quinta-feira, 17 de agosto de 2017

183 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

Os mais velhos dizem que, esta lenda faz parte dos segredos de Capelins! 
A morte da lavradora do Monte do Roncão 
Assim que, a Casa do Infantado entregou as herdades das terras de Capelins em 1698, aos novos agricultores, quase todos de origem judaica, mas filhos de Terena, estes, começaram imediatamente a construir os seus Montes, os quais estão atualmente quase todos em ruínas ou já desapareceram. Porém, o Monte do Roncão, onde se passou esta ação teima em continuar firme e airoso, como quando albergava multidões de trabalhadores e famílias em todo o seu domínio! Este Monte era do lavrador Francisco Friz (Fernandez) e de sua mulher a lavradora Maria Miz (Martinez), a qual, no ano de 1717, com pouco mais de quarenta anos de idade, começou a apresentar sinais de demência, com atitudes impróprias e conversas sem sentido que, no início da doença, ninguém compreendia, ao ponto de fazerem chacota pelas terras de Capelins. O lavrador, assim que percebeu que a situação não era normal, correu aos médicos de toda a região, Estremoz, Elvas, Évora e outras, mas a sua mulher em vez de melhorar, estava cada vez pior! O lavrador já sem fé na cura pelos métodos convencionais dos médicos, em desespero e por influência de familiares procurou outras alternativas, baseadas na obscuridade, como exorcismos e bruxarias. Desde sempre, pairou desconfiança sobre os lavradores do Monte do Roncão, dizia-se que eram "marranos" (falsos Cristãos), mas não era verdade, no entanto, eram constantemente alertados para o perigo que corriam, porque, se chegasse aos ouvidos do Esquadrão da Inquisição, de Vila Viçosa, decerto eram assassinados ali, sem hipótese de defesa! O padre de Santo António, Miguel Gonçalves Galego, sabia dos boatos e várias vezes lhe disse para terem muito cuidado, porque a situação estava a ficar perigosa, mas eles negavam que nada se passava e compareciam em todos os ato s religiosos na Igreja de Santo António, deixando os paroquianos com dúvidas! Quando o lavrador começou a fazer as mesinhas à lavradora, logo surgiram mais conversas que afirmavam ser verdade do que há muito se dizia, os lavradores praticavam e descaradamente o judaísmo! A lavradora tinha inesperadamente, momentos de lucidez, até parecia que não estava doente, o que deixava o marido, os filhos e as criadas da casa muito confusos e foi num desses momentos que a criada mais velha da casa e muito amiga lhe contou o que se estava a passar! Disse-lhe que o lavrador e toda a família estavam a correr grande perigo, porque falava-se pelas terras de Capelins e, já em Terena, que ele praticava o judaísmo para a curar, mas não era verdade! A lavradora não queria acreditar que estava naquele estado de saúde e sentiu-se culpada por o marido estar em perigo iminente, por culpa dela! E, num momento de lucidez a meio da noite saiu do Monte do Roncão, passou propositadamente pelo lugar onde muitos anos antes tinham enterrado os objetos rituais da fé judaica, entre os quais: uma Tora, uma menorá, um talit, um shofar, um escudo de David, um kipá, uma mezuzá e outros, parou um pouco (soube-se pelo rasto deixado) e depois desceu a Ribeira do Lucefécit e suicidou-se no pego de Santa Catarina no rio Guadiana! Só ao fim de dois dias foi encontrada, sendo sepultada na Igreja de Santo António, como uma boa cristã e o seu marido e filhos deram provas de serem uns bons cristãos, comparecendo e rezando fervorosamente em todas as missas! 
A morte da lavradora do Monte do Roncão causou muita controvérsia que durou muitos anos, uns diziam que foi o dedo acusador do povo que a matou, outros diziam que já estava condenada devido à sua demência!
Tudo indica que, os objetos rituais judaicos ainda se encontram enterrados perto do Moinho do Roncão e, submersos pelas águas do Grande Lago de Alqueva! 



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

182 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A taberna da Ti Xica dos Potes 
A ti Xica dos Potes era uma mulher já dentro do meio século de idade, natural da Vila de Terena, onde ganhou o apelido porque vendia potes para azeite e outros fins. Porém, o negócio estava muito fraco, porque nessa época essas coisas eram tão boas que duravam vidas e além disso, existiam por lá outros concorrentes! Assim, a ti Xica convenceu o marido a deixarem a Vila de Terena e, com os cinco filhos, descerem até Capelins de Cima, onde abriram uma taberna para ela e ele foi trabalhar como jornaleiro na herdade da Defesa de Ferreira. A taberna depressa se tornou um sucesso, por ser novidade e pelo jeito que a taberneira tinha para o negócio. O lugar em Capelins de Cima também ajudava, porque estava ao lado do Monte Grande onde havia sempre muitos trabalhadores que frequentavam as tabernas da aldeia! Logo no início a ti Xica nunca bebia em frente dos clientes, mas todos sabiam que ela não lhe perdoava devido ao bafo que exalava cheiro a vinho e a aguardente, mas com o passar do tempo, já sem vergonha, a ti Xica encontrou uma maneira de beber o vinho a custo zero! Só tinha cinco copos, que nessa época eram objetos de luxo, então os primeiros a chegar bebiam pelo copo de vidro, muito pesados eram só quase vidro com uma pequena cavidade, que não levavam quase nada do precioso líquido, os outros clientes ou bebiam por um quartilho de lata ou por um cocho, (feito em cortiça) mas a quantidade era medida por um copo de vidro! Era esta a salvação da ti Xica, aos clientes já conhecidos, enchia o copo de vidro até acima e depois antes de o passar para o quartilho, para não entornar, dava-lhe um sorvo, ficando logo o copo quase em meio! Os clientes reclamavam: Então ti Xica? Isso é o quê? E ela respondia: É para não entornar! Tens nojo de mim? Eu não tenho nenhum mal que te pegue! Não é isso! É que assim não bebo vinho nenhum! E tenho de o pagar! Diziam os clientes! Deixa que um dia ainda te hás-de fartar! Dizia a ti Xica! E assim continuava até já estar tonta e cair numa cadeira a dormir atrás do balcão, que até ressonava! A partir daquele momento, começavam os clientes a aviar os copos de vinho, porque pediam-lhe um copo de vinho ou de aguardente e ela tonta e ensonada respondia: Enche tu o copo aí da chocolateira, mas não abuses! Como posso abusar, se o copo não leva mais! Diziam os clientes! Sim! Mas não é preciso pores de cagulo, senão o vinho entorna-se por aí! Dizia a ti Xica e continuava a ressonar! E ficava assim, até lhe passar a tonteira! A taberna da ti Xica ganhou fama pelas terras de Capelins e vizinhas, não só pelas suas façanhas de beber a meias com os clientes, mas, porque tinha petiscos para acompanhar o vinho, o peixe frito, do rio Guadiana, uma delícia! A ti Xica esteve à frente da taberna até ao fim da sua vida e foi longa, depois foi passando para as gerações seguintes, existindo no mesmo lugar até meados dos anos 1900! 
Muitos dos nossos antepassados, tiveram grandes alegrias na taberna da ti Xica dos Potes, em Capelins de Cima! 



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

181 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

O Visionário das terras de Capelins 



No dia 18 de Abril de 1840, sábado de Aleluia, quando a ti Maria Caeira abriu a sua taberna ao romper da manhã, em Capelins de Cima, já estava um homem de manta às costas encostado a um pau que era indispensável nessa época para defesa contra ladrões e contra cães perigosos que guardavam os Montes, ou andavam perdidos e com raiva. Este homem, parecia um maltêz, mas com aspeto diferente dos que diariamente apareciam nas terras de Capelins, bem vestido, bem calçado, barba aparada e bem falante. Alguns maltezes, apenas passavam por aqui, outros ficavam uma temporada e depois desapareciam, mas houve os que ficaram definitivamente, organizando a sua vida familiar. A ti Maria Caeira era uma mulher carrancuda, não dava confiança aos clientes e, ao abrir a porta do cabanão onde funcionava a taberna, apenas disse bom dia ao desconhecido, que respondeu da mesma forma! Os trastes da taberna eram uns caixotes, um por cima do outro para fazer altura que servia de balcão onde enchia os copos de vinho ou de aguardente e alguns bancos talhados da madeira de azinheira já com pés incluídos, a que chamavam burros. O homem entrou na taberna e pediu um copo de aguardente que bebeu logo de seguida, ficou calado, apenas respondendo aos bons dias dos que vinham entrando e pediam um copinho de aguardente ou uma onça de tabaco e um livro de mortalhas, ou as três peças, pagavam e saiam apressados porque o trabalho já os esperava. O desconhecido parecia alheio às conversas, muito rápidas, entre os que entravam e os que saiam e entretanto ia estudando a reação da ti Maria, qual era a atenção que ela dava a essas conversas, porque sabia que ali podia estar a fonte das informação que ele precisava, concluindo que ela era raposa velha, disfarçadamente apanhava tudo! Pediu-lhe mais um copo de aguardente e meteu conversa com a ti Maria Caeira, como já tinha ouvido o seu nome aos clientes a situação estava a ficar mais favorável, então começou assim: 

Desconhecido: A ti Maria, tem aqui uma aguardente da melhor que tenho bebido por aí, e olhe que tenho bebido por muitos sítios!

Ti Maria: Ai sim! Então e vocemecê de onde é? 

Desconhecido: Olhe, eu sou de todo o lado, nasci perto de Estremoz, mas é onde tenho estado menos! 
Ti Maria: Eu vi logo! Então um maltez, havia de ser de algum lado! Então e como deu aqui com a minha taberna? Tão cedo! Foi o cheiro do vinho não?
Desconhecido: Não! Foi o cheiro da urina ali à esquina! E continuou: Pois! A vida obrigou-me a isso, o meu pai teve de trabalhar em muitos sítios, onde arranjava trabalho, e eu tinha de o acompanhar! 
Ti Maria: Então e agora? Vai de passagem ou vem trabalhar para aqui? 
Desconhecido: Quero ficar por aqui uma temporada, por isso, pedia-lhe ajuda se me podia indicar algum Monte aqui nas terras de Capelins onde eu possa trabalhar! 
Ti Maria: Eu até sei, mas como não o conheço, tenho medo de me meter em fezes! 
Desconhecido: Não tenha medo, eu garanto-lhe que sei fazer tudo e não a vou deixar ficar mal! 
Ti Maria: Não sei! Então ao menos tem nome? E o que sabe fazer? 
Desconhecido: O meu nome é Manoel Rodrigues e sei fazer todos os trabalhos na agricultura, pecuária, de alavão de abegão, ferreiro, alvanéu e curo pessoas e animais! 
Ti Maria: Eh lá! Sabe fazer tanta coisa, que no fim não sabe é fazer nada, quando os vejo assim, não dou nada por eles! Mas essa de curar pessoas e animais é que me está cá a dar voltas ao miolo! Então cura com o quê? Rezas ou bruxarias, não? 
Ti Manoel: Aplico nas pessoas os produtos em conformidade com a sua doença, uso as mãos, faço massagens e coloco os músculos e tendões no seu lugar, uso unguentos que faço de plantas e gorduras, chás de plantas e digo algumas orações, mas nada de bruxarias! 
Ti Maria: Hum! Não sei! E entrevadinhos e parvinhos, também os cura? 
Ti Manoel: Alguns curo e outros pelo menos decerto que melhoram! Porquê? Há alguém assim, por aqui? 
Ti Maria: Oh se há! Muitos!
Ti Manoel: Então, importava-se de me dizer quem são e onde moram, para eu os visitar? 
Ti Maria: Deus me livre! Eu não me meto na vida de ninguém! 
Ti Manoel: Se é assim, quanto lhe devo da aguardente? 
Ti Maria: Dez réis! 
O ti Manoel abriu a carteira para pagar e a ti Maria não conseguiu desviar os olhos e viu um grande número de moedas, muito dinheiro para a época, ficou logo de olhos arregalados e pensou que não podia espantar um cliente com tanto dinheiro e prosseguiu a conversa: Olhe, eu não sou pessoa de conversas, não diga nada a ninguém do que lhe vou contar e começou a nomear todas as pessoas que tinham alguma doença nas terras de Capelins. O ti Manoel pediu-lhe para esperar um pouco e deitou a mão ao bornal de onde tirou um papel e um lápis e começou a escrever. A ti Maria ainda exclamou: Ai valha-me Deus que o homem até sabe escrever, já vi que não é um maltêz como os outros! Não é não! 

O ti Manoel Rodrigues tomou nota de tudo o que a ti Maria Caeira lhe ditou, quem eram e onde moravam os doentes e as pessoas mais pobres das terras de Capelins. Agora, já podia começar a desempenhar a sua missão, despediu-se e foi cohecer as aldeias de Capelins de Cima de Capelins de Baixo e de Montes Juntos, cumprimentando todas as pessoas, e ao fim da tarde voltou à taberna da ti Maria, onde comeu alguma coisa e acabou por dormir num cabanão que ela tinha ao lado da taberna, o qual, por algum tempo passou a ser a sua casa! Na madrugada do dia seguinte foi à Vila de Terena comprar um saco de pão, toucinho, marmelada e produtos para usar nas suas mesinhas. Ao passar pelo Ribeiro do Alcaide, trouxe grande quantidade de folhas de árvores e arbustos para chás e para depois de fervidas dar banhos a partes corporais dos doentes. Assim que chegou, começou a fazer as visitas, com muita cautela, dizia que tinha ouvido falar na taberna da ti Maria que tinha um doente em casa e que há muito anos ajudava pessoas doentes, por isso se estivesse de acordo queria ajudar! A sua voz era pausada, muito segura e parecia vir do além, assim que a ouviam as pessoas sentiam muita paz, parecia que ficavam hipnotizadas e não conseguiam reagir negativamente. Depois de saber a história clínica dos doentes, quando, como tinha acontecido e se estavam a fazer algum tratamento, passava então à ação com as suas mesinhas. Falava com os doentes e transmitia-lhes boas energias e pedia-lhe para seguirem os tratamentos que lhe receitava, como referimos à base de chás, unguentos, massagens, mas também orações. No fim de cada visita deixava sempre pão e algum conduto em casa dos doentes e nunca aceitava nada pelo seu serviço e mesinhas. Ao fim de um mês os seus feitos já eram conhecidos nas terras de Capelins e em todo o lado se falava da bondade do ti Manoel Rodrigues. Alguns doentes estavam curados e os casos mais graves já faziam grande diferença para melhor! Entretanto, chegou o tempo das ceifas e era uma oportunidade do ti Manoel ganhar algum dinheiro, foi oferecer-se para ceifar ao feitor da herdade da defesa de Ferreira, que o aceitou com grande reserva, murmurando: Então, vocemecê sabe ceifar?

Ti Manoel: Sei! Sim senhor! Eu sei fazer tudo! 
Feitor: Vamos ver! Já sabe! Se não souber! Rua! E continuou: Começamos segunda-feira às cinco e meia da manhã, além nos ferragiais! Esteja lá ao pé do poço da cegonha a essa hora, senão nem precisa de lá pôr os pés! 
Ti Manoel: Sim senhor! Lá estarei!
O ti Manoel continuou a tratar os doentes e a dar instruções aos familiares de como deviam fazer os tratamentos na sua ausência e, na segunda-feira às cinco da manhã já estava no lugar marcado pelo feitor, com uma foice nova e todos os apetrechos necessários ao desempenho daquele trabalho! Começaram a ceifar ainda não viam quase nada à sua frente, mas isso não impedia de meter a foice pela seara dentro e puxar cortando tudo o que viesse à frente. Cada ceifeiro/a tinha uma largura definida pelo manageiro, dependendo se era homem ou mulher. Até à hora do almoço (pequeno almoço) não existiam diferenças significativas na parte que cabia a cada um, mas a partir dali o Ti Manoel parecia uma máquina a ceifar e cada vez se distanciava mais dos restantes trabalhadores, que não gostavam disso, mas admiravam aquela forma de ceifar, nunca ninguém tinha visto uma coisa assim, a foice do ti Manoel estava presa ao pulso com uma correia de cabedal, por isso nunca lhe caía das mãos e o cereal em vez de ser apanhado com a mão esquerda era com o braço, fazendo grandes braçadas. Dia adiante, o feitor foi saber junto do manageiro como estava a correr o trabalho e a perguntar se o ti Manoel sempre sabia ceifar, sendo informado que o homem era uma máquina! Então trata-o bem, porque temos de o manter cá, disse o feitor! Devido a este feito, o ti Manoel mais uma vez deu que falar nas terras de Capelins e todos os lavradores comentavam que precisavam de um trabalhador assim! Com grande espanto de todos e principalmente do feitor, ao fim de quinze dias pediu as contas e despediu-se! Assim que souberam do que tinha acontecido, vários lavradores e feitores foram ter com ele e ofereceram-lhe muito mais dinheiro do que por ali se pagava, mas ele não aceitou, foi antes oferecer-se para ceifar para um seareiro dos mais pobres de Capelins, sem posses para lhe pagar! O seareiro disse-lhe que era o que mais queria, mas não podia ser, porque não conseguia pagar-lhe! O ti Manoel respondeu-lhe que não queria dinheiro, ceifava pela comida e mais nada! E foi isso que fez com este seareiro e com outros dos mais pobres! Depois das ceifas o ti Manoel continuou a trabalhar, alguns dias nas herdades, onde todos o queriam e quando ganhava algum dinheiro ia trabalhar para os seareiros mais pobres apenas pela comida, sem nunca esquecer os doentes! 
Assim, chegou Outubro de 1840 e a época das sementeiras! 

Na madrugada do domingo, dia 4 de Outubro de 1840, já o Ti Manoel Rodrigues, ao qual nas terras de Capelins já chamavam o Santo, estava na rua do Monte da Talaveira, do Lavrador António Lopes, para falar com o feitor a fim de ali se empregar a fazer a sementeira. O feitor já conhecia os seus feitos, mas não se conteve em lhe perguntar se percebia daquele trabalho! O Ti Manoel, como sempre, respondeu que sabia fazer tudo! Então pode ficar já cá e amanhã começa a trabalhar, disse o feitor! O ti Manoel pediu-lhe para ser oito dias depois, porque tinha assuntos a tratar, mandar arranjar as botas e visitar alguns doentes! O feitor aceitou, porque ainda estavam a iniciar as sementeiras e remediava-se com os trabalhadores que tinha! O ti Manoel despediu-se e foi dali para o Bufo, desceu a Ribeira do Lucefécit colhendo ervas e folhas de árvores e arbustos para as suas mesinhas e por ali passou algum tempo, depois, em vez de seguir o caminho para Capelins de Cima, onde tinha o lugar no cabanão da ti Maria Caeira, foi pelo do Moinho do Roncão na direção de Montejuntos, para falar com o mestre sapateiro do Salgueiro sobre o arranjo das botas, quando estava a passar o Ribeiro do Carrão já ouvia gritos de um rapaz muito aflito a pedir socorro, perguntou aos transeuntes com quem se cruzava, o que era aquilo? É um parvinho, o Miguel, que está em cima de uma azinheira e ninguém o faz descer, diz que está lá um cão com grandes dentes afiados que o quer matar e que esse cão, que há muito tempo anda atrás dele para o matar! Mas não há cão nenhum, é ele que não anda bom da cabeça, tem nervos! Responderam algumas pessoas em coro! O ti Manoel foi-se aproximando da azinheira, começou a falar com o Miguel e a acalmá-lo!
Ti Manoel: Bom dia Miguel, estou aqui para te ajudar! Então o que se passa?
Miguel: O que se passa, é que esse cão não me larga, quer matar-me está aí de dentes afiados à minha espera para me matar! 
Ti Manoel: Estás a vê-lo agora? 
Miguel: Então não estou! Está aí mesmo ao seu lado, mas ele só me quer a mim! 
Ti Manoel: Olha! Pois está! Já o vi! Deixa-te estar aí quietinho que eu já o mato! O ti Manoel que também era mestre a usar o pau, começo a manobrá-lo em todas as direções e gritando contra o cão invisível, foi-se afastando como se fosse perseguindo o animal e quando já não estava na mira do Miguel começou a bater nuns feixes de lenha com muita força e acompanhando com palavras próprias ao ato, terminando assim: "Já está morto, mas deixa-te estar aí que vou atirá-lo ali para um buraco no Ribeiro do Carrão, depois já te ajudo a descer! Demorou alguns minutos e veio ter com o Miguel, dizendo: o cão está morto e bem morto, vamos lá descer, a sua voz era o bastante para o rapaz se sentir em paz e estava convencido que o suposto cão estava mesmo morto! Aos poucos foi descendo da azinheira, porque ainda colocou a hipótese: Não virá outro? O ti Manoel disse-lhe que não, que estivesse descansado! E transmitiu-lhe boas energias! Depois perguntou-lhe de onde vinha e para onde ia? O Miguel contou-lhe que trabalhava no Aguilhão e ia para o Salgueiro fazer a muda da roupa! Olha, então vamos os dois, eu também vou para o Salgueiro! Lá foram os dois sempre falando, para lhe ocupar a mente, e o ti Manoel foi fazendo o estudo do problema do Miguel e percebeu que levava ali no bornal o tratamento para ele, só um chá para os nervos, para se acalmar, um amuleto e uma oração seria o suficiente! Ao chegar ao Salgueiro foi dizer aos pais o que tinha acontecido e eles contaram-lhe, como e quando o Miguel tinha começado com os nervos, disse-lhe que o curava mas tinham de fazer as mesinhas que ele lhe ia ensinar, nunca podiam contrariar as suas visões e dar-lhe o chá que ele lhe ensinava, depois chamou o Miguel e disse-lhe que nunca mais lhe aparecia nenhum cão, nem outro animal para lhe fazer mal, deu-lhe uma cruz de Cristo, para trazer sempre com ele (uma pequena cruz de madeira, feitas pelo ti Manoel, que dava a todos os doentes como amuleto ou talismã), que faziam milagres, disse ao Miguel que aquela cruz o defendia de todos os males, e acrescentou: se alguma vez visse alguma ameaça era só mostrá-la ao ameaçador que seria logo repelido! A partir daquele dia o Miguel nunca mais teve visões, nem nervos e organizou a sua vida, como tinha 25 anos, um ano depois perdeu-se de amores por uma moça de Santiago, casaram-se lá, mas ficaram a morar no Salgueiro, tiveram vários filhos e uma vida normal! 
Naquele dia, o ti Manoel, depois de tratar o Miguel, dirigiu-se para a casa/oficina do sapateiro do Salgueiro para tratar das botas! 

O ti Manoel Rodrigues, por indicação de alguns moradores do Salgueiro chegou à casa/oficina do mestre sapateiro, pediu licença, tirou o chapéu e entrou, cumprimentou os presentes e dirigiu-se ao sapateiro:
Ti Manoel: Mestre, vinha ver se me pode arranjar as botas, umas gaspias, mas precisava que fosse hoje ou amanhã! 
Sapateiro: Pois é! Mas eu só consigo arranjar-lhe as botas daqui a oito dias, porque tenho o trabalho atrasado uma semana e já ando a dormir pouco, passo grande parte da noite a trabalhar à luz da candeia! Não sou pessoas para faltar a compromissos, mas agora isto está mau! 
Ti Manoel: Mas daqui a oito dias não posso! Na próxima semana vou começar a sementeira na herdade da Talaveira e, as botas não vão aguentar! 
Sapateiro: Ah vocemecê mora ali na Talaveira? 
Ti Manoel: Não moro! Agora é que vou começar a trabalhar lá, só duas ou três semanas, porque não posso lá ficar muito tempo, tenho que ajudar alguns mais pobres daqui e tratar alguns doentes! 
Sapateiro: Vocemecê não me diga que é o Santo! Tenho ouvido dizer que tem ajudado tanta gente! Agora está a precisar do arranjo das botas e uma destas! Não! Eu vou-lhe já arranjar as botas mesmo faltando à minha palavra com os outros clientes! 
Ti Manoel: Não, mestre! Eu não quero isso! Se estiver de acordo, eu arranjo as botas, empresta-me as ferramentas, uso os materiais e depois fazemos contas! Ainda lhe proponho outra alternativa! Em troca da comida eu fico aqui a trabalhar consigo dois ou três dias, até ter o trabalho em dia, pode ser?
Sapateiro: Então vocemecê percebe alguma coisa do ofício? 
Ti Manoel: Eu percebo de tudo! Já fui sapateiro muitos anos! Vai ver que não se arrepende! 
Sapateiro: Então vá! Depois fazemos contas, que eu não quero isso! Mas olhe que é fazer algumas botas novas e pôr gaspias e meias solas noutras e também em alguns sapatos aí das lavradoras! Se sabe e quiser pode começar já! E o mestre sapateiro mandou levantar um dos aprendizes para dar o lugar ao ti Manoel, o qual foi buscar para ele, um banco com assento em cortiça ao cabanão da burra! O ti Manoel descalçou logo as botas e calçou umas alpargatas que trazia no bornal e foi pôr as botas de molho em água para amolecer o cabedal e logo de seguida começou a cozer as peças do conjunto das botas já talhadas pelo mestre, sempre sob o olhar atento deste, para ver se o trabalho estava a ser bem feito! Foi um grande dia de trabalho que entrou pela noite, ficando já tudo organizado para o dia seguinte, que começou de madrugada! O ti Manoel jantou (ceou) com o sapateiro, a mulher e os cinco filhos e dormiu no cabanão da burra. De manhã quando o sapateiro abriu a porta já o ti Manoel estava em pé encostado à ombreira, comeram um naco de pão e queijo e começaram logo a trabalhar. O ti Manoel, arranjou as suas botas, a seguir foi ao bornal e tirou uma bola de sebo de uma lata passando-a várias vezes pelo cabedal, deixou duas horas a enxugar e depois passou-as novamente. O sapateiro ia deitando o olho para tudo o que o ti Manoel fazia e estava abismado com o que estava a acontecer, um trabalho melhor do que o dele! Quando as suas botas estavam prontas, ainda antes do meio dia já estava a trabalhar em peças do sapateiro, com tanta mestria que este já estava convencido que o ti Manoel era um grande mestre naquele ofício. Foi mais um grande dia de trabalho, não só acabaram alguns pares de botas que levaram gaspias e meias solas, como também ficaram prontas umas novas do lavrador do Monte do Azinhal Redondo de Baixo. O sapateiro deu ordens a um dos aprendizes, seu filho, para logo de madrugada ir entregar algumas botas e de ir dizer ao lavrador para vir buscar as botas novas, porque tinham de ser experimentadas na sua presença, podiam estar apertadas e assim teria de lhe meter as formas de madeira lá dentro para as obrigar a alargar! Quando o sapateiro se foi deitar o ti Manoel ainda ficou agarrado às botas novas a fazer-lhe o acabamento à maneira dele, passá-las com o sebo especial, para o cabedal ficar mais macio! No dia seguinte, terça-feira, ao romper da manhã já o ti Manoel estava pronto para continuar o trabalho, pediu ao sapateiro para talhar as botas novas e sapatos encomendados e ele ia juntando as peças, e fazendo as as solas, todos trabalhavam como nunca, o trabalho bem organizado e tudo muito bem feito! Pelo meio dia veio o lavrador buscar as botas, ficou um pouco desconfiado a olhar para elas, depois calçou uma, atou-a, depois fez o mesmo com a outra e começou a dar uns passos com o sapateiro a assistir para ver se estavam ao gosto do cliente! O lavrador andou, andou até que exclamou: Mas que botas são estas! O sapateiro ficou assustado e disse: Então? Não estão boas? Eu meto-lhe a forma para as alargar! Qual forma nem forma, isto que aqui está é um luxo, nunca na minha vida tive umas botas assim! Que maravilha! O que é que vocemecê lhe fez homem? Disse o lavrador! O sapateiro atarantado só respondeu: Eu? nada, nada! Mas qual nada! Disto não há em lado nenhum, umas luvas! Disse o lavrador! Pagou as botas, despediu-se e foi pelo Montes Juntos contando a toda a gente e mostrando o luxo daquelas botas! A partir daquele dia as encomendas de botas novas eram tantas que o sapateiro teve de se negar a aceitá-las! O ti Manoel continuou a trabalhar para o sapateiro durante a semana quase toda, fazendo exatamente o mesmo trabalho que tinha feito com as botas do lavrador do Azinhal! O segredo principal estava no acabamento, no tratamento do cabedal com o sebo especial feito pelo Ti Manoel, que acabou por dar o segredo ao sapateiro, para ele continuar a fazer igual! Na sexta-feira de madrugada seguiu para Capelins de Cima e não quis receber nada pelo seu trabalho! 
Chegou cedo à taberna da ti Maria Caeira e pediu um copo de aguardente! 

O ti Manoel Rodrigues bebeu a aguardente de um trago e encetou a conversa com a ti Maria Caeira, contando-lhe por onde tinha andado toda a semana e o que tinha feito, porque sabia que era o maior prazer que lhe podia dar, por fim, disse-lhe que ia ao cabanão buscar umas coisas, umas mesinhas e de seguida ia para Faleiros visitar os doentes e os pobres, por lá passaria o dia e despediu-se! O ti Manoel partiu para Faleiros e não passou muito tempo apareceu um homem a procurá-lo, possivelmente até se cruzaram, mas como não se conheciam veio ter à taberna da ti Maria. O homem cumprimentou os presentes, dirigiu-se à ti Maria e perguntou-lhe: 
- Sabe dizer-me onde posso estar com o homem a quem chamam o Santo? 
Ti Maria: Se tem vindo mais cedo tinha estado com ele aqui mesmo, mas agora abalou e não me lembro para onde foi! A minha cabeça já não é o que era! Estava aqui a fazer uma coisa quando ele abalou e ele disse-me para onde ia, porque ele diz-me sempre, mas não tomei bem atenção! Olhe se quiser esperar pode ser que eu daqui a bocadinho me lembre! E continuou: Então vocemecê é de onde? Não o conheço daqui! 
Desconhecido: Eu sou ali de Terena e chamo-me João, vinha aqui falar com o Santo para ver o que me ensinava para tratar uma desgraça que tenho lá em casa! Olhe, dê-me lá um copo de vinho preto! 
A ti Maria aviou o vinho e continuou a conversa: Então mas quem é a desgraça desgraçada que tem lá em casa? Está parvinha ou entrevadinha?
Ti João: As duas! É a minha mulher! Está muito mal, quase nem tuge nem muge, ali está! 
Ti Maria: Oh coitadinha! E ainda é nova, não? 
Ti João: Sim! Ainda! É para aí da minha idade!
Ti Maria: Então e vocemecê que idade tem? 
Ti João: Para lhe falar verdade, nem sei bem! Mas devo andar pelo meio século! 
Ti Maria: Ah pois! Eu vi logo! 
Ti João: Já não sei o que posso fazer mais! Olhe avie lá outro
copo de vinho! Ainda não se lembra para onde foi o Santo?
Ti Maria: Ainda não! Com a conversa! Mas está quase! Quase! 
A conversa continuou, com a ti Maria a perguntar tudo sobre a vida do Ti João, e ele com a ajuda do vinho contou-lhe tudo o que ela quis saber. Ao pedido do terceiro ou quarto copo de vinho a ti Maria deu um salto e exclamou: Já me lembrei! Ai a minha cabeça! Então ele disse-me que ia para Faleiros e passava lá o dia! 
Ti João: Olha! Se eu soubesse, não tinha perdido tempo em vir até aqui, vou-me lá já! E partiu para Faleiros! 
A ti Maria não se conteve e murmurou: Olha se eu lhe digo logo onde andava o Santo! Ele perdeu os passos, mas eu perdia este ganho do vinho, isso até nem tinha importância, mas o que soube da vida dele! Já sei da vida desta gente de Capelins e agora até já sei dos outros! Estou cada vez mais importante! 
O ti Manoel conseguiu fazer o que tinha pensado em Faleiros e à noitinha já estava na taberna da ti Maria, comeu alguma coisa, bebeu um copo de vinho e foi deitar-se no cabanão, onde tinha a tarimba , porque no dia seguinte sábado, tinha muitas voltas a dar por Capelins de Cima e por Capelins de Baixo a visitar os pobres e doentes, uma vez que, a partir de segunda-feira, se ia ausentar uma temporada, ou para sempre! 
A sua missão no sábado correu normal, foi pelos Montes do Meio, Figueira, Serranas, Monte Real, Calados, Monte Novo, Pinheiro e outros, além das duas aldeias, distribuiu ervas para mesinhas, orações e amuletos pelos doentes, algum dinheiro pelos mais pobres e transmitiu-lhe muita fé e esperança da sua vida melhorar! Andou nesta volta até ao fim do dia, depois, voltou à taberna da Ti Maria, esteve a falar com ela e com alguns clientes, ceou e deitou-se! No Domingo, levantou-se cedo, como sempre, asseou-se, comeu um naco de pão e queijo, bebeu um copo de aguardente e seguiu para Santo António, para assistir à missa, rezada pelo Padre Manoel de Santo Inácio, com o qual, veio ter grande conversa! 

No Domingo dia 11 de Outubro de 1840 a Igreja de Santo António estava cheia de paroquianos para assistir à missa e, como em quase todas as missas lá estava o ti Manoel Rodrigues, evidenciando bem a sua fé! Logo no início da missa foi abordado pelo sacristão que lhe segredou um recado do padre Manoel de Santo Inácio Pereira, para não se ir embora sem ter uma conversa com ele, assim, no final da missa o ti Manoel esperou um pouco e veio o padre, deu-lhe umas palmadinhas nas costas e foram para a casa paroquial, que ficava mesmo ao lado da Igreja e começou a conversa: 
Padre: Então como se tem dado aqui pelas terras de Capelins? 
Ti Manoel: Muito bem! Não me queixo de ninguém, é boa gente! 
Padre: Eu que o diga! Conheço bem os meus paroquianos! Diga-me lá, como veio ter aqui, homem? 
Ti Manoel: Foi igual ao que me aconteceu em todos os sítios por onde tenho passado! Não conhecia estas terras, mas se para aqui fui enviado é porque precisavam de mim! Quando dei por mim estava aqui! 
Padre: Essa agora! Mas quem é que o enviou para aqui? E para fazer o quê? 
Ti Manoel: Quem me envia para os lugares onde faço falta, não lhe sei dizer! É como uma espécie de sonambolismo, sigo estradas fora e parece que acordo no sítio certo! 
Padre: Peço-lhe desculpa, mas custa-me acreditar nessa do sonambolismo, mas seja lá o que for, sei que tem feito por aqui um bom trabalho, como nunca se viu em parte alguma! Eu estou bem a par de tudo o que tem feito, porque alguns paroquianos contam-me tudo! Mas compreenda, faz por aí algumas coisas que chocam com as minhas competências como Pároco destas terras! E era sobre isso que eu lhe queria falar! 
Ti Manoel: Agora peço-lhe eu desculpa, mas não estou a perceber o que ando a fazer de mal, na minha consciência tenho feito o melhor que posso e sempre a praticar o bem! Mas diga-me com o que não está contente e decerto nos vamos entender!
Padre: Vamos-nos entender, vamos! Sei que tem curado muita gente, até de doenças que julgavam não haver remédio, sei que usa mesinhas e orações! As mesinhas não me incomodam, mas quanto às orações, como sabe, são contas do meu rosário! É aí que eu entendo, anda a entrar nas minhas competências e também não gosto desse tipo visitas que faz aos meus paroquianos, porque estou a ver que eles já têm mais fé na sua palavra do que na minha e receio que isso me prejudique e à própria Igreja! 
Ti Manoel: Nunca tinha pensado nisso! E acredito que tenha alguma razão! Mas eu não posso deixar de cumprir a minha missão, sem prejudicar a sua, decerto encontramos alguma solução! Talvez o padre a partir de agora possa começar a visitar os doentes e pobres das terras de Capelins, para lhe dar uma palavra de esperança! 
Padre: Não sei se posso, esta Paróquia dá-me muito trabalho, cada vez tem mais paroquianos, e eu dou-lhe a palavra de esperança e tudo o que precisam para o espírito aqui na Igreja e nas missas! Quanto aos doentes, vou sempre lá a casa fazer os testamentos e dar-lhe todos os Sacramentos antes de se finarem! 
Ti Manoel: Sei que vai padre! Mas penso que era melhor se pudesse ir à casa de todos, porque alguns só precisam de apoio para virem acima! 
Padre: Pois! Tem razão, vou ver o que posso fazer! 
O ti Manoel logo no início da conversa percebeu que o padre Manoel de Santo Inácio irradiava ciúmes dele, porque os paroquianos já o procuravam mais a ele do que ao padre para ouvir a sua palavra, afastando-os da Igreja, porque sentiam muita paz junto dele e nas suas palavras! Não podia melindrar o padre, então disse-lhe:
ti Manoel: Padre, já estive em muitas Paróquias e conheço o trabalho desenvolvido pelos respetivos Párocos, mas acredite, são poucos os que igualam o seu trabalho! Esta Paróquia tem umas características muito especiais! É muito trabalhosa! Olhe, hoje vou trabalhar para o Monte da Talaveira, onde espero de ficar muitos meses, por isso, pedia-lhe para quando pudesse, fazer uma visita aos doentes que não possam vir aqui à Igreja ouvir a sua palavra! 
O padre já tinha sido tocado pelo elogio do ti Manoel e respondeu: Sim! Eu faço isso! Pode ir descansado! 
O ti Manoel despediu-se e ia embora para Capelins de Cima, mas o padre Santo Inácio, pediu-lhe para ficar para o jantar (almoço), porque a mulher do sacristão tinha feito um ensopado de galo, como só ela sabia fazer, já a contar com o convidado! O ti Manoel aceitou, falaram de tudo ao jantar, mais do que cada um já tinha passado nas suas vidas e despediram-se com um abraço de grande amizade! 
À tardinha, o ti Manoel despediu-se da ti Maria Caeira e partiu para o Monte da Talaveira! 

O ti Manoel Rodrigues seguiu pelo poço da estrada, malhão, herdade da Negra e, ainda com sol já estava no Monte da Talaveira. Assim que chegou foi procurar o feitor, como era domingo ele estava por perto e rapidamente se encontraram! O ti Manoel cumprimentou o feitor tirando o chapéu! Ele retribuiu o cumprimento e iniciou a conversa:
Feitor: Então veio tão cedo homem! É só para começar amanhã! Já sabe que hoje não tem direito a comida! 
Ti Manoel: Eu sei! Tenho aqui um naco de pão, queijo e umas azeitonas, só precisava de um lugar para dormir!
Feitor: Está bem! Venha comigo! 
O ti Manoel seguiu o feitor em direção a um cabanão que se destinava ao alojamento dos criados do Monte da Talaveira! O feitor empurrou a porta e entrou, o ti Manoel ia a entrar, mas deu dois passos atrás! O feitor que o esperava lá dentro, exclamou: Então! Não lhe agrada o cabanão? 
Ti Manoel: Agrada, sim patrão! Está muito bom! E entrou! 
O ti Manoel recuou ao entrar porque pensou que era o chiqueiro dos porcos, tal era o mau cheiro, mas já tinha dormido em sítios muito piores e decerto se habituava, mas aquilo cheirava muito mais mal do que a burra da Ti Maria Caeira! 
Feitor: Olhe! Fica com esta tarimba que agora está vaga, se vier mais alguém dorme nas sacas de palha, quem primeiro vem, primeiro se avia! 
Acertaram algumas coisas, como o salário incluindo a comida e as horas a que o ti Manoel tinha de estar na rua do Monte já pronto para o trabalho, pouco mais falaram e o feitor foi à sua vida! 
O ti Manoel guardou algumas coisas que trazia, debaixo da tarimba e foi à Ribeira do Lucefécit colher algumas ervas e arbustos que ele conhecia serem bons para apaziguar aquele cheiro, depois fez uns molhos e pendurou-os por cima da tarimba, saiu do cabanão e foi comer a merenda ao lado do Monte, a seguir foi à pipa, bebeu um cocho de água e como já estava a escurecer foi-se deitar! As ervas da Ribeira já deitavam um odor perfumado e foi fácil aconchegar-se ao colchão de palha que cobria a tarimba! Não demorou muito tempo, estava quase a dormir, ouviu muita conversa animada, era gente que se aproximava do cabanão, pensou logo que eram os restantes criados e eram! O que seguia na frente empurrou a porta e parou exclamando: Eh lá! Isto hoje cheira muito mal! Querem lá ver que andaram a limpar o nosso buraco! Mau, mau! Disseram os outros em coro! Assim, esta noite temos de vir à casa de banho cá fora! Eu não venho! E se apanho algum catarral! Uma pessoa está quente, pode lá vir a meio da noite aqui à rua! retorquiu um dos criados! Eu também não venho à rua, afirmaram os restantes! E entraram todos, acenderam a candeia e viram que estava alguém já deitado! Mas pouco comentaram! Olha, mais um de novo e já a dormir, deitou-se com as galinhas! Estavam enganados, porque o ti Manoel estava a ouvir a conversa e a pensar como ia convencer aqueles porcos a mudar a casa de banho para a rua! 
Depressa se deitaram porque pelas quatro da manhã começava um novo dia! 
Ao romper da manhã de segunda-feira dia 12 de Outubro de 1840, já o ti Manoel estava na rua do Monte preparado para fazer as tarefas que o feitor lhe tinha destinado! Logo a seguir, carregaram as carroças com a semente, pronta a semear, e dirigiram-se à folha (terreno) onde seria feita a sementeira! Todos os trabalhos, naquele dia e nos seguintes, que o feitor mandava fazer ao Ti Manoel, ele fazia com rapidez e perfeição, ganhando em pouco tempo a admiração e o respeito dos seus camaradas ao ponto de os convencer que só no caso de estar a chover podiam fazer a casa de banho a um canto do cabanão, porque as pulgas eram muitas e podiam transmitir doenças uns aos outros! Os homens ficaram convencidos e a partir daí mudaram alguns maus hábitos na higiene! 
O Ti Manoel, passou cerca de um mês no Monte da Talaveira e dali, como sempre fazia, foi ajudar os seareiros mais pobres, apenas em troca de comida e foi assim até Janeiro, quando começou no corte das azinheiras por todas as herdades das terras de Capelins! Quando acabou a poda das azinheiras estava no tempo de começar as lavouras, o alqueve, preparação das terras para a próxima sementeira, continuando o Ti Manoel a fazer esse trabalho até aos finais de Março de 1841! Como pressentia que a sua missão nas terras de Capelins estava a chegar ao fim, começou a preparar-se para a sua definitiva partida, então, na quinta-feira dia dia 1 de Abril de 1841, foi ter com o sapateiro do Salgueiro, para fazer umas botas novas! 

Na madrugada do dia 1 de Abril de 1841, quando o sapateiro do Monte do Salgueiro abriu a porta de sua casa/oficina já o ti Manoel Rodrigues estava na sua frente! Cumprimentaram-se como velhos amigos e o sapateiro pediu-lhe para entrar e para almoçar (pequeno almoço) com ele. O ti Manoel declinou o convite do almoço, dizendo que já tinha comido um naco de pão e queijo e estava bem assim, mas entrou, porque era ali o seu destino! O sapateiro estava almoçando e falando com o ti Manoel, sobre o que este tinha feito nos últimos tempos! Quando acabou o almoço, o ti Manoel disse-lhe que queria fazer umas botas novas, porque pressentia que a sua missão nas terras de Capelins estava no fim e, tinha alguma pressa, pelo que, propunha ao mestre, fazerem as botas entre os dois, ele pagava-lhe os materiais e ajudava-o nas encomendas, em troca da comida e da dormida no cabanão da burra! O sapateiro aceitou, mas disse-lhe que não queria dinheiro dos materiais usados nas botas, porque sabia muito bem a dívida que tinha, da outra vez que ele o ajudou, por isso, faziam as botas e ficava tudo certo! O ti Manoel apenas exclamou: Está bem! Depois logo se vê isso! E começaram imediatamente a trabalhar! O sapateiro tirou as medidas aos pés do ti Manoel, começou logo a talhar as peças das botas, meteu a sola de molho já com as medidas, para no dia seguinte, os dois e os aprendizes armarem as botas do ti Manoel! O sapateiro gostava muito do ti Manoel era uma benção tê-lo junto dele, não só pela ajuda que lhe dava, mas pela paz que sentia com as suas palavras, por isso, não perdia a oportunidade de o ouvir e, enquanto trabalhava não parava de falar, iniciando assim, nesse dia a conversa: 
Sapateiro: O ti Manoel já me contou como veio aqui parar, mas seria porquê? O que existe aqui de diferente dos outros sítios para precisar de si?
Ti Manoel: Não tem muito de diferente dos outros sítios! Mas se me enviaram para aqui, é porque fazia cá falta! 
Sapateiro: Mas quem é que o enviou? E fazia aqui falta para quê? Só para ajudar alguns desgraçados? Mas isso há em todo o lado! Até lá em Seia há tantos!
Ti Manoel: Já lhe contei da outra vez como tudo se passa! Não sou eu que escolho! Por isso não lhe sei explicar porque vim aqui parar! E já agora! Vocemecê ainda não me contou porque veio lá de Seia, aqui para o Salgueiro, também deve ser uma boa história! 
Sapateiro: Olhe que nem por isso, primeiro vieram dois irmãos meus, na transumância, gostaram tanto das terras de Capelins, que casaram aqui e ficaram, depois vieram os meus pais e a seguir vim eu com a minha Maria e já com três filhos! Ainda hoje não sei se fiz bem, mas parece-me que sim, lá na minha aldeia éramos três sapateiros, o trabalho era pouco, aqui não tenho mãos a medir! Cada vez tenho mais trabalho! Isto está a crescer muito, ali Montes Juntos cresce todos os dias, até de Cheles ali há gente e, até para lá faço botas!
Ti Manoel: Tem a sua história! Não duvide que fez muito bem em ter vindo para cá, não deixe de trabalhar assim e vai ter aqui uma vida muito boa, assim como os seus filhos, netos e até à quinta geração, depois têm de fugir daqui, porque estas terras deixam de dar de comer a tanta gente! 
Sapateiro: Essa agora! Como é que estas terras tão boas, das melhores do Reino, podem deixar de dar de comer a quem as trabalhar? 
Ti Manoel: Muito difícil de lhe explicar mestre! Mas vai ser mesmo assim! 
Sapateiro: Mas isso é quando ti Manoel? 
Ti Manoel: Daqui a mais ou menos um século, 100 anos! 
Sapateiro: Ah bom! Daqui até lá não me doa a mim a cabeça! E para onde vai esta gente, para não morrer aqui de fome? 
Ti Manoel: Para terras distantes, onde vão ter empregos para eles e para os filhos! Vocemecê não veio de Seia, aqui para tão longe? 
Sapateiro: Pois vim! Então e há lá terra para todos se governarem?
Ti Manoel: Qual terra? Os que tiverem de sair daqui não vão trabalhar na terra, são outros empregos! Antes vão existir aqui muitas escolas e as pessoas vão todas aprender a ler e a escrever, é essa a sorte delas!
Sapateiro: Aprender a ler e escrever para quê? Isso serve para alguma coisa? Custa-me acreditar nisso! Mas se o ti Manoel diz, alguma coisa vai acontecer! Então e isto aqui desaparece tudo? 
Ti Manoel: Olhe mestre, até parece mentira, mas depois das pessoas abalarem quase todas, há muitas coisa que desaparecem! Pode não acreditar, mas até o rio Guadiana vai desaparecer! 
Sapateiro: Oh valha-me Deus! Para debaixo da terra não? Esconde-se no pego de Santa Catarina?
Ti Manoel: Não! Não é para debaixo da terra! Ns minhas visões, parece que trazem uma parte do mar para o seu lugar, por isso, fica muita água em cima da terra, mas durante muito tempo não vai servir para nada aqui em Capelins! 
Sapateiro: Oh ti Manoel, essa é que me custa acreditar! Mudam o Mar para o lugar do rio Guadiana em Capelins, sem servir para nada? 
Ti Manoel. É muito difícil de explicar mestre! É muito difícil! Posso dizer-lhe que só quase um século depois de estar cá o Mar é que alguém acorda e percebe que está aqui umas das maiores riquezas do mundo, a água, e a partir daí começa a voltar para cá muita gente e muitos que nem são descendentes dos capelinenses!
Sapateiro: Olhe ti Manoel, muita coisa me contou e não sei como se passou o dia, com esta conversa toda, mas está na hora de ir-mos cear (jantar) e acabar o trabalho por hoje! 
Assim acabou o dia de trabalho e de conversa entre o ti Manoel Rodrigues e o sapateiro do Monte do Salgueiro. No dia seguinte, fizeram as botas do ti Manoel, que ficaram uma obra de arte, calçou-as logo para as amaciar, limpou as velhas, passou-lhe o sebo especial e ofereu-as ao sapateiro para ele usar, umas vez que calçavam o mesmo número. O sapateiro não teve palavras para lhe agradecer! Passaram o resto da semana a trabalhar nas encomendas de botas novas e de arranjos. O ti Manoel todos os dias relembrava o sapateiro de que poderia desaparecer numa qualquer madrugada e que estaria para breve, por isso todas as noites se despediam, como se fosse a última! No sábado de aleluia dia 10 de Abril de 1841, o sapateiro levantou-se e foi a correr abrir a porta, ficou muito triste, adivinhou imediatamente que o Santo tinha desaparecido, ainda foi ao cabanão da burra na esperança de se ter deixado dormir, mas estava tudo arrumado e nenhum sinal dele, foi para casa, engoliu um bocado de pão, sem vontade e, por não ter outro remédio começou a trabalhar! Daí a algumas horas começou a ouvir grande barulho de chocalhos a tocar à sua porta e, logo se lembrou que era sábado de aleluia! Quando os rapazes acabaram de tocar em uníssono, veio à porta e atirou-lhe uma mão cheia de passas de figos! Os rapazes maiores atiraram-se de barriga para cima das passas e nem deram lugar aos mais pequenos! Depois de as embolsarem gritaram ao sapateiro: Só isto? O sapateiro que já estava de costas viradas, voltou e disse-lhe: Então o que querem mais? Não é isso que é costume eu dar-lhe? Sim! É! Então e o Santo? Não nos dá nada? Gritaram os rapazes! 
Sapateiro: O Santo já cá não está! 
Rapazes: O quê? Ainda ontem aqui estava! 
Sapateiro: Pois estava! Mas ontem, foi ontem! E virou as costas! 
Rapazes: Mas sabe onde ele está? 
Sapateiro: Não sei! Mas até gostava de saber! Foi-se embora!
Os rapazes perderam o entusiasmo de tocar os chocalhos e abalaram tristes e cabisbaixos! 
Assim, conforme tinha aparecido na madrugada do sábado de aleluia no ano anterior, na taberna da ti Maria Caeira em Capelins de Cima, assim desapareceu na madrugada do sábado de aleluia no ano seguinte, do cabanão do sapateiro do Monte do Salgueiro! 
A ti Maria Caeira continuou a receitar as ervas e chás do Santo, em troca de copos de vinho e aguardente, porque se alguém aparecia a pedir ajuda, ela dizia sempre que não se lembrava da mesinha certa, se quisesse esperar, podia ser que se lembrasse e lembrava-se sempre, depois do cliente beber dois ou três copinhos de vinho ou aguardente! 
O padre Manoel de Santo Inácio Pereira, Pároco de Capelins, continuou a exigir a garrafinha de aguardente à ti Maria, para afinar a voz antes da missa, porque a Igreja de Santo António era muito grande! E o sapateiro do Monte do Salgueiro continuou a fazer as melhores botas das terras de Capelins! Quanto ao ti Manoel Rodrigues, o Santo de Capelins, após o seu desaparecimento naquela madrugada no sábado de aleluia, nunca mais ninguém soube novas dele! 
Houve muita tristeza nas terras de Capelins depois do desaparecimento do ti Manoel Rodrigues, o Santo, e falou-se dele até há poucos anos! 
É caso para dizer: Volte ti Manoel, todos gostávamos de o conhecer!


Fim



segunda-feira, 7 de agosto de 2017

180 - Terras de Capelins

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins

Capelins e a Guerra Civil de Espanha - 1936 - 1939

A Guerra Civil Espanhola foi um conflito bélico deflagrado após um fracassado golpe de estado de um setor do exército, contra o governo legal e democrático da Segunda República Espanhola. A guerra civil teve início após um pronunciamento dos militares rebeldes, entre 17 e 18 de Julho de 1936, e terminou em 01 de Abril de 1939, com a vitória dos militares e a instauração de um regime ditatorial de caráter fascista, liderado pelo general Francisco Franco.
Desde sempre, ouvimos contar os tristes episódios passados junto à fronteira de Portugal e Espanha, ou seja, às portas da Freguesia de Capelins, não só, a tomada de Badajoz e o massacre de grande parte da população dentro da praça de touros, mas também, outras situações de atrocidades entre as várias partes em conflito.
Quanto ao envolvimento na ajuda aos grupos de mulheres e crianças, estas, passavam o rio Guadiana, cheios de fome, vinham pedir esmola, alimentos para eles e para levarem para Espanha, andavam por Montes e Aldeias desta Freguesia e vizinhas, tentando de todas as formas, voltar à sua Terra com alguma comida para os que lá tinham deixado, crianças e idosos. Uma situação muito triste, à qual, a população de Capelins e vizinhos assistiram e, a maioria de alguma forma se envolveram, em termos da prestação de ajuda a essas pessoas.
Ainda conhecemos algumas pessoas que vieram de Espanha, em crianças, onde já não tinham Família próxima e ficaram a residir aqui para sempre, sendo ajudadas pela maioria da população desta Freguesia, como o Sr. Angelo, (Ti Muchaco) veio para Capelins durante a guerra, com 6 anos, aqui ficou, casou e, viveu toda a sua vida, falecendo em Terena já nos anos 80. 
Passaram-se muitos episódios, relacionados com essa guerra civil, as pessoas apareciam cheias de fome mal vestidas, a algumas, sem justificação, tinham-lhe assassinado a familia, e, sem esperança no futuro próximo, com o país destruído, conseguiam esconder os seus desgostos, esquecer o ódio, aparentemente, bem dispostos, cantando e ensinando as suas cantigas e, organizando bailes acompanhados pelas suas cantigas, nas aldeias e Montes por onde passavam, talvez em agradecimento pela forma como eram recebidos e tratados.
Na Freguesia de Capelins e vizinhas, existia muita humanidade, quase todas as pessoas ajudavam os pedintes, mulheres e crianças, até na questão da perseguição pela guarda portuguesa, foi diferente de outras regiões, embora se tivessem de esconder em almiaras de palha, matos e casas de moradores. No entanto, também existiram abusos e aproveitamento por parte de pessoas sem escrúpulos, principalmente, na falsificação de produtos alimentícios que contrabandeavam para Espanha mas, as guerras são a desgraça de muitos, com benefício para alguns.
Nos Concelhos de Mourão, Moura, Reguengos de Monsaraz e outros, a guarda, cumprindo as ordens do governo de Salazar, prendiam as pessoas que passavam a fronteira e, eram encerradas nas praças de touros, depois, levadas em camiões para Espanha, onde muitas, eram assassinadas. Alguns guardas, que faziam serviço na fronteira, nesse tempo, confirmaram a veracidade desses factos.
Na aldeia de Ferreira, apareciam constantemente a Ti Júlia, a Ti Casimira e outras mulheres espanholas, de Cheles, muito simpáticas, faziam soalheira e serões com as moças desse tempo e, a ti Júlia dizia: "tu fazeres malha muito depressa, como a minha filha, a minha filha faz: pum, pum, pum, depois engana-se e faz, terrum, terrum, terrum", por isso, ainda nos dias de hoje, em Ferreira, quando alguma senhora faz malha e se engana, logo dizem as outras: "olha, agora tens que fazer, terrum terrum terrum, como a Ti Júlia.
A Ti Júlia dormia sempre na casa da Bisavó Jacinta, em Capelins de Baixo, não era no quintal, era com ela dentro de casa e, as crianças, algumas já mocitas, dormiam na casa Dias, onde eram bem tratadas, tendo em conta a situação e, os tempos do fascismo. Algumas dessas pessoas, tinham familiares em Espanha, uns presos, outros escondidos e, havia crianças, sem pais, nem irmãos.
É de salientar, a ajuda prestada a essas pessoas, por uma senhora chamada Belmira, do Monte de Santa Luzia e de outras, que coziam pão, propositadamente para lhe matar a fome mas, como a senhora Belmira de Santa Luzia não se conheceu situação igual, ignorava tas regras impostas por Salazar e ajudava todas as vítimas dessa guerra que por lá apareciam.


Devemos ter orgulho nos então moradores, de Capelins e vizinhos, nos nossos antepassados e naqueles que ainda estão entre nós, porque, nos enriqueceram com mais esses valores de solidariedade e altruísmo e, mesmo sobre a ameaça do regime político Salazarista, ajudaram muitas vítimas inocentes dessa guerra, de Cheles e de localidades vizinhas. 



179 - Terras de Capelins
Histórias da Ribeira do Lucifer/Lucefécit
As traições de Lucifer
A nossa Ribeira, foi sempre um obstáculo para quem precisava de a atravessar, fosse por motivo do seu trabalho se desenvolver no outro lado, ou por se deslocarem ao Rosário, Mina do Bugalho, Juromenha ou Elvas.
Quando o Sr. Martins, proprietário da herdade da Defesa de Bobadela (Monte da Travessa), nos anos 60, arrendou a herdade de Santa Luzia, do lado de lá da Ribeira, deparou-se com a dificuldade de, os trabalhadores, tratores e outros veiculos, que precisavam de circular entre as duas herdades, uma de um lado e, a outra do outro, durante o inverno, correrem grande risco na passagem da Ribeira. Assim, teve que suportar os custos do arranjo com pedra e cimento, do porto das Águas Frias de Cima, para onde estava direcionada a estrada de Ferreira - Rosário, já empedrada, essa obra, permitia maior segurança, porque, o caudal da Ribeira distribuía-se ao longo do pavimento de cimento e, perdia a agressividade.
Num dia de inverno, um amigo de Ferreira (não posso mencionar o seu nome, porque, ele, não gosta que se fale nisso), vinha na sua motorizada e, ao chegar ao referido porto, parou para avaliar a corrente, como não achou nada de anormal e conhecia bem o trajeto, meteu-se à água, logo a seguir sentiu um enorme empurrão e, não deu mais conta do que lhe aconteceu, foi levado por uma forte corrente, coisa do demónio, só dando por si, fora do leito da Ribeira e, livre de perigo, apanhando um enorme susto, sendo, a motorizada encontrada mais tarde no fundo de um pego. Mais uma vez, a nossa Ribeira salvou a vida de um Capelinense. 
(caso verídico)

Águas Frias 



178 - Terras de Capelins

Episódios e mitos de Capelins 

Façanhas e morte do Rabilongo


O rabilongo era um dos cães de guarda do Monte Grande, da casa Dias, sede da Defesa de Ferreira, Monte integrado no casario da aldeia de Ferreira de Capelins. Não sei qual a raça, mas era um cão de corpulência média alta, ou assim parecia. em proporção ao nosso físico de crianças da escola primária. O rabilongo, era o terror das crianças e de alguns adultos da aldeia, sendo um dos temas diários das conversas na escola, cada um/a contava o que lhe tinha acontecido ou a alguém que tinha passado em frente ao portão do Monte Grande e, teve que correr à frente do rabilongo, contando sempre as situações de forma a torná-las mais empolgantes e, destacavam-se sempre os mais valentes afirmando que não tinham qualquer medo do rabilongo, afirmando: "logo quando sairmos da escola vou lá passar mesmo rente ao portão sem fugir, logo vêem o que lhe faço se ele aparecer" mas quando chegava a hora da saída nunca estavam disponíveis, ou porque não moravam para aquele lado, ou porque já estavam à sua espera em casa para fazer qualquer tarefa que não podia esperar muito tempo. Aqueles que, eram obrigados a passar em frente ao portão do Monte Grande desenvolveram estratégias para enganar o rabilongo, uma delas era aproximar-se da área da sua investida, muito devagarinho, sem ruído e colados à parede da casa em frente, quando se atingia o limite de proximidade do portão, era correr o mais que podia e, quando o rabilongo aparecia a correr e, a rosnar de forma assustadora, já era tarde para ele que, parecia não estar interessado em apanhar a presa, porque, não tivemos conhecimento que alguma vez mordesse em alguém, apesar do grande movimento de trabalhadores no Monte Grande, talvez o rabilongo soubesse quem pertencia à casa, ou então, era um divertimento para ele, assim, chegou a noite fatal, ao fazer a sua habitual investida, sobre um transeunte que por ali passava, munido de uma espingarda de caça, não gostou da brincadeira e disparou matando-o com um tiro certeiro. Não o vi morto, porque, logo de manhã, veio a Guarda Nacional Republicana, tomou conta da ocorrência e, foi mandado recolher, pelo feitor da Casa Dias, o senhor Louro, para enterrar, ficando ali a marca do sangue. Durante muito tempo, foi o principal tema de conversa na aldeia: quem foi? como foi? porque foi? onde foi? e, mesmo a medo do regime, foi lugar de romaria. Foi assim, o fim do rabilongo, que deixou um vazio, alguma saudade daquela correria e, da oportunidade da rapaziada lá na escola, mostrar a falsa valentia. 

Rafeiro Alentejano


177 - Terras de Capelins

Acontecimentos e Casos, em Capelins

Os Bonecos de Santo Aleixo em Ferreira de Capelins

Um dos acontecimentos mediáticos de grande relevo em Ferreira de Capelins, em meados do século passado, era a chegada e atuação dos Bonecos de Santo Aleixo (Monforte). Algum tempo antes da data prevista da sua chegada, já não se falava noutra coisa, os miúdos, porque não se cansavam de ver vezes sem conta o "auto da criação" e outros, embora, muitos já o soubessem de cor. Os graúdos, também gostavam de ver as marionetas, as danças, ouvir as música e cânticos inerentes. O espetáculo, para os pequenos começava logo no dia da chegada da carroça que transportava as marionetas e o pessoal que as manipulavam, e que tocavam, falavam e cantavam, mas, muitos dos pequenitos pensava-mos que eram os bonecos que faziam isso tudo, as pessoas vinham para os trazer e só para tocar o tambor pelas ruas e pelo alto do Monte do Pinheiro. A atuação dos Bonecos de Santo Aleixo envolvia a maioria dos espetadores, aqueles que se destacavam em alguma coisa, boa ou menos boa, durante o ano. Existia um informador na aldeia que, antes dava a conhecer ao Mestre Salas, as peripécias que tinham acontecido durante o último ano, de interesse da população, desde, namoros mal sucedidos, negócios falhados ou não, situações engraçadas, para algubs. Depois, durante a atuação era anunciado um nome, quando os espetadores se apercebiam quem era o contemplado, começavam logo todos a rir, porque, como já conheciam a situação, sabiam que vinha aí divertimento. Muitas vezes, a pessoa visada não gostava de ser nomeada e, de se rirem, nesse caso, a cena não tinha o fim esperado, mas, quem se apresentava a ver o espetáculo, era porque não se importava, uma vez que não passava de uma brincadeira e muitas vezes colaboravam com motes, para as décimas que eram feitas pelos Mestres, Salas e Chanca, no fim da brincadeira, tinham que dar uma contribuição monetária, mas até chegar ao fim, levavam algum tempo. O Mestre Salas, mandava um rapaz de serviço a buscar a contribuição e, a pessoa enviava beatas de cigarros, outras vezes, um ou dois tostões dentro de uma caixa de fósforos. Assim, enquanto não fosse enviada uma quantia razoável, o Mestre Salas fazia versos de escárnio e maldizer a essa pessoa, o resultado, era tudo a rir. Por fim, quando se entendiam, eram feitos versos ou décimas de grande elogio.
Os Bonecos de Santo Aleixo, atuavam duas noites seguidas em Ferreira de Capelins, no casão do Ti Xico Violantinho (falecido), o recinto ficava cheio as duas noites, daqui, seguiam para Montejuntos, Cabeça de Carneiro e por aí adiante, mas, havia rapazes que os acompanhavam por essas terras, não se cansavam de ver e ouvir a mesma coisa vários dias. Alguns diziam que não andavam atrás dos bonecos, mas, sim, de umas bonecas do elenco, primas ou sobrinhas do Mestre Salas.
Agora, os Bonecos de Santo Aleixo estão no CENDREV - Teatro Garcia de Resende em Évora, mas o Mestre Salas, Mestre Chanca e companhia desse tempo, não estão.

Bonecos de Santo Aleixo 



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