segunda-feira, 20 de novembro de 2017

223 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do cavaleiro fantasma em Capelins 
Nos mês de Abril do ano de 1710, tudo decorria serenamente nas terras de Capelins, até ao dia em que, estava o cozinheiro do Monte da Amadoreira, o Ti Manoel Gomes, a encher os tarros (marmitas feitas em cortiça), com as sopas do jantar (almoço) para levarem aos criados que andavam a trabalhar nas terras desta herdade e, entrou um homem alto, vestido de negro, com a cara tapada por um lenço seguro pelo chapéu, pegou em dois tarros  e pediu ao ti Manoel  para meter dois pães e uns queijos dentro de um saco, ao mesmo tempo que lhe mostrava uma grande faca de dois gumes e, lhe fazia sinal para não gritar, senão era o seu fim, fazendo o gesto que o degolava! O ti Manoel, cumpriu as ordens rapidamente e, o homem saiu da cozinha sem ser visto por mais ninguém! Assim que o ladrão se afastou, o ti Manoel começou a gritar por socorro que o tinham roubado, alguns criados e, os lavradores entraram logo na cozinha para saber o que se tinha passado e, logo a seguir correram por todos os lados em volta do Monte, mas não avistaram ninguém! A partir desse dia, surgiu um grande mistério, não só pela ousadia do ladrão, ao fazer o roubo em pleno dia, mas também por ninguém o conseguir avistar, além do cozinheiro! A notícia depressa se espalhou pelas redondezas, causando muitos comentários, cada um dizia a sua opinião sobre o acontecimento, sempre com ironia! Porém, quando o assunto estava quase esquecido, repetiu-se outro roubo tal e qual como tinha acontecido no anterior, mas no Monte do Roncão, onde igualmente, só o cozinheiro deste Monte viu e ouviu o ladrão! Durante três meses todas as semanas se repetia o roubo, variando pelos Montes, da Amadoreira, Roncão, Talaveira, Negra e Zorra! Os lavradores, os filhos, alguns criados, com cães tentavam perseguir o ladrão, que deixava sempre o cavalo escondido nos matos próximos, seguiam-lhe o rasto, mas nunca o conseguiam avistar, entao mandaram chamar o melhor matador de lobos das terras de Capelins, o ti Miguel Afonço, que morava num cabanão no Bolas, convencidos que o ladrão não lhe escapava, fizeram-lhe o ponto da situação e o que tinham feito, onde tinham encontrado o rasto do cavalo e prometeram-lhe o obro que lhe pagavam por cada lobo, 100 reais brancos, se ele o apanhasse, morto ou vivo! O ti Miguel aceitou o trabalho e só disse: "Amanhã já aqui o têm"! Foi imediatamente com os seus cães farejar o rasto do cavalo e seguiu pelos matos na direção da Ribeira de Lucefécit! Já tinham passado mais de oito dias e sem notícias do ti Miguel e o ladrão continuava a fazer a sua colheita de comida, até que um dia o ti Miguel apareceu, mas a desistir do trabalho, porque não podia ser uma coisa normal, até os cães dele lhe perdiam o rasto, parecia que o cavaleiro desaparecia da face da terra, não era coisa boa e o melhor era desistir! Os lavradores ainda dobraram a oferta para 200 reais brancos, mas ele negou, porque já tinha batido toda a região palmo a palmo e nada! Quando souberam da desistência do ti Miguel, as pessoas ficaram assustadas e, começaram a inventar coisas maléficas, uns diziam que era o diabo à solta, uma alma do outro mundo ou um fantasma! Como é que  só os cozinheiros o conseguiam ver?  As mulheres faziam rezas e mesinhas para o afastar e, os homens armados com paus ferrados, machados e forquilhas,  às horas do jantar e da ceia cercavam os Montes! 
Ao fim de alguns dias, o ladrão desapareceu das terras de Capelins e, os homens diziam que tinha sido com medo deles! Decerto era um homem, porque um fantasma ou alma do outro mundo não precisava de comida, mas as mulheres afirmavam que não era assim e, tinham sido as suas rezas e mesinhas a afastá-lo! 
Um mês depois, chegaram dois fidalgos às terras de Capelins, fazendo perguntas sobre o paradeiro de um homem, do qual davam os sinais descritos pelos cozinheiros que o tinham visto! Foram seguindo as indicações e, chegaram à fala com os respetivos lavradores ofendidos pela ação do ladrão e, sob compromisso que lhe contavam quem era o ladrão e lhe desvendavam o segredo de como ele lhe conseguia escapar, juntaram-nos a todos no Monte da Talaveira! 
Os fidalgos ouviram com atenção a versão dos lavradores e, não conseguiam aguentar o riso, o que não agradou aos lavradores! Isso é mesmo dele, diziam os fidalgos! Mas ele quem? O fantasma? Comentaram os lavradores! 
Fidalgos: Não, não é fantasma nenhum, é o melhor mestre ferreiro e ferrador do reino, o João de Resende! 
Lavradores: Mas os senhores fidalgos vêm aqui fazer pouco de nós? 
Fidalgos: Não, não, viemos com todo o respeito e, pelo que nos contaram temos a certeza que é o mestre! 
Lavradores: Se é um homem, como conseguiu fugir sempre? Nunca ninguém o viu a não ser os cozinheiros e, nem o melhor matador de lobos lhe conseguiu apanhar o rasto! 
Fidalgos: Sim! O mestre é mesmo assim, vocês e o matador de lobos seguiam-lhe o rasto ao contrário! 
Lavradores: Ao contrário? Como assim? Estão outra vez a fazer pouco da gente! 
Fidalgos: Não estamos a fazer pouco, já lhe dissemos que ele é o melhor ferrador do reino, então ele quando quer despistar algum perseguidor ferra o cavalo ao contrário, prega as ferraduras das patas de trás nas da frente e as da frente nas de trás, mas com tal perfeição que não atrapalha o animal e engana o melhor pisteiro, porque quando o cavalo vai para um lado deixa o rasto ao contrário, dando a entender que vai para o outro lado, foi isso que aconteceu! Vocês seguiam o rasto do cavalo quando ele se aproximava dos Montes e, nunca o da fuga! 
Lavradores: Essa agora! Grande malandro! Ainda o vamos pendurar de um chaparro! Fidalgos: Nós pedimos desculpa e pagamos tudo o que ele roubou! 
Lavradores: Até podem pagar tudo, mas a nossa honra não se vende! 
Fidalgos: Por isso pedimos desculpa e vamos ver se nos entendemos, nós viemos procurá-lo com a benção do senhor nosso rei D. João o quinto e, ele não vai gostar dessa vossa ameaça, compreendam que o mestre fez isso por sobrevivência! 
Lavradores: Mas, porque motivo teve ele de vir sobreviver para aqui? 
Fidalgos: Ele veio ter aqui, porque teve de fugir de Évora, o destino era Espanha, mas nós dissemos-lhe para esperar aqui, até o senhor nosso rei decidir se lhe dava ou não o perdão!
Lavradores: Perdão de quê? E porque teve de fugir de Évora? 
Fidalgos: Porque, houve lá uma zaragata, sofremos uma emboscada de um fidalgo, que quase nos matou e foi o mestre que nos salvou, mas para nos defender matou o fidalgo sem querer e quem mata um fidalgo, não se livra da forca, por isso teve de fugir e deixou lá a mulher e os filhos, nós pedimos justiça ao nosso rei e contamos como tudo se passou, mas ele não o pode perdoar, mas deu autorização para ele voltar de Espanha ao nosso reino e ficar na Vila de Arronches com a família e continuar lá o seu trabalho sem ser incomodado! 
Quando o lavradores ouviram o que os fidalgos lhe contaram, disseram que não queriam receber nada do roubo da comida e estava tudo esquecido, até foi pena não saberem disso senão tinham-se dado guarida e não se tinha passado esta situação! 
Depois de ficar tudo esclarecido os fidalgos agradeceram aos lavradores e seguiram pelo rio Guadiana acima na direção do porto da Estacada para passarem para o outro lado do rio Guadiana porque, a partir dali iam por São Bento da Contenda e talvez aí conseguissem saber alguma notícia do mestre! Os fidalgos chegaram à dita aldeia, nesse tempo  portuguesa, mas não conseguiram saber nada e seguiram até Almendralejo, onde não foi preciso fazer muitas perguntas, formam logo encaminhados para a oficina do mestre! Depois de grandes cumprimentos, deram-lhe notícias da mulher e dos filhos e comunicaram-lhe que quando quisesse podia partir para Arronches com eles, para durante uns anos, até o caso da morte do fidalgo ficar esquecido e ficava nessa Vila com a família, onde teria a sua oficina e, não seria incomodado! O mestre ficou muito contente e, no dia seguinte voltou ao reino de Portugal, instalou a sua oficina na Vila de Arronches e, nunca mais voltou a Évora! 
Alguns lavradores, ainda foram a Arronches, só para o conhecer pessoalmente, relembraram o que se tinha passado, riram muito e ficaram muito amigos, o cavaleiro fantasma, foi convidado a voltar às terras de Capelins, mas a visita nunca se concretizou.      




domingo, 19 de novembro de 2017

222 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Gastronomia de Capelins 
O assado de borrego
O assado de borrego era/é um prato que fazia/faz parte da gastronomia das terras de Capelins, era/é preparado nos dias de festa, nos fornos aquecidos a lenha (atualmente já raramente)! Após a cozedura do pão, o forno ainda ficava quente e, o borralho (brasas envolvidas em cinza quente) que ficava encostado a um dos lados do forno era remexido aumentando o calor que ainda dava para assar peixe em tabuleiros de lata, assim como, borrego ou cabrito em assadeiras de barro.

Borrego ou cabrito assado no forno de lenha: 


Ingredientes:
  • 1 kg de carne de borrego ou cabrito
  • Batatas q.b.
  • 1 cebola grande
  • 4 dentes de alho
  • banha de porco q.b.
  • 2 folhas de louro
  • 1 dl de vinho branco
  • Sal (já está no tempero da carne)

    Preparação:
    1. Arranje a carne com o cuidado de lhe retirar os sebos e o bedum!
    2. Tempere a carne com sal, com os alhos picados,e regue com o vinho branco, adicione o louro e deixe a marinar de um dia para o outro!
    3. Coloque a carne numa assadeira de barro de ir ao forno de lenha e adicione 2/3 colheres de banha de porco e a cebola cortada em gomos! 
    4. Leve ao forno de lenha para assar lentamente!
    5. A meio da cozedura junte batatinhas!
    6. Vá vigiando e regando o assado com o molho do mesmo! 
    7. Conforme o aquecimento do forno, assim será o tempo de o retirar, mas, um pouco antes de duas horas!


    sábado, 18 de novembro de 2017

    221 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    A Casa do Infantado instalou-se na Vila de Ferreira (atual Freguesia de Capelins) no ano de 1698 e, por consequência, logo a seguir verificou-se grande movimento de povoadores para estas terras que, decerto começaram a ser exploradas mais intensivamente, necessitando de muita mão de obra e, também devido aos privilégios concedidos! Assim, podemos verificar nos Assentos Paroquiais da Paróquia de Santo António (Capelins), que no ano de 1717, há exatamente 300 anos, foram realizados pelo Pároco Miguel Gonçalves Gallego, 4 matrimónios na Igreja de Santo António, nas seguintes datas e nubentes:

    Dia 15 de Maio de 1717
    Domingos Gliz, solteiro, com 
    Izabel Roíz, (viúva de Manoel Nunes)
    Ele - natural da Freguesia de São João - Sabugal - Guarda
    Ela - natural da Freguesia de Santo António

    Dia 01 de Agosto de 1717
    João Dias, solteiro, com 
    Joanna de Campos, solteira 
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António 

    Dia 17 de Julho de 1717 
    António Clemente, solteiro, com 
    Izabel Gomes, solteira
    Ele - natural de Celorico da Beira - Guarda
    Ela - natural da Freguesia de Santo António 

    Dia 04 de Outubro de 1717 
    Pedro Afonço, solteiro 
    Maria da Cruz, solteira
    Ele - natural da Freguesia de São Tiago, Monsaraz 
    Ela - natural da Freguesia de Santo António. 

    Na constituição dos quatro casais, podemos verificar que três elementos do sexo masculino eram migrantes, vindo alguns de localidades muito distantes destas terras, que por aqui ficaram e, muito contribuíram para a identidade do povo capelinense. 

    Casamentos de 1717 - 300 anos 


      



    quinta-feira, 16 de novembro de 2017

    220 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montes Juntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    Casamentos realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins em 1835 
    Após terminar a guerra civil portuguesa, de 1828 a 1834, a Casa do Infantado foi extinta e,  a Vila de Ferreira (atual Freguesia de Capelins) voltou à Coroa, foi dividida em pequenas herdades e propriedades e vendidas aos rendeiros e, a outros interessados, muitos vieram de outras localidades vizinhas, de Cheles e de outras distantes, verificando-se uma grande mudança em termos económicos e sociais na Freguesia de Capelins a partir desse ano, ainda pouco percetível no ano de 1835, talvez por isso, nesse mesmo ano foram registados apenas três casamentos, realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins, os quais passamos a descrever, datas, nubentes e Párocos: 

    Dia 22 de Julho de 1835 
    João José, solteiro, casou com 
    Antónia Maria, (viúva de Luis António)         
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins 
    Pároco: Frei Bernardino

    Dia  11 de Outubro de 1835 
    Salvador Gonçalves, (viúvo de Maria da Conceição), casou com 
    Justina Maria, (viúva de José Diogo que faleceu no ataque militar no Porto, na guerra civil de 1828/1834)
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins  
    Pároco: António Laurentino Sopa Godinho 

    Dia 25 de Outubro de 1835 
    José Joaquim Rasteiro, (viúvo de Maria Antónia), casou com 
    Francisca Ignácia, solteira 
    Parentes em 2º grau 
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins 
    Pároco; António Laurentino Sopa Godinho 

    Como não existe história sem a intervenção de pessoas, neste caso, apresentamos e homenageamos os capelinenses que fazem parte da história das terras de Capelins e, casaram na Igreja de Santo António de Capelins no ano de 1835, há 182 anos.

    Casamentos em 1835



    quarta-feira, 15 de novembro de 2017

    219 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    Os matrimónios realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins no ano de 1817 
    Ao consultarmos os registos Paroquiais da Paróquia de Santo António de Capelins, podemos constatar que no ano de 1817 (há 200 anos), foram realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins seis casamentos, pelo Pároco Marcos Gomes Pouzão, cujas datas e nubentes foram os seguintes:

    Em 12 de Fevereiro de 1817:
    João Ramalho - Lavrador da herdade do Seixo, com,
    Dª Maria da Conceição (viúva do capitão Manoel Jorge) 
    Ele - natural da Freguesia de Nossa Senhora das Neves das Vidigueiras - Monsaraz 
    Ela - natural da Freguesia de Santo António de Capelins

    Em 16 de Fevereiro de 1817
    Manoel Rosado, com
    Clemencia de Jesus (Viúva de António Martins Godinho) 

    Em 4 de Maio de 1817 
    Francisco Marques, com
    Micaella Maria 
    Ele - natural da Freguesia de Santo António de Capelins 
    Ela - natural da Freguesia de São Marcos do Campo 

    Em 17 de Agosto de 1817 
    Manoel Martins, com 
    Roza Maria 
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins 

    Em 28 de Setembro de 1817 
    António Joaquim, com 
    Maria Baptista 
    Ele - natural da Villa de Cheles 
    Ela - natural de Santo António de Capelins 

    Em 12 de Novembro de 1817 
    José Marques, com 
    Maria Francisca 
    Ele - natural da Freguesia de Santiago de Terena 
    Ela - natural da Freguesia de Santo António de Capelins 

    Foram estas pessoas, nossos antepassados, que casaram em Santo António de Capelins no ano de 1817, há dois séculos, que contribuíram para a história das terras de Capelins! 

    Casamentos em 1817




    domingo, 12 de novembro de 2017

    218 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capleins 
    A Construção da Identidade do Povo Capelinense
    Após vários anos de pesquisas sobre o passado das gentes e das terras de Capelins, concluímos que, a Vila Defesa de Ferreira existiu desde 1314 até 1836, podemos confirmar em vários documentos e, também nas Memórias Paroquias de 1758, escritas pelo Pároco Manoel Ramalho Madeira, o qual escreveu que, nessa data, ainda existia a Vila de Ferreira, a qual era uma Defesa, logo Vila Defesa de Ferreira, cujo dono era o senhor Infante (Casa ou Estado do Infantado)! Assim, a Vila Defesa de Ferreira era o espaço geográfico da atual Freguesia de Capelins, exceto Faleiros e as herdades de Nabais e Sina e, a Vila ou Lugar de Ferreira, como é designada em vários documentos de chancelarias reais, ficava junto à Ermida de Nossa Senhora das Neves e, no alto em frente à dita Ermida, até ao Monte de Ferreira! Nesse alto podemos ver o silo comunitário, atualmente tapado com lenha, é semelhante a um pote de grandes dimensões, onde guardavam cereais de reserva e esconderijo, para abastecimento da comunidade da dita Vila!
    Em 1799/1800 ainda existiam 32 casas de habitação junto à Ermida de Nossa Senhora das Neves! 
    É por isso que, é necessário construir a identidade de um povo com mais de 700 anos de história e, como o podemos fazer?
    Essencialmente, sabendo quem foram, como viviam em termos económicos e sociais, os lugares onde viviam, ou seja, a sua história, lendas, costumes e tradições! Será esse conjunto de sementes que constitui a identidade do povo capelinense! 
    Entre 1262 e 1314, estas terras faziam parte da herdade de Terena, mas já muito antes do domínio cristão, desde o período do Paleolítico, existiram vários povoados em todo o vale do rio Guadiana, com maior incidência entre o Bolas e Cinza e, entre a Moinhola e Gato e, da Ribeira do Lucefécit, em Castelinhos, Roncão e Azenhas Del-Rei, assim como, noutros lugares desta Freguesia!
    A Freguesia de Capelins ou Paróquia, em analogia com outras, parece-nos existir desde 1505, mas até cerca de 1790 designava-se de, Santo António de Terena!


    Lugar de Ferreira Medieval 


    quinta-feira, 9 de novembro de 2017

    217 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    A lenda das bodas do Manoel Gomes 
    O Manoel Gomes era um rapaz em idade casadoira, morava em Capelins de Cima e, trabalhava como jornaleiro na herdade Defesa de Ferreira! Como todas as família nessa época, também a dele era muito numerosa, tinha cinco irmãos e muitos primos, que moravam pelos Montes e terras de Capelins! No ano de 1898, por coincidência, os dois primos mais chegados, marcaram o casamento para o mesmo dia, sendo o Manoel convidado por ambos! O Manoel ganhou um dilema, podia assistir ao enlace dos noivos, porque combinaram com o Pároco João Manuel Queimado, de Santo António de Capelins, casarem ao mesmo tempo, para nenhum ter asar na vida, porque dizia-se que, quem casava no mesmo dia e na mesma Igreja, o último a casar tinha azar na vida, o problema dele era, como conseguia estar presente quase ao mesmo tempo nas duas bodas, porque, a do primo José Domingos era no Monte da Vinha e, a do primo Joaquim António era no Monte da Talaveira! Ainda faltava mais de um mês, por isso, tinha esperança de encontrar uma solução, podia ir primeiro a uma e, depois de encher a barriga ia para a outra, mas já só apanhava restos, porque com a fome que havia nesses tempos, depressa desaparecia tudo! O Manoel cismava sobre a forma de encurtar o tempo que levava a ir de uma boda à outra, mas não lhe ocorria nada! Já sabia as ementas, qual delas a melhor! Na boda do Joaquim António matavam um bácoro e na do José Domingos matavam uma ovelha malata! Quando é que um pobre comia um bocadinho de carne nesse tempo! Como se dava muito bem com o ti António Dias, companheiro de trabalho, pediu-lhe ajuda, contou-lhe o que estava em causa e, que não sabia como resolver a situação! 
    Ti António: Oh Manoel, depois de encheres bem a barriga num lado, já nem te vai apetecer a comida do outro, deixa-te disso! 
    Manoel: Espere lá ti António! Eu vou dar a prenda igual aos dois, tenho que comer igual nos dois! E duas horas a andar de um Monte para o outro, vai dar-me fome e, depois chego lá, vou comer o quê? Já nem ossos deve haver! 
    Ti António: És capaz de ter razão, está ai um caso bicudo! Tu precisavas de um transporte que te ajudasse a encurtar essas duas horas, assim, chegavas mais cedo e ainda apanhavas alguma coisa! Olha! Lembrei-me agora, o que te safava era um cavalo, sempre a trote, em pouco mais de meia hora ias de um Monte até ao outro! 
    Manoel: Pois era! Mas onde é que eu arranjo um cavalo? Isso é coisa dos ricos e não são todos! Eu tenho o burro do meu pai, mas não me adianta muito!
    Ti António: Não te adianta muito? Se o treinares a correr, só que seja metade do caminho, pelas Areias, Terraço, Ramalha, Zorra, fazias isso numa hora! 
    Manoel: Olhe que não está mal pensado! Mas tinha de o treinar à noite, depois da ceia, antes de me deitar! 
    Ti António: E porque não? Já sabes que não podes apertar logo com o animal, senão rebenta, por isso começas com meia hora, ou menos e, depois vais apertando, não é preciso sempre a correr e, no fim não te esqueças de lhe dar água e tratar bem dele! 
    Manoel: Obrigado ti António, boa ajuda, é mesmo isso que vou fazer, já amanhã! 
    O Manoel começou a treinar o burro do pai quase todas as noites, saia de Capelins de Cima e, umas noites ia para o Terraço e Areias e outras para a Ramalha até à Zorra, para o burro se habituar bem às estradas e corria grandes distâncias, já imaginava a situação resolvida, assim, podia estar nas duas bodas quase ao mesmo tempo, enchia bem a barriga numa e abalava logo para a outra, chegando a tempo de ainda haver comida e também acompanhar os dois estimados primos! 
    Os treinos do burro do pai do Manoel corriam cada vez melhor, até à noite da véspera das bodas que eram num Domingo! Na noite de sábado, era o último treino e, o Manoel fez o percurso igual ao que pensava fazer no dia seguinte, ou seja, do Monte da Vinha para o Monte da Talaveira, saiu de perto daquele Monte e obrigou o burro a correr o mais que podia, o animal já ia cansado, mas o Manoel exigia mais, até que ao passar o ribeiro do Terraço onde havia um barranco, o burro com o cansaço não conseguiu saltar e caiu lá dentro, sendo o Manoel despedido para cima de uns penedos, onde ficou desmaiado e caído até que um seareiro que se tinha demorado numa courela no Baldio viu o burro sozinho e começou a ouvir o Manoel a gemer, foi encontrá-lo sem ser capaz de se levantar, meteu-o na carroça e foi levá-lo a casa! O rapaz estava muito mal, foram buscar um curandeiro a Terena que tratou dele e disse-lhe que era um caso muito sério, porque tinha costelas partidas e alguma podia ter perfurado os pulmões, mas talvez não, assim, ficava bem ligado e, sem se poder mexer da cama pelo menos quinze dias e depois levava mais de três meses para poder trabalhar, mas o que era preciso era ele ficar bem! 
    No Domingo seguinte, realizaram-se os casamentos dos primos e o Manoel ficou na cama e não comeu nada do bácoro nem da ovelha, o treino do burro do pai, tinha sido um esforço inglório, mas ainda tinha tido muita sorte,  porque podia ter morrido! 
    O Manoel queria estar nas duas bodas e ficou sem nenhuma!
    Três meses depois do acidente, foi trabalhar, ainda com muita dificuldade, mas acabou por ficar bem! 
    É caso para dizer: Quem tudo quer, tudo perde". 






    223 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos  História, lendas e tradições das terras de Capelins  A lenda d...