tudo com voz muito doce, um pouco trémula, demonstrando pouca felicidade, e explicou à fidalga como era a vida dos seus pais, dos irmãos e disse-lhe que, gostaria de de poder trabalhar para ajudar a sua família a qual era muito pobrezinha, mas devido a ser "aleijadinha", não podia fazer nada! 
Fidalga: Olha que  não é assim Maria, há muitas coisas que podes fazer, mesmo com essa tua condição, acredita que podes melhorar a tua vida e ajudar a tua família, aprendes uma profissão que possas trabalhar sentada, como por exemplo isto que estou fazendo! E mostrou-lhe um lindo bordado numa toalha de linho! 
A Maria, nunca tinha visto nada semelhante e desde que ali chegou não tirou os olhos daqueles lindos bordados!  
Maria: Mas isso não é coisa para mim! Só para pessoas ricas! 
Fidalga: Eu estou disposta a ajudar-te e a ensinar-te a bordar, achas que gostas? 
Maria: Gostava muito, minha senhora! Mas não tenho nada nem dinheiro para comprar as coisas e para quem bordava nesta aldeia? 
Fidalga: Se gostares e tiveres jeito, bordas para mim e para as minhas amigas, deixa isso comigo, só tens de perguntar aos teus pais se te deixam ir ali para o Monte Grande, enquanto eu cá estiver vou-te ensinando e comes lá, depois, quando me for embora, deixo-te cá tudo para ires treinando, mas há uma condição, também tens de aprender a ler a contar e a escrever! 
Maria: Acho muito bom aprender a bordar, mas a ler e escrever, não me serve para nada minha senhora!
Fidalga: Não, Maria! Vais aprender e depois vês como estavas enganada, porque quem tiver o conhecimento, tem um tesouro, por isso, diz aos teus pais que a minha condição é essa! 
Maria: Está bem! Eu logo à noite falo com os meus pais e amanhã já dou a resposta!
Naquele momento chegou a criada a buscar a cadeira onde a fidalga se sentava e, depois de se despedir da Maria, recolheu ao Monte Grande! No caminho disse à criada: Um diamante em bruto para lapidar, é um desafio para mim! A criada não percebeu nada daquela conversa e exclamou: É verdade minha senhora, é uma desgraça que ali está! 
À noite, quando o ti Miguel, a mulher e as filhas acabaram de cear (jantar) a Maria contou-lhe a conversa com a fidalga! Os pais zangaram-se com ela, porque não devia ter falado com a fidalga e mais isto e mais aquilo! A Maria disse-lhe que não teve culpa, tinha sido a fidalga a impedir que voltasse para trás e quase a obrigou a falar com ela! E queria saber a resposta dos pais, para começar já, tinha de dar-lhe a resposta no dia seguinte e a conversa prosseguiu:
Ti Miguel: Então diz-lhe que podes aprender a bordar, uma vez que não podes fazer mais nada e ainda te dá de comer, sempre é melhor do que estares  metida aqui em casa, mas aprender a ler e escrever é que não concordo, isso só traz problemas e não serve para nada, é melhor passares sem isso! 
Maria: Foi isso que eu disse à fidalga e ela disse-me que eu estava enganada e também  me disse que, quem tiver o conhecimento tem um tesouro! 
Ti Miguel: Um tesouro é muito ouro, acho isso mal comparado, mas se a fidalga quer assim, então vai lá aprender também a ler e escrever! 
No dia seguinte a Maria à hora habitual dirigiu-se ao seu lugar debaixo da oliveira e já lá estava a fidalga sentada a bordar! A Maria ia envergonhada, ainda mais devagarinho do que era habitual,mas por fim lá chegou! Cumprimentaram-se e a fidalga perguntou-lhe:
Fidalga: Então Maria, trazes boas notícias? Pelos teus olhos já sei que sim! 
Maria: Trago sim, minha senhora, o meu pai concordou com tudo! 
Fidalga: Nesse caso, vamos começar já, eu vou dizer à criada que venha buscar a cadeira e para te ajudar a ir ali para o Monte Grande!
A fidalga levantou-se, deixou a cadeira e a toalha que estava a bordar e foi para o Monte Grande! Daí a uns minutos apareceu a criada muito admirada, porque não entendia o motivo de ajudar a Maria a ir com ela! Mas com a mão esquerda levou a cadeira e a toalha e com a mão direita foi ajudando a Maria que, com os pés arrojando, entrou para uma casa onde a fidalga já estava sentada! A fidalga disse à criada para levar a Maria para outra casa e lavá-la o melhor possível com sabonete com cheiro a rosas, mandou chamar um criado e disse-lhe para procurar o melhor sapateiro das terras de Capelins para fazer umas botas especiais para a Maria! Depois de estar lavadinha, sentou-se ao lado da fidalga e, esta começou por lhe mostrar os bordados que tinha feito em tolhas de linho,camas de roupa e outros panos, deixando a Maria maravilhada, tudo lhe parecia um sonho, não só pelo que estava a ver, mas também pela atenção que a fidalga lhe dava! A seguir, explicou-lhe os instrumentos que tinham de usar, agulhas, linhas, bastidores em conformidade com as peças que bordavam e entregou-lhe um bastidor com um pequeno pano de linho já com um desenho feito a lápis, para ela preencher com um ponto que lhe começou a ensinar! Foi um dia difícil para a Maria e para a fidalga, mas era tanta a vontade de aprender e de ensinar que não deram pelo dia passar! A Maria bebia as palavras e gestos da fidalga, aprendia imediatamente todos pontos, bastava a fidalga ensinar-lhe uma vez, mesmo os pormenores e, não era preciso mais explicações! Assim se passaram quase dois meses, a fidalga teve de voltar para Évora, onde o marido tinha obrigações, mas deixou tudo preparado para a Maria continuar e algumas toalhas e panos para ela bordar com os pontos que mais gostasse e, combinaram em as entregar no Monte Grande e quando alguém da Casa do Infantado fosse a Évora levava-as e trazia outras para ela bordar!  
E, assim foi, quando a fidalga recebeu os panos e as toalhas bordadas, não esteve a observar, ficaram guardados até ao dia em que se lembrou de os ir ver  e não queria acreditar, estava ali uma obra de arte, a Maria usou pontos que a fidalga nunca lhe ensinou, ficou muito intrigada como tinha sido possível fazer aqueles pontos, decerto alguém a continuou a ensinar, mas quem? Naquela pequena aldeia? Mostrou o trabalho a algumas amigas que ficaram encantadas com as obras da Maria e todas queriam bordados iguais! 
No ano seguinte, em 1822, quando a fidalga voltou com o marido ao Monte Grande, trazia muitas encomendas de bordados! Mandou chamar a Maria e, depois de se cumprimentarem exclamou:
Fidalga: Gostei muito dos bordados dos panos e das toalhas, mas conta-me lá, onde aprendeste aqueles pontos? Não fui eu que te os ensinei, porque não os sei fazer! 
Maria: Vi-os em sonhos! Depois foi só passá-los para as toalhas, porque, gostei muito deles e como a senhora me disse para fazer os pontos que eu mais gostasse eu fiz!
Fidalga: Sim, fizeste um trabalho muito lindo! As minhas amigas gostaram muito dos teus bordados e querem iguais ou outros que tu gostes, por isso, amanhã vamos começar os bordados! E também quero saber como está a tua leitura e escrita, mas hoje tenho de descansar da viagem! 
Maria: Já conheço as letras, sei os números até cem e, também já sei escrever o meu nome! 
Fidalga: Está bem! Amanhã continuamos, não podemos perder tempo, porque não sei quantos dias vou cá estar! 
Despediram-se e a fidalga entregou-lhe uma bolsa com muito dinheiro como pagamento das obras que ela tinha feito! A Maria foi para casa e só abriu a bolsa quando chegou, era tanto dinheiro, que nem queria acreditar! À noite entregou o dinheiro aos pais que ficaram muito surpreendidos, como era possível os bordados renderam tanto dinheiro! 
A Maria continuou a sua aprendizagem cada vez com mais empenho! Quanto aos  bordados já ensinava os novos pontos à fidalga e na literacia fazia grandes progressos dia a dia! Quando a fidalga partiu levou muitas peças bordadas e deixou outras para a Maria continuar a bordar!  
Esta situação foi-se repetindo durante cinco anos! A Maria já tinha uma profissão, era bordadeira, mas ainda podia melhorar algumas técnicas, mas não era ali e, como  fidalga gostava muito dela, pensou em a levar para Évora, onde podia aprender o que lhe faltava, fosse em bordados fosse na escrita e leitura, então contou-lhe o que estava a pensar fazer, mas isso, só podia ser com autorização dos pais, disse-lhe que ficaria no seu palácio, nos aposentos das criadas mas ia dedicar-se aos bordados e à leitura! A Maria à noite pediu aos pais, que não mostraram muita vontade, mas pensaram melhor e concluíram que seria a oportunidade da Maria ter uma vida melhor e acabaram por concordar em a deixar ir com a fidalga! 
As obras da Maria encantavam a fidalguia feminina de Évora que diziam, nunca ter visto bordados tão lindos e perfeitos, nem os das bordadeiras da Corte! As encomendas eram tantas que, a fidalga tinha de gerir  a carreira da Maria, porque, tinham de reservar algumas horas para, diariamente, ter aulas com uma mestra contratada pela fidalga! Tudo corria bem, a Maria já era conhecida por muitas senhoras da nobreza, até que o fidalgo adoeceu e passados poucos meses faleceu, causando grande desgosto à fidalga que perdeu a vontade de viver e pensou em se recolher a um convento de Évora! A fidalga perguntou à Maria se gostaria de ser bordadeira da Corte ou se queria ficar sozinha em Évora, ela trataria do que fosse preciso, mas a Maria disse-lhe que nem uma coisa nem outra, queria voltar para junto dos pais! A fidalga preparou tudo para não faltar nada à Maria, em Capelins de Cima e, para lhe garantir proteção, porque existia uma guerra civil devido ao desentendimento entre D. Pedro IV e o irmão D. Miguel e ninguém sabia como ia acabar, também por isso a Maria recusou ir trabalhar como bordadeira na Corte! A fidalga disse-lhe que queria continuar a saber como ela ia passando, por isso, todos os meses lhe teria de enviar uma carta a contar como se encontrava e tinha de continuar a estudar, principalmente as leis do reino, ela encarregava-se de lhe enviar todas as leis que fossem publicadas, porque conhecendo bem as leis teria poder e ganharia respeito por parte dos e ignorantes e arrogantes lavradores das terras de Capelins! Fez uma carta na qual declarava que a Maria era sua afilhada e sua protegida, assinou e colocou a chancela da sereníssima Casa de Bragança, para que, se alguma vez fosse incomodada a apresentar às autoridades incluindo os ordenanças (guardas do reino)! A fidalga mandou as criadas encher uma arca com roupa e com obras feitas pela Maria e disse-lhe que os bordados eram uma segurança financeira se tivesse necessidade para os vender às lavradoras de Capelins ou Terena! Entregou-lhe uma bolsa com dinheiro e disse-lhe que dava para comprar uma casinha em Capelins para ela e, ainda podia ajudar os pais!
Na madrugada seguinte, depois das despedidas muito emotivas a Maria voltou a casa no coche da fidalga em companhia de duas criadas! Quando chegou, houve grande alegria dos seus pais e irmãos, pensavam que ela nunca mais voltava, mas ao mesmo tempo ficaram apreensivos, sem saber como seria a vida dela na aldeia! Porém,  a Maria contou-lhe do falecimento do fidalgo e do recolhimento da fidalga a um convento e que não quis ficar sozinha em Évora e que tinha dinheiro para fazer uma vida desafogada, então, ficaram aliviados! A Maria ajudou os pais e os irmãos com o dinheiro que trazia e pediu-lhe ajuda para mandar fazer uma casa para ela, porque, quando enviasse a primeira carta à fidalga tinha de lhe contar que já tinha a sua casa para morar! A Maria continuou a bordar e a estudar as leis do reino, porque, exigiam muito estudo, foi bem avisada pela fidalga que tinha de as ler muitas vezes para as poder compreender, porque aquilo que parece que é, quase nunca é, e não podia errar senão perdiam todo o respeito por ela e ainda era vexada! 
Nas terras de Capelins e arredores começaram a falar que a menina Maria de Jesus sabia muito de leis e algumas pessoas que se sentiam injustiçadas começaram a pedir-lhe conselhos e para ela as encaminhar para as entidades certas! Como poucos sabiam ler e escrever, ela escrevia cartas para apresentarem nas Repartições do Reino e para juízes, os quais na maior parte dos casos atiravam com elas e nem as liam, as pessoas vinham contar-lhe e ela fazia outra onde mencionava as leis em que se enquadravam os casos! Alguns juízes, como eram poderosos começaram a achar que era falta de respeito e apresentaram queixa contra ela ao capitão de ordenanças de Terena, aludindo que ela lhe faltava ao respeito! O capitão mandou o sargento a Capelins dizer-lhe que nunca mais escrevesse nenhuma carta aos juízes senão tinha de responder por falta de respeito! O sargento chegou à porta da Maria e chamou-a! Ela veio e ouviu o recado do sargento! Depois disse-lhe que, não estava a faltar ao respeito aos juízes porque cumpria a lei e, se escrevia as cartas era porque as pessoas eram analfabetas e tinham dificuldade em se exprimir perante os juízes! O sargento ouviu-a e disse-lhe que as ordens era para acabar com as cartas ou seria presa! A Maria repetiu que não estava fora da lei e, por isso ia continuar a ajudar as pessoas! O sargento em tom agressivo disse-lhe que se escrevesse mais alguma carta ia à frente deles a pé até Terena, fosse coxa ou não fosse! A Maria sentiu-se ameaçada e pediu-lhe para esperar um pouco, porque tinha uma carta para ele ler e transmitir ao capitão o que a carta dizia! Trouxe a carta onde estava escrito que a Maria era afilhada da fidalga e protegida da sereníssima Casa de Bragança! O sargento leu a carta duas vezes, com muita atenção, quando viu que a chancela era verdadeira pediu perdão por ter sido tão rude e que era um seu criado e que fazia bem em ajudar as pessoas! Despediu-se da Maria e foi à taberna averiguar sobre a vida da Maria, chamou o taberneiro de parte e perguntou-lhe:
Sargento: Conheces uma Maria de Jesus que mora ali em cima? 
Taberneiro: A menina Maria? Conheço muito bem! Então fez alguma coisa de mal? 
Sargento: Acho que não! Mas como é que ela é protegida pela sereníssima Casa de Bragança? Está aí um grande mistério!
Taberneiro: Não há mistério nenhum! Ela saiu daqui pela mão de uma fidalga da Casa de Bragança, tem estado em Évora no palácio dela e só voltou porque a fidalga recolheu-se a um Convento, mas continua a olhar por ela, trocam cartas, e dizem aí que só não foi para bordadeira da Rainha senhora Dª Maria II, porque não quis aceitar o lugar, parece que conheceu a Rainha lá para Évora! Fora o que não se sabe!
Sargento: Oh valha-me Deus, estou a ver que é mesmo importante! Só não sei porque se veio meter aqui nesta aldeia! 
Taberneiro: Ela é muito importante e sabe as leis do reino! Veio por causa dos pais! Não os quis abandonar, trocou o palácio real por esta casinha! Diz que é mais feliz a bordar aqui, do que se fosse para a Corte! 
O sargento não quis ouvir mais nada, despediu-se e foi a correr para Terena!
O sargento chegou a Terena, apresentou-se ao capitão e relatou-lhe tudo o que se tinha passado em Capelins e disse-lhe que estava com muito medo que a menina Maria de Jesus fizesse queixa deles, porque ele antes de saber da existência da carta protetora tinha sido agressivo para com ela, decerto os punham fora de ordenanças ou, os mudavam dali!
Algum castigo iam ter! O capitão depois de ouvir o sargento também ficou preocupado e decidiu ir pessoalmente apresentar desculpas à Maria de Jesus! Foi a Capelins de Cima, apresentou-se com muita simpatia, pediu desculpa pela diligência feita pelo sargento e disse à Maria que nada do que tinha acontecido partiu dele, que foi devido a uma queixa dos juízes, mas podia estar descansada e continuar a escrever as cartas, porque sabia que estava tudo dentro das leis do Reino e não era proibido ajudar as pessoas, seria mesmo isso que ia participar aos juízes! 
A Maria de Jesus disse-lhe que compreendia a situação! Quanto à atitude do sargento ele apenas tinha cumprido as ordens dadas pelos seus superiores! E, uma vez que tudo não tinha passado de um mal entendido não ia apresentar queixa contra os ordenanças! 
O capitão ficou aliviado e agradeceu à Maria de Jesus pela sua compreensão! Pediu novamente desculpa e despediu-se com um gesto de continência! Foi dali, fez um relatório sobre a diligência feita e enviou-o aos juízes que tinham apresentado queixa, explicando tudo sobre a vida da Maria de Jesus e fez a situação muito feia, por ela ter sido incomodada, uma vez que estava tudo dentro das leis do Reino! A partir daquele dia os juízes mudaram a atitude, sempre que alguém entregava uma carta escrita pela Maria de Jesus, era recebido pelo respetivo juíz e o caso tratado com muita atenção! 
A Maria tornou-se a pessoa mais importante e poderosa das terras de Capelins e, dos arredores, deixou de ser apelidada de "aleijadinha" apenas algumas pessoas, por questão de identificação lhe chamavam a "coxinha", passando a ser conhecida por menina Maria de Jesus! 
A menina Maria de Jesus, cumpriu tudo o que tinha combinado com a fidalga até ao falecimento da mesma e, até ao fim da sua vida ajudou a família e os mais pobrezinhos de Capelins, usando as recompensas que recebia dos mais abastados em troca de conselhos jurídicos e, também do que ganhava com os seus lindos bordados! E, nunca se esquecia das palavras da fidalga: "quem tem o conhecimento, tem um tesouro"

Fim

Monte Grande



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

195 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins 
A lenda do Peleiro de Elvas e do pastor de Terena 
Num dia do mês de Janeiro do ano de 1760, um peleiro ou negociante de peles, o Ti Peleiro, como o apelidavam por aqui, tanto  comprava como vendia peles de animais, que alguns contrabandeavam para Espanha, residia em Elvas, onde passava pouco tempo, tinha dois burros e andava pelas terras da raia, desde Elvas, Juromenha, Mina do Bugalho, Vila de Ferreira às Neves, Capelins de Cima, Capelins de Baixo, Cabeça de Carneiro, até Monsaraz! Depois, voltava por Reguengos, Santiago Maior, Hortinhas, Terena, Alandroal, Vila Viçosa, São Romão, até Elvas, levava cerca de quinze dias nessa volta, fazendo esse trajeto duas vezes por mês, sendo bem conhecido por estas gentes raianas, muitas pessoas esperavam-no só para saber as novidades que ele trazia e que ouvia pelas localidades por onde ia passando. Nunca tinha pressa, porque o seu negócio exigia que verificasse bem as peles e regateava, porque arranjava sempre algum defeito para pagar o menos possível. Em Janeiro de 1760, como habitualmente, um dia o ti Peleiro passava a Ribeira do Lucefécit no porto romano das Águas Frias de Baixo e começou a ouvir um homem a gemer com dores, deixou os burros presos a um chaparro e seguiu a direção dos gemidos na margem direita da Ribeira e, logo acima do Moinho Velho das Águas Frias, encontrou um homem enrolado no chão contorcendo-se com dores e a tremer! O ti Peleiro, viu que o caso era grave e ficou sem saber o que fazer, começou a perguntar-lhe onde lhe doía, se tinha caído, se estava ali há muito tempo, mas não percebia as respostas, então pensou que era uma cólica e voltou ao lugar onde tinha os burros, levou-os pela Ribeira abaixo, prendeu-os e tirou uma manta muito boa do alforge, que usava para passar as noites tão frias naquela região, estendeu-a, levantou o homem do chão, deitou-o na manta tapou-o e ficou muito bem aconchegado, daí a pouco já não tremia quase nada! Foi apanhar lenha, fez um lume e pôs uma cafeteira com água a aquecer, quando a água estava a ferver pegou num pequeno pano apanhou dois "cagalhões" dos burros, atou as pontas do pano e meteu-os na cafeteira, deixou ferver e fez um chá, arredou a cafeteira do lume, deixou-o arrefecer um pouco, despejou para um quartilho e começou a dar de beber o chá ao homem que, com alguma dificuldade foi bebendo. A dor foi diminuindo e, não demorou, deixou-se dormir! O ti Peleiro, ficou sentado junto dele mais de duas horas até acordar, já quase sem dor! Como trazia farinha de trigo nos mantimentos, para quando fritava peixe do rio, fez-lhe umas papas com água e sal e, muito devagar, o homem foi comendo! Antes do meio dia estava em condições de continuar a sua viagem para a Vila de Ferreira, o mesmo caminho do ti Peleiro! Foram falando e o homem contou-lhe que se chamava Joaquim, era de Terena e vinha guardar umas ovelhas para a Defesa de Ferreira, mas que chegar ali tinha tido uma dor (cólica) tão forte que nem o deixava pôr em pé! Contou-lh que já tinha ouvido falar no ti Peleiro e agradeceu-lhe muito por lhe ter salvado a vida! Chegaram à Vila de Ferreira nas Neves, o ti Joaquim tornou a agradecer, separaram-se e cada um foi à sua vida! 
O ano de 1760, decorria muito chuvoso, mas a vida do ti Peleiro obrigava-o a andar debaixo de chuva, atravessando Ribeiros e Ribeiras com muita água durante o inverno, ele conhecia muito bem todos os lugares onde podia passar, assim, num dia do mês de Março, o ti Peleiro, como já tinha feito dezenas de vezes, foi passar a Ribeira do Lucefécit que levava grande cheia, no porto das Águas Frias de Baixo, tentou saltar de passadeira em passadeira, mas elas estavam submersas e chegou a meio parou indeciso, mas já era tarde para voltar para trás, ainda olhou, para avaliar a situação, mas nesse momento veio uma enxurrada com mistura de grandes ramos de árvores que o arrastou e aos burros pela Ribeira abaixo, foi obrigado a largar a arreata dos burros e deu por si agarrado a um silvado, logo acima do Moinho Velho. Estava agarrado às silvas, mas nem sentia as picadas, só pensava em salvar a vida, mas encontrava-se numa posição que a qualquer momento podia ser arrastado e seria o seu fim! Começou a gritar por socorro, socorro, na esperança que alguém lhe prestasse auxílio. O ti Joaquim, já estava a voltar as ovelhas para o lado da choça e ouviu os gritos de aflição, foi a correr e viu o ti Peleiro agarrado às silvas, entrou no silvado até onde achou seguro e com o graveto de apanhar as ovelhas agarrou-o pelo casaco junto aos ombros e gritou-lhe para se agarrar bem e ir rodando para a direita a fim de se livrar da corrente! O ti Peleiro assim fez e o ti Joaquim aplicou toda a força que conseguiu e puxou-o para a margem. O ti Peleiro estava esgotado e enxarcado até aos ossos, o ti Joaquim tirou-lhe o casaco e vestiu-lhe o pelico. O ti Peleiro esteve meia hora deitado a descansar, depois com a ajuda do ti Joaquim lá se conseguiu pôr em pé e caminharam na direção da Vila de Ferreira, Neves, para os lados da choça. O ti Peleiro ia a lamentar-se que os seus burros se tinham afogado, era a desgraça da vida dele e mais isto e mais aquilo e o ti Joaquim acalmava-o e dizia-lhe que no dia seguinte logo os procuravam e podiam estar vivos! Quando iam no outeiro a norte das Neves, olharam para os lados da Ribeira e de Santa Luzia e viram os dois burros do outro lado. O ti Joaquim foi a correr assobiar e gritar ao pastor de Santa Luzia, que andava por ali com as ovelhas e pediu-lhe para os levar para a choça que no dia seguinte ia lá buscá-los! Dali seguiram para a choça e o ti Joaquim tratou muito bem o ti Peleiro e só o deixou partir ao fim de três dias, quando já estava bem! O ti Peleiro agradeceu-lhe muito por lhe ter salvado a vida e por o ter tratado tão bem! 
Em tão pouco tempo  a história repetiu-se! Por isso, assenta aqui bem o provérbio: "Faz bem, não olhes a quem"!
O ti Peleiro continuou naquela vida, mais alguns anos, nunca mais passou pela Vila de Ferreira sem visitar o ti Joaquim e, ficaram como irmãos! 

Porto das Águas Frias de Baixo


terça-feira, 12 de setembro de 2017

194 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins 
O Algarve de Água e o Algarve Seco de Capelins 
O subsolo das terras de Capelins, parece ser fértil em minérios, com mais abundância em ferro, vindo daí a toponímia da Vila de Ferreira Romana. Ainda hoje, se encontra aberta uma das minas  Romanas, constituída por um poço retangular escavado na vertical e depois a cerca de 4/5 metros de profundidade sai uma galeria na horizontal na direção sul com dimensões indefinidas! A esta mina Romana, os nosso antepassados designaram por Algarve de Água e fica situada na Defesa de Ferreira de Cima, junto à estrada Ferreira - Rosário. Passados 1900 anos surgiu outro Algarve, o Seco, mas este na Defesa de Ferreira de Baixo, separando-os mais de um quilometro de distância, reforçada por um vale e um grande outeiro! As gerações mais recentes achavam estranho essa designação e, queriam saber porque motivo se chamavam Algarves, sendo a dúvida ainda maior na Escola Primária quando começavam a estudar as províncias de Portugal, porque, ainda maior era a confusão entre os Algarves de Ferreira e a província do sul! O mito era evidenciado quando os mais velhos contavam que, uns homens das minas, tinham derramado azeite no Algarve de Água e esse azeite apareceu no Algarve Seco, por isso, diziam que ambos estavam de alguma forma ligados, decerto por um túnel que abriram noutros tempos, provavelmente os romanos! Mas não deixava de existir uma contradição, porque o Algarve Seco, só foi escavado nas primeiras décadas de 1900, por coincidência 1900 anos depois do outro e, se o Algarve era Seco, como foi transportado o azeite? E quem desperdiçava azeite naqueles tempos de tanta miséria? Isso, nunca teve explicação, mas não importava, fosse como fosse, havia ali um mistério! E o mistério continua, porque este mito vai passando de geração em geração e temos de acreditar nos nossos avós! 
Agora, viemos saber que não existe ali nenhum Algarve, mas sim, Algar de Àgua e Algar Seco! E que Algar significa: Cova profunda feita pelas torrentes e enxurradas ou Caverna! 
Naquele caso, podiam ser Algares, ou Foyos/Fojos como outros que existem perto de Alandroal, mas somente se fossem abertos pela natureza! Aqueles não foram, pelo menos o que está à vista!

Mina Romana de Ferreira - Capelins



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

193 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins 
Peripécias de Capelins 
O Encontro dos Irmãos, Pastores da Póvoa Nova, Serra da Estrêla, no Alto do Malhão em Capelins
No Domingo dia 9 de Março de 1845, ao lusco fusco, o ti José de Brito, pastor na Defesa de Ferreira, que tinha a Choça perto do Monte do Escrivão onde também tinha uma casa, voltava de Capelins de Baixo e já tinha bebido uns copos de vinho, quando ia no alto do malhão, tropeçou ou escorregou na estrada lamacenta e foi de encontro a outro transeunte que vinha em sentido contrário, dando-lhe uma grande cabeçada no peito! O homem ficou muito zangado e exclamou: 
Transeunte: Oh homem, vocemecê está maluco? Ou já vem bêbedo? 
Ti José: Nem uma coisa nem outra, veja lá como fala, senão leva mesmo a sério!
Transeunte: Olha este! Então vocemecê dá-me uma cabeçada, sem mais nem menos e ainda quer ter razão?
Ti José: Não foi sem mais nem menos, vocemecê não viu que foi sem querer! Escorreguei e fui aí ter consigo!
Transeunte: Veio ter comigo e bateu-me, mas é porque já vem com o grão na asa, senão isto não tinha acontecido!
Ti José: Já lhe disse para ter tento na lingua, vocemecê não sabe com quem está a falar!  
Transeunte: E vocemecê sabe? Por isso tenha muito cuidado, não sabe do que eu sou capaz de fazer! Espere lá! Não me diga que também é lá de xima? Fala quase como eu! 
Ti José: Sou lá de xima, sou! Porquê? 
Transeunte: Porque eu também sou! De onde é vocemecê? 
Ti José: Eu sou da Póvoa Nova, da Serra da Estrêla! E vocemecê?
Transeunte: Eu também sou da Póvoa Nova! Então vocemecê é filho de quem?
Ti José: Eu sou filho do ti Xico Beiçude e da ti Rita Benta, que moravam ao pé do Ribeiro!
Transeunte: Sei muito bem onde moravam! Eu também sou filho deles! 
Aqui, os dois em coro exclamaram: Então somos irmãos!
Ti José: Então tu és qual? 
Transeunte: Eu sou o Joaquim! E tu? 
Ti José: Eu sou o José! 
Ti Joaquim: O José? E eu que pensava que o José era um dos cinco que se finaram! Vê lá se és a alma dele que anda penada e agora vens ter comigo! 
Ti José: Vê lá se queres levar outra cabeçada, para teres a certeza que sou eu, o José! 
Ti Joaquim: Não! Não! Já chegou a que me deste! Então abalaste de lá há tantos anos e nunca mais puseste os pés na Póvoa Nova! 
Ti José: Nunca mais! E não volto a pôr lá os pés! E tu onde andas com as ovelhas e desde quando? 
Ti Joaquim: Ando com as ovelhas  na herdade do Roncão! E vim quando vieram todos, em Novembro! E tu onde andas? 
Ti José: Eu ando aqui na Defesa e tenho uma casinha no Monte do Escrivão! Já tenho mulher e filhos! E tu, também tens? 
Ti Joaquim: Tenho, mas ficaram na Póvoa Nova! É muito longe para os trazer, são pequenos! 
Ti José: E os nossos pais ficaram bons? 
Ti Joaquim: O nosso pai já faleceu! A mãe está muito boa!
Ti José: O pai já faleceu? Com o quê? 
Ti Joaquim: Caiu de um carro de bois, ia em cima de uma carrada de palha e partiu o pescoço! 
Ti José: Olha, que descanse em paz! E a nossa burra?
Ti Joaquim: A nossa burra também já morreu!
 O ti José, começou a chorar e o ti Joaquim muito surpreendido perguntou-lhe:
Ti Joaquim: Olha lá irmão, quando te disse que o nosso pai tinha morrido nem choraste! Agora, quando te disse que a nossa burra morreu, fazes um pranto desses! Isso é porquê? 
Ti José: Isto é porque a burra andava comigo a "cavalo" e era a maior amiga que eu tinha na Póvoa Nova! E o pai dava-me uma surra todos os dias! 
Ti Joaquim: E a mim irmão! Adeus, até pode ser que ainda nos encontramos por aí! 
Ti José: Adeus irmão, pode ser que sim! 
O ti Joaquim e o ti José despediram-se nessa noite no alto do malhão e nunca mais se viram, embora o ti Joaquim continuasse a vir na transumância para a herdade do Roncão e outras vizinhas, durante alguns anos! 
Nessa época, as famílias eram tão numerosas que alguns irmãos mal se conheciam, porque, quando nasciam os irmãos mais novos, já os mais velhos estavam fora de casa em ajudas de pastores ou de outros ganadeiros e, muitos raramente punham os pés em casa. 

Alto do Malhão




domingo, 10 de setembro de 2017

192 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins

Das Choças aos Cabanões das Terras de Capelins
Nas terras de Capelins, existiam muitas choças, nos campos, junto aos Montes, dentro e nos arredores das Aldeias! No entanto, apenas se designavam choças as estruturas de menor dimensão, as quais, podiam ser fixas ou móveis, neste caso, eram abrigos dos pastores que as deslocavam acompanhando os rebanhos para todos os lugares a que eram obrigados a mudarem-se por motivo de aproveitamento de novas pastagens! Algumas choças eram constituídas por peças separadas, que rapidamente se juntavam e ficavam prontas a abrigar os pastores, mas havia outras de maior dimensão que serviam para abrigar toda a família, eram a sua habitação, mas mesmo essas, desde que fossem dos pastores, não deixavam de ser choças. 
As choças com maiores dimensões e imóveis, nas terras de Capelins designavam-se por Cabanões e, geralmente, eram constituídas por uma parede feita em pedra com cerca de um metro de altura e, meio metro de largura que lhe conferia um bom ambiente interior e, podiam ter formas circulares, quadrangulares ou retangulares, sendo estas últimas, as que mais predominavam nesta região! Com uma técnica de construção rudimentar mas muito eficiente, os cabanões utilizavam no seu fabrico unicamente matéria prima obtida localmente. Sobre a estrutura de pedra assentavam vários paus, tipo barrotes, colocados ao alto e lateralmente, que eram colhidos em árvores da região, geralmente de madeira de azinheiras, freixos ou outras árvores nativas nos Ribeiros, Ribeiras e no rio Guadiana, que no interior davam forma ao esqueleto da cobertura. No Outono, cortavam o piorno/giesta e estevas, que eram entrelaçados naqueles paus e cobriam completamente toda a estrutura. Mais tarde, também era usada palha de centeio ou junco para fazer essa cobertura. Uma porta, também coberta pelos referidos arbustos, possibilitava o acesso ao interior, formado por um só espaço, onde também podia existir um lugar para o lume, saindo o fumo por uma pequena chaminé existente a um canto do cabanão. 
Os cabanões, eram usados para diversos fins, entre os quais, abrigar animais, guardar forragens, alfaias e utensílios usados na agricultura e pecuária e eram a habitação de muitas famílias podendo ser comum à família e aos animais, burros/as ou outras muares. 
Os cabanões, construções intemporais desde sempre presentes na paisagem humanizada das terras de Capelins, parecem ser testemunhos vivos das habitações pré-romanas, existindo testemunhos disso, no vale do rio Guadiana e das Ribeiras do Lucefécit e do Azevel. 
Eram essas as habitações de outrora, por isso, nasceram, viveram e faleceram muitos/as capelinenses, nos cabanões das terras de Capelins.

Aqui era um cabanão! 



198 - Terras de Capelins Vidas do Contrabando e dos guardas fiscais nas terras de Capelins  História, lendas, contos e tradições da...