sexta-feira, 21 de julho de 2017

161 - Terras de Capelins

Gastronomia das Terras de Capelins

Sopa de tomate com ovos e bacalhau

Ingredientes:


- 2 postas de bacalhau

- 3 dentes de alho
- 1 ramo de salsa
- 1 folha de louro
- 150 ml de azeite
- 1 cebola
- 4 batatas
- 2 tomates
- 2 ovos
- Pão
- Sal

Preparação:
Passo 1: Tire a pele e as sementes aos tomates, pique os alhos, (a salsa). Corte às rodelas as cebolas e parta em pedaços a folha de louro. Faça um refogado com o azeite, o bacalhau demolhado e os ingredientes anteriormente preparados, (pouco sal) e (em opção 1/2 caldo galinha).
Passo 2: Deixe apurar e acrescente a água necessária para a sopa. Quando ferver acrescente as batatas descascadas cortadas às rodelas, deixe cozer +- 15 minutos, baixe a fervura e escalfe os ovos.
Antes de servir retire o bacalhau e os ovos. 
Servir vertendo a sopa sobre camadas de pão alentejano fatiado e duro.




160 - Terras de Capelins - Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos

Gastronomia das Terras de Capelins

Sopas de grão de azeite (dos que tinham poucos rendimentos)

Ingredientes
- grão de bico
- batatas
- azeite
- sal
- pão

Era necessária pouca sabedoria de cozinha, apenas saber os tempos de cozedura ao lume de lenha, que neste caso, era das oito da manhã ao meio dia, porque o grão levava pelo menos três horas a cozer em panela de barro.
Para fazer umas sopas de grão a tarefa começava na noite anterior, antes de deitar, pelas 21:00/22:00 horas, dependia, se era Inverno ou Verão, tinham de pôr os grãos de molho em água com uma mão cheia de sal, a medida dos grãos a pôr de molho era também uma mão cheia (punhado) por cada comensal e no fim, ainda se colocava mais uma mão cheia para o gato. O grão ficava a noite toda de molho na água com sal e logo de manhã pelas 8 horas ou antes tinham que fazer lume de lenha, com frio ou com calor, para se pôr as sopas ao lume. O grão cozia numa panela de barro, cerca de 3 horas, entretanto, o/a cozinheiro/a de serviço acompanhava a cozedura e acrescentava os ingredientes que tinha, no tempo certo. Quando os grãos estavam quase cozidos acrescentava umas batatinhas cortadas aos cubos e se tivesse a sorte de ter umas cenouras e hortaliça, (isso era muito raro). Depois destes ingredientes estarem quase cozidos colocava-se na panela uma colher de azeite por cada pessoa e a do gato. As sopas tinham que estar prontas a comer pelo meio dia.
Cortava-se pão duro em fatias numa tigela (terrina), ou num recepiente feito de cortiça e deitavam-se as sopas de grão por cima do pão e eram uma delícia, natureza pura.
A seguir escrevemos sobre as sopas de grão, com carne.




quinta-feira, 20 de julho de 2017

159 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

Doçaria

Bolo Podre 

Ingredientes

2,5 dl de mel
2,5 dl de azeite
7 ovos
125 g de açúcar
250 g de farinha de trigo
1 colher de chá de canela em pó
1 colher de chá cheia de fermento em pó
2 colheres de sopa de aguardente velha
Preparação
Tempo de Preparação: 20 min | Tempo de Cozimento: 50 min

Misturar o azeite, mel, as gemas de ovos e o açúcar, batendo muito bem cerca de 10 minutos.
Adicione a aguardente e bata mais um pouco.
Bata as claras em castelo firme.
Envolva as claras ao preparado anterior, alternando, com a farinha misturada com a canela e o fermento.
Deite a massa numa forma grande com chaminé, bem untada com azeite.
Leve a cozer em forno médio cerca de 50 minutos (convém verificar se está cozido).
Depois de cozido desenforme o bolo e deixe arrefecer.
Bom apetite!
Bolo Podre Alentejano



quarta-feira, 19 de julho de 2017

158 - Terras de Capelins

Gastronomia das Terras de Capelins


Açorda de Espinafres com ovos


Ingredientes (prato para 2 pessoas)

10 Dentes de alho partidos ao meio (ou uma folha de alho)
2 Molhos de espinafres (varia consoante o nº de pessoas)
2 Ovos
1 dl de azeite
Sal q.b.
Colorau q.b.

Modo de Fazer: 
“Faça o refogado com o azeite e os alhos. Depois meta os espinafres e deite um bocadinho de colorau. Deite a água e quando ferver junte os ovos (mas só quando estiver a ferver que é para os ovos não se desmancharem). Deixe cozer. Prove de sal e arrede.”

Modo de Servir:
Migam-se as sopas na tigela e deita-se o caldo por cima. Num prato à parte põem-se os condutos que se comem com as sopas.

(Pode ser com bacalhau ou com queijo curado). 


157 - Terras de Capelins 
Concelho de Terena 1262 - 1836

Guerra da Restauração no Concelho de Terena e Terras de Capelins

A Guerra da Restauração (1640-1668), destacou-se no Concelho de Terena.


Em 1652 as tropas espanholas do Duque de S.Germán saquearam os campos, do Concelho de Terena, recolhendo depois a Barcarrota, fugiram, apesar de perseguidas por tropas de Terena e de Olivença. Tendo deixado, todavia, parte do saque na circunvalação externa daquela Praça espanhola, os portugueses recuperaram essa parte e levaram-na para Olivença, onde os lavradores do Concelho de Terena foram recuperar alguns dos seus bens.
Em 1656, Terena foi cenário de violentos combates, e num espaço de poucos dias foi ocupada por espanhóis e recuperada custosamente pelo exército português.
As correrias das tropas espanholas, para se afastarem de Olivença, uma Praça portuguesa muito forte, nessa época, eram feitas por Terras de Capelins, (Vila de Ferreira), ou Defesa D’ El-Rei, passando, facilmente, o rio Guadiana, a partir de Abril/Maio, no Porto D’El-Rei (Cinza), por isso, em 1652, levaram tudo o que rapinaram aos lavradores desta região, para Barcarrota.
Passava-se a mesma situação com os portugueses, atravessavam o rio Guadiana no mesmo Porto da atual Cinza e roubavam os gados e tudo o que podiam, trazendo o saque para Portugal, eram escaramuças fronteiriças, que atingiam em maior escala os grandes lavradores da raia. Os trabalhadores, ou jornaleiros, não tinham nada.

O Declínio do Concelho e Terena e seu Fim:

Ainda no Século XVIII assistiu-se a algum declínio. A sua economia foi enfraquecendo. Como se não bastasse, Terena foi uma das povoações alentejanas que mais danos sofreu com o terramoto de 1755.
A época Pombalina não parece ter sido importante na região. Continuando a sua decadência e, já no século XIX, a sua economia foi ainda mais abalada com o corte de ligações para além Guadiana depois de 1801, (devido à guerra das laranjas), não tanto por ter ligações diretas com Olivença, ainda que algumas existissem, mas acabou por afetar toda esta região.

Na primeira metade do século XIX, ou seja, em Novembro de 1836, vários Concelhos com expressão reduzida acabaram por se unir em torno do que foi o único sobrevivente, o do Alandroal. Foram eles Juromenha, Ferreira (um estranho Concelho de reduzida população, hoje Freguesia de Santo António de Capelins, era apenas um Concelho do Estado do Infantado, onde imperavam as regras daquele Estado)  e, obviamente, o próprio Alandroal. Tal junção de esforços não trouxe exatamente progresso ou benefícios de relevo, como bem o sabem os seus atuais habitantes, ainda que houvesse períodos de alguma prosperidade.
(Base: Trabalho do Professor Carlos Luna)


Castelo de Terena vigiava o Vale da Lucefécit até às Terras de Capelins 




156 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

Nossa Senhora das Neves em Capelins 


No calendário litúrgico, o dia dedicado a Nossa Senhora das Neves é o 05 de Agosto, porque foi na noite de 04 para 05 de Agosto que o Monte Esquilino em Roma se cobriu de Neve, (quando é normal aí existirem 40º graus C), conforme milagre de Nossa Senhora, sendo aí construída a sua Basílica. 

Quanto a Nossa Senhora das Neves de Capelins, esta Ermida existe desde os finais dos anos 1600, devido à ruína da anterior Igreja de Santa Maria, de 1314, quase decerto, levada a esse fim, por motivo da guerra da restauração, por onde os exércitos passavam, nada era respeitado, era tudo pilhado e destruído. O último documento que conhecemos, onde a Igreja de Santa Maria é referida, na Defesa de Ferreira ou Defesa del-rei é de 1667, (é um testamento que se encontra no Arquivo Distrital de Portalegre), coincide, de facto, com a referida guerra. Ao lado da Igreja de Santa Maria foi construída a presente Ermida, dedicada a Nossa Senhora das Neves, que parece ser a mesma, Santa Maria. Assim, neste dia 05 de Agosto, começavam a chegar um, ou dois dias antes, aqui acorriam devotos de toda a região, inclusivé, de Terras de Espanha, com grande devoção por Nossa Senhora das Neves.

Hoje, encontra-se ao abandono, esperando a ruína total!

Se puderem, passem lá dia 05 de Agosto!



Nossa Senhora das Neves 


155 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
O baile na herdade do Terraço
Aqui, ao lado deste cruzeiro, situado no Terraço, realizou-se um baile internacional + - no ano de 1940.
Quando escrevo um baile internacional foi porque as protagonistas do inesperado baile foram portuguesas e espanholas com espetadores (homens) portugueses, que só tiveram direito a assistir e admirar tão deslumbrante espetáculo no meio do nada.
Decorria o ano de 1940 e o rescaldo da guerra civil de Espanha, de 1936-1939, sentindo-se, e de que maneira, a devastação, em todos os sentidos daquela fatídica guerra. Em Ferreira de Capelins, estava tudo aparentemente calmo, embora, ainda por aqui se sentisse o sofrimento dos nosso vizinhos, principalmente os da vizinha Vila de Cheles. 


Num lindo dia de sol, daqueles que apetece andar pelo campo, veio a vizinha Domingas Carraço, filha da Ti Catarina Veleza, convidar a minha mãe e a minha tia Jacinta para irem ao feixe, (ir ao feixe, era ir às Areias, ou outro lugar de azinhal, fazer um feixe de lenha de azinho e trazê-la à cabeça para casa), a minha tia Jacinta não gostou muito da ideia, até porque o meu avô Xico Alvanéo, não autorizava a ida ao feixe, mas a minha mãe insistiu e lá foram as três a caminho das Areias apanhar o feixe de lenha. Quando vinham de volta para Ferreira de Capelins, no local onde está este cruzeiro, ao lado do pocinho do Terraço, (era um pocinho pequeno, que nem estava empedrado e foi entupido), apareceram três espanholas que vinham dos lados de Santiago Maior ou Cabeça de Carneiro e se dirigiam para Cheles, já um ano depois do fim da guerra, mas algumas pessoas continuavam a vir a Portugal a pedir e a comprar coisas que não existiam em Espanha. Então as espanholas meteram-se com elas, perguntaram como se chamavam, o que andavam a fazer, apresentaram-se, sendo a mãe e duas filhas moças, não pediram nada, nem elas tinham nada para lhe dar. Pousaram os feixes de lenha e continuaram a conversa sobre as suas tristes vidas, porque todas as pessoas perderam familiares naquela guerra. A minha mãe, a minha tia Jacinta e a Ti Domingas Carraço, não tinham nada para lhe dar, mas foram elas que lhe deram e tanto que, ainda hoje dura nas suas memórias. Sabem o que foi? Não foi tristeza, foi alegria! Dividiram-se em 3 pares e armaram um baile acompanhado pelo cante das espanholas que durou algumas horas, ao ponto dos trabalhadores que ali andavam a lavrar, o ti José António Grilo e outros, pararam a lavoura para assistir à festa tão bela naquele lugar. A seguir, sabem o que a espanholas fizeram? Pegaram nos feixes de lenha à cabeça e levaram-nos até à Portela, perto do Monte Novo de Capelins, mas não era esse o seu caminho. Ali, pousaram os feixes de lenha, deram-lhe uns beijinhos e voltaram na direção de Montejuntos - Cheles, tudo isto, em troca de coisa nenhuma. 

Nunca mais as viram, foram anos mais tarde arranjar o cabelo (fazer permanente), a Cheles, mas não as encontraram.


Cruzeiro do Terraço


154 - Terras de Capelins 
Histórias de vidas de Capelinenses 
O achado da recém nascida "Maria" na Aldeia de Capelins de Cima no dia 22 de Outubro de 1837, pelo Regedor desta Paróquia Senhor Vicente Rodrigues Lourenço. 

Como habitualmente, o Regedor da Paróquia de Capelins, no dia 22 de Outubro de 1837, levantou-se bem cedo, preparou-se para se fazer à vida e sai de sua casa ainda sem se ver um palmo à frente dos olhos, mas não foi preciso ver muito para imediatamente fazer um achado junto à sua porta, quando foi observar o pequeno vulto que tinha junto a seus pés descobriu uma linda menina. E agora? Sem ninguém à vista, pegou na inocente e levou-a para casa a mostrar à sua mulher o tão importante achado. E agora? pergunta a mulher! Agora é nossa, não a achei? Não aparece ninguém na rua, nem ouvi nada! E quem são os pais? São incógnitos não? Está resolvido e cala-te, logo vou já batizá-la e vamos chamar-lhe Maria, o nome de Nossa Senhora! Trata dela, dá-lhe leite ou que quiseres, veste-lhe lá alguma coisa que aí tenhas para ir já batizá-la com o meu Escrivão.
Assim que nasceu o dia, o Regedor chama o seu fiel escrivão o Senhor António Rodrigues Minino e conta-lhe do achado naquela madrugada! E agora? perguntou os fiel Escrivão! Agora vamos batizá-la e é já hoje, mesmo agora!
Lá vão os dois a caminho de Santo António, chegam e batem à porta da casa do Pároco, António Laurentino Sopa Godinho, a casa ao lado da Igreja de Santo António, este já estava levantado, mas ainda ensonado. Quem é? a uma hora destas! Sou eu, Padre Laurentino, o Regedor. Eh lá! acordou logo. Mau, coisa boa não é! O que quer este a esta hora... pensou o Padre Laurentino! Já vou abrir a porta! Quando abriu a porta da casa Paroquial o Padre Laurentino, não se apercebeu logo o que levava o Regedor nos braços! Diz-lhe este: Padre Laurentino, olhe o que eu achei em Capelins de Cima! E mostra-lhe a bebé, o Padre ficou atónito, por fim exclamou: E agora? Agora venho batizá-la. E quem são os pais? São incógnitos, não? E os Padrinhos? Então, os Padrinhos sou eu e aqui o meu Escrivão! Está tudo bem! vamos lá para a Igreja, que eu estou com pressa! Sendo assim, é só vestir-me! Diz o Pároco.
Entram na Igreja, faz o batismo e escreve este assento:
"Em os doze dias, digo vinte e dois dias d' Outubro de mil oitocentos e trinta e sete annos n' esta Parochial Igreja de Stº António de Capellins termo de Terena Arcebispado d' Évora baptizei solenemente, e puz os Stºs oleos a Maria filha de Pais incógnitos que me foi apresentada pelo Regedor d' esta Parochia Vicente Rodrigues Lourenço, que foi della Padrinho e o seu Escrivão António Rodrigues Minino moradores em Capellins de Sima desta freguezia e para constar fiz este termo que asignei em dia, mez e anno ut supra.
O Parocho: António Laurentino Sopa Godinho" 
A seguir o Paroco António Laurentino, puxou a porta da Igreja de Santo António e foi fazer e comer o almoço (pequeno almoço) e a Maria já baptizada foi para casa do Regedor em Capellins de Cima, onde foi criada como filha legítima e até hoje nunca se soube quem eram os verdadeiros pais dela.

Tudo isto é verídico e segue o assento desse batismo. 





terça-feira, 18 de julho de 2017

153 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
Milagre de Nossa Senhora das Neves - O cara linda amor da burra! 
Conforme podemos confirmar através dos registos paroquiais de Santo António, desde 1635, estão registados muitos óbitos de parturientes, deixando orfãos algumas crianças que na maioria dos casos, por tradição, ficavam aos cuidados das avós. A nossa lenda retrata uma dessas situações verificada no mês de Junho de 1790, nas terras de Capelins, sendo atribuído um milagre de Nossa Senhora das Neves, a favor da criança em questão, que lhe valeu a sua sobrevivência. 
A Ti Maria da Encarnação, que morava no Monte do Escrivão, ao dar à luz o seu primeiro filho, ficou muito doente e, oito dias depois, acabou por falecer. Ainda amamentou o filho algumas vezes, mas era tarefa impossível devido ao seu estado o que ainda a deixava mais debilitada e, como geralmente se fazia, foi necessário procurar a boa vontade de uma mulher que tivesse uma criança recém nascida, ou que ainda estivesse a amamentar para, pelo menos, durante alguns meses, ajudar a amamentar a criança. Ainda antes do falecimento da mãe, já o pequeno Francisco andava em viagem três vezes por dia, com a avó materna, na burra, entre o Monte do Escrivão e Capelins de Baixo e era insuficiente, o Francisco chorava toda a noite com fome. A sua avó, Ti Antónia do Rosário, rezava e fazia promessas a Nossa Senhora das Neves, pedindo que aparecesse pelo Escrivão uma mulher que pudesse amamentar o Francisco, porque, não só era muito doloroso andar o dia todo a caminho de Capelins de Baixo, como o leite da ama não era abundante para duas crianças, tendo algumas vezes de recorrer a outras mulheres nas redondezas. A Ti Maria do Rosário não perdia a esperança e continuava a implorar a ajuda de Nossa Senhora das Neves. Um dia, depois de voltar de Capelins de Baixo, pediu a uma vizinha para ficar com o Francisco para ir lavar os coeiros ao pego das vacas na Ribeira do Lucefécit, levou a burra que tinha um borcalho (burrito) ficando este encerrado no cabanão e, enquanto estava lavando os coeiros do Francisco não parava de rezar, quando estava acabando a lavagem os seus olhos foram guiados para a burra e viu o leite a correr em abundância para o chão sem ser aproveitado. A Ti Antónia percebeu que era um milagre de Nossa Senhora das Neves, foi a correr para o Monte do Escrivão, entrou em casa, pegou numa tigela de barro e tirou mais de meio litro de leite à burra, encerrou-a no cabanão e foi cozer o leite, à noitinha quando o Francisco começou a chorar com fome, pegou-o ao colo e começou a dar-lhe o leite da burra, morno, gota a gota, numa colher, mas o Francisco, apesar de ter fome, não conseguia engolir e foi uma tarefa muito difícil que durou quase toda a noite. No dia seguinte, logo cedo, teve de levar o Francisco a amamentar a Capelins de Baixo, depois de dormir, acordou com fome e, ela continuou a dar-lhe leite da burra na colher, fazendo esse treino durante alguns dias, até que com muita paciência e insistência o Francisco começou a beber umas pinguinhas do leite da burra o que fez reduzir as viagens a Capelins de Baixo. Ao fim de alguns meses, o Francisco começou a comer umas pitadinhas de açorda de alho e muito leite de burra, dispensando o leite das amas, porque ele gostava mais de leite de burra e após a da avó deixar de ter leite, davam-lhe das burras dos ganadeiros que por ali andavam. Alguns anos depois, quando prendiam as burras à porta da taberna do Monte do Escrivão, o Francisco, já crescido, corria a mamar diretamente nas burras, ao desafio com os borcalhos. O rapaz cresceu saudável, bem constituído, muito engraçado, mas nunca mais se livrou da alcunha: "O cara linda amor da burra", mas não se importava, porque sabia que tinha sido o leite de burra que provavelmente lhe tinha salvado a vida. 
A este facto, ficou ligado mais um milagre de Nossa Senhora das Neves! 



152 - Terras de Capelins
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

As terras de Capelins que, parece já os romanos denominavam por Ferreira, (devido às minas de ferro), apresentam indícios da sua ocupação em toda a sua área geográfica por este povo no século I, há cerca de 2.000 anos, sendo a sua economia baseada na agro-pecuária e na exploração de minério em vários sítios. A produção era enviada para a capital da Lusitânia, Mérida, onde estas terras pertenciam, depois seguiam para a capital do Império, Roma. Para que os bens e pessoas, principalmente os exércitos imperiais, pudessem estar mais perto da capital, permitindo movimentos mais rapidos,  foi criada uma rede viária, muito sofisticada na época, quase toda empedrada e devidamente sinalizada, com miliários (tinham indicação e a distância em milhas de uma determinada cidade a outra, da província, ou à capital do império). Como a seguir podemos verificar, também, nas terras da atual Freguesia de Capelins, existia um itenerário romano no sentido Norte - Sul, por onde circulavam as pessoas e produtos da região. Este itenerário estava ligado à VIA XII - Item ab OLISIPONE EMERITAM m. p. CLXI (Lisboa - Mérida), ITINERARIO XII - Lisboa (OLISIPO) - Alcácer do Sal (SALACIA) - Évora (EBORA) - Mérida (EMERITA)    CLXI milhas - 238.5 km.


    Diverticulum para Juromenha por Alandroal (vide Calado, 1993, e Calado e Matatolo, 2001) 

    Poderia existir também uma variante que desviava da anterior nas proximidades de Redondo e seguia para leste rumo a Alandroal e Juromenha, servindo as explorações mineiras da região; esta via deveria passar próximo do Fortim Romano do Caladinho, atravessava a ribeira de Lucefecit junto do Moinho da Sra. da Fonte Santa/Monte da Estacaria ou a jusante na Ponte do Monte da Fonte dos Ouros (cronologia insegura) e depois por Fonte Velha para Alandroal (hoje EN373), passando nas proximidades de dois importantes locais de culto, o Santuário Rupestre da Rocha da Mina e Santuário de S. Miguel da Mota, este dedicado ao Deus Endovélico e cujo templo terá sido desmantelado para a construção da Capela (* as muitas aras e estátuas recuperadas daqui foram levadas por Leite de Vasconcelos para o MNA, excepto uma que serve de altar na Igreja da Ns. da Boa Nova junto a Terena; o acesso faz-se a partir do Alandroal ao Km 5,6 da EN373, seguindo o estradão de terra que leva ao Monte de S. Miguel da Mota). 


    Em Alandroal a via deveria passar próximo da villa da Tapada de Vilares (na Carta Arqueológica do Alandroal, Calado indica a azinhaga que atravessa a villa como possível via romana; ver Calado, 1993). A partir daqui é provável que derivasse uma via para Bencatel, uma ligação a Vila Viçosa (passando no vicus marmorarius designado outrora como «Vilares», compreendendo a ermida de S. Marcos, Tapada de Fonte Soeiro e «Fonte da Moura», local onde apareceu um altar votiva de Canidius, IRCP375, hoje no Museu de Vila Viçosa) e para leste rumo ao rio Guadiana em Juromenha. Esta rede viária estaria muito ligada à exploração de mármores da região; uma outra via no sentido N-S servia também a actividade mineira oriunda pelo menos desde Capelins que ia atravessar a ribeira de Lucefecit junto do fortim romano do Outeiro dos Castelinhos (importante estrutura romana ao abandono!), confluindo todas nos eixos principais rumo a Mérida. 


    * "as muitas aras e estátuas recuperadas daqui foram levadas por Leite de Vasconcelos para o MNA, excepto uma que serve de altar na Igreja da Ns. da Boa Nova junto a Terena"


Devido à pesquisa sobre as vias romanas nas terras de Capelins, viemos saber que, uma estátua de São Miguel da Mota serve de altar na Capela de Nossa Senhora da Boa Nova em Terena!

    (Calado, 1993, e Calado e Matatolo, 2001) 

Miliário Romano (de Vila Viçosa)

























































domingo, 16 de julho de 2017

151 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
Monumentos de Capelins 
Cruzeiros 
O aparecimento do Cruzeiro remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Procurou-se cristianizar todos os sítios e monumentos pagãos. A cruz era o símbolo usado para levar a cabo o processo de cristianização.
Com o imperador Constantino a cruz tornou-se no elemento simbólico dos cristãos, por imposição de sua mãe!
A cruz mede, dita e marca os lugares sagrados do verbo e da paz: igrejas, claustros, cemitérios, praças, caminhos, encruzilhadas, espaços sobe os quais aparece a verticalidade e a horizontalidade do mastro, da cruz, imagem adorada de um altar. É a concentração e a difusão, a convergência e a divergência e está relacionada com as quatro estações, com os tetramorfos, com os símbolos dos quatro evangelistas. A cruz é todo um universo de conjugações.
A figura geométrica das duas hastes tornou-se no sinal mais elementar e divulgado da piedade cristã, o mais conhecido do cristianismo, o mais usado nos atos do culto e, mesmo depois da morte, assinala a sepultura de todos aqueles que descansam em Cristo.
Assim, os Cruzeiros surgem ligados à cruz dos cristãos. São símbolos da crença de um povo, marcos apontados à fé dos caminheiros e de todos aqueles que os veneram, marcando a fé dos que os erigiram como promessa.
São padrões por excelência da cristandade. Em terra cristã é símbolo de crença e elemento falante na paisagem humanizada. Vai do interior de povoações até aos píncaros do horizonte, por estradas amplas e caminhos rústicos. Reduzem-se à maior simplicidade de, ou a aprimoram feição artística, de granito rude, ao mármore fino, imagem de Cristo pintada ou esculpida, em alto relevo ou em pleno corpo; ou com figuras complementares.
Os Cruzeiros têm aquela rara e única beleza que a alma lhes dá e os olhos não conseguem vislumbrar e que só a fé faz ver.
Um Cruzeiro é uma cruz de pedra, ou metal, erguida ao ar livre, no adro de igrejas, ou em encruzilhadas, praças, cemitérios ou outro lugar!
Os Cruzeiros representam o espírito popular da devoção religiosa. Contudo, nem sempre esta causa foi determinante para a sua construção, pois muitos serviram para marcar acontecimentos de pendores variados e para proteger contra influências maléficas e feitiçarias os caminhos, as encruzilhadas e os largos das aldeias.
Por trás de cada Cruzeiro existe uma história relacionada com uma situação triste ou dramática, assim como uma profunda devoção.
Nas encruzilhadas das incertezas, por onde um parte e por onde outro vem, está o cruzeiro de pedra, como testemunho das mais íntimas ânsias.
No local onde se cometeu um pecado, onde se adorou um ídolo pagão, onde aconteceu uma tragédia, um assalto, uma morte, edificava-se um cruzeiro.
Marcam, pois, locais de acontecimentos individuais ou públicos, quer históricos, quer religiosos.
Os Cruzeiros que se encontram nos adros das igrejas tinham e têm como fim santificar esses espaços. Para esta santificação são determinantes as procissões que percorrem o perímetro da igreja e dão a volta ao redor do Cruzeiro. 
Os que se localizam nas encruzilhadas tinham como função cristianizar um local entendido como maléfico pelo povo, pois aí realizavam-se rituais pagãos que remontavam ao culto dos Lares Viais.
Os Cruzeiros sagram locais, dominam e protegem os campos. Recordam epidemias, assinalam momentos históricos, pedem orações e sufrágios e servem de padrões paroquiais nos adros das igrejas e capelas.
Constituem óptimos elementos para o estudo das crenças, dos costumes, qualidades e tendências artísticas do povo, nas várias épocas da sua história.
O Cruzeiro é uma forma de oração, um convite à reflexão, como um catecismo de pedra que nos introduz nos permanentes mistérios que movem filósofos, artistas e poetas: o enigma da origem da vida, a morte e o mundo.
Cada Cruzeiro tem uma história muito particular que, em muitos casos, deveria ser incluída nos conjuntos paroquiais, tão pouco estudados: igreja, adro, cemitério, ossário e casa paroquial.
“ O cruzeiro é inseparável da paróquia dos vivos e da paróquia dos mortos”.

Pesquisa na net
Cruzeiros de Capelins, onde atualmente ainda existem 8 






sábado, 15 de julho de 2017

150 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

O Mistério da Comadre dos Pastores do Monte da Capeleira 

Decorria o sereníssimo ano de 1817 e, em Maio nasceu mais uma filha do Ti Manoel Frade e de sua legítima mulher Ti Leonor Gomes, pastores do Monte da Capeleira. Com o nascimento dessa menina ficaram com oito filhos, o que nessa época não era considerada uma Família numerosa. As madrinhas dos seus filhos eram todas moradoras neste Monte e, já estavam esgotadas. Dizia-se nas terras de Capelins que não era bom, dois irmãos terem a mesma madrinha, logo os pastores estavam perante um dilema, onde iam encontrar uma madrinha para a sua menina, tinha de ser uma pessoa com posses, para lhe dar uma boa prenda e, se necessário a poder amparar na sua vida. Um e outro falaram em nomes, mas não conseguiam acertar as ideias, a pessoa que um indicava, logo o outro dizia quem não podia ser, por isto e por aquilo e, assim passou o tempo limite para o batismo da menina. No dia do batismo os pastores tiveram grande discussão e o Ti Manoel jurou perante Deus que ia batizar a menina e a madrinha seria a primeira mulher que encontrasse entre o Monte da Capeleira e a Igreja de Santo António e saiu da choça todo alvoraçado. Foi pelo Monte de Calados, Monte Real, Portela e não encontrou nenhuma mulher frente a frente, mas sabia que moravam várias mulheres junto à Igreja e decerto lá encontraria a madrinha, mas quando avistou a Igreja de Santo António, junto ao primeiro cruzeiro, vinha uma velhinha encostada a um pau, com um bornal e um cobertor velho às costas, enrolada nuns trapos, cumprimentaram-se e encetaram conversa, ela falava muito bem, contou ao Ti Manoel que andava à pida, era uma pobre mendiga, morava em Santiago e que já lhe custava muito andar de terra em terra a pedir, mas tinha de ser, para poder comer. O Ti Manoel gostou dela e contou-lhe o que ia fazer e o que tinha prometido perante Deus. Então, a velhinha nem o deixou acabar a conversa, disse-lhe que seria ela a madrinha da menina, porque se Deus ali os juntou era porque queria que fosse ela a madrinha, ele hesitou e pensou, como podia aceitar uma mendiga como comadre e madrinha da filha, nem lhe podia dar prenda e muito menos algum amparo na sua vida e o que diria a sua mulher! A velhinha insistia, que tinha de ser ela a madrinha, era Deus que assim queria, dizia ela, e o Ti Manoel pôs-se a pensar, pensar! 
O Ti Manoel Frade depois de muito pensar não encontrou maneira de quebrar o juramento que tinha feito a Deus, porque se o quebrasse podia cair alguma desgraça sobre a menina, então aceitou e foram os dois bater à porta da casa Paroquial. O Pároco de Capelins Marcos Gomes Pouzão, veio abrir a porta, cumprimentaram-se e o Ti Manoel explicou-lhe ao que vinha. o Pároco, perguntou-lhe onde estava a menina, porque para a batizar e pôr os Santos Óleos ela tinha de estar ali. O Ti Manoel disse-lhe que a menina ainda não podia sair da choça, ainda era muito pequenina e, se o Pároco pudesse ficava já registada e dentro de um mês trazia a menina e a família toda e punha-lhe os Santos Óleos. Está bem! Disse o Pároco, e esta mulher o que quer daqui? Esta mulher é a madrinha da minha filha, mais a Nossa Senhora do Rosário, disse o Ti Manoel! Esta mulher? Inquiriu o Pároco! Sim, tem mesmo de ser, disse o Ti Manoel! Então está bem, disse o Pároco e mandou-os entrar. Começou a redigir o assento paroquial, foi escrevendo com muita calma, o nome dos pais o dia e hora do nascimento de um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de: Aqui perguntou ao Ti Manoel e à madrinha como era o nome da menina! O Ti Manoel ficou surpreendido e disse: Então, tem de ser o nome da madrinha, que nem ele sabia! Nessa época não podia ser outro! O Pároco virou-se para a madrinha e perguntou-lhe como se chama: Eu? Eu sou a Agapita de Jesus, disse a madrinha! É o quê? Gapita? Perguntou o Pároco! Não! A GA PI TA! disse a Ti Agapita! Está bem, eu percebi! Disse o Pároco! Nesse momento o Ti Manoel levou as mãos à cabeça e pensou: "Ai valha-me Deus, já não bastava uma comadre mendiga, ainda vou ter uma Agapita", como é que eu vou explicar isto à minha mulher! Mas não havia nada a fazer e a menina ficou com o nome da madrinha, Agapita! Findo o registo, o Pároco perguntou à Ti Agapita: Não sabe escrever o seu nome? Pois não? Sei, sim senhor Padre, oh se sei, disse a Ti Agapita! Sabe, ora essa? Então assine lá aqui, que eu tenho o dia todo, posso esperar! Disse o Pároco. A Ti Agapita pegou no aparo com tinta e escreveu o seu nome com uma rapidez e letra tão bonita, incomparável à do Pároco, que ficou pasmado! 
Depois do registo da Agapita, cada um foi à sua vida e o Ti Manoel, voltou à choça no Monte da Capeleira. 
A Ti Leonor e filhos já estavam à espera dele para saberem o nome da menina e tinha feito um almoço melhorado por ser o dia do batizado da sua menina, mas ele ia tão transtornado que nem queria conversa e foi difícil chegar à fala com ele, a Ti Leonor percebeu que ele estava muito triste, que alguma coisa não tinha corrido bem e com muita calma tornou a perguntar-lhe: 
Ti Leonor: Manoel, sempre batizaram a nossa filha? 
Ti Manoel: Sim, já está batizada! 
Ti Leonor: Então, quem é a madrinha e como se chama a nossa menina? 
Ti Manoel: Oh mulher eu nem te posso contar o que se passou, nem quem é a nossa comadre, nem o nome da nossa menina, isto foi uma grande desgraça! 
Ti Leonor. Oh homem, mas a desgraça é assim tão grande? 
Ti Manoel: É maior do que tu pensas!
Ti Leonor: Mas conta-me lá, tudo se há-de resolver, porque o que é preciso é saúde!
O Ti Manoel, respirou fundo, ganhou coragem e contou tudo o que se tinha passado. Todos choraram, alguns sem saberem porquê! A Ti Leonor não se cansava de repetir: "A minha filha é Gapita! E o Ti Manoel corrigia "Agapita"! É a mesma coisa, dizia a Ti Leonor! Aqui o Ti Manoel, disse à mulher e aos filhos: Olhem lá, a nossa menina chama-se Agapita Maria, então, podemos chamar-lhe simplesmente Maria, e a Agapita fica esquecida! Mas simplesmente porquê? Não lhe podemos chamar só Maria? Disse a Ti Leonor! Sim! Só Maria, disse o Ti Manoel! E todos ficaram contentes por essa ideia e do desaparecimento da Agapita, mas estavam enganados, porque nas terras de Capelins ao saberem o nome da menina dos pastores da Capeleira, começaram a chamar-lhe a Gapitinha e, assim ficou a menina Gapitinha! 
O Ti Manoel e a Tia Leonor, ficaram esperando que algum dia a comadre mendiga Agapita, aparecesse na choça, para ver a afilhada e, já tinham tudo falado, mostravam-lhe a Gapitinha, davam-lhe um pão e dois queijos e pediam-lhe para seguir o seu caminho, mas a Ti Agapita, nunca apareceu no Monte da Capeleira! 
A Gapitinha foi crescendo, entre a choça e o Monte da Capeleira, tinha uma infância normal para a época, como os pais eram pastores, era inevitável a sua ligação à vida da pastorícia. O Ti Manoel e a Ti Leonor, por curiosidade, iam pedindo informações a mendigos de Santiago Maior, que por ali apareciam, sobre a vida da sua comadre Agapita, mas depois de três quatro anos, já ninguém sabia da vida dela e eles pensaram que já Deus a tinha, mas ainda não tinha, só que já não conseguia fazer os caminhos de Capelins, à "pida", estava na sua pobre casa na Aldeia da Venda. 
No Domingo de Ramos de 1825, os lavradores do Monte da Capeleira foram à Missa a Santo António e, depois da cerimónia da dita e do benzer do alecrim, o Pároco Marcos Gomes Pouzão, na hora da despedida, pediu-lhe o favor de de dizerem ao Ti Manoel Frade que fosse falar com ele, porque tinha uma encomenda para lhe entregar, mas tinha de ser mesmo a ele. O lavrador do Monte da Capeleira, depois de almoçar foi dar o recado ao Ti Manoel, que não mostrou muito interesse! Ora que encomenda há-de ter o Padre Marcos para mim? Deve ser artimanha dele, para me pedir algum borrego! Um dia logo lá vou! Disse o Ti Manoel! Eu já dei o recado, agora é contigo, quando quiseres podes ir lá! Disse o lavrador! O Ti Manoel, contou à Ti Leonor o teor do recado do Pároco, mas ela também não ficou convencida que alguém enviasse uma encomenda ao Ti Manoel! Passou-se quase um mês e a ti Leonor lembrou o Ti Manoel que tinha de ir falar com o Pároco, fosse lá o que fosse, não podia fazer a desfeita de não aparecer lá. O Ti Manoel no dia seguinte, logo cedo, saiu do Monte da Capeleira, por Calados, Capelins de Baixo, Capelins de Cima e chegou à Igreja de Santo António, já o Pároco Marcos estava levantado há mais de duas horas! bateu à porta da casa Paroquial, veio o Pároco Marcos, deram os bons dias e o Ti Manoel Frade, disse-lhe o motivo porque estava ali. Ah sim! Tenho uma encomenda para ti, mas antes de a entregar, temos que falar! Disse o Pároco! Está bem, vamos embora! Disse o Ti Manoel! O Pároco disse-lhe para entrar e sentar-se! Iniciou a conversa contando que tinha estado em Terena com o seu colega o Pároco de Santiago, Anastácio Caetano Rosado, o qual lhe tinha pedido para cumprir o desejo de uma mulher chamada Agapita, que tinha falecido havia três meses e, antes de falecer o chamou para ele lhe dar todos os Sacramentos e, para fazer testamento, deixando a casa que tinha na Aldeia da Venda e os trastes (mobília), composta por uma mesa, duas cadeiras, uma cama e pouco mais, à mulher que tratou dela nos últimos anos da sua vida e pediu-lhe para te entregar uma encomenda, mas tinhas de jurar por Deus que tudo o que está dentro da caixa (caixote) de madeira será para a tua filha Agapita, afilhada da mendiga, Ti Agapita. Eu sei que és um homem muito honrado, mas tem de ser assim, está aqui a encomenda, agora tens de jurar que é tudo para a tua filha Agapita, disse o Pároco! O Ti Manoel Frade fez todas as juras exigidas pelo Pároco Marcos, e com a encomenda às costas, dentro de um saco de serapilheira, voltou para o Monte da Capeleira. 
Quando o Ti Manoel Frade chegou à choça, no Monte da Capeleira, com a caixa de madeira às costas, a Ti Leonor confirmou que ele sempre trazia uma encomenda, se já estava ansiosa, ainda mais ficou, e foi a correr ao seu encontro. 
Ti Leonor: Então homem! Tanto tempo! Afinal o que trazes aí? Quem nos deu a encomenda? 
Ti Manoel: Não sei o que trago, mulher! Só sei que tive de jurar ao Padre Marcos, que a encomenda é toda para a nossa Agapita, por isso, não podemos tocar em nada, seja lá o que aí estiver dentro da caixa. Foi a nossa comadre Agapita, que faleceu há três meses e a mandou pelo Padre Anastácio, de Santiago!
Ti Leonor: Tudo para a Gapita? E nem ao menos podemos ver o que está lá dentro?
Ti Manoel: Não sei, mas parece-me que isso podemos, não me lembro de ter jurado que não podíamos ver! 
Ti Leonor: Então vamos lá ver! 
Ti Manoel: Agora não, mulher! Vamos lá comer as sopas, já tenho muita fome, depois logo tratamos disso! 
A Ti Leonor não ficou muito contente, porque a curiosidade era muita, mas não teve outro remédio senão acatar a sugestão ou ordem do Ti Manoel! 
Depois do jantar (almoço), antes do Ti Manoel ir tomar conta das ovelhas, foi buscar uma torquês (alicate) e chamou a Ti Leonor para assistir à abertura da caixa de madeira, as tábuas estavam pregadas com uns pregos já com ferrugem e mal o Ti Manoel forçou a caixa, as tábuas de cima saltaram deixando ver um vestido preto muito velho, coçado e cheio de remendos. 
Ti Manoel: Mas o que é isto? 
Ti Leonor: Ai valha-me Deus, homem! Uma coisa destas para a nossa Gapita! A nossa comadre já devia estar boa da cabeça!
Ti Manoel: Espera lá mulher, debaixo do vestido pode estar alguma coisa, porque o peso que eu carreguei de Santo António até aqui, não pode ser só deste vestido! 
O Ti Manoel puxou o vestido para fora da caixa, espreitou para o fundo, mas não estava lá nada! 
Ti Manoel: Mau, mau! Não está cá mais nada! E uma destas! Mas continuou a cismar que aquele vestido, só por si, não podia pesar tanto. Pegou nele para lhe tomar o peso e, percebeu logo que, tinha de existir alguma coisa no seu interior, ao mesmo tempo deitou uma das mãos à cintura do vestido e sentiu um objeto rijo, meteu a mão ao bolso e tirou a navalha, que cortava à distância, virou o vestido e estava uma bainha, cortou os pontos com cuidado e viu um tecido diferente que envolvia o objeto, puxou e cortou o tecido envolvente ficando na frente dos seus olhos um grande cordão em ouro, ficaram ambos pasmados, sem palavras, até que o Ti Manoel disse: Ora aqui está a herança deixada pela madrinha da nossa Agapita, nada mau, quem havia de dizer, uma mulher tão pobre, que andava `"pida" e tinha este cordão em ouro! E não se esqueceu da afilhada! 
Ti Leonor: Olha lá Manoel, era um bom vestido, onde iria ela a um vestido destes? Ao mesmo tempo a Ti Leonor sentiu outro objeto ainda na cintura e o Ti Manoel,entrou logo com a navalha em ação, foi cortando com cuidado e depararam-se com um lindo medalhão que fazia parte do cordão. Já não pararam, começaram a apalpar o vestido de alto a baixo e, nos lugares onde o vestido tinha remendos, estava por dentro uma jóia de ouro, dentro de saquinhos feitos em tecido e cozidos entre os remendos e o tecido do vestido e, encontraram cinco anéis, sendo quatro de homem e, um de mulher. Estavam a ficar estonteados e quando pensavam que não existia mais nada, porque já não viam mais remendos, a Ti Leonor reparou que o vestido tinha uma bainha em baixo e apalpou dentro dela mais objetos, apressaram-se a cortar os pontos e saíram de lá vinte moedas de ouro, cada uma dentro de um saquinho à sua medida e cozida dentro da bainha do vestido, estavam na frente de uma fortuna. Agora o grande dilema era como a iam guardar na choça até a entregarem à Gapitinha! Não encontraram maneira de resolver a questão, então concordaram em contar tudo aos lavradores do Monte da Capeleira e pedir-lhe auxílio. Estes, ficaram abismados com a situação e o lavrador disse-lhe que não tinha condições para guardar aquele tesouro no Monte, como a situação política andava, o reino em revolução, podiam ser assaltados a qualquer momento, assim o melhor era ele enterrar o tesouro, bem fundo, dentro da choça, logo à entrada no lado esquerdo, que aí decerto estava a salvo, ninguém esperava que estivesse um tesouro dentro de uma choça! O Ti Manoel e a Ti Leonor, puseram tudo nos lugares de origem dentro do vestido, arranjaram a caixa de madeira, cavaram uma cova bem funda, depois colocaram umas lajes, pedras, por baixo, de lado e por cima da caixa, terra em cima e o tesouro ali ficou bem guardado para a Gapitinha. 
Mas como é que uma mendiga, era dona deste tesouro? 
Mistério! 

Assim que cearam (jantaram), o Ti Manoel Frade e a Ti Leonor, foram ter com os lavradores ao Monte, entraram para uma casa e passado pouco tempo estavam todos reunidos com a Gapitinha. Ao sinal do lavrador, o Ti Manoel começou a contar à filha o que se passou na vida dela, desde o dia do seu nascimento, passando, inevitavelmente, pelo episódio do seu batizado e, o motivo da madrinha ter sido a Ti Agapita, uma mendiga de Santiago. Aqui, a Gapitinha mostrou um semblante de surpresa, mas pareceu pouco incomodada. Disse que já sabia quase tudo o que o pai lhe estava a contar e, não achava nada de mal, só gostava de ter conhecido a madrinha, mesmo pobrezinha, mas agora, como já tinha falecido, não podia fazer nada! O pai interrompeu-a e continuou: Estamos arrependidos de não a termos procurado em Santiago, como ela nunca se aproximou de nós, pensamos que se tinha esquecido de ti, mas estávamos enganados, porque três meses depois de ela falecer, recebemos uma encomenda com umas coisas que ela te deixou e há pouco tempo soubemos que nunca te esqueceu, e que não veio aqui ver-te por ter receio de ser mal recebida! A Gapitinha ficou muito triste, quando ouviu esta parte da notícia, mas não disse nada! O Ti Manoel reparou, mas não interrompeu a conversa e continuou: É por causa dessa encomenda que a tua madrinha Agapita te mandou, que nós estamos aqui! 
Gapitinha: Mas o que tinha essa encomenda? Estou a ficar assustada! 
Ti Manoel: Não fiques assustada, deixa-te estar descansada, porque é uma boa prenda! A encomenda é um tesouro! 
Gapitinha: Um tesouro? Ai valha-me Deus! O pai está a brincar comigo? E eu que pensava que os tesouros só existiam em histórias! 
Ti Manoel: É mesmo verdade! E os presentes olharam para ela e abanaram a cabeça em sinal afirmativo! 
Gapitinha; E onde está esse tesouro? 
Ti Manoel: Está bem guardado, com a ajuda dos nossos patrões, até que tomes conta dele, agora, não lhe podemos tocar, porque é só teu! 
Gapitinha: Ai não! Isso é que não! É de todos!
Ti Manoel: Não é! Não! Tem que ser assim! Jurei a Deus, perante o Padre Marcos, que seria tudo teu, porque foi essa a vontade da tua madrinha, por isso, está dito! E queremos dizer-te porque vieste muito novinha aqui para o Monte, porque não foi só para aprenderes a fazer tudo, mas também para aprenderes boas maneiras e seres preparada para fazeres um bom casamento, porque como já sabes, és uma menina muito rica, mas não deixas de ser filha de um pastor! Gapitinha: Não consigo perceber, como é que a minha madrinha era uma mulher que andava à "pida" e deixou-me essa fortuna! 
Ti Manoel: Pois, também não sabemos, filha! É um grande mistério! Talvez um dia possas saber! 
Gapitinha: Acredite, pai! Um dia vou saber tudo sobre ela! 
A conversa estava no fim e, então o lavrador disse-lhe que a Gapitinha continuava no Monte até ao dia de se casar, que a tratariam como se fosse sua filha e que a partir de amanhã começava a sentar-se com eles à mesa! 
O Ti Manoel e a Ti Leonor agradeceram muito aos lavradores e voltaram para a choça! A Gapitinha foi deitar-se, mas ao chegar ao quarto tinha as criadas todas à espera de saberem o que se tinha ali passado! Ela apenas lhe disse que foi para lhe dizerem que era rica! As criadas riram, riram até adormecerem! 
No dia seguinte, ficaram muito surpreendidas ao verem a Gapitinha sentadinha à mesa com os lavradores e filhos, mas mesmo assim, não acreditaram no que ela lhe contou na noite anterior, porque não encontravam nenhuma maneira para que isso pudesse ser possível! 
A Gapitinha, como já vinha acontecendo, continuou a frequentar festas, fazer visitas e passeios, como se fosse filha dos lavradores do Monte da Capeleira! 
Os anos foram passando, a Gapitinha já estava moça e muitos rapazes rondavam o Monte da Capeleira por sua causa, mas nada acontecia porque os filhos dos lavradores das terras de Capelins, sabiam que ela era filha do pastor e, seria impensável algum casar com ela, apesar de existir o boato de ser rica e, os mais pobres, eram enxotados dali, por ordens muito rigorosas do lavrador. Porém, ainda neste ano, tudo mudou, em termos amorosos, na vida da Gapitinha. Os lavradores do Monte da Capeleira eram originários da Vila de Terena, onde tinham muitos familiares e compadres, por isso, ali passavam as Festas anuais, levando sempre, com eles, a Gapitinha e foi nestas Festas que a Gapitinha e um rapaz da sua idade, 23 anos, chamado Bento, filho do lavrador mais rico de Terena, dono de três herdades e com muitos outros rendimentos, compadre do lavrador do Monte da Capeleira, se perderam de amores um pelo outro. Nas Festas, todas as pessoas comentavam este caso que, também não passou despercebido ao pai de Bento, por isso chamou o filho e perguntou-lhe o que queria da rapariga do Monte da Capeleira, se era alguma brincadeira ou se estava a pensar numa coisa séria! O Bento disse ao pai que nunca tinha gostado de ninguém como gostava daquela rapariga e que faria tudo para casar com ela, mas para isso acontecer precisava da ajuda do pai para o apoiar e encaminhar nesse sentido. O lavrador de Terena teve a certeza que o filho estava a falar verdade e prometeu ajudá-lo, mas primeiro tinham de saber de que lavrador de Capelins ela era filha para poderem ir falar com ele a pedir autorização para namorarem e disse-lhe que falava com o compadre do Monte da Capeleira, para ele lhe dar essa informação. As Festas estavam no fim e o pai do Bento antes da partida da Gapitinha foi falar com o compadre para saber informações da família da rapariga. Depois de explicar o assunto que o levava ali, fez-lhe a pergunta fundamental e, o lavrador disse-lhe a verdade, que era filha do seu pastor. O homem ficou branco e cambaleou! 
Lavrador de Terena: Do pastor? Esta menina? Ai meu Deus! 
Lavrador do Mte da Capeleira: Sim! Mas existe um grande segredo que, decerto muda tudo!
Lavrador de Terena: Um segredo? Que segredo? Posso saber compadre? 
Lavrador do Mte da Capeleira: Sim! Pode! Ela é muito rica, uma madrinha misteriosa deixou-lhe uma grande fortuna! 
Lavrador de Terena: Está a brincar comigo compadre? 
Lavrador do Mte da Capeleira: Não estou a brincar, dou-lhe a minha palavra de honra que ela é tão rica como nós os dois juntos! Estou bem informado!
O lavrador de Terena ficou bem esclarecido sobre a vida da Gapitinha e da sua família, foi dali e contou ao filho Bento que continuou firme na sua paixão e não se importou nada com a origem familiar da sua futura mulher. No Domingo seguinte já estavam a falar com o pastor e pedir-lhe a devida autorização para poderem namorar, mas ele já estava ao corrente de tudo, antes informado pelo patrão.
O Bento e a Gapitinha começaram a namorar e entendiam-se tão bem que passados seis meses, em 6 de Março de 1841, o Pároco de Capelins, Manoel de Santo Inácio Pereira, realizou o seu casamento na Igreja de Santo António. A boda foi na Vila de Terena, onde ficaram a morar.
A Gapitinha recebeu o seu tesouro e, com o seu marido começaram imediatamente, a desenvolver e organizar a sua vida, tornaram-se grandes lavradores da Vila de Terena e das terras de Capelins. 
Os pais da Gapitinha foram para sua casa e os irmãos ficaram a trabalhar nas suas herdades em lugares privilegiados, de feitores. 
A Gapitinha não esquecia a madrinha Agapita de Jesus e, começou imediatamente a procurar na Vila de Terena, alguém com as devidas competências para investigar o mistério que a atormentava, sobre quem era a sua madrinha, mendiga de Santiago, que lhe deixou a fortuna! 
Com a ajuda da sua nova família, a lavradora Agapita depressa encontrou a pessoa mais competente na Vila de Terena, para investigar e descobrir tudo sobre o passado da sua madrinha Agapita. Era um sargento de ordenanças (guarda do reino), recentemente reformado, que aqui morava e tinha prestado serviço em Terena, era natural de Estremoz, o pai de Montemor-O- Novo e a mãe da cidade de Évora. O sargento ouviu a Agapita com muita atenção, tomou algumas notas e disse-lhe que não seria difícil ter as respetivas respostas, porque tinha muitos conhecimentos em Santiago, mas não sabia se conseguia desvendar ali o mistério, ou se teria de ir a outra localidade. A Agapita deu algum dinheiro ao sargento que, na madrugada do dia seguinte montou o seu cavalo e seguiu para a Aldeia da Venda, como tinha feito inúmeras vezes quando estava no ativo, ao nascer do sol já sabia onde morava a mulher que tinha tratado a mendiga Ti Agapita nos últimos anos da sua vida chamada Rosa e que tinha ficado com a sua casa e os trastes. Assim que Rosa abriu a porta, ensonada e esfregando os olhos, já ele estava encostado à ombreira, ela apanhou grande susto, porque o conhecia bem! Depois de darem os bons dias, ela aflita, disse-lhe que não tinha feito nada de mal! 
Sargento: Eu sei que não fez nada de mal! Não tenha medo, só quero saber umas informações! 
Rosa: Então, se eu souber responder, conto-lhe tudo! 
Sargento: Então diga-me lá, conheceu uma mulher chamada Agapita que era mendiga e morava nesta casa?
Rosa: Ai valha-me Deus! Conheci sim, senhor guarda, mas olhe que ela deu-me a casa, está tudo escrito no testamento feito pelo Padre Anastácio, está lá na Igreja! 
Sargento: Está tudo bem! Eu só quero saber de onde era a Ti Agapita e tudo o que souber sobre a sua vida! 
Rosa: Olhe, quem sabe tudo é o Padre Anastácio, mas já está muito velhinho, porque foi ele que veio fazer o testamento e dar-lhe os Sacramentos e ela teve de lhe contar tudo, para lhe perdoar os pecados! 
Sargento: Mas se eu quisesse falar com o Padre Anastácio, não vinha aqui falar consigo! 
Rosa: Eu sei algumas coisas que ela me contou nos últimos dias de vida, mas não é muito! 
Sargento: O que me contar é por uma boa causa e a pessoa que precisa de saber as informações manda-lhe isto, e deu-lhe alguns vinténs! 
A Rosa até saltou, recebeu os vinténs com as duas mãos e prontificou-se a contar tudo o que sabia!
Rosa: Então, se é por uma boa causa, diga lá o que quer saber?
Sargento: De onde era a Ti Agapita?
Rosa: Era de Montemor-O-Novo, não sabia? 
Sargento: Não! E porque se dedicou à mendicidade?
Rosa: Porque ficou sem nada! Teve um grande desgosto na vida, ficou sozinha no mundo, então deu tudo o que tinha aos pobres de Montemor e depois abalou sem destino, até que veio ter aqui a Santiago, gostou da aldeia e ficou aqui nesta casa até morrer!
Sargento: E sabe o que lhe aconteceu para ter o desgosto?
Rosa: Sei! Foi porque lhe morreram os três filhos e o marido!
Sargento: Nunca lhe ouviu falar no nome do marido, da Família? 
Rosa: Ouvi! Mas não me lembro, era qualquer coisa Atayde e parece que o nome dela não era Agapita! 
Sargento: Pois não! Bom dia, passe bem, já sei tudo o que precisava! 
O sargento picou as esporas ao cavalo e, em poucas horas pôs-se na Vila de Terena! Foi logo contar à lavradora a conversa que teve com a Rosa de Santiago e acrescentou que ouviu contar ao pai o que tinha acontecido a essa ilustre Família Atayde, uma grande desgraça, mas já não conseguia juntar as coisas, mas se a lavradora estivesse de acordo, podia escrever uma carta aos familiares que ainda tinha em Montemor e decerto esclareciam tudo. A lavradora agradeceu ao sargento e disse-lhe que isso ia demorar muito tempo e antes preferia que ele fosse pessoalmente a Montemor averiguar a situação, e ela pagava-lhe o que fosse preciso! O sargento prontificou-se imediatamente a servir a lavradora, recebeu mais dinheiro e, dois dias depois, partiu a cavalo para Montemor-O-Novo! 
O sargento saiu da Vila de Terena às quatro da manhã, dormiu em Évora, onde tinha familiares do lado da mãe e na madrugada do dia seguinte partiu para Montemor-O-Novo, chegando a esta Vila (hoje cidade) pelas quatro horas da tarde, foi ficar em casa de uns tios que o receberam com grande alegria, há muitos anos que não se encontravam e as notícias das famílias de parte a parte eram muito escassas. Depois de esgotarem as perguntas sobre a vida de cada familiar, o sargento contou-lhe o motivo porque estava ali e perguntou-lhe se conheciam aquela família. Os tios disseram-lhe que conheceram muito bem a família Atayde e sabiam tudo o que se tinha passado até ao desaparecimento da mulher do capitão, a qual não se chamava Agapita, havia ali algum engano, uma troca de nomes, porque ela chamava-se Maria Vicência de Carvalho Andrade, e quem se chamava Agapita de Jesus era a sua criada, que estava com ela desde o seu nascimento e foi a sua ama, quando casou foi com ela para a sua casa onde esteve até falecer em 1910, na mesma altura em que faleceram o marido e o filho, também militar! 
O sargento ia tomando nota de tudo o que os tios lhe ditavam e nem tinha oportunidade de fazer nenhuma pergunta, porque ia obtendo todas as respostas que precisava, porém, aqui contou-lhe que ela se fez passar por Agapita e outras coisas que já relatámos nos episódios anteriores, ficando os tios boquiabertos! E continuaram: Essa família era muito ilustre aqui em Montemor, o marido era militar de cavalos, por fim capitão e um filho também era militar com o pai, parece que era alferes de cavalos, mas depois de terem morrido dois filhos, tísicos, ainda moços, acabou-se a felicidade nessa casa. Em 1910, foi o fim, quando o general André Massena entrou em Portugal, na terceira invasão dos Franceses, como não voltaram a atac
ar aqui a Vila, mandaram seguir as nossas tropas para Torres Vedras, para as linhas de Torres, ficando aqui uma pequena guarnição, então alguém avisou os franceses sobre o lugar onde esta companhia ia passar o rio Tejo, parece que foi no pior lugar, como iam com muita pressa não podiam passar tudo nas barcas, a cavalaria, a infantaria e o trem militar (carros com material de guerra e víveres, puxados por Bois e por mulas), deram ordens para passar junto a Almourol, onde a cavalaria com o apoio das barcas como corta corrente passava a nadar, e foi ai que uma divisão das tropas do Massena os emboscou e acabou com a cavalaria, que ía à frente, morreram quase todos, entre eles o capitão Atayde e o único filho que tinham, nem os corpos apareceram, foram Tejo abaixo! Vê lá o desgosto da desgraçada da senhora, nessa altura ainda tinha a criada Agapita já velhinha, e ampararam-se uma à outra, por pouco tempo, a Agapita com o desgosto pouco viveu e a senhora viu-se sem ninguém, a partir daí só saía com outra criada às missas. Um dia ouvimos dizer que estava a tratar para dar tudo o que tinha aos pobres, mas nunca pensamos que fosse a casa, mobílias e tanta coisa valiosa que tinham em casa, porque era uma família rica! Não sabemos como essa parte se passou, foi tudo tratado com a Misericórdia e não demorou muito tempo desapareceu daqui. Passado um ano ou mais, ouvimos por aqui dizer que a tinham visto pelas ruas de Évora, a vaguear, alheia a tudo e a partir daí, só agora estamos a ouvir falar dela! Olha lá para onde ela foi acabar! Triste vida! Uma senhora daquelas! Exclamou o tio! 
Sargento: Era isto que eu precisava de saber, para dizer a uma afilhada que ela tinha e que só teve conhecimento da sua existência alguns anos depois de ela ter falecido! Nunca lhe contaram, devido a uma confusão e por se terem afastado, ela morava numa aldeia afastada e andava a pedir esmola para depois dar a outros e foi convidada para madrinha de uma menina, que não conheceu, mas deixou-lhe uma grande fortuna em ouro!
Tio: Sim, eles eram de famílias muito ricas, de altas linhagens, como te disse aqui em Montemor, deixou grande fortuna para os pobres! 
A conversa sobre esta família acabou por ali, o sargento já sabia tudo o que precisava, mas permaneceu em Montemor mais três dias, para cumprimentar outros familiares e estar com os tios. Depois voltou para a Vila de Terena, dormindo novamente em Évora, porque a viagem ainda era muito longa, ao chegar a casa descansou e só no dia seguinte foi contar tudo à lavradora Agapita, entregando-lhe um relatório assinado por ele, como garantia da verdade. Foi bem pago pelo seu trabalho e a Agapita sentiu-se mais confortada por ficar a saber quem era na verdade a sua madrinha e a origem da fortuna que lhe deixou! Tudo esclarecido!

Fim 





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