segunda-feira, 20 de novembro de 2017

223 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do cavaleiro fantasma em Capelins 
Nos mês de Abril do ano de 1710, tudo decorria serenamente nas terras de Capelins, até ao dia em que, estava o cozinheiro do Monte da Amadoreira, o Ti Manoel Gomes, a encher os tarros (marmitas feitas em cortiça), com as sopas do jantar (almoço) para levarem aos criados que andavam a trabalhar nas terras desta herdade e, entrou um homem alto, vestido de negro, com a cara tapada por um lenço seguro pelo chapéu, pegou em dois tarros  e pediu ao ti Manoel  para meter dois pães e uns queijos dentro de um saco, ao mesmo tempo que lhe mostrava uma grande faca de dois gumes e, lhe fazia sinal para não gritar, senão era o seu fim, fazendo o gesto que o degolava! O ti Manoel, cumpriu as ordens rapidamente e, o homem saiu da cozinha sem ser visto por mais ninguém! Assim que o ladrão se afastou, o ti Manoel começou a gritar por socorro que o tinham roubado, alguns criados e, os lavradores entraram logo na cozinha para saber o que se tinha passado e, logo a seguir correram por todos os lados em volta do Monte, mas não avistaram ninguém! A partir desse dia, surgiu um grande mistério, não só pela ousadia do ladrão, ao fazer o roubo em pleno dia, mas também por ninguém o conseguir avistar, além do cozinheiro! A notícia depressa se espalhou pelas redondezas, causando muitos comentários, cada um dizia a sua opinião sobre o acontecimento, sempre com ironia! Porém, quando o assunto estava quase esquecido, repetiu-se outro roubo tal e qual como tinha acontecido no anterior, mas no Monte do Roncão, onde igualmente, só o cozinheiro deste Monte viu e ouviu o ladrão! Durante três meses todas as semanas se repetia o roubo, variando pelos Montes, da Amadoreira, Roncão, Talaveira, Negra e Zorra! Os lavradores, os filhos, alguns criados, com cães tentavam perseguir o ladrão, que deixava sempre o cavalo escondido nos matos próximos, seguiam-lhe o rasto, mas nunca o conseguiam avistar, entao mandaram chamar o melhor matador de lobos das terras de Capelins, o ti Miguel Afonço, que morava num cabanão no Bolas, convencidos que o ladrão não lhe escapava, fizeram-lhe o ponto da situação e o que tinham feito, onde tinham encontrado o rasto do cavalo e prometeram-lhe o obro que lhe pagavam por cada lobo, 100 reais brancos, se ele o apanhasse, morto ou vivo! O ti Miguel aceitou o trabalho e só disse: "Amanhã já aqui o têm"! Foi imediatamente com os seus cães farejar o rasto do cavalo e seguiu pelos matos na direção da Ribeira de Lucefécit! Já tinham passado mais de oito dias e sem notícias do ti Miguel e o ladrão continuava a fazer a sua colheita de comida, até que um dia o ti Miguel apareceu, mas a desistir do trabalho, porque não podia ser uma coisa normal, até os cães dele lhe perdiam o rasto, parecia que o cavaleiro desaparecia da face da terra, não era coisa boa e o melhor era desistir! Os lavradores ainda dobraram a oferta para 200 reais brancos, mas ele negou, porque já tinha batido toda a região palmo a palmo e nada! Quando souberam da desistência do ti Miguel, as pessoas ficaram assustadas e, começaram a inventar coisas maléficas, uns diziam que era o diabo à solta, uma alma do outro mundo ou um fantasma! Como é que  só os cozinheiros o conseguiam ver?  As mulheres faziam rezas e mesinhas para o afastar e, os homens armados com paus ferrados, machados e forquilhas,  às horas do jantar e da ceia cercavam os Montes! 
Ao fim de alguns dias, o ladrão desapareceu das terras de Capelins e, os homens diziam que tinha sido com medo deles! Decerto era um homem, porque um fantasma ou alma do outro mundo não precisava de comida, mas as mulheres afirmavam que não era assim e, tinham sido as suas rezas e mesinhas a afastá-lo! 
Um mês depois, chegaram dois fidalgos às terras de Capelins, fazendo perguntas sobre o paradeiro de um homem, do qual davam os sinais descritos pelos cozinheiros que o tinham visto! Foram seguindo as indicações e, chegaram à fala com os respetivos lavradores ofendidos pela ação do ladrão e, sob compromisso que lhe contavam quem era o ladrão e lhe desvendavam o segredo de como ele lhe conseguia escapar, juntaram-nos a todos no Monte da Talaveira! 
Os fidalgos ouviram com atenção a versão dos lavradores e, não conseguiam aguentar o riso, o que não agradou aos lavradores! Isso é mesmo dele, diziam os fidalgos! Mas ele quem? O fantasma? Comentaram os lavradores! 
Fidalgos: Não, não é fantasma nenhum, é o melhor mestre ferreiro e ferrador do reino, o João de Resende! 
Lavradores: Mas os senhores fidalgos vêm aqui fazer pouco de nós? 
Fidalgos: Não, não, viemos com todo o respeito e, pelo que nos contaram temos a certeza que é o mestre! 
Lavradores: Se é um homem, como conseguiu fugir sempre? Nunca ninguém o viu a não ser os cozinheiros e, nem o melhor matador de lobos lhe conseguiu apanhar o rasto! 
Fidalgos: Sim! O mestre é mesmo assim, vocês e o matador de lobos seguiam-lhe o rasto ao contrário! 
Lavradores: Ao contrário? Como assim? Estão outra vez a fazer pouco da gente! 
Fidalgos: Não estamos a fazer pouco, já lhe dissemos que ele é o melhor ferrador do reino, então ele quando quer despistar algum perseguidor ferra o cavalo ao contrário, prega as ferraduras das patas de trás nas da frente e as da frente nas de trás, mas com tal perfeição que não atrapalha o animal e engana o melhor pisteiro, porque quando o cavalo vai para um lado deixa o rasto ao contrário, dando a entender que vai para o outro lado, foi isso que aconteceu! Vocês seguiam o rasto do cavalo quando ele se aproximava dos Montes e, nunca o da fuga! 
Lavradores: Essa agora! Grande malandro! Ainda o vamos pendurar de um chaparro! Fidalgos: Nós pedimos desculpa e pagamos tudo o que ele roubou! 
Lavradores: Até podem pagar tudo, mas a nossa honra não se vende! 
Fidalgos: Por isso pedimos desculpa e vamos ver se nos entendemos, nós viemos procurá-lo com a benção do senhor nosso rei D. João o quinto e, ele não vai gostar dessa vossa ameaça, compreendam que o mestre fez isso por sobrevivência! 
Lavradores: Mas, porque motivo teve ele de vir sobreviver para aqui? 
Fidalgos: Ele veio ter aqui, porque teve de fugir de Évora, o destino era Espanha, mas nós dissemos-lhe para esperar aqui, até o senhor nosso rei decidir se lhe dava ou não o perdão!
Lavradores: Perdão de quê? E porque teve de fugir de Évora? 
Fidalgos: Porque, houve lá uma zaragata, sofremos uma emboscada de um fidalgo, que quase nos matou e foi o mestre que nos salvou, mas para nos defender matou o fidalgo sem querer e quem mata um fidalgo, não se livra da forca, por isso teve de fugir e deixou lá a mulher e os filhos, nós pedimos justiça ao nosso rei e contamos como tudo se passou, mas ele não o pode perdoar, mas deu autorização para ele voltar de Espanha ao nosso reino e ficar na Vila de Arronches com a família e continuar lá o seu trabalho sem ser incomodado! 
Quando o lavradores ouviram o que os fidalgos lhe contaram, disseram que não queriam receber nada do roubo da comida e estava tudo esquecido, até foi pena não saberem disso senão tinham-se dado guarida e não se tinha passado esta situação! 
Depois de ficar tudo esclarecido os fidalgos agradeceram aos lavradores e seguiram pelo rio Guadiana acima na direção do porto da Estacada para passarem para o outro lado do rio Guadiana porque, a partir dali iam por São Bento da Contenda e talvez aí conseguissem saber alguma notícia do mestre! Os fidalgos chegaram à dita aldeia, nesse tempo  portuguesa, mas não conseguiram saber nada e seguiram até Almendralejo, onde não foi preciso fazer muitas perguntas, formam logo encaminhados para a oficina do mestre! Depois de grandes cumprimentos, deram-lhe notícias da mulher e dos filhos e comunicaram-lhe que quando quisesse podia partir para Arronches com eles, para durante uns anos, até o caso da morte do fidalgo ficar esquecido e ficava nessa Vila com a família, onde teria a sua oficina e, não seria incomodado! O mestre ficou muito contente e, no dia seguinte voltou ao reino de Portugal, instalou a sua oficina na Vila de Arronches e, nunca mais voltou a Évora! 
Alguns lavradores, ainda foram a Arronches, só para o conhecer pessoalmente, relembraram o que se tinha passado, riram muito e ficaram muito amigos, o cavaleiro fantasma, foi convidado a voltar às terras de Capelins, mas a visita nunca se concretizou.      




domingo, 19 de novembro de 2017

222 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Gastronomia de Capelins 
O assado de borrego
O assado de borrego era/é um prato que fazia/faz parte da gastronomia das terras de Capelins, era/é preparado nos dias de festa, nos fornos aquecidos a lenha (atualmente já raramente)! Após a cozedura do pão, o forno ainda ficava quente e, o borralho (brasas envolvidas em cinza quente) que ficava encostado a um dos lados do forno era remexido aumentando o calor que ainda dava para assar peixe em tabuleiros de lata, assim como, borrego ou cabrito em assadeiras de barro.

Borrego ou cabrito assado no forno de lenha: 


Ingredientes:
  • 1 kg de carne de borrego ou cabrito
  • Batatas q.b.
  • 1 cebola grande
  • 4 dentes de alho
  • banha de porco q.b.
  • 2 folhas de louro
  • 1 dl de vinho branco
  • Sal (já está no tempero da carne)

    Preparação:
    1. Arranje a carne com o cuidado de lhe retirar os sebos e o bedum!
    2. Tempere a carne com sal, com os alhos picados,e regue com o vinho branco, adicione o louro e deixe a marinar de um dia para o outro!
    3. Coloque a carne numa assadeira de barro de ir ao forno de lenha e adicione 2/3 colheres de banha de porco e a cebola cortada em gomos! 
    4. Leve ao forno de lenha para assar lentamente!
    5. A meio da cozedura junte batatinhas!
    6. Vá vigiando e regando o assado com o molho do mesmo! 
    7. Conforme o aquecimento do forno, assim será o tempo de o retirar, mas, um pouco antes de duas horas!


    sábado, 18 de novembro de 2017

    221 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    A Casa do Infantado instalou-se na Vila de Ferreira (atual Freguesia de Capelins) no ano de 1698 e, por consequência, logo a seguir verificou-se grande movimento de povoadores para estas terras que, decerto começaram a ser exploradas mais intensivamente, necessitando de muita mão de obra e, também devido aos privilégios concedidos! Assim, podemos verificar nos Assentos Paroquiais da Paróquia de Santo António (Capelins), que no ano de 1717, há exatamente 300 anos, foram realizados pelo Pároco Miguel Gonçalves Gallego, 4 matrimónios na Igreja de Santo António, nas seguintes datas e nubentes:

    Dia 15 de Maio de 1717
    Domingos Gliz, solteiro, com 
    Izabel Roíz, (viúva de Manoel Nunes)
    Ele - natural da Freguesia de São João - Sabugal - Guarda
    Ela - natural da Freguesia de Santo António

    Dia 01 de Agosto de 1717
    João Dias, solteiro, com 
    Joanna de Campos, solteira 
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António 

    Dia 17 de Julho de 1717 
    António Clemente, solteiro, com 
    Izabel Gomes, solteira
    Ele - natural de Celorico da Beira - Guarda
    Ela - natural da Freguesia de Santo António 

    Dia 04 de Outubro de 1717 
    Pedro Afonço, solteiro 
    Maria da Cruz, solteira
    Ele - natural da Freguesia de São Tiago, Monsaraz 
    Ela - natural da Freguesia de Santo António. 

    Na constituição dos quatro casais, podemos verificar que três elementos do sexo masculino eram migrantes, vindo alguns de localidades muito distantes destas terras, que por aqui ficaram e, muito contribuíram para a identidade do povo capelinense. 

    Casamentos de 1717 - 300 anos 


      



    quinta-feira, 16 de novembro de 2017

    220 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montes Juntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    Casamentos realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins em 1835 
    Após terminar a guerra civil portuguesa, de 1828 a 1834, a Casa do Infantado foi extinta e,  a Vila de Ferreira (atual Freguesia de Capelins) voltou à Coroa, foi dividida em pequenas herdades e propriedades e vendidas aos rendeiros e, a outros interessados, muitos vieram de outras localidades vizinhas, de Cheles e de outras distantes, verificando-se uma grande mudança em termos económicos e sociais na Freguesia de Capelins a partir desse ano, ainda pouco percetível no ano de 1835, talvez por isso, nesse mesmo ano foram registados apenas três casamentos, realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins, os quais passamos a descrever, datas, nubentes e Párocos: 

    Dia 22 de Julho de 1835 
    João José, solteiro, casou com 
    Antónia Maria, (viúva de Luis António)         
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins 
    Pároco: Frei Bernardino

    Dia  11 de Outubro de 1835 
    Salvador Gonçalves, (viúvo de Maria da Conceição), casou com 
    Justina Maria, (viúva de José Diogo que faleceu no ataque militar no Porto, na guerra civil de 1828/1834)
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins  
    Pároco: António Laurentino Sopa Godinho 

    Dia 25 de Outubro de 1835 
    José Joaquim Rasteiro, (viúvo de Maria Antónia), casou com 
    Francisca Ignácia, solteira 
    Parentes em 2º grau 
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins 
    Pároco; António Laurentino Sopa Godinho 

    Como não existe história sem a intervenção de pessoas, neste caso, apresentamos e homenageamos os capelinenses que fazem parte da história das terras de Capelins e, casaram na Igreja de Santo António de Capelins no ano de 1835, há 182 anos.

    Casamentos em 1835



    quarta-feira, 15 de novembro de 2017

    219 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    Os matrimónios realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins no ano de 1817 
    Ao consultarmos os registos Paroquiais da Paróquia de Santo António de Capelins, podemos constatar que no ano de 1817 (há 200 anos), foram realizados na Igreja Paroquial de Santo António de Capelins seis casamentos, pelo Pároco Marcos Gomes Pouzão, cujas datas e nubentes foram os seguintes:

    Em 12 de Fevereiro de 1817:
    João Ramalho - Lavrador da herdade do Seixo, com,
    Dª Maria da Conceição (viúva do capitão Manoel Jorge) 
    Ele - natural da Freguesia de Nossa Senhora das Neves das Vidigueiras - Monsaraz 
    Ela - natural da Freguesia de Santo António de Capelins

    Em 16 de Fevereiro de 1817
    Manoel Rosado, com
    Clemencia de Jesus (Viúva de António Martins Godinho) 

    Em 4 de Maio de 1817 
    Francisco Marques, com
    Micaella Maria 
    Ele - natural da Freguesia de Santo António de Capelins 
    Ela - natural da Freguesia de São Marcos do Campo 

    Em 17 de Agosto de 1817 
    Manoel Martins, com 
    Roza Maria 
    Ambos naturais da Freguesia de Santo António de Capelins 

    Em 28 de Setembro de 1817 
    António Joaquim, com 
    Maria Baptista 
    Ele - natural da Villa de Cheles 
    Ela - natural de Santo António de Capelins 

    Em 12 de Novembro de 1817 
    José Marques, com 
    Maria Francisca 
    Ele - natural da Freguesia de Santiago de Terena 
    Ela - natural da Freguesia de Santo António de Capelins 

    Foram estas pessoas, nossos antepassados, que casaram em Santo António de Capelins no ano de 1817, há dois séculos, que contribuíram para a história das terras de Capelins! 

    Casamentos em 1817




    domingo, 12 de novembro de 2017

    218 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capleins 
    A Construção da Identidade do Povo Capelinense
    Após vários anos de pesquisas sobre o passado das gentes e das terras de Capelins, concluímos que, a Vila Defesa de Ferreira existiu desde 1314 até 1836, podemos confirmar em vários documentos e, também nas Memórias Paroquias de 1758, escritas pelo Pároco Manoel Ramalho Madeira, o qual escreveu que, nessa data, ainda existia a Vila de Ferreira, a qual era uma Defesa, logo Vila Defesa de Ferreira, cujo dono era o senhor Infante (Casa ou Estado do Infantado)! Assim, a Vila Defesa de Ferreira era o espaço geográfico da atual Freguesia de Capelins, exceto Faleiros e as herdades de Nabais e Sina e, a Vila ou Lugar de Ferreira, como é designada em vários documentos de chancelarias reais, ficava junto à Ermida de Nossa Senhora das Neves e, no alto em frente à dita Ermida, até ao Monte de Ferreira! Nesse alto podemos ver o silo comunitário, atualmente tapado com lenha, é semelhante a um pote de grandes dimensões, onde guardavam cereais de reserva e esconderijo, para abastecimento da comunidade da dita Vila!
    Em 1799/1800 ainda existiam 32 casas de habitação junto à Ermida de Nossa Senhora das Neves! 
    É por isso que, é necessário construir a identidade de um povo com mais de 700 anos de história e, como o podemos fazer?
    Essencialmente, sabendo quem foram, como viviam em termos económicos e sociais, os lugares onde viviam, ou seja, a sua história, lendas, costumes e tradições! Será esse conjunto de sementes que constitui a identidade do povo capelinense! 
    Entre 1262 e 1314, estas terras faziam parte da herdade de Terena, mas já muito antes do domínio cristão, desde o período do Paleolítico, existiram vários povoados em todo o vale do rio Guadiana, com maior incidência entre o Bolas e Cinza e, entre a Moinhola e Gato e, da Ribeira do Lucefécit, em Castelinhos, Roncão e Azenhas Del-Rei, assim como, noutros lugares desta Freguesia!
    A Freguesia de Capelins ou Paróquia, em analogia com outras, parece-nos existir desde 1505, mas até cerca de 1790 designava-se de, Santo António de Terena!


    Lugar de Ferreira Medieval 


    quinta-feira, 9 de novembro de 2017

    217 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    A lenda das bodas do Manoel Gomes 
    O Manoel Gomes era um rapaz em idade casadoira, morava em Capelins de Cima e, trabalhava como jornaleiro na herdade Defesa de Ferreira! Como todas as família nessa época, também a dele era muito numerosa, tinha cinco irmãos e muitos primos, que moravam pelos Montes e terras de Capelins! No ano de 1898, por coincidência, os dois primos mais chegados, marcaram o casamento para o mesmo dia, sendo o Manoel convidado por ambos! O Manoel ganhou um dilema, podia assistir ao enlace dos noivos, porque combinaram com o Pároco João Manuel Queimado, de Santo António de Capelins, casarem ao mesmo tempo, para nenhum ter asar na vida, porque dizia-se que, quem casava no mesmo dia e na mesma Igreja, o último a casar tinha azar na vida, o problema dele era, como conseguia estar presente quase ao mesmo tempo nas duas bodas, porque, a do primo José Domingos era no Monte da Vinha e, a do primo Joaquim António era no Monte da Talaveira! Ainda faltava mais de um mês, por isso, tinha esperança de encontrar uma solução, podia ir primeiro a uma e, depois de encher a barriga ia para a outra, mas já só apanhava restos, porque com a fome que havia nesses tempos, depressa desaparecia tudo! O Manoel cismava sobre a forma de encurtar o tempo que levava a ir de uma boda à outra, mas não lhe ocorria nada! Já sabia as ementas, qual delas a melhor! Na boda do Joaquim António matavam um bácoro e na do José Domingos matavam uma ovelha malata! Quando é que um pobre comia um bocadinho de carne nesse tempo! Como se dava muito bem com o ti António Dias, companheiro de trabalho, pediu-lhe ajuda, contou-lhe o que estava em causa e, que não sabia como resolver a situação! 
    Ti António: Oh Manoel, depois de encheres bem a barriga num lado, já nem te vai apetecer a comida do outro, deixa-te disso! 
    Manoel: Espere lá ti António! Eu vou dar a prenda igual aos dois, tenho que comer igual nos dois! E duas horas a andar de um Monte para o outro, vai dar-me fome e, depois chego lá, vou comer o quê? Já nem ossos deve haver! 
    Ti António: És capaz de ter razão, está ai um caso bicudo! Tu precisavas de um transporte que te ajudasse a encurtar essas duas horas, assim, chegavas mais cedo e ainda apanhavas alguma coisa! Olha! Lembrei-me agora, o que te safava era um cavalo, sempre a trote, em pouco mais de meia hora ias de um Monte até ao outro! 
    Manoel: Pois era! Mas onde é que eu arranjo um cavalo? Isso é coisa dos ricos e não são todos! Eu tenho o burro do meu pai, mas não me adianta muito!
    Ti António: Não te adianta muito? Se o treinares a correr, só que seja metade do caminho, pelas Areias, Terraço, Ramalha, Zorra, fazias isso numa hora! 
    Manoel: Olhe que não está mal pensado! Mas tinha de o treinar à noite, depois da ceia, antes de me deitar! 
    Ti António: E porque não? Já sabes que não podes apertar logo com o animal, senão rebenta, por isso começas com meia hora, ou menos e, depois vais apertando, não é preciso sempre a correr e, no fim não te esqueças de lhe dar água e tratar bem dele! 
    Manoel: Obrigado ti António, boa ajuda, é mesmo isso que vou fazer, já amanhã! 
    O Manoel começou a treinar o burro do pai quase todas as noites, saia de Capelins de Cima e, umas noites ia para o Terraço e Areias e outras para a Ramalha até à Zorra, para o burro se habituar bem às estradas e corria grandes distâncias, já imaginava a situação resolvida, assim, podia estar nas duas bodas quase ao mesmo tempo, enchia bem a barriga numa e abalava logo para a outra, chegando a tempo de ainda haver comida e também acompanhar os dois estimados primos! 
    Os treinos do burro do pai do Manoel corriam cada vez melhor, até à noite da véspera das bodas que eram num Domingo! Na noite de sábado, era o último treino e, o Manoel fez o percurso igual ao que pensava fazer no dia seguinte, ou seja, do Monte da Vinha para o Monte da Talaveira, saiu de perto daquele Monte e obrigou o burro a correr o mais que podia, o animal já ia cansado, mas o Manoel exigia mais, até que ao passar o ribeiro do Terraço onde havia um barranco, o burro com o cansaço não conseguiu saltar e caiu lá dentro, sendo o Manoel despedido para cima de uns penedos, onde ficou desmaiado e caído até que um seareiro que se tinha demorado numa courela no Baldio viu o burro sozinho e começou a ouvir o Manoel a gemer, foi encontrá-lo sem ser capaz de se levantar, meteu-o na carroça e foi levá-lo a casa! O rapaz estava muito mal, foram buscar um curandeiro a Terena que tratou dele e disse-lhe que era um caso muito sério, porque tinha costelas partidas e alguma podia ter perfurado os pulmões, mas talvez não, assim, ficava bem ligado e, sem se poder mexer da cama pelo menos quinze dias e depois levava mais de três meses para poder trabalhar, mas o que era preciso era ele ficar bem! 
    No Domingo seguinte, realizaram-se os casamentos dos primos e o Manoel ficou na cama e não comeu nada do bácoro nem da ovelha, o treino do burro do pai, tinha sido um esforço inglório, mas ainda tinha tido muita sorte,  porque podia ter morrido! 
    O Manoel queria estar nas duas bodas e ficou sem nenhuma!
    Três meses depois do acidente, foi trabalhar, ainda com muita dificuldade, mas acabou por ficar bem! 
    É caso para dizer: Quem tudo quer, tudo perde". 






    terça-feira, 7 de novembro de 2017

    216 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    A lenda da mulher do vestido vermelho no Ribeiro do Carrão 
    No início do mês de Junho de 1915, o ti Miguel da Roza, que morava em Capelins de Baixo, teve que abastecer a casa de farinha, porque já não tinham para a próxima cozedura, mas como já andava a ceifar as favas e a cevada, não lhe dava jeito perder uma manhã para ir ao Moinho das Azenhas Del-Rei, então, pensou em ir á tardinha e dormir lá no rio Guadiana, levava um saco de cevada e um de trigo e, se não houvesse farinha feita, dava tempo para o moleiro a fazer durante a noite e de madrugada voltaria a casa, aproveitando o dia para continuar a ceifar e, foi assim que fez! 
    O moleiro, até tinha farinha para troca, mas mesmo assim, o ti Miguel ficou, porque era muito bom dormir naquele lugar mágico! De madrugada, carregou a farinha e seguiu pelo caminho que passava junto à fonte da lesma, deu água à mula, encheu o barril e não se demorou! Quando passava o Ribeiro do Carrão, já se começava a ver e reparou num vulto à sua frente, mais próximo viu que era uma mulher com um vestido vermelho, uma coisa nunca vista por ali! O ti Miguel pensou que devia ser alguma espanhola, ela virou-se e tinha a cara tapada com o lenço da cabeça, deixando-lhe os cabelos compridos à solta, a mulher levantou o braço direito fazendo sinal para ele parar o carro (carroça)! Aí, oh! Disse o ti Miguel e, a mula parou imediatamente!    
    Mulher: Bom dia! 
    Ti Miguel: Bom dia! 
    Mulher: Então não me leva a cavalo até lá acima? 
    Ti Miguel: Não levo! Eu não vou lá para cima, vou para Capelins de Baixo! 
    Mulher: Está bem, leve-me até perto de Capelins de Baixo!
    Ti Miguel: Então suba depressa aí pela rabicha, que eu não tenho vagar, estou com muita pressa! 
    A mulher para chegar à rabicha do carro (carroça) levantou o vestido vermelho até quase aos joelhos, mostrando um palmo das canelas, o bastante para o ti Miguel começar a gritar para ela se afastar, porque já não a levava a cavalo! 
    Mulher: Tão agora, o que é que eu fiz? Não me disse para subir pela rabicha? 
    Ti Miguel: Oh mulher, ainda pergunta o que fez? Vocemecê não viu que faltou pouco para me mostrar as pernas? Quase que lhe vi os joelhos! Então se alguém visse uma coisa destas, uma mulher a saltar-me para o carro e quase de joelhos à mostra, o que eu arranjava com a minha Maria e o que diriam por aí! Eu sou uma pessoa muito honrada! Olhe vá a pé, comigo é que não vai! 
    O ti Miguel não esperou mais explicações e deu ordem de andamento à mula, não olhando mais para a mulher! Seguiu pela estrada ao lado do Ribeiro do Carrão, pela Zorra, alto do malhão, Ribeiro da aldeia, Monte do marco e chegou a Capelins de Baixo! Assim que descarregou a farinha na casa do forno, foi contar tudo à mulher! Ela não acreditou em nada, mas com receio, não o contrariou! Com um vestido desses, devia vir de alguma festa e andava perdida ou era espanhola! "Nem uma coisa nem outra" mulher! É um mistério que anda por aí!  Disse o ti Miguel! A ti Maria ainda pensou: Decerto, que vinha a dormir e a sonhar com uma mulher de vestido vermelho, mas não se atreveu a dizer mais nada! 
    O ti Miguel continuou a contar a toda a gente o acontecimento daquela madrugada e, além de quase ninguém acreditar, foram vistos muitos rapazes das terras de Capelins a passar pelo Ribeiro do Carrão, nas madrugadas seguintes, na esperança de ver a mulher do vestido vermelho, que tinha aparecido ao ti Miguel da Roza, mas nunca mais houve sinais dela!  
    A intriga dos capelinenses era: "O que andaria a mulher a fazer, de madrugada, de vestido vermelho, no Ribeiro do Carrão"?  E, alguns diziam que devia ser alguma feiticeira que se atrasou na volta do baile!  
    Mais um segredo das terras de de Capelins, ainda por desvendar!  

    Roncão - Capelins




    domingo, 5 de novembro de 2017

    215 - Terras de Capelins 
    Vale Sagrado do Lucefécit
    Conforme podemos verificar na presente informação da DGPC, o Vale da Ribeira de Lucefécit, está em vias de classificação com a designação de Vale Sagrado do Lucefécit, esperamos, assim, que no mesmo seja englobada a Ermida de Nossa Senhora das Neves, do século XVII. 
    "O território onde se integra o vale da ribeira de Lucefecit que se propõe classificar com a designação geral de Vale Sagrado do Lucefecit, corresponde ao último troço desta linha de água que, nascendo na Serra de Ossa, atravessa o concelho do Alandroal desaguando no Guadiana, entre o sítio da Rocha da Mina e a foz deste rio, incluindo, também, vários afluentes onde se situam distintos vestígios de antigas ocupações humanas.
    Os valores que se pretendem preservar integram-se numa unidade de paisagem com caraterísticas únicas quer em termos naturais, como culturais, englobando aspetos geológicos, ecológicos, arquitetónicos e arqueológicos.
    Desde longa data aproveitada para pastorícia, atividades agrícolas e mineiras, esta região foi igualmente muito marcada, ao longo de séculos, por diversas práticas religiosas centradas em locais muito próximos da ribeira de Lucefecit.
    De facto, verifica-se que em termos patrimoniais o território deste vale encerra grande quantidade de sítios arqueológicos, sendo desde logo de destacar o sítio de São Miguel da Mota, classificado como Imóvel de Interesse Público, onde se sobrepõem estruturas de várias épocas, nomeadamente um povoado fortificado da II Idade do Ferro, um santuário posteriormente romanizado dedicado a Endovellicus, a divindade mais conhecida da Lusitânia e, finalmente, a Ermida de São Miguel da Mota, um templo já cristão. Neste local, além de terem sido detetadas inúmeras inscrições dedicadas a Endovélico, foram identificadas diversas peças escultóricas, nomeadamente em 2002, altura em que foram descobertas seis estátuas em mármore branco de grandes dimensões. Os materiais romanos resultantes das intervenções mais recentes apontam também para um período de ocupação situado entre os séculos I e II. Na encosta Este do Cabeço da Mota, foram igualmente realizadas algumas sondagens arqueológicas que parecem demonstrar que seria aí que se localizava este importante Santuário.
    Na margem direita de Lucefecit, num esporão rochoso com vertentes abruptas, localiza-se igualmente o sítio arqueológico da Rocha da Mina cujos trabalhos arqueológicos realizados entre 2011 e 2012, apontam para a presença de um outro santuário pré-romano. É de destacar a existência neste sítio de um conjunto de degraus associados a um pavimento talhado no afloramento rochoso, elementos que, habitualmente, são descritos como "altares de sacrifício", bem como a presença, no mesmo local, de um poço quadrangular com pouca profundidade. Ao longo deste território, distribuídos por diversos cabeços sobranceiros à ribeira, pontuam vestígios de outros povoados fortificados como no sítio do Castelo Velho classificado como Monumento Nacional, do Castelinho ou de Águas Frias, este último parcialmente soterrado pela barragem do Alqueva. Igualmente são conhecidas neste território diversas estruturas megalíticas como a necrópole do Lucas, composta por quinze pequenas antas localizadas a Sul da ribeira de Lucefecit, bem como antigas minas do período romano.
    É igualmente de destacar o importante conjunto de testemunhos de património imaterial como diversos cultos, festas, procissões ou peregrinações religiosas de períodos mais recentes". 

    DGCP

    Ermida de Nossa Senhora das Neves - Capelins


    214 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    A lenda do bácoro que ladrava como os cães 
    Quando chegou o mês de Março do ano de 1895, o ti Domingos Lopes, seareiro, morador em Capelins de Baixo, disse à mulher a ti Maria Vicência que estava na hora de comprar o bácoro para o chiqueiro, por isso, ia dar uma volta por Santa Luzia, Aguilhão e Amadoreira, para ver o que por lá tinham e, de onde lhe agradasse daí o trazia! Na madrugada do dia seguinte, meteu a mula nos varais do carro (carroça) e, pôs-se a caminho, como a Ribeira de Lucefécit ainda levava muita água foi passar ao porto das Águas Frias de baixo, aí encontrou um desconhecido que, depois de alguma conversa e de saber o destino do ti Domingos, disse-lhe que andavam a vender bacorinhos num carro, (carroça) na Aldeia do Rosário e, eram muito bons e baratos! O ti Domingos já não foi para Santa Luzia, procurou o vendedor e depressa comprou o bácoro!  Pelas 11 horas já o tinha dentro do chiqueiro! A ti Maria foi a correr ver o novo bacorinho, ficou muito contente com a compra, deram-lhe uma travia de farinha de cevada com farelo e uma tigelinha de cevada, comeu tudo sem hesitar, dando sinais que era bom para a engorda!
    A partir daquele dia, durante dois meses, decorria tudo normal com o bácoro, até que, uma noite o ti Domingos acordou com o ladrar de um cão, que não o deixava dormir, levantou-se e foi à porta zangar-se com ele, que parou um momento, mas logo continuou e o ti Domingos foi novamente à rua e, seguiu na direção de onde vinham os latidos chegando mesmo ao chiqueiro do bácoro, o qual, estava em pé, de olhos postos no ti Domingos e, momento antes tinha parado o latido, ele ralhou com um suposto cão mas, embora se visse como de dia, não viu nada, foi para casa e não demorou nada, voltou tudo ao mesmo, então, o ti Domingos foi pé ante pé até ao chiqueiro e ficou com a certeza que era o bácoro que ladrava! Voltou para casa e, contou à ti Maria! Ela não acreditou e disse-lhe que tinha apanhado sol na cabeça, no dia seguinte tirava-lhe o sol, com uma oração, um pano de linho e um copo de água fria! Como o ti Domingos não tinha maneira de provar o que tinha descoberto, deitou-se e, não falou mais no assunto! 
    O bácoro do ti Domingos só ladrava nas noites de lua chia e não deixava dormir os donos nem os vizinhos, numa dessas noites o ti Domingos, obrigou a ti Maria a levantar-se, foram os dois muito devagarinho e apanharam o bácoro a ladrar no meio do chiqueiro! A ti Maria levou as mãos à cabeça e disse: "Ai valha-me Deus, isto é coisa de feiticeiras, amanhã temos de ir à bruxa de Terena e benzeu-se! Na manhã seguinte, levantaram-se cedo e foram tratar das galinhas e do bácoro, mas ele não estava no chiqueiro, ainda pensaram que o tinham roubado, mas lembraram-se que estava tudo ligado com o que tinha acontecido durante a noite, ainda o procuraram pelos ferragiais de Capelins de Baixo, mas só encontravam patadas de cão! A seguir foram à bruxa a Terena e contaram-lhe como tudo se tinha passado desde a compra do bácoro! A bruxa disse-lhe que nem o procurassem, porque nunca mais o iam encontrar, mas ele ia aparecer-lhe transformado em cão rafeiro alentejano numa noite de lua cheia e para não terem medo dele porque ele era muito submisso e muito meigo, e ensinou-lhe umas mesinhas para fazerem durante oito dias para afastar a feitiçaria da sua casa! A bruxa ainda adiantou: "conforme há pessoas, assim há animais"!
    Um mês depois, numa noite de lua cheia, ouviram um cão a ladrar à porta, o ti Domingos deu um safanão na ti Maria, que quase a atirou da cama abaixo, mas ela também já estava acordada e disse-lhe: Vamos lá vê-lo? Eu não! Que medo! Disse a ti Maria! O cão não se calava e arranhava na porta, acabaram por ir ter com ele! Assim que os viu ficou muito contente a abanar a cauda a lamber-lhe as mãos, como a pedir-lhe desculpa, depois, deu meia volta e desapareceu pelo ferragial abaixo e nunca mais o viram nem ouviram! 
    O ti Domingos Lopes, teve de ir a Santa Luzia comprar outro bacorinho para o chiqueiro, que engordou normalmente! 

    Segredos de Capelins! 






    sábado, 4 de novembro de 2017

    213 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins 
    A ampliação da Igreja de Santo António de capelins em 1891 
    Conforme Túlio Espanca, (Inventário Artistico de Portugal, 1978): 
    "Do primitivo edifício, com traça dos fins do século XVI (...) apenas subsiste o presbitério cupular, algumas empenas laterais de cornijas polilobadas, em grossa alvenaria rebocada, e, o portal granítico, adintelado, de verga losângica e cruz relevada.
    A fachada, de frontão arredondado, sofreu uma profunda modificação na centúria oitocentista que alterou as proporções da nave e lhe fez perder o alpendre (...)! 
    O interior de planta retangular, compõe-se de nave muito alongada, hoje de abóboda redonda mas que era de tabuado, (...)! 
    Conforme o Pároco Manoel Ramalho Madeira, (Memórias Paroquiais de 1758):
    A Igreja: "O seo Orago he Santo António (...) não tem naves, he forrada de madeyra)"! 
    Nestes dois testemunhos, podemos aferir que existiram grandes alterações estruturais na Igreja de Santo António entre 1758 e 1978, em 220 anos! 
    Até aqui, existia mais um segredo das terras de Capelins: Em que ano se deu a grande modificação na estrutura desta Igreja? É verdade que, Túlio Espanca escreve que foi no centauro de 1800, sem indicar o respetivo ano! Pensamos que, para umas obras tão grandes, tinha de existir algum tempo de suspensão da atividade religiosa nesta Igreja, assim, fomos percorrer os assentos de nascimentos e casamentos dos anos de 1800, até chegarmos ao ano de 1891, no qual, pelo menos entre o mês de Agosto e o mês de Novembro desse ano, quatro meses, a Igreja Paroquial foi a Igreja de Nossa Senhora das Neves, onde se realizaram 10 matrimónios, dos 17 desse mesmo ano! 
    Neste contexto, sem prova em contrário, foi no ano de 1891 que se deu a grande alteração estrutural da Igreja de Santo António de Capelins! 
    Os matrimónios realizados na Igreja de Nossa Senhora das Neves, e datas, foram os seguintes:
    1 - Dia 2 de Agosto de 1891
    Joaquim Ramalho
    Mariana de Jesus
    2 - Dia 9 de Setembro de 1891
    Gaspar Ramalho
    Domingas Isabel
    3 - Dia 13 de Setembro de 1891
    Balthasar Rosado
    Maria Narcisa
    4 - Dia 27 de Setembro de 1891
    Joaquim Balthasar 
    Maria Catharina 
    5 - Dia 28 de Setembro de 1891 
    António José Laurentino
    Maria Clemente Moreira
    6 - Dia 25 de Setembro de 1891 
    Manuel da Rosa 
    Maria Joaquina 
    7- Dia 31 de Outubro de 1891
    José Laurentino 
    Gertrudes Francisca 
    8- Dia 10 de Novembro de 1891 
    Domingos António 
    Albertina Maria
    9-  Dia 11 de Novembro de 1891 
    Manuel Francisco Pacheco 
    Joaquina Maria 
    10 Dia 9 de Novembro de 1891 
    Joaquim Baptista 
    Maria Rosária 

    A partir do dia 15 de Novembro de 1891 a Paróquia voltou à Igreja de Santo António! 

    Segundo Túlio Espanca, após as grandes alterações da estrutura da Igreja de Santo António (1891), apenas ficou o presbitério da cúpula, que é o espaço onde fica o altar mor do orago Santo António, algumas empenas dos lados e, o portal granítico (ombreiras da porta grande a ocidente, sendo o espaço da Igreja aumentado para o dobro e sacrificado o alpendre), essas partes são primitivas, antes de 1518 (500 anos), tudo o resto, foi novo. 

    Matrimónio na Igreja de Nossa Senhora das Neves 1891




    quinta-feira, 2 de novembro de 2017

    212 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins 
    A lenda da falsidade do lobo de Santa Luzia 
    A herdade de Santa Luzia, situa-se no lado Este da Freguesia de Capelins, com a Ribeira de Lucefécit a impor a sua separação. Devido ás suas características geográficas, com muito mato, chaparros, depressões, como o entalão da moura e, também ao seu afastamento das aldeias, era uma região paradisíaca para os lobos, antes da sua extinção por aqui, os quais, invadiam constantemente o território de outros lobos residentes no lado de cá da dita Ribeira. 
    No início do mês de Maio, do ano de mil oitocentos e noventa, o pastor da herdade do Roncão, o ti António Gomes, andava a guardar as ovelhas nesta mesma herdade, muito próximo da Ribeira e reparou que, do outro lado, estava um lobo muito bonito, diferente dos outros, nos olhos e pelagem! Pela sua experiência, deduziu que aquele lobo era chefe de uma alcateia, mas era estranho estar ali sozinho em pleno dia, tão perto dele e dos seus cães! Não deu ordem de ataque aos cães, porque o lobo parecia querer dizer-lhe alguma coisa, com os olhos fixos, em sinal de submissão e, assim ficaram ambos a fixarem-se durante alguns minutos, até que o lobo deu meia volta e desapareceu no mato! O pastor durante o resto do dia não pensou mais no lobo, mas passou a noite a sonhar com ele, um animal muito submisso, grande amigo, brincavam juntos, guardava e defendia as ovelhas dos outros lobos, muita amizade entre eles! No dia seguinte, estava no mesmo sitio a guardar as ovelhas e não tirava os olhos do lugar onde tinha visto o lobo no dia anterior e não demorou nada, lá estava ele, ainda mais perto com o mesmo olhar para o pastor e, este para ele! A partir daí, esta situação repetiu-se todos os dias, mais de um mês, o lobo estava sempre sozinho, cada vez mais tempo e, quando outros lobos se aproximavam já à noitinha, não era necessário atiçar os cães, era ele que não os deixava aproximar das ovelhas, muito do que tinha visto no sonho estava mesmo a acontecer! O pastor, andava cada vez mais descansado com o rebanho, já nem ligava à presença do lobo e esperava que um dia viesse a fazer-lhe festas e passar a mão  naquele pelo tão sedoso, já tinha estado a pouca distância e mostrava sempre submissão, não tinha dúvidas que o animal já estava amestrado!
    Como tinha a choça em frente ao Monte do Roncão e sabia que os lobos nunca atacavam durante o dia, agora ainda com mais confiança por ter por ali o lobo, deixava os cães a guardar as ovelhas e ia lá jantar (almoçar) com a mulher e os filhos, mas não se demorava, ia dormir a sesta debaixo de um chaparro junto ao rebanho! Cada vez sentia mais segurança e um dia depois do jantar (almoço), pensou em dormir a sesta na choça, mas acordou sobressaltado, porque sonhava que uma alcateia de lobos atacava o rebanho, levantou-se e foi a correr, mas estava tudo calmo! Nos dias seguintes continuou a dormir a sesta na choça, cada vez mais descansado, até que, um dia, quando chegou junto dos chaparros onde as ovelhas acarravam, ficou aterrado, os cães estavam mortos e, o rebanho dizimado, muitas ovelhas mortas, outras feridas, um cenário aterrador, não conseguia perceber o que tinha acontecido! Caiu de joelhos e ficou a chorar, quando ganhou coragem foi ao Monte pedir ajuda! O lavrador e alguns criados foram com ele e encontraram uma situação muito triste, ninguém percebia o que tinha acontecido, como é que os lobos tinham atacado durante o dia, repararam que não tinha sido por fome, porque não tinham comido nenhuma ovelha, foi pelo prazer de matar! Enquanto andavam a tratar os animais, a enterrar outros, o pastor andou sempre a chorar e a exclamar: "Juro que vais pagar, vais, vais, grande falso, que bem me enganas-te"! Os criados não entendiam e pensaram que o pastor não estava bom da cabeça, devido ao que tinha acontecido! 
    O lobo, nunca mais voltou, tinha enganado o pastor, ganhou a sua confiança e, assim que teve oportunidade, foi com a sua alcateia e dizimou-lhe o rebanho! 
    Todos os anos eram feitas batidas aos lobos, porque matavam por aqui muito gado, assim, o pastor começou a participar nessas batidas porque sabia qual era o território da sua alcateia, na área do entalão da moura até ao Aguilhão, por isso, fazia questão de bater bem todo esse espaço geográfico, mas nada, o lobo era muito inteligente e conseguia escapar, ou tinha mudado de território! O pastor já andava sem esperança e com ideia de desistir de ir ás batidas, mas decidiu ir pela última vez, foi passando tudo a pente fino e, quando chegou ao entalão da moura deu de frente com ele a fixá-lo, gritou, gritou e levantou o pau ferrado na sua direção! O lobo fugiu à sua frente, o pastor foi a correr e a gritar para avisar os caçadores da presença do lobo e, ele foi meter-se mesmo na boca do lobo, ou seja nas portas de espera e, quando o pastor lá chegou o lobo estava tombado, ainda vivo, de olhos muito abertos, esperando a chegada do pastor, depois olho-o fixamente, como a pedir-lhe perdão pela sua falsidade e morreu! 
    O pastor voltou imediatamente para junto do seu rebanho, a sua missão estava cumprida, mas nunca mais esqueceu aquele lobo! Continuou a pensar que, ele queria ser seu amigo e, só não foi, por ter sido traído pelo seu instinto, de matar! 
    É caso para dizer: "Cuidado com esses lobos!"

    Santa Luzia




    terça-feira, 31 de outubro de 2017

    211 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
    História, lendas e tradições das terras de Capelins
    A lenda da sobrinha do Pároco de Capelins 
    Nas últimas décadas de 1800, chegou ao fim da sua missão, mais um Pároco de Capelins, esperando a todo o momento a sua substituição e, era o tema das conversas em toda a Paróquia! Os paroquianos tentavam  adivinhar como seria o novo padre, porque desta vez era diferente, a vaga seria preenchida por um Cura que vinha da Paróquia de Redondo e não de Terena, por onde tinham passado todos os anteriores que, mais tarde passavam a Curas das respetivas Paróquias, por isso, era um mistério! 
    Finalmente, o Cura José Fernandes chegou a Santo António, esteve alguns dias com o seu antecessor para este lhe explicar em que pontos se encontrava a Paróquia e quais os seus direitos e deveres perante os paroquianos! A primeira missa no Domingo, foi muito bonita, rezada pelos dois padres, um para fazer as despedidas e o outro para se apresentar! Foi um dia de festa em Santo António, nem um terço dos paroquianos tinham lugar dentro da Igreja de Santo António, todos queriam despedir-se do velho padre e, ao mesmo tempo conhecer o novo, porque decerto continuava a ser o tema das conversas na semana que se seguia! O padre José Fernandes já tinha quarenta anos e, com muita experiência em presença de multidões, por isso, sabia o que fazer para agradar aos fregueses e, de verdade foi fácil cativar os seus paroquianos que, no entanto, continuavam apreensivos sobre o motivo do padre querer vir meter-se nesta paróquia tão isolada! 
    O novo padre instalou-se na casa paroquial e, começou a trabalhar imediatamente, com a ajuda do sacristão, foi conhecendo e sabendo quantos eram, quem eram e como eram os paroquianos, assim como, os mais e menos complicados, os mais beatos e beatas! O padre adaptou-se facilmente ao novo lugar e ao fim de três meses estava a par de todos os assuntos da Paróquia! 
    Um dia começou a dizer ao sacristão, às beatas e aos vizinhos que moravam junto à igreja que tinha uma sobrinha a viver sozinha no Redondo e queria que ela viesse para junto dele, porque, embora ele não estivesse mal, a sobrinha estava sozinha e, assim, fazia-lhe a comida, lavava e passava a roupa a ferro e ficava melhor ali com ele! Em poucos dias esta novidade espalhou-se pelas terras de Capelins, havia grande curiosidade, como seria a sobrinha do padre, nova, bonita, feia, velha, cada qual imaginava-a à sua maneira! 
    Passou menos de um mês, numa manhã, chegou à Igreja de Santo António uma carroça carregada com arcas de madeira cheias de roupas, louças e outros utensílios e, também vinha uma senhora muito bonita, bem vestida, bem penteada que, era a suposta sobrinha do padre, cumprimentaram-se efusivamente, à frente da comissão de boas vindas, formada pela vizinhança, beatas, e outros curiosos, o padre apresentou-a e, disse que se chamava Rosalina! Depois, alguns ajudaram a meter tudo em casa e, só ao fim do dia conseguiram ficar sozinhos, então, abraçaram-se beijaram-se e reiniciaram o que já se passava no Redondo, ou seja, a sua ligação amorosa, porque a Rosalina não era sobrinha do padre, mas sua amante, por isso, tiveram de sair do Redondo, porque a sua relação amorosa estava a dar que falar! Em Santo António, estavam mais resguardados dos olhos da censura, porque o lugar era isolado e, isso permitia-lhe viver a coberto da mentira! O tempo foi passando, a sobrinha do padre como era conhecida, era muito cobiçada por todos os rapazes em idade casadoira, passavam em ranchos em frente à casa paroquial, mas não conseguiam por-lhe a vista em cima, a não ser na presença do padre, mas por respeito, não se atreviam a olhá-la de frente! A Rosalina nunca saía sozinha, raramente ia a casa das vizinhas e pouco se demorava para não dar aso a conversas que a comprometessem! Tudo isso, intrigava os fregueses das terras de Capelins que, tentavam por todos os meios, saber da vida da Rosalina! 
    Quando o padre chegou a Santo António, pediu ao sacristão para lhe indicar um barbeiro que fosse todos os sábados, de manhã, cortar-lhe a barba e aparar o cabelo, caindo essa escolha no mestre Manoel Carocho, homem de sessenta anos, já viúvo e, morador no Monte do Pinheiro o qual, pelas 11 horas de sábado estava sempre ao serviço do senhor padre!
     No primeiro sábado em que a Rosalina já estava na casa paroquial, o padre apresentou-a ao mestre Manoel como sendo sua sobrinha que vinha viver com ele para Santo António e depois do serviço de barbeiro feito, perguntou-lhe se tinha jantar (almoço)!
    Ti Manoel: Tenho, sim senhor padre, nos sábados antes de vir deixo sempre as sopinhas cozidas, depois ao chegar é logo jantar (almoçar)!
    Padre: Hoje, não vai comer as suas sopas ao meio dia, ti Manoel, come-as à noite, agora come aqui com a gente, a minha sobrinha cozinha muito bem e contou consigo para o jantar (almoço)!
    Ti Manoel: Não, agradeço-lhe mas não quero incomodar, fica para outra vez! Vou-me já embora!
    Padre: Não, ti Manoel, é como eu disse, ponha aí o estojo e logo vai depois de jantar!
    O ti Manoel não teve como dizer que não e, ficou para o jantar!
    A Rosalina sabia cozinhar muito bem e o ti Manoel nunca tinha comido um jantar tão bom! No sábado seguinte repetiu-se  a mesma situação, o ti Manoel não queria, mas o padre insistiu e teve de ficar para jantar e partir daquele sábado nunca mais deixou de jantar (almoçar) com o padre e com a Rosalina, crescendo cada vez mais a amizade entre o três! 
    O padre e a Rosalina faziam vida de marido e mulher, sem darem nas vistas, pensavam eles, viviam em grande felicidade! Os anos foram passando, sem nenhum problema, até ao dia em que a Rosalina descobriu que estava grávida, esse dia e os que se seguiram,  foram um pesadelo para ambos, não comiam, não dormiam sempre a pensar como poderiam resolver a situação! As hipóteses não eram muitas, ou o padre despia a batina e sobre grande vergonha saíam de Santo António defraudando os paroquianos, mas depois como iam viver? Que vida podiam dar ao filho ou filha que vinha a caminho? A Rosalina propôs-lhe ir ela embora para o Redondo ou para Évora, teria a criança longe dali e, à noite abandoná-la na roda da Misericórdia! O padre disse-lhe que nem pensar, era um crime moral e não podia abandonar um filho! Pensavam, pensavam e não encontravam uma solução com sentido! Numa noite em que não fecharam os olhos, pelas cinco da manhã, o padre chamou a Rosalina, estás a dormir? 
    Rosalina: Não, até agora ainda não fechei os olhos! 
    Padre: Nem eu! Olha, acho que encontrei a solução para o nosso problema, se tu aceitares! 
    Rosalina: Então diz lá, decerto que aceito! 
    Padre: Como sabes, o ti Manoel Carocho, o meu barbeiro, é viúvo, nada o impede de casar! Tu és solteira, nada te impede de casar! Eu sou padre, posso fazer o assento do casamento! Sei que o ti Manoel nos vai ajudar, é um casamento só no papel, mas depois tem de assinar como pai do nosso filho, custa-me muito isso, mas não encontro outro caminho! Tenho de lhe contar tudo, mas sei que mesmo que ele não aceite, não abre a boca! Mas tenho de lhe oferecer em troca que tratamos dele até ao fim da vida! Estás de acordo? 
    Rosalina: Não sei! Custa-me muito fazer parte dessa mentira, mas aos olhos de Deus já estamos perdidos, por isso para viver contigo, não me importo e também não encontro nada melhor! Mas temos outro problema, quando o nosso filho ou filha nascer, ainda não há nove meses de casados! 
    Padre: Pois não! Mas já pensei em tudo! Vou dizer às beatas que tu já andavas com ele há muito tempo e que eu os apanhei juntos, assim explica-se a diferença desse tempo! Agora só falta o ti Manoel aceitar! 
    Rosalina: Pois! Não te esqueças que eu tenho trinta e uma anos e o ti Manoel tem sessenta, isso vai dar falatório! 
    Padre: Não te preocupes! Deixa lá isso, há por aí muitos casos desses de viúvos casados com mulheres muito mais novas! Eu remedeio isso! 
    Rosalina: Então, sendo assim, trata disso com o ti Manoel, eu só quero é ficar contigo aqui em Santo António!
    Padre: Está bem, é no sábado, fazes um bom jantar (almoço), para o deixares impressionado e depois do jantar eu falo com ele! 
    Conforme estava planeado, depois do jantar, a Rosalina meteu-se no quarto e o padre disse ao ti Manoel que queria falar com ele para lhe fazer um pedido, ele nem o deixou falar, disse-lhe que sabia o que o padre lhe queria pedir, não valia a pena muitas explicações! O padre ficou surpreendido e o ti Manoel disse-lhe que ele e a Rosalina habituaram-se à sua presença e esqueciam-se de disfarçar, já havia muito tempo que sabia do seu envolvimento, como também sabia que a Rosalina estava grávida, pela mudança do seu corpo e estava disposto ajudá-los! O padre ainda insistiu em querer contar os pormenores da proposta, mas o ti Manoel repetiu que não valia a pena dizer mais nada, era só ele falar com os filhos e o padre podia tratar logo do casamento, no papel, claro! 
    Quando nas terras de Capelins e arredores as pessoas souberam do casamento, ninguém queria acreditar, como é que uma rapariga como a Rosalina, tão nova, tão linda, com tantos rapazes, alguns ricos que queriam casar com ela foi escolher o ti Manoel! Houve muitos comentários: Isto são os tempos, anda tudo ao contrário! Outros diziam: Foi ele que enganou a rapariga, sempre metido lá em casa apanhou-a sem ela dar por isso e o padre nem via nada! 
    O casamento foi registado e, sete meses depois, o ti Manoel foi pai de um menino! Para convencer os fregueses o ti Manoel ficou lá uns dias em casa e começou a frequentar ainda mais vezes a casa do padre, dormia lá uns dias pelos outros ou ia de madrugada para depois sair e fingir que tinha lá dormido! O tempo foi passando sem nenhum comentário de relevo e, três anos depois o ti Manoel foi novamente pai de outro menino, houve mais comentários mas nada que desse muito que falar! 
    O aparente trio amoroso continuava, sem nada de anormal, mas cinco anos depois o ti Manoel adoeceu com uma pneumonia e ficou em casa do padre, mas estava cada vez pior e passados quinze dias fizeram-lhe o funeral, ficando a Rosalina viúva e com trinta e nove anos! A morte do ti Manoel não deixou de ser um alívio, mas só até ao momento em que a Rosalina descobriu que estava grávida, o problema era que engravidou um mês depois do falecimento do marido, logo a gestação seria de dez meses! Não havia nada a fazer! Quando a criança nasceu, uma filha, o padre recuou quinze dias no nascimento e os outros quinze passaram despercebidos, porque ainda havia quem dissesse que o ti Manoel ainda fez uma filha depois de receber a estrema unção! 
    Passados mais cinco anos a Rosalina ainda teve outra filha, mas o padre encarregou as beatas de dizerem que era filha de um lavrador que não queria dar a cara e então foi registada como filha de pai incógnito e o problema ficou resolvido! 
    Era uma família baseada na mentira, mas muito feliz, os filhos nasceram e cresceram em Santo António, aprenderam a ler e escrever com os pais e os rapazes quando chegaram à idade própria foram estudar para o Seminário de Évora, mas não seguiram para padres, ao fazerem os seus estudos foram admitidos como funcionários do reino, casaram e organizaram família em Évora, as suas irmãs foram para sua casa de onde saíram para casar com rapazes de boas famílias! O padre José Fernando e a Rosalina também acabaram as suas vidas em Évora, perto dos seus filhos e netos!
    Nas terras de Capelins, toda a gente soube a verdade! Os filhos não eram do ti Manoel, mas do padre José Fernandes e a Rosalina não era sua sobrinha, mas mulher! Este insólito acontecimento, foi sendo contado de geração em geração, chegando aos nosso dias e todos os capelinenses o conhecem.

    Lenda inspirada na vida do padre Passarinho da Paróquia de Capelins

    Santo António - Capelins


    223 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos  História, lendas e tradições das terras de Capelins  A lenda d...