domingo, 17 de dezembro de 2017

236 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Lenda do Moleiro das Neves e do Lucifer, senhor da Ribeira de Lucefécit 
O Moinho das Neves, submerso pelas águas do Grande Lago de Alqueva, situa-se na Ribeira de Lucefécit um pouco acima da foz do Ribeiro das Neves! Era o Moinho da Vila Defesa de Ferreira e, por ali passaram muitos moleiros e, com as suas famílias ali permaneciam cerca de seis meses, instalados no moinho, na casa de apoio e, em cabanões junto à mesma! 
Um dos moleiros que lá esteve nos anos de 1800, foi o ti José Martins, da aldeia de Cabeça de Carneiro, casado com a ti Mariana da Conceição, a qual, além de tratar dos filhos, da comida, da roupa, da burra, ainda o ajudava na sua tarefa no moinho! 
Um dia, chegou lá um parente com um saco de trigo para moer, fazer em farinha e, a dizer à ti Mariana que a mãe estava muito doente, se a quisesse ver viva que fosse ainda nesse dia porque ela estava mesmo nas abaladas! A ti Mariana acabou de fazer a açorda, comeram mais cedo, organizou as coisa com o ti José, carregou a burra com meio saco de farinha, montou os gaiatos e seguiu pela estrada do vale de enxofre acima, Capelins de Cima, Portela, Terraço, Areias, Monte da Vinha e Cabeça de Carneiro! Foi a correr ver a mãe que já nem falava, mas teve a certeza que ainda a ouviu, mas a mulher depressa entrou em agonia, parecia estar só à espera da filha para se despedir e partir!
O ti José estava no moinho, a noite a escurecer, ele deixou as coisas orientadas e foi à casa que ficava 30 ou 40 metros  mais acima, em frente à porta juntou um feixe de lenha e fez lume para assar um bocado de toucinho para a sua ceia (jantar) com um quarto de bom pão, cozido no forno das Neves! Estava com o toucinho no espeto junto ao lume, quando ouviu uma voz assustadora que, parecia vir dos fundos da terra:
- Boa noite moleiro!
Naquele lugar, quando a Ribeira ia cheia, passavam muitas pessoas para a Aldeia do Rosário ou para Santa Luzia, por cima do açude, uma parede que ligava as margens entre a Defesa de Ferreira e a herdade de Santa Luzia, para estancar e canalizar a água para fazer mover o moinho e, os passantes para um e o outro lado, sempre tinham uma palavra para com o ti José! Naquela noite ficou muito assustado, porque não ouviu a aproximação e deu um salto, ficando imediatamente virado para o desconhecido! Ainda ficou mais assustado quando, com a luz do lume viu a figura que estava na sua frente, muito alta, fisionomia medonha e, ainda ficou pior quando lhe olhou para os pés, formados por cascos, pensou logo que era o Lucifér, mas disfarçou e disse-lhe! 
Moleiro: Boa noite, quem és tu? E o que queres daqui?   
Lucifer: Eu sou o Lucifer, o senhor desta Ribeira! Andam por aí a mudar-lhe o hidrónimo, mas esta é a Ribeira do Lucifer e será sempre a minha Ribeira! Deixas-me assar a minha ceia (jantar) aí no teu lume? 
O ti José olhou e, ficou aterrorizado quando viu o espeto do Lucifer cheio de cobras de água, ainda vivas a debaterem-se na tentativa de fuga impossível! 
Moleiro: A tua ceia são essas cobras de água? 
Lucifer: A minha e a tua, chegam para ti, se quiseres posso dar-te algumas, decerto nunca comeste coisa tão boa! Não têm espinhas, como os peixes que comes! 
O Lucifer, chegou imediatamente as cobras ao lume do ti José e, depressa deixaram de se debater porque já estavam a pingar para cima do toucinho! 
Moleiro: Alto lá! Deixa-me lá assar o meu toucinho e, depois já assa as tuas cobras! Para mim, não quero nada disso! 
Lucifer: Não posso esperar, porque estou com muita pressa! 
Moleiro: Vamos lá ver se nos entendemos, o lume é meu e eu não quero cá isso em cima do meu toucinho! Mas que pressa é essa, que não podes esperar uns minutos? 
Lucifer: Tenho de ir já para Cabeça de Carneiro, porque a tua sogra está mesmo a acabar e eu tenho de lhe catar a alma! 
Moleira: Não acredito nisso! A minha sogra é das melhores pessoas de Cabeça de Carneiro, não merece ir para o inferno, a alma dela, decerto que não é para ti! 
Lucifer: Seja, ou não, tenho que lá estar, porque às vezes há surpresas! Vamos ver! 
O moleiro não estava a gostar da conversa, mas como tinha desvantagem física em relação ao Lucifer, sabia que a única salvação era mostrar-lhe uma cruz, mas onde é que a tinha? Deu voltas à cabeça, enquanto iam falando sobre a vida do moleiro e do moinho, que moía com a água da sua Ribeira, até que o Lucifer lhe perguntou:
- Oh moleiro, já vi que sabes muito de moinhos, mas sabes dizer-me qual a dimensão ali do teu moinho? 
De repente, fez-se luz na cabeça do ti José e, pensou que era a sua oportunidade de se desfazer do Lucifer, meteu mais lenha no lume para dar boa luz e disse-lhe: 
Moleiro: Sei, sim Lucifer! Mas tenho de te fazer um desenho aqui no chão, ao pé do lume para perceberes bem!
Lucifer: Então faz lá o desenho e explica-me, bem explicado!
Moleiro: Então, para veres bem chega lá aqui ao pé do lume! 
O ti José alisou bem o terreno arrojando as botas para um e outro lado e, o Lucifer, muito curioso chegou a cabeça quase ao pé do lume, o moleiro, pegou no espeto do toucinho que era de ferro e disse-lhe:
- Olha Lucifer, o meu moinho é daqui, fez um risco bem fundo na terra, até aqui, e fez outro risco muito fundo a cortar o anterior, fazendo uma cruz! O Lucufer, viu a cruz mesmo na frente dos seus olhos, deu um grito estridente e esfumou-se! 
O ti José já não comeu o toucinho com pingo das cobras, enterrou-o, entrou em casa e comeu um pedaço de pão com queijo e, foi trabalhar para o moinho toda a noite, pouco passou pelas brasas! 
Ao nascer do sol, foi a correr ao lugar onde tudo se tinha passado para confirmar se tinha sido mesmo real ou se tinha sonhado em algum momento que adormeceu e, lá estavam as marcas das patas do Lucifer e, a cruz bem saliente no chão! 
Pouco depois, chegou um parente que morava na aldeia de Cabeça de Carneiro a informá-lo que a sogra tinha falecido durante a noite! Foi à Vila de Ferreira - Neves, ali ao lado,  chamar um homem que por vezes o ajudava, para ficar no moinho naquele dia e foi ao funeral da sogra!
Quando o ti José voltou ao moinho, contou tudo à ti Mariana e, foram a correr fazer cruzes bem visíveis, com cal branca, no moinho, na casa e nas rochas em redor, sendo até motivo de chacota por parte de alguns clientes que, inventavam o que lhes convinha, faziam décimas  e, alguns começaram a chamar-lhe o moinho das cruzes, pensavam que tinha a ver com feitiçaria! 
O ti José e a ti Mariana ficaram convencidos que, foram as cruzes a afastar o Lucifer daquele lugar e, acreditaram que a Ribeira era mesmo dele! 
As pessoas chamavam-lhe Ribeira do Lucefece (Lucefécit) para não pronunciarem a palavra Lucifer, porque, todos estavam convencidos que, se o pronunciassem ele aparecia! (Ainda hoje dizem: "Fala-se no diabo e ele aparece!"). 








  



sábado, 16 de dezembro de 2017

235 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História de Capelins 
Os tempos da Reforma Agrária 1975 

Portaria 579/75
de 24 de Setembro
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Agricultura e Pescas, sob proposta do Conselho Regional de Reforma Agrária do Distrito de Évora e nos termos dos artigos 1.º e 8.º do Decreto-Lei 406-A/75, de 29 de Julho, expropriar os prédios rústicos abaixo discriminados:
13) Herdade da Defesa da Bobadela de Cima:
Matriz cadastral: artigo 2, secção B, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins (Santo António), com 667 ha, propriedade de Luís Dias Coutinho.
14) Herdade da Defesa de Ferreira:
Matriz cadastral: artigo 1, secção F, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 514,7250 ha, propriedade de Luís Dias Coutinho.
20) Herdade dos Caldeirões:
Matriz cadastral: artigo 1, secção A1-A2, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 2074,6250 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A.
R. L.
21) Courela Colmeal do Marocos:
Matriz cadastral: artigo 10, secção A, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 0,05 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A. R. L.
22) Courela do Colmeal dos Caldeirões:
Matriz cadastral: artigo 8, secção A, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 0,0750 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A. R. L.
23) Herdade do Azinhal Redondo:
Matriz cadastral: artigo 41, secção C, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins (Santo António), com 179,4250 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A. R. L.
24) Herdade do Monte Novo:
Matriz cadastral: artigo 40, secção C, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, (Santo António), com 269,80 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S.
A. R. L.
25) Herdade da Defesa da Bobadela:
Matriz cadastral: artigo 1, secção B-B1, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins (Santo António), com 854,70 ha, propriedade de Carvalho J. Martins, Lda.
Ministério da Agricultura e Pescas, 5 de Setembro de 1975. - O Ministro da Agricultura e Pescas, Fernando Oliveira Baptista.

Nos termos dos artigos 1.º e 8.º do Decreto-Lei 406-A/75, de 29 de Julho, expropriar os prédios rústicos abaixo discriminados, propriedades de:

87 - Defesa da Pedra Alçada. - Situado na freguesia de Santo António de Capelins, concelho de Alandroal, matriz cadastral 3-EE1, com a área de 680,4900 ha (115613,6 pontos).
88 - Defesinha. - Situado na freguesia de Santo António de Capelins, concelho de Alandroal, matriz cadastral 1-F, com a área de 466,0250 ha (31166,2 pontos).
De acordo com o n.º 1 do artigo 15.º do referido diploma, são declarados ineficazes todos os actos praticados desde 25 de Abril de 1974 que, por qualquer forma, tenham implicado diminuição da área do conjunto de prédios rústicos de cada proprietário.
Ministério da Agricultura e Pescas, 1 de Junho de 1976. - O Ministro da Agricultura e Pescas, António Poppe Lopes Cardoso.


Ex.mo Sr. Chefe do Gabinete do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro:
Em resposta ao ofício n.° 3421, de 13 de Dezembro de 1978, do ex-Gabinete do Ministro sem Pasta, remeto a V. Ex.ª os elementos pedidos pelo Deputado José Carvalho Cardoso.
Com os melhores cumprimentos.
15 de Abril de 1978.— Pelo Chefe do Gabinete, (Assinatura ilegível).
ANEXO 1
Lista de unidades colectivas de produção Distrito de Évora:
I — Concelho de Alandroal:
1 — Cooperativa Agrícola Defesa da Bobadela:
Área: 1552,30 ha.
Herdade Defesa da Bobadela.
2 — Cooperativa Agrícola das Defesas:
Área: 1998,90 ha.
Herdade da Defesa da Pedra Alçada
3 — Cooperativa Agrícola do Infantado:
Área: 758,05 ha.
Herdade da Defesa de Cima.
4 — Unidade Colectiva de Produção de Santa Clara:
Área: 1211,30 ha. Herdade da Chamorreira.
5 — Cooperativa Agrícola de Santa Luzia:
Área: 1236,40 ha. Herdade de Santa Luzia.
6 — Unidade Colectiva de Produção de Santo Amaro:
Área: 1105,70 ha. Monte de Santo Amaro.
7 — Unidade Colectiva de Produção Cooperativa
Agrícola de Santo Isidro:
Área: 1117,60 ha.
Herdade de Defesa de Ferreira.
8 — Cooperativa Agrícola 11 de Março:
Área: 2098,20 ha. Herdade da Misericórdia.
9 — Unidade Colectiva de Produção Vasco Gonçal-
ves:
Área: 1865 ha.
10—Comissão de Trabalhadores Herdade do Roncanito — Capelins. 




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

234 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Concelho de Ferreira (Capelins) 
Continuamos a descrever a história do Concelho de Ferreira (Capelins), neste caso, o seu fim para sempre: 
"Foi pouco duradoura esta organização; porquanto em 1836 pôla completamente de parte a comissão nomeada em portaria de 29 Setembro para redação d'um novo projecto de divisão administrativa, a qual, tomando por base os trabalhos enviados pelas juntas geraes dos districtos, apresentou o seu relatório e projecto a 3 de Novembro, e em consequência, saiu o decreto de 6 de Novembro, mandando pôr em execução, ainda a título de ensaio, a nova circunscripção administrativa.
Por esta circunscripção estabeleceram-se no Alentejo três districtos administrativos, com as sedes nas mesmas terras em que se tinham collocado outrora as divisões eleitoraes, e por elles se distribuiram todos os Concelhos das 8 antigas comarcas, (...).
Vejamos agora como ficaram constituídos os três districtos administrativos do Alentejo:
(...)
Da comarca d' Elvas: Mourão, conservado; FERREIRA DE CAPELLINS e Terena, extinctos! 
E, assim, pelo decreto de 6 de Novembro de 1836, chegou ao fim o Concelho de Ferreira (Capelins) que pertencia à comarca de Elvas". 









quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

233 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Concelho de Ferreira (Capelins) 
Continuamos a descrever a história do Concelho de Ferreira (Capelins), assim: 
"Como dissemos, o mapa de 1822, teve unicamente applicação aos actos eleitoraes, continuando a subsistir no paíz a mesma circunscripção administrativa para os efeitos civis e judiciais. 
Com a mudança porém do systema politico em 1834, tornou-se extensiva a todo o Reino a nova circunscripção, pelo systema francez das prefeituras, decretadas nos Açores a 16 de Maio de 1832 e completadas mais tarde no Porto pelo decreto de 28 de Junho de 1833.
Por este último decreto estabelecia-se a capital da Provincia em Évora, sede portanto da prefeitura do Alentejo, à qual ficavam pertencendo 5 comarcas, a saber: Évora (prefeitura), Estremoz, Elvas, Portalegre e Setúbal (sub-prefeituras), (...).
Vejamos quais os Concelhos que entravam na demarcação de cada uma d'estas comarcas:
(...)
Comarca d' Elvas - 11 Concelhos: Alandroal, Borba, Elvas, FERREIRA DE CAPELLINS, Jerumenha, Monsaraz, Mourão, Terena, Villa-boim, Villa Fernando e Villa Viçosa.
Assim, mais uma vez podemos verificar que, após a alteração do número de Concelhos constituintes de algumas comarcas, nos termos do decreto de 28 de Junho de 1833, o Concelho de FERREIRA (CAPELINS) continuou integrado na comarca de Elvas".

Continua... 





terça-feira, 12 de dezembro de 2017

232 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Concelho de Ferreira (Capelins) 
Encontramos diversos documentos que atestam ter sido Ferreira (Capelins) um Concelho da Comarca de Elvas, entre os quais o que em parte passamos a transcrever:
"Votada a Constituição de 1821, prepararam-se as cousas para se proceder à eleição de deputados em 1822, repartindo-se então para esse effeito o Continente do Reino e Ilhas em 26 divisões eleitorares.
Junto ao decreto de 11 de Julho de 1822 saiu um mapa geral d' esta repartição que devia servir provisoriamente para os actos eleitoraes, e d' elle se vê que a Provincia do Alentejo era repartida em 3 divisões, centralizando-se as últimas operações do escrutínio em Évora, Beja e Portalegre.
Este mappa satisfaz a diversos quesitos, respetivamente a todos os concelhos do Reino, fazendo a distribuição d' estes pelas 3 divisões eleitoraes, e dando-nos o ensejo de conhecer os fogos e habitantes que em cada um d' elles havia no anno de 1821.
Vamos aproveitar estes elementos para constituir a estatística da população das Comarcas n' este tempo, em que se manifestam já os prenuncios da sua remodelação nos actuais districtos administrativos.
(...) Comarca d' Elvas - 7 Concelhos: Elvas, Campo-maior, Mourão, Terena, Barbacena, FERREIRA DE CAPELLINS e Ouguela com 7.040 fogos e 26.761 habitantes.
(...) Confrontando este agrupamento de Concelhos com a constituição das Comarcas de 1739, encontramos augmentada a comarca d' Évora... (...) Da d' Elvas desappareceu Olivença, entrando na lista dos Concelhos o de FERREIRA DE CAPELLINS, creado de nôvo."
Assim, parece-nos que, em 1739, o Concelho de Ferreira (Capelins) teria sido extinto, ou pelo menos nessa data não constava como Concelho, voltando a ser Concelho da Comarca de Elvas em 11 de Julho de 1822.

Continua... 




















segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

231 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História de Capelins
A "guerra" da mudança do Concelho de Monsaraz para Reguengos, envolveu a Freguesia de Santo António de Capelins em 1840
À Comissão de Administração foi presente o requerimento dos habitantes da Villa de Monsarás, os quaes se queixam, de que a Sede daquelle Municipio, fosse mudada para aldêa de Reguengos, hoje Villa Nova do mesmo nome: os Peticionarios depois de alegarem a injustiça, que se lhes fizera com aquella mudança, não sendo para ella ouvidos, e a incommodo que lhe resulta, pedem, que o antigo Concelho de Monsarás, e hoje de Reguengos, seja dividido pela Ribeira do Álamo, que na estação invernosa, véda em muitas occasiões a communicação entre os dous pontos, e que á parte que ficar pertencendo a Monsarás, se junte a Freguezia de Santo Antonio de Capellins, em outro tempo pertencente ao Concelho de Terena, e hoje ao Alandroal pela extincção daquelle, o que seria de muita commodidade para os habitantes da dita Freguezia, por distarem tres legoas do Alandroal, e uma de Monsarás; pedem, que igualmente as antigas rendas do Municipio sejam divididas entre os dous Concelhos, e allegam o injusto vexame que sem isso terão de soffrer pelas inmoderadas despezas, que forçosamente se hão de fazer, e se estão fazendo em Reguengos para a edificação necessaria, aonde não ha um só estabelecimento para as funcções Municipaes, em quanto que os edificios publicos de Monsarás se estão demolindo, recaindo mesmo as fintas e impostos Municipaes em consequencia desta, e outras despezas, em virtude das quaes aquelle rico Concelho se acha hoje empenhado. Os Peticionarios além de outras muitas razões, que allegam em favor da sua pertenção, offerecem á consideração desta Camara a commodidade dos povos, pois que a maior e mais rica povoação, se acha mais proxima á antiga Villa de Monsarás do que a Reguengos e situada além da Ribeira do Álamo por onde pertendem a divisão; depois a utilidade politica da conservação da Villa de Monsarás com suas Authoridades, pois que sendo aquella Villa fronteira ao Reino de Hespanha, e collocada a menos de meia legoa delle, as conveniencias politicas exigem que alli se conserve sempre uma boa povoação, que em qualquer tempo coadjuve aquelle ponto de defeza, que entrou sempre no systema das Praças fronteiras daquelle Reino; e que além disso a remoção das authoridades para a Villa de Reguengos, deixa o Paiz aberto aos contrabandos, com grave prejuizo da Agricultura, e Industria Nacional; pedem igualmente, que lhes sejam restituidas a Santa Efígie de Nossa Senhora da Conceição, e de Sua Magestade a Rainha D. Maria II, e Duque de Bragança, e bem assim o Estandarte da Camara, e o sino da mesma, o que tudo lhes fôra tirado. A Commissão ponderando as graves razões allegadas por aquelles povos, não sendo de menos peso as grandes dissenções, e acalorada animosidade que se tem estabelecido entre as duas povoações, com grave detrimento da ordem publica, encontra motivos bem fortes para deferir favoravelmente á sua pertenção, e principalmente porque entende, que na divisão territorial se deve inteiramente attender á commodidade dos povos, mas para não preterir alguma diligencia que a possa esclarecer, e de parecer, que se remetta ao Governo a Petição para este mandar ouvir pelo Administrador Geral d'Evora, a Junta de Parochia das Freguezias da. Villa de Monsarás, e aquellas que ficam além da Ribeira do Álamo, por onde se pertende a divisão, e a de Santo Antonio de Capellins, que se pertende annexar, sendo suas respostas remettidas com urgencia a esta Camara, com a do Administrador Geral, sobre cada um dos factos allegados pelos Peticionarios, a fim de que a Commissão possa dar o seu parecer definitivamente. Sala da Commissão, em 2 de Julho de 1840. = Conde de Linhares, Presidente = Barão de Renduffe = Fernando Pinto do Rego Cêa Trigueiros = Francisco Tavares de Almeida Proença = Manoel Gonçalves de Miranda = José Teixeira d'Aguilar, Secretario = Felix Pereira de Magalhães.
Concluida a leitura, disse
O Sr. Vellez Caldeira; — A mente da Commissão é certamente esclarecer-se com estas inibi mações, mas esclarecimentos a respeito dos Supplicantes tem ella nesse pedido; eu não me opponho a que se requisitem, mas é de justiça ouvir tambem os Supplicados, porque esses não se devem privar da audiencia: em consequencia peço, que seja tambem ouvida a Camara Municipal do Reguengo, e as Authoridades Administrativas desse Concelho.
O Sr. Barão de Renduffe: —...
O Sr. Barão da Ribeira de Sabrosa: — Eu tenho pedido a palavra para fazer um requerimento como acaba de fazer o Sr. Vellez Caldeira; e peço licença para unir os meus votos aos seus. Monsaraz é um rochedo descarnado; está fundada a sua população na Lua; é mui pequeno, e decresce continuamente; não é um ponto de defensa no systema de guerra; suas communicações são poucas em consequencia de sua posição. Por tanto desejo que se Ouça a Camara da Villa do Reguengo a par da de Monsaraz; pois é isto o que a justiça pede.
O Sr. Barão de Renduffe: ----.
O Sr. Lopes Rocha: — Queria dizer que se devia observar a Lei. O Codigo Administrativo no Artigo 253 manda que as Juntas Geraes de Districto informem sobre o melhoramento das divisões dos mesmos Districtos; por tanto pedindo-se estas informações é muito regular que se exijam das authoridades a quem a Lei incumbiu taes diligencias, e a Junta Geral do Districto, se lhe parecer conveniente, que mande ouvir os Supplicantes, os Supplicados, os Administradores dos Concelhos, etc. 




230 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
Segredos de Capelins 
Parece que, a maioria dos segredos de Capelins estão relacionados com o Marranismo (práticas de judaísmo pelos judeus falsos cristãos), que tudo faziam para enganar os vizinhos! Sabiam todas as orações cristãs e comportavam-se como verdadeiros cristãos, mas na realidade continuavam fiéis ao judaísmo que praticavam em lugares afastados da vizinhança, porque não podia ser na intimidade de suas casas com receio de serem ouvidos e denunciados à Santa Inquisição! 

No concelho de Terena foram presos, torturados e, pior do que isso, queimados vivos, alguns cristãos novos acusados de marranos, como o caso seguinte:
No Auto de Fé de 2 de Agosto de 1551 foi queimado vivo pela Inquisição de Évora, Lourenço Luís, trabalhador, viúvo de Apolónia Maria, natural de Felgueiras e morador na freguesia de S. Tiago, termo da vila de Terena (distrito de Évora), acusado de ser culpado por reincidências de curas e bênçãos supersticiosas. 
(Foi acusado de bruxo, mas parece que era judeu)!

Através deste registo, podemos constatar que, Santiago Maior, então do Concelho de Terena, já existia no ano de 1551. 




domingo, 10 de dezembro de 2017

229 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Benzedura da Constipação do Manoel da ti Rosa 
Como habitualmente, no domingo depois do jantar (almoço), o Manoel da ti Rosa, deixou o Monte da Zorra e foi para Capelins de Baixo para fazer a mudança semanal da roupa! Assim que entrou em casa e cumprimentou a mãe, ela viu logo que o rapaz vinha doente! Então, o que tens Manoel? Perguntou-lhe a ti Rosa!
Manoel: Ando muito constipado, até a cabeça me anda à roda e não consigo segurar o monco! Parece que apanhei uma carraspana!
Ti Rosa: Ai filho! Como é que apanhas-te essa carraspana tão grande? 
Manoel: Foi do frio que apanhei de noite! Esta semana era eu que tinha de me levantar às quatro da matina a dar a ração às bestas e levantava-me em ceroulas, vestia o pelico, mas mesmo assim, o frio era tanto que não me safei de apanhar uma grande constipação! 
Ti Rosa: Oh filho, tu não podes andar assim! Vamos ali à da nossa comadre Gertrudes para ela te benzer! 
Manoel: Oh mãe! Benzer-me da constipação? Nunca tinha ouvido que existiam benzeduras para as constipações! 
Ti Rosa: Há benzeduras, sim filho! Anda lá! 
O Manoel não teve outro remédio senão seguir a mãe até à Rua do Quebra, à casa da comadre Gertrudes, que não demorou em entrar em ação com a seguinte benzedura: 

Benzedura da constipação:
Jesus, que é o Santo nome de Jesus,
Onde está o Santo nome de Jesus, não entra mal nenhum.
Eu te benzo constipação, em louvor de Deus e do Senhor São Simão.
Se é constipação do Sol,
Eu te benzo em louvor de Deus e do Senhor Santo Maior.
Se é constipação do calor,
Eu te benzo em louvor de Deus e do Senhor São Salvador.
Se é constipação de vento,
Eu te benzo em nome de Deus e do Santíssimo Sacramento,
E se é constipação de ar,
Eu te benzo em nome de Deus e do Santo Amaro,
E se é constipação de ar frio com ar quente,
Eu te benzo em nome de Deus e do Senhor São Vicente,
E se é constipação de água,
Eu te benzo em nome de Deus e do Senhor São Tiago,
E se é constipação de água fria,
Eu te benzo em nome de Deus e da Virgem Maria.
Se é de frieza, eu te benzo em nome de Deus e de Santa Teresa,
E se é constipação que veio de corpo de criatura, repentina,
Eu te benzo em nome de Deus e de Santa Catarina,
Com esta santa segunda, com esta santa terça,
Com esta santa quarta, com esta santa quinta,
Com esta santa sexta, com este santo sábado e com este santo domingo,
Que é santo dia em que Nossa Senhora benzeu o bendito Filho e se achou bom.
Seja servido tirar a constipação do corpo desta criatura:
Da cabeça, da garganta, das costas, dos braços, do peito, da barriga, das cadeiras, das pernas e das conjunturas do corpo todas.
Onde eu ponho a minha mão põe o Senhor a Sua virtude;
Não é minha, é de Deus e da Virgem Maria.
Padre Nosso... Avé Maria! 

A benzedura, devia se feita durante nove dias, mas o Manoel à tardinha tinha de regressar ao Monte da Zorra, porque não podia perder a ceia (jantar), assim, a comadre Gertrudes rezou a benzedura duas vezes e depois mais duas antes de ele se ir embora! No dia seguinte, o Manoel já se encontrava muito melhor e, ao fim de três dias já não sentia nada! 
Mais uma vez, o Manoel da ti Rosa foi obrigado a acreditar nas benzeduras da sua comadre Gertrudes! 

Ferreira de Capelins



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

228 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
As benzeduras para todos os males

Antigamente, devido à falta de conhecimentos que justificassem alguns factos ou doenças, o povo das terras de Capelins atribuía as suas causas a fenómenos sobrenaturais, aos quais estavam sempre associadas  as superstições! Qualquer doença física ou psicológica era vista como um mal de inveja, que tinha de ser “benzido” com a respetiva reza!
Existiam benzeduras para todos os males, desde a cabeça até aos pés!
Hoje em dia, as superstições e as orações que lhes estão associadas já não têm a força de outros tempos, mas também não estão esquecidas, sendo ainda possível ouvir das pessoas mais antigas, orações para muitas maleitas, como a que a seguir descrevemos e que se destinava a curar a espinha/coluna descaída ou desmanchada:
No caso da espinha descaída/desmanchada, o doente sentava-se no chão térreo, com as pernas bem estendidas e unidas, os dedos polegares dos pés bem juntos e os braços pendentes e descontraídos! A/o benzedeira/o ficava de pé, por trás do doente e, com as suas mãos pegava nos dedos polegares do doente, dava umas sacudidelas e via se existia dormência! Em seguida, puxava verticalmente e para cima os dois braços, até que ficassem ao alto, aproximava os dois polegares e verificava se um dos dedos ficava mais acima e o outro mais abaixo! Se os dois polegares não estavam ao mesmo nível, era sinal que o doente estava desmanchado e, quanto maior fosse a diferença na altura entre os dois dedos, mais desmanchado estava o doente! 
Nesse caso, começava a benzedura ou reza, que consistia em dizer cinco vezes o credo, sem se enganar em nenhuma palavra, fazendo cruzes nas costas do doente! Depois untava os nervos (tendões) dos dedos dos pés, das mãos e dos pulsos com azeite e, ao mesmo tempo, ia dizendo: “(nome do doente), tens tu a espinha caída, o teu ventre, o teu baço ou tombado, ou arejado, ou desmantido, ou desmanchado!
A Senhora da Encarnação ponha tudo no seu lugar e no seu são!
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria, Padre Nosso e Avé Maria.”
A/o benzedeira/o dizia esta reza até que todos os dedos e nervos estivessem untados de azeite (a cada frase corresponde uma untadela)!
No final, a/o rezadeira/o voltava a puxar os dedos polegares do doente, levantando-lhe os braços no ar e verificava se os dois polegares já estavam ao mesmo nível!

Quando o doente já estava curado, ainda tinha de cumprir à risca as instruções da/o benzedeira/o, durante três dias não podia pegar em carregos, nem abrir caixa, nem pegar em meninos/as! Tinha de comer bem logo de manhã, carne de porco frita, as presas sempre em número impar e ingerir o molho acompanhado de copo de vinho!  
Ao fim dos três dias, estava apto/a a voltar ao trabalho! 

Ferreira de Capelins






quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

227 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A benzedura do  quebranto ou mau olhado 

Antigamente, diziam que existiam muitas feiticeiras nas terras de Capelins! O povo dizia que eram elas, movidas pelo ciúme e pela inveja que lançavam o “mau olhado”. Segundo a tradição, as vítimas deste mal tinham alterações de comportamento, ficando cismadas, tristes, sem alegria de viver e muitas vezes com ideias suicidas. Para combater este problema, os doentes tinham que recorrer a uma pessoa com poderes para benzer o quebranto. Para isso, essa pessoa fazia o seguinte: Durante sete dias, fazia uma grande fogueira, tirava as brasas maiores e colocava-as dentro de uma bacia com água, uma a uma, para, logo que apagadas, se afundassem! O mau olhado estava dominado quando as brasas ficassem a flutuar na água. Mas, só com a reza do quebranto ou mau olhado era restituída a saúde. Por isso, a mulher que benzia, enquanto ouvia a queixa do/a doente, tirava o chapéu, concentrava-se e dizia em voz alta:

De Santa Ana nasceu Maria,
De Maria nasceu Jesus, de Santa Isabel, São João,
Quebrantos e maus olhados
Para o mar coalhados vão.

As pessoas da Santíssima Trindade são três,
E assim como Elas querem e podem,
De onde este mal veio para lá torne.
Pelo poder da Virgem Maria,
Padre Nosso e Avé Maria!


Outra versão:


Jesus e Jesus, Altíssimo Nome de Jesus
A dizer palavras do quebranto
Se tu na tua cabeça
Tens quebranto ou olhado
De mau homem ou má mulher
Ou de rapaz ou de rapariga
Ou de olho de má gente,
Ou de cobra ou cobrelo ou de sapo ou sapelo
Que dois te deram e três te tiram
O Senhor e a Senhora e toda a
Pessoa da Santíssima Trindade
Donde este mal de lá veio
Assim há-de para lá tornar
Padre Nosso... Avé Maria! 

Existem outras versões!

Ferreira de Capelins


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

226 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A benzedura do  entorse do Manoel da ti Rosa 
O Manoel da ti Rosa, morador em Capelins de Baixo, trabalhava na herdade da Zorra e, naturalmente, fazia parte do rancho da ceifa! Num dia do mês de Junho, ao fim da tarde, depois da merenda, o manageiro, como habitualmente, mandou os mais novos, por serem mais ágeis a enrelheirar, (juntar os molhos de trigo em montes com as espigas todas para um lado, colocados na terra que se acabou de ceifar e com o mesmo número), para os rapazes e raparigas era uma brincadeira, uma disputa na rapidez, levavam um molho de trigo em cada mão ou debaixo do braço até ao lugar onde um homem fazia o relheiro! O Manoel era dos mais rápidos, enquanto não ficava estafado corria, corria! Nesse dia, assim que começou  a transportar os molhos de trigo colocou um pé na margem de um rego e quase caiu desamparado, sentiu grande dor no tornozelo do lado direito, mas equilibrou-se e continuou em frente, porém a dor continuava cada vez mais insuportável, mas não queria parar e dar parte de fraco, até que, já não se conseguia apoiar no pé e foi dizer ao manageiro o que se tinha passado! O tornozelo estava muito inchado, era impossível continuar a trabalhar! O mangeiro não gostou do que viu, chamou logo um rapaz e disse-lhe para ir ao Monte da Zorra buscar uma burra e para levar o Manoel a Capelins de Baixo. Assim que chegou a casa, a ti Rosa depois de se inteirar da situação, aqueceu água e começou a colocar panos com água quente no tornozelo do Manoel e, depois foi chamar a sua comadre Gertrudes para ela ver qual a benzedura apropriada ao caso! A comadre Gertrudes opinou que, antes das benzeduras era bom ir a um endireita e, depois logo se via o que ele dizia! 
Decidiram ir na madrugada seguinte ao endireita a Montoito, era longe, mas ele era dos melhores e, a ti Rosa foi logo pedir a burra à comadre Jacinta! O endireita aplicou a sua sabedoria e garantiu-lhe que não era partido, mas tinha muito a sofrer, porque era um entorse muito mau, ensinou-lhe umas mesinhas e, ainda com sol, já estavam em Capelins de Baixo! A comadre Gertrudes foi logo saber o que o endireita tinha dito e depois de saber que era entorse prontificou-se a iniciar a respetiva benzedura, mas o Manoel disse-lhe que não era preciso, porque tinha as mesinhas do endireita e depressa se curava! A ti Gertrudes não gostou da recusa do Manoel, virou-lhe as costas dizendo: Curas, curas, deixa estar que depressa vais ter comigo! 
O Manoel aplicava as mesinhas do endireita, mas passados três dias, não se encontrava nada melhor, a mãe dizia-lhe que já tinha eripsela e, tinha de ser benzido pela comadre Gertrudes, mas ele ainda se aguentou mais um dia, até que, não teve outro remédio senão aceitar as benzeduras da comadre Gertrudes! 
Passaram poucos dias e já se verificavam grandes melhoras! O Manoel, passou duas semanas em casa e, muito devagarinho voltou à ceifa, sem poder enrelheirar!
Mais uma vez, o Manoel da ti Rosa, teve de acreditar nas benzeduras da comadre Gertrudes!

Benzedura do Entorse
O nervo torcido corresponde às entorses e luxações, também designados por ossos desmanchados. Para as tratar, faz-se a benzedura do nervo torcido que, repetidas nove vezes, alivia as dores. E dizia a comadre Gertrudes:
Jesus que é o Santo nome de Jesus,
Onde está o Santo nome de Jesus,
Não entra mal nenhum.
Cosia com uma agulha e um novelo de linhas, ao mesmo tempo que dizia:
- Eu coso.

O Manoel respondia:
Carne quebrada linha torcida e nervo torto! 
É mesmo isso que eu coso,
Cose a Virgem melhor que eu coso.
A Virgem cose pelo são e eu coso pelo vão.
Em louvor de Deus e da Virgem Maria.
Padre Nosso... Avé Maria...
Depois de fazer a benzedura, molhou os dedos em azeite e esfregou a parte dorida e rezou um Padre Nosso e uma Avé Maria a Santo Amaro, advogado das pernas e braços, e ofereceu à Sagrada Morte e Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Ferreira de Capelins (Capelins de Baixo)





domingo, 26 de novembro de 2017

225 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
O Manoel da ti Rosa e, a Sua Fé na Benzedura do Sol
O Manoel da ti Rosa que, morava em Capelins de Baixo, era jornaleiro na herdade da Zorra, cumprindo o horário de trabalho de sol a sol! A jorna incluía a comida, pelo que, depois da ceia já não compensava ir dormir a casa, assim, só lá voltava nos domingos à tarde para fazer a mudança da roupa e, entregar o dinheiro que ganhava à sua mãe! 
Quando o sol aqueceu, no mês de Junho, o Manoel  começou a queixar-se de dores de cabeça! Os companheiros mais velhos e experientes, diziam-lhe que tinha sol dentro da cabeça e, precisava de ser benzido para ele sair, mas o Manoel não acreditava nisso! Como é que o sol lhe entrava para dentro da cabeça? As dores continuavam e, sempre que se queixava, ouvia o mesmo comentário: Tens que ser benzido do sol e vais ver que as dores de cabeça acabam, diziam os companheiros! 
O Manoel não se encontrava melhor e, no domingo seguinte ao chegar a Capelins de Baixo, contou à mãe que andava com dores de cabeça e os companheiros diziam-lhe que era o sol que estava lá dentro e tinha de ser benzido para sair, mas eu não acredito nisso! A ti Rosa que recorria às benzeduras da sua comadre Maria Gertrudes para tratar todos os males, ficou logo alvoraçada com o Manoel, por ainda não lhe ter contado que tinha as dores de cabeça e por não ter fé nas benzeduras! Vamos mesmo agora à da nossa comadre Maria para ela te benzer do sol e acaba-se já essa dor de cabeça! O Manoel ainda fez finca pé dizendo: Oh mãe, vocemecê acredita que o sol me entrou para a cabeça? Acredito, sim, Manoel, o sol está lá dentro da tua cabeça, mas a comadre Maria Gertrudes já o tira, vais ver! Anda daí! 
Chegaram à casa da ti Maria Gertrudes, considerada com muitos poderes nas benzeduras em Capelins e, em poucos minutos o Manoel já tinha uma toalha dobrada em cima da cabeça com um grande copo de vidro quase cheio de água por cima da toalha a fazer muitas bolhinhas, as quais, conforme disseram as  comadres eram o sol a sair de dentro da cabeça do Manoel, era tanto sol que começou a sair ainda antes da ti Maria ter tempo de começar a rezar! 
As orações foram repetidas três vezes e, no fim o Manoel recebeu a garantia de que as dores de cabeça tinham acabado, mas por segurança era melhor voltar no domingo seguinte, porque o sol era tanto, decerto ainda lá estavam alguns restos! 
O Manoel sentiu-se logo melhor, voltou ao seu trabalho na herdade da Zorra e, nunca mais sentiu dor de cabeça! 
No domingo seguinte, o Manoel apesar de estar curado, por exigência de sua mãe, voltou a ser benzido pela ti Maria Gertrudes e, continuou a sair muito sol de dentro da sua cabeça, mas acabou por sair todo! 
A partir daí, o Manoel ficou com muita fé na benzedura do sol!

A ti Maria Gertrudes segurava o copo com a mão esquerda e, com a mão direita fazia cruzes no ar sobre a cabeça do Manoel, enquanto dizia:

Maria perguntou a Jesus
Como o sol se benzeria:
Com uma toalha lavada
E um copo de água fria
Em louvor de São José
E da Virgem Santa Maria
Que esta doença se cure
Nesta hora e neste dia
Padre Nosso... Avé Maria...

A outra versão:

Nossa Senhora pelo mundo andou
o seu querido filho sol apanhou
Ela procurou
com que o curaria? 
com um pano de linho e um copo de água fria! 
Padre Nosso... Ave Maria... 





sábado, 25 de novembro de 2017

224 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
As Orações e Mesinhas Para Todos os Males 
Antigamente, nas terras de Capelins, era muito comum recorrer a rezas e benzeduras para se protegerem a si e aos seus familiares! Entre as rezas contra todos os males, doenças, maus olhados ou quebrantos, pés torcidos, colunas descaídas e outros, mas, também existia/existe uma oração para encontrar objetos perdidos ou roubados que, eram os responsos, entre os quais, o de Santo António, do qual conhecemos pelo menos 4 versões, mas o que importa é a fé, todas as versões têm o mesmo fim!
A palavra "responso" provém do latim e, significa "resposta" ou "procura de resposta"! 

A seguir, relatamos um caso passado nas terras de Capelins, onde um rapaz perdeu um utensílio, nesse tempo muito importante para ele, recorreu a um homem com poderes para responsar, o qual, alguns dias depois, lhe garantiu que o utensílio aparecia, dentro de pouco tempo, quando ele menos esperava e apareceu! 

A Fé do José Luís, de Capelins, pelo Responso de Santo António

O pai do José Luís, como habitualmente, fez um meloal na parte mais baixa da courela do Cebolal, onde semeava umas casas de melão, de melancia e alguns regos de feijão careto (feijão frade). Nesse ano, as plantas estavam muito bonitas, mas precisavam de ser cuidadas, principalmente, muito bem cavadas e, a terra bem desfeita para assentar as ramas e futuros melões e melancias e para manter a fresquidão durante o verão que se aproximava, cujo trabalho, entre outros, como tratar das ovelhas e outros animais da da casa, estava a cargo do José Luís que, já tinha quase 10 anos e, bom corpinho para trabalhar, incluindo cavar o meloal! Assim, numa tarde no início do mês de Junho de 1925, o José Luís nessa tarefa na parte do feijão careto e começou a ouvir trovões, coisa que acontecia quase diariamente nos meses de Maio e início de Junho nesses tempos, continuou o seu trabalho e, a trovoada que vinha do sul, dos lados de Espanha, estava cada vez mais próxima, mas ele não podia ir-se embora e aparecer a casa, a Capelins de Cima, sem uma boa justificação, estava com medo porque a trovada era forte, mas foi ficando até começar a chover, aqui decidiu que estava na hora de fugir para casa, onde já chegaria todo molhado, mas não se importava com isso, depois com o calor do próprio corpo, a pouca roupa, logo enxugava, mas ao mesmo tempo que estava a a fuga, o chão  tremeu debaixo dos seus pés devido a um forte trovão e ele parou imediatamente, apanhou grande susto, depois lembrou-se que os mais velhos lhe diziam-lhe que nunca tivesse contacto com um objeto de metal debaixo se uma trovoada, porque os raios atraiam ao metal e, podia morrer, como tinha o sacho (sachola) com o qual andava a cavar o meloal às costas, arrepiou-se todo, podia ter morrido ali, então já não o foi esconder no lugar habitual, abriu rapidamente um rego no limite da terra que já tinha cavado, como sinal onde o mesm ficava enterrado, depois no dia seguinte ia direitinho a esse lugar e, continuava o trabalho no mesmo lugar onde tinha ficado! A seguir começou a correr sem parar até ao portão do lagar do Monte Grande, onde chegou a escorrer água da cabeça aos pés, abrigou-se ali, durante algum tempo, até a trovoada passar mais e permitr-lhe chegar a casa, devido à grande chuvada já não voltou ao meloal! Nos dias seguintes, todas as tardes, a partir das quatro/cinco horas, continuaram as trovoadas e, o trabalho de cavar o meloal ficou parado mais de oito dias! No dia em que teve de voltar a esse trabalho, chegou ao meloal e reparou que a terra estava toda com o mesmo aspeto, devido às grandes chuvadas não existia qualquer diferença e,  lembrou-se de começar novamente a cavar as casas de melão e melancia, o feijão careto, que ele nem gostava, podia esperar, dirigiu-se ao lugar onde habitualmente escondia o sacho, atrás do poço no meio de uma moita de funcho, mas não havia sinais dele e, pensou logo, foi roubado! Depois de procurar em todos os lugares, em redor não o encontrou, ficou preocupado, porque um dia tinha de prestar contas sobre o seu desaparecimento, podia sempre dizer que tinha ficado no sítio habitual e foi roubado, mas não se livrava do peso na consciência!  sem sacho, teve de voltar a Capelins de Cima   buscar outro, mas não deixava de pensar o que teria acontecido e não lhe veio à ideia o episódio do dia da trovoada! 
Depois de muito pensar, lembrou-se de o mandar responsar, porque ouvia dizer que o ti Manoel da Roza sabia uma oração e se a rezasse antes de se deitar de noite sonhava com o que tinha acontecido ao objeto perdido ou roubado! Como isso não lhe saía da cabeça, dois/três dias depois, espreitou o Ti Manoel da Roza, que era seu tio avô e fez por se encontrar com ele, meteu conversa sem nexo, até lhe perguntar se era verdade que ele sonhava com as coisas que desapareciam? O ti Manoel disse-lhe que sim, era verdade! Então porquê? Perdeste alguma coisa? Perguntou o ti Manoel! O José Luís disse-lhe que sim e contou-lhe sobre o que tinha desaparecido! O ti Manoel disse-lhe que, dentro de dois ou três dias dava-lhe a resposta, onde estava o sacho e se aparecia, ou não! O José Luís todos os dias aparecia à frente do ti Manoel na esperança de já ter a resposta, mas só no fim do tempo prometido ele lhe garantiu que o sacho aparecia e, não demorava muito tempo! O  José Luis ficou muito contente, esperando encontrar o sacho a todo o momento, mas o tempo foi passando, acabando por se esquecer! Um dia, andava a cavar o feijão careto e sentiu o sacho a prender e ao puxar com mais força, ficou com o sacho perdido junto dos seus pés!
A partir daquele dia, ficou com muita fé no responso de Santo António  e, convencido que tudo o que se perdesse ou fosse roubado, ao ser responsado a santo António, decerto aparecia! 



Uma das versões do responso de Santo António 
(Não é a das terras de Capelins)

- Ó Beato Santo António que em Lisboa foste nado,
Em França visitado e em Roma coroado,

Pelo cordãozinho que cingiste, pelo livrinho que rezaste.

Na casa de Santa Paula tuas mãozinhas lavaste.
Peixinhos da água se levantaram
Para ouvirem a tua santa pregação.
- Santo António, p' ra onde vais?
- Eu, Senhor, convosco vou!
- Tu Comigo não irás, tu na Terra ficarás,
Todo vivo guardarás,
Todas as coisas esquecidas “alembrarás”,
Todas as coisas perdidas acharás...
- Em busca, em busca São Silvestre,
Tamanha boca, tamanho sestro:
Se a tiveres fechada não a abrirás,
Se a tiveres aberta não a fecharás.
Tem-te, tem-te Madalena, que mas queiras “alembrar”,
Estas são as Cinco Chagas que por nós têm de passar,
Pequenino pelo grande, para a todos Deus nos Salvar.
- Assim como Santo António livrou seu pai de sete sentenças falsas,
Assim nos livre da má fama, da má companhia,
E nos guarde os nossos animaizinhos e as nossas coisinhas
De noite e de dia.
Padre Nosso... Avé Maria... 




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

223 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do cavaleiro fantasma em Capelins 
Nos mês de Abril do ano de 1710, tudo decorria serenamente nas terras de Capelins, até ao dia em que, estava o cozinheiro do Monte da Amadoreira, o Ti Manoel Gomes, a encher os tarros (marmitas feitas em cortiça), com as sopas do jantar (almoço) para levarem aos criados que andavam a trabalhar nas terras desta herdade e, entrou um homem alto, vestido de negro, com a cara tapada por um lenço seguro pelo chapéu, pegou em dois tarros  e pediu ao ti Manoel  para meter dois pães e uns queijos dentro de um saco, ao mesmo tempo que lhe mostrava uma grande faca de dois gumes e, lhe fazia sinal para não gritar, senão era o seu fim, fazendo o gesto que o degolava! O ti Manoel, cumpriu as ordens rapidamente e, o homem saiu da cozinha sem ser visto por mais ninguém! Assim que o ladrão se afastou, o ti Manoel começou a gritar por socorro que o tinham roubado, alguns criados e, os lavradores entraram logo na cozinha para saber o que se tinha passado e, logo a seguir correram por todos os lados em volta do Monte, mas não avistaram ninguém! A partir desse dia, surgiu um grande mistério, não só pela ousadia do ladrão, ao fazer o roubo em pleno dia, mas também por ninguém o conseguir avistar, além do cozinheiro! A notícia depressa se espalhou pelas redondezas, causando muitos comentários, cada um dizia a sua opinião sobre o acontecimento, sempre com ironia! Porém, quando o assunto estava quase esquecido, repetiu-se outro roubo tal e qual como tinha acontecido no anterior, mas no Monte do Roncão, onde igualmente, só o cozinheiro deste Monte viu e ouviu o ladrão! Durante três meses todas as semanas se repetia o roubo, variando pelos Montes, da Amadoreira, Roncão, Talaveira, Negra e Zorra! Os lavradores, os filhos, alguns criados, com cães tentavam perseguir o ladrão, que deixava sempre o cavalo escondido nos matos próximos, seguiam-lhe o rasto, mas nunca o conseguiam avistar, entao mandaram chamar o melhor matador de lobos das terras de Capelins, o ti Miguel Afonço, que morava num cabanão no Bolas, convencidos que o ladrão não lhe escapava, fizeram-lhe o ponto da situação e o que tinham feito, onde tinham encontrado o rasto do cavalo e prometeram-lhe o obro que lhe pagavam por cada lobo, 100 reais brancos, se ele o apanhasse, morto ou vivo! O ti Miguel aceitou o trabalho e só disse: "Amanhã já aqui o têm"! Foi imediatamente com os seus cães farejar o rasto do cavalo e seguiu pelos matos na direção da Ribeira de Lucefécit! Já tinham passado mais de oito dias e, não havia notícias do ti Miguel, mas o ladrão continuava a fazer a sua colheita de comida, até que o ti Miguel matador de lobos apareceu, mas a desistir do trabalho, porque não podia ser uma coisa normal, até os cães dele lhe perdiam o rasto, parecia que o cavaleiro desaparecia da face da terra, não era coisa boa e, o melhor era desistir, dava-se melhor a caçar os lobos! Os lavradores ainda lhe ofereceram o dobro, 200 reais brancos, mas ele negou, porque já tinha batido toda a região palmo a palmo e não tinha encontrado nada! 
Quando, nas terras de Capelins, as pessoas souberam da desistência do ti Miguel, ficaram assustadas e, começaram a inventar coisas maléficas, uns diziam que era o diabo em pessoa, uma alma penada, um lobisomem e outras coisas, mas não percebiam como é que  só os cozinheiros o conseguiam ver?  As mulheres diziam orações e faziam mesinhas para o afastar dali! Os homens armados com paus ferrados, machados e forquilhas, cercavam os Montes nas horas do jantar e da ceia, andava tudo em alvoroço! 
Ao fim de alguns dias, o ladrão desapareceu das terras de Capelins e, os homens diziam que tinha sido com medo deles e não tinham dúvidas que era um homem, porque uma alma do outro mundo ou o diabo não precisavam de comida, mas as mulheres afirmavam que tinham sido as orações e as mesinhas delas a afastá-lo dali! 

Um mês depois, chegaram dois fidalgos às terras de Capelins, fazendo perguntas sobre o paradeiro de um homem, do qual davam os sinais descritos pelos cozinheiros! Foram seguindo as indicações e, chegaram à fala com os respetivos lavradores roubados pelo  cavaleiro fantasma e, sob compromisso de lhes contarem quem ele era e desvendarem o segredo de como os enganava, conseguindo escapar-lhes, juntaram os ofendidos no Monte da Talaveira! 
Os fidalgos ouviram os lavradores e, não conseguiram aguentar sem rir, o que não agradou aos lavradores! Isso é mesmo dele, comentavam os fidalgos! Mas ele quem? O fantasma? Perguntaram os lavradores! 
Fidalgos: Não, não é nenhum fantasma, é considerado o melhor mestre ferreiro e ferrador do reino, é o João de Resende de Évora! 
Lavradores: Mas os senhores fidalgos vêm aqui fazer pouco da gente? 
Fidalgos: Não, não, viemos com todo o respeito e, pelo que nos contaram temos a certeza que é o mestre João! 
Lavradores: Então, e como é que esse João ferrador nos enganou a todos? Como conseguia fugir e desaparecer no fim do rasto? Nunca ninguém o viu, a não ser os cozinheiros e, nem o melhor matador de lobos o conseguiu apanhar! 
Fidalgos: Sim! O mestre João tem grande passado, foi militar muito novo é muito experiente em artes militares, os senhores e, esse matador de lobos que falam, seguiam-lhe o rasto ao contrário! 
Lavradores: Ao contrário? Como assim? Estão outra vez a fazer pouco da gente! 
Fidalgos: Não estamos a fazer pouco de ninguém, já lhes dissemos que ele é considerado o melhor ferrador do reino, então, o que ele fez para despistar quem o perseguia foi ferrar o cavalo ao contrário, pregou as ferraduras das patas de trás, nas da frente e, as da frente nas de trás, com tal perfeição que não atrapalhavam o animal e, quando o cavalo seguia numa direção, deixava o rasto em sentido contrário, dando uma pista falsa! Assim, os senhores eram enganados, seguiam o rasto do cavalo quando ele vinha em direção dos Montes e,  nunca seguiam o verdadeiro, quando ele fugia!  
Lavradores: Essa agora! Grande malandro! Ainda o vamos pendurar num chaparro! Fidalgos: Pedimos desculpa, nós pagamos tudo o que ele lhes levou! 
Lavradores: Até podem pagar tudo, mas a nossa honra não a compram, porque não a vendemos! 
Fidalgos: Sabemos que, têm razão, por isso, lhes pedimos desculpa, queremos chegar a um entendimento, viemos procurá-lo, com a benção do senhor nosso rei D. João o quinto e, ele não vai gostar da vossa ameaça, não foi bem feito, mas o mestre fez isso por sobrevivência! 
Lavradores: Mas, porque motivo teve ele de vir sobreviver para aqui? 
Fidalgos: Ele veio até aqui, porque teve de fugir de Évora e o destino era Espanha, mas nós pedimos-lhe para esperar aqui uns dias, até o senhor nosso rei decidir se lhe dava ou não o perdão!
Lavradores: O perdão de quê? E porque motivo fugiu de Évora? 
Fidalgos: Porque, houve lá uma zaragata, fizeram-nos uma emboscada e, um fidalgo quase nos matou, foi o mestre João que nos salvou a vida, mas para nos defender matou o fidalgo sem querer e, quem matar um fidalgo não se livra da forca, por isso, teve de fugir e deixou lá a mulher e os filhos, nós pedimos justiça ao nosso rei, fizemos prova de que ele não foi culpado e, pedimos o perdão, o rei não o pode perdoar para não desonrar a nobreza, mas deu autorização para ele voltar para o nosso reino, mas tem de ficar a viver na Vila de Arronches com a família e, continuar lá o seu trabalho sem ser incomodado! 
Quando os lavradores ouviram os fidalgos e se aperceberam da valentia do mestre João, mudaram logo a conversa, começaram a dizer que não queriam receber nada da comida e, o que se tinha passado estava tudo esquecido, alguns ainda adiantaram que, tinham pena de não terem sabido isso, senão tinham recebido o ilustre João de Resende em sua casa! 

Depois de se entenderem e, como os lavradores não tinham ideia para onde o mestre João se teria sumido, só sabiam que, na Vila de Cheles decerto não estava, os fidalgos agradeceram e foram pelo rio Guadiana acima, pelo Aguilhão até ao porto da Estacada, onde passaram para o outro lado do rio e, a partir dali foram por São Bento da Contenda (San Benito) na esperança de saberem notícias do mestre João! Os fidalgos chegaram à dita aldeia, mas não conseguiram saber nada, continuaram por  São Domingos de Gusmão e São Jorge de Alôr, aqui encontraram um taberneiro natural de São Pedro do Corval, mas lá residente que, os informou ter estado ali o mestre João e, até lhe tinha dado guarida numa choça no quintal, mas tinha seguido para a Vila espanhola de Almendralejo, onde estava instalado com uma oficina de ferrador! Os fidalgos agradeceram a informação e, logo que lá chegaram foi fácil encontrar o mestre João! 
Depois de grandes cumprimentos, deram-lhe notícias da mulher e dos filhos, disseram-lhe que estavam bem, não lhes faltava nada e, comunicaram-lhe que, podia voltar, mas para a Vila de Arronches, onde teria de ficar uns tempos, até o caso da morte do fidalgo ficar esquecido, juntava-se lá a família, instalava a oficina e, eles com a graça do rei, garantiam-lhe que, não seria incomodado! O mestre aceitou e ficou muito contente, no dia seguinte voltou com os fidalgos ao reino de Portugal, a mulher e os filhos foram logo ter com ele à Vila de Arronches e, o mestre João deu-se tão bem, que nunca mais voltou a Évora! 
Alguns lavradores de Capelins, mais tarde, foram visitá-lo à Vila de Arronches, só para o conhecerem pessoalmente! Ele recebeu-os muito bem e pediu-lhes desculpa pelo sucedido, relembraram as peripécias passadas em Capelins, riram muito devido aos boatos que então se armaram, ferraram os cavalos sem ele querer qualquer pagamento, ficou em troca da comida que ele lhes tinha levado, comeram, beberam e ficaram muito amigos! O cavaleiro fantasma e a mulher, foram convidados pelos lavradores a voltar às terras de Capelins, em visita às suas casas e passar ali uns dias, mas isso nunca se concretizou. 
Assim, foi desvendado mais um segredo das terras de Capelins!     




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