terça-feira, 28 de fevereiro de 2017


64 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda da desgraça do Lavrador de Capelins - Parte 2

No dia seguinte, quase à mesma hora apareceu a rapariga com a família e como ela já tinha contado que estava apaixonada por um desconhecido da feira e que sabia ser ele o homem da sua vida e nem comia nem dormia, foram direitinho ao Manoel e ao pai. Apresentaram-se, disseram os seus nomes e o da rapariga que se chamava Azize, estranharam o nome e pareceu-lhe muçulmano, mas os pais continuaram a contar quem eram comerciantes em Badajoz e o que se estava a passar com ela! O pai do Manoel, contou-lhe quem eram, onde moravam, o que faziam e disse-lhe que passava-se exatamente o mesmo com o seu filho e que estava de acordo a que se conhecessem melhor e até ao fim da feira decidiriam o que fazer! O pai da Azize explicou que professavam a religião muçulmana, mas já tinha falado com a filha e ela estava disposta a aceitar a fé do Manoel, pelo que por aí não existia nenhum problema. O Manoel e a Azize começaram a encontrar-se todos os dias e no fim da feira, não restavam dúvidas de que tinham sido feitos um para o outro e de acordo com as famílias decidiram que a Azize vinha com eles para Capelins, que ficava logo ali mais abaixo junto ao rio Guadiana, pertinho de Badajoz e brevemente se realizaria o casamento entre eles, mas primeiro teriam de ser ultrapassados alguns problemas, a Azize teria de mudar o nome, aceitar a fé cristã e só depois poderiam casar, o que ela aceitou sem hesitar. 
Assim que chegaram a Capelins, a Azize foi muito bem recebida por todos os familiares do Manoel, mas ao saberem que era muçulmana, ficaram muito surpreendidos, uma moura cá em casa? Compraste-a na feira? Disseram os irmãos mais novos! Mas foram logo sossegados, o Manoel e o pai informaram que ela já era praticamente cristã e que era filha de boas famílias, comerciantes de Badajoz e assim que o padre da Igreja Matriz da Villa Defesa de Ferreira (da Igreja que ficava ao lado da atual Ermida de Nossa Senhora das Neves), pudesse, começava imediatamente a aprender tudo sobre a religião cristã. Logo a seguir, o Manoel foi falar com o padre que se mostrou disponível para ensinar tudo a Azize e combinaram que ela mudaria o nome para Francisca, que era o nome da avó paterna do Manoel e assim ficou tudo acertado. A Francisca (Azize) começou logo a aprender o necessário que os permitisse casar pela Igreja e, em poucos meses realizaram o seu casamento. Parecia que a sua paixão era cada vez mais forte e a Francisca (Azize) já adorava a nova religião, a sua fé era imensa e desejava aprender mais e mais, todos os dias a levavam à Igreja onde o padre lhe dava todas as explicações e algumas vezes era o padre que se deslocava ao seu Monte. O lavrador, seu marido, trabalhava de sol a sol e muitas vezes entrava pela noite dentro, não conseguia dar-lhe a atenção que ela merecia e a Francisca, além dos trabalhos que tinha a seu cargo cada vez mais se interessava pela fé Cristã. Um dia de Janeiro, o Manoel, cansado da vida que levava e consciente da pouca atenção que estava a dar a Francisca, decidiu em deixar o trabalho mais cedo, chegando ao Monte ao escurecer e deparou-se com a sua Francisca a falar com um homem que estava de costas, com um capote e parecia que estavam em em grande discussão, não percebia tudo o que o homem dizia, mas ouvia muito bem a Francisca a dizer-lhe que quanto mais o conhecia mais o amava, muito mais do que ao próprio marido. O Manoel não acreditava no que ouvia, amar e muito amor que não o incluía e na sua cabeça foi aumentando o ciúme e já tinha a certeza que a mulher o andava a traír, ficou cego de raiva, tirou a espada que trazia à cintura, porque nesses tempos os homens da Villa Defesa de Ferreira, tinham de andar armados, para no caso de ser necessário defender estas terras, avançou furioso na direção de Francisca e num só golpe decepou-lhe a cabeça. O homem que estava com ela, deu um grito, o que fizeste? E voltou-se! Era o padre e quem ela dizia que muito amava, era Cristo. Mas já era tarde para reparar o erro! O Manoel, nem entrou em casa, desceu o Ribeiro do Carrão na direção da Ribeira do Lucefécit e desapareceu para nunca mais ser visto nas terras de Capelins! Mais tarde, ouviram dizer que andava louco, por Ceuta, mas os capelinenses diziam que, como o desaparecimento foi no mês de Janeiro, nunca passou o rio Guadiana! 
É caso para dizer: "Nem sempre o que parece é" 




63 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda da desgraça do Lavrador de Capelins - Parte 1

Decorria o ano de 1373, o senhorio da Villa Defesa de Ferreira, (hoje Freguesia de Capelins) encontrava-se na posse da Infanta Beatriz de Castro, filha do rei D. Pedro I e de Dª Inês de Castro, por doação de sua avó a Rainha Dª Beatriz esposa do rei D. Afonso IV. Estas terras eram exploradas através de arrendamento de parcelas a diversos agricultores que, ao mesmo tempo, tinham a missão de as defender de eventuais invasores, por isso se designava Villa Defesa, criada pelo rei D. Dinis em 1314. No alto que existe por cima do Monte do Ladrilho, atual Carrão, na margem direita desse mesmo Ribeiro, existia nesse tempo um grande Monte de um Lavrador, chamado António Gomes, onde o mesmo residia com sua esposa, os seus cinco filhos e muitos criados, explorava as férteis terras em seu redor, criava muito gado e fazia grandes colheitas de cereais. Como tinha grande abundância de gado e cereais, ao ouvir contar que se fazia uma grande feira em Badajoz e muito bons negócios, uma vez que não ficava muito longe e existia uma boa estrada ainda do período dos Romano que facilitava o acesso, não hesitou em carregar algumas carroças com cereais e gado e foi à feira de Badajoz, com dois dos seus filhos, o João e o Manoel Gomes e seis criados. A feira durava quinze dias e enquanto não vendessem tudo o que levavam não voltariam a Capelins. No segundo dia de feira, o Manoel Gomes reparou numa linda rapariga como nunca tinha encontrado na sua vida, ficou pasmado a olhar para ela e embora tivesse os cabelos e parte do rosto tapado com um lenço de seda deixava transparecer uma beleza pouco vista. A rapariga estava acompanhada dos pais e de uma irmão e também reparou logo no Manoel, não lhe tirava os olhos de cima, mas rapidamente a rapariga e a família seguiram o seu caminho. O Manoel ficou muito triste, pensando que nunca mais a via, mas enganou-se! No dia seguinte, lá estava novamente a rapariga com a família fazendo o mesmo trajeto e os olhares foram ainda mais intensos, só faltou falar um com o outro. Nessa noite, o Manoel quase não dormiu a pensar naquela rapariga de Badajoz. O pai e o irmão notaram que ele não estava bem, tinha grandes olheiras porque pouco tinha dormido e perguntaram-lhe o que se estava a passar! Um pouco acanhado, o Manoel contou que estava apaixonado por uma rapariga muito linda que tinha visto ali na feira e tinha a certeza que ela sentia o mesmo por ele e que era a mulher da sua vida, só não sabia como chegar à fala com ela, uma vez que vinha acompanhada da família. O pai e o irmão não duvidaram da verdadeira paixão do Manoel por aquela rapariga e prometeram ajudá-lo se ela ali voltasse. 
Continua... 




62 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda do Escrivão de Capelins - Parte 2

Na manhã seguinte, como habitualmente, o Pároco Miguel Galego, dirigiu-se à sua Igreja, à porta mesmo ao lado da sua casa, que estava fechada e já nem se lembrava do visitante da noite anterior, ao empurrar a porta ficou estarrecido, estava a laje que fechava a sepultura do Escrivão no meio da Igreja, esta laje tinha de ser carregada por quatro homens, o visitante tirou-a sozinho, sem barulho, ninguém ouviu nada, e levou o corpo do Escrivão. O Pároco, começou a gritar em grande aflição e vieram o Sacristão, o Coveiro, e todos os moradores das casas junto à Igreja a correr e saber o que se passava. Ficaram todos abismados com o que viram, então o Pároco contou-lhe o que se tinha passado com o visitante, porque só podia ter sido ele a fazer aquele maléfico trabalho! Mas a grande surpresa ainda estava para acontecer! Os mais corajosos foram entrando na Igreja de Santo António, com receio e com muito cuidado até chegarem junto à sepultura que estava aberta e sem o corpo do Escrivão, começaram a observar tudo com muita atenção e ficaram atónitos com o que viram. Em volta da sepultura, havia muita terra e pó, mas não havia pisadas de gente, as pisadas eram de cascos, como os dos bodes, sem dúvida pisadas do Diabo e, ao lado da sepultura estava caída a hóstia que o Pároco lhe tinha ministrado no Monte do Escrivão. Todos concluíram que, a figura sinistra que veio à Igreja de Santo António, naquela noite de um dia de Janeiro de 1713 era o Diabo que veio buscar o corpo do Escrivão. O insólito caso foi participado ao Arcebispado de Évora para ser investigado, mas anos mais tarde foi arquivado e nunca mais se encontrou o corpo do Escrivão de Capelins! 

Igreja de Santo António de Capelins 



61 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda do Escrivão de Capelins - Parte 1

Como sabemos, em 1698 a Vila Defesa de Ferreira (hoje Freguesia de Capelins), deixou de ser Vila Defesa e passou a ser apenas a Villa de Ferreira, propriedade da Casa do Infantado, com o estatuto de Concelho de Ferreira, mas Concelho do Estado do Infantado, porque o Concelho em termos do Reino era Terena. A Casa do Infantado era independente do Reino e tinha as suas leis próprias, por isso a Villa de Ferreira tinha Alcaide, Juiz, Procurador, Escrivão, Lavradores e o Povo! Os portadores daqueles altos cargos eram designados pela Casa do Infantado e alguns surgiam nas terras de Capelins sem ninguém saber nada do seu passado, de onde eram, a que famílias pertenciam, nada! Assim, no início dos anos de 1700, apareceu um Escrivão que foi morar para o Monte do Escrivão, foi sempre aí o lugar dos responsáveis por esta função, era um homem muito taciturno, medonho, uma figura sinistra e conforme era a sua aparência, assim eram os seus atos para com os capelinenses com os quais tinha de conviver devido ao seu trabalho. Só praticava o mal e ninguém tinha poderes para o afastar daqui, passando muitos anos no Monte do Escrivão de onde nunca saía, nem era visitado por nenhum familiar, uma situação muito estranha. O tempo foi passando e um dia o Escrivão adoeceu e temendo estar no fim da sua vida já de cama, mandou chamar o Pároco de Capelins para lhe ministrar todos os Sacramentos. O Pároco de Capelins, Miguel Gonçalves Galego, deslocou-se ao Monte do Escrivão, deu-lhe os Sacramentos, ele arrependeu-se de todos os seus pecados e do mal que fez às pessoas e para selar o juramento tomou a hóstia (que afinal não tomou, porque ficou-lhe atravessada na garganta), e após o ato morreu imediatamente. Nestes tempos, os cristãos eram sepultados dentro das Igrejas e o Escrivão no dia seguinte foi sepultado na Igreja de Santo António. Nesse dia, já à noitinha, estava o Pároco Miguel Galego, na casa Paroquial, junta à Igreja, a preparar-se para se deitar, quando de repente bateram três pancadas na porta com tanta força que a porta quase saía dos cachimbos. O Pároco apanhou grande susto e gritou: - Quem é? E respondeu uma voz profunda e muito calma: Um seu criado, fazia favor! O Pároco veio à porta, que estava sempre aberta, só no trinco e vê na sua frente uma figura medonha, que o arrepiou todo! Boa noite, então diga lá, já me estava a deitar! Continuou o Pároco! Boa noite, sei que sepultou hoje na sua Igreja o Escrivão de Capelins, que era meu familiar, foi ele que me criou e queria despedir-me dele, desculpe chegar a esta hora, mas eu venho de muito longe e gostava de estar um bocadinho com ele, queria que me dissesse qual é a sepultura dele e depois pode deitar-se que eu quando abalar puxo a porta da Igreja, disse o estranho! O Pároco concordou e entrou com ele na Igreja de Santo António, indicando-lhe o lugar onde estava sepultado o Escrivão, com uma pesada laje de xisto por cima, e foi-se deitar! 
Continua... 


60 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 

A lenda dos lobos de Capelins - Parte 2

Era Março e chegou a fase da lua cheia, o pastor durante os primeiros seis dias observou e simulou como devia travar o lobo chefe, verificou que, na sua passagem à frente da alcateia tinha de se concentrar no centro dos dois pontos luminosos, os olhos e apontar aí a flecha em pouco mais de um segundo. assim ao sétimo dia e ultimo da fase da lua cheia, um pouco antes da meia noite, o pastor meteu-se atrás da rocha com o arco armado com uma flecha e não esperou muito tempo, apareceu a alcateia e, como sempre o poderoso guia a ulolar, o pastor deu um salto muito rápido e ficou mesmo à sua frente, mal apontou e disparou a flecha para o lugar que ele até em sonhos já via e, o lobo chefe deu um estridente e assustador uivo e um salto de mais dois metros na sua direção, saltou por cima do rochedo e desapareceu pela ravina e os outros lobos sumiram-se! O pastor João Glize ficou sem certeza se tinha atingido o lobo em lugar mortal ou se apenas estaria ferido, podia tirar a dúvida na manhã seguinte, mas pensou em se aproximar da berma da rocha, com muita cautela, só para escutar algum sinal e como não ouvia nada foi-se chegando cada vez mais para a frente, acabando por escorregar e cair no fundo do rochedo. Na queda, bateu com a cabeça nas rochas e ficou desmaiado. Ao romper do dia, acordou, olhou em em volta e estava deitado ao lado do lobo chefe que tinha a flecha espetada entre os olhos. Ficou muito assustado e deu um salto para trás, porque reparou que o lobo tinha os olhos abertos e aqueles olhos não eram de lobo, mas de gente. Ficou a olhar e disse: Olha, ainda não está morto! E o lobo disse-lhe: - Ainda não estou morto, porque estava à espera que acordasses para te agradecer teres-me matado, já não suportava estas correrias! - Mas o lobo fala! Ou estarei morto e no outro mundo! Disse o pastor! E o lobo continuou: - Eu não sou lobo, sou o Manoel Roíze, o sétimo filho do Joaquim Roíze, e porque o meu pai não acreditava neste feitiço, não mandou um dos meus irmãos para ser meu padrinho de batismo, assim, nas fases da lua cheia transformava-me em lobisomem e andava nesse penar a noite toda. Agora, como foste tu que me mataste, vais ficar tu no meu lugar e a seguir morreu. O pastor João Glize ficou aterrado mas não acreditou. Logo na lua cheia seguinte, as correrias dos lobos continuaram guiados por um lindo lobo chefe e não pararam até à sua extinção nas terras de Capelins!

Vale da Ribeira do Lucefécit - Capelins 


59 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 

A lenda dos lobos de Capelins - Parte 1

Existiram sempre lobos em abundância nas terras de Capelins, coexistindo, sem grandes problemas, com a população de então, até que numa noite de lua cheia, acabou essa paz.

Conta-se que, à cerca de 300 anos, nas noites das fases da lua cheia surgia uma alcateia composta por 10/12 lobos, comandados à cabeça por um lobo chefe, muito diferente de todos os outros, mais encorpado, de pelo muito escuro e de grandes olhos que iluminavam a noite. Esta alcateia, nessas noites uivava e corria em grande velocidade, desde a Ribeira do Azevel, pelas margens do rio Guadiana e da Ribeira do Lucefécit, sempre dentro das terras de capelins. Não faziam mal a ninguém, mas assustavam toda a gente e principalmente os animais domésticos e não se encontrava maneira de acabar com aquele terror, até que uma noite a alcateia ao passar na herdade da Amadoreira tresmalhou um rebanho de ovelhas, obrigando o seu pastor chamado João Glize a andar dois dias para as juntar, ficando tão zangado que jurou matar aquele lobo chefe e acabar com aquelas correrias. O pastor João Glize era muito afamado no uso do arco e flecha, dizia-se que, conseguia matar qualquer ave em voo e nunca falhava um alvo, mas neste caso, era muito diferente, por ser de noite e porque os lobos passavam em grande velocidade, seria correr grande risco de vida, porque se lobo ficasse ferido, decerto que se tornaria muito perigoso. O pastor não contou a ninguém, mas estava decidido e começou por escolher o melhor lugar para enfrentar a alcateia, encontrou um bom lugar atrás de um rochedo perto do rio Guadiana, começando a treinar intensamente para estar seguro na próxima lua cheia, daí a um mês. 
Continua...

Vale da Ribeira do Lucefécit - Capelins 


domingo, 26 de fevereiro de 2017

58 - Terras de Capelins 

Singela homenagem a Dª Belmira do Monte de Santa Luzia!
O Monte de Santa Luzia situa-se na herdade do mesmo nome, tendo pertencido até cerca de 1910 à Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, mas a partir desta data, ou seja, sabe-se que entre 1900 e 1910 deixou de ser Freguesia sendo então integrada na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Alandroal. O Monte de Santa Luzia teve sempre uma forte ligação às terras de Capelins, embora existisse um grande obstáculo durante uma parte do ano entre essas terras, a Ribeira do Lucefécit, que nos invernos mais rigorosos impedia a passagem das pessoas entre as duas margens. Pensamos que, essa ligação se devia à localização do Lugar de Ferreira, que se situava junto á atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, existindo uma curta distância entre esses dois lugares. A muitos/as capelinenses aqui foi garantido trabalho e, obviamente o seu meio de subsistência! 

Neste caso, o nosso objetivo é dar a conhecer o feito da Dª Belmira, pensamos que era proprietária e moradora no Monte de Santa Luzia, nos tempos da guerra civil de Espanha (de 17/18 de Julho de 1936 a 1 de Abril de 1939), devido às agruras dessa guerra, vinham a todo o momento, das terras nossas vizinhas de além Guadiana, mulheres e crianças a pedir auxílio alimentar. Como sabemos, toda a gente das terras de Capelins ajudavam como podiam, até na Casa Dias davam comida e dormida a grupos de crianças que por aqui apareciam! Mas, conforme se conta nas terras de Capelins, houve uma pessoa que se destacou nesse auxílio, pouco conhecida e muito menos reconhecida a sua bondade, foi a Dª Belmira, que chegou a fazer mais de uma cozedura de pão por dia para distribuir por essas mulheres e crianças esfaimadas e que quando entravam na herdade de Santa Luzia, decerto não passavam fome!
Ainda hoje, existe em Ferreira de Capelins, uma afilhada sua, com o mesmo nome!
Bem haja Dª Belmira de Santa Luzia!

Ao fundo: Monte de Santa Luzia 




57 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda da pastora de Capelins

Nos distantes anos de 1400, o filho do Alcaide Mor do Alandroal, chamado Álvaro Rodrigues, neto do destemido Pêro Rodrigues, grande amante da caça, foi caçar, acompanhado por falcoeiros para as terras de Capelins, as quais eram muito afamadas pela abundância de perdizes. Quando desciam o vale da Ribeira do Lucefécit em direção ao rio Guadiana, perto do Lugar de Ferreira, (onde hoje se designa por Neves), encontraram uma linda pastora, chamada Maria Mize, a guardar um pequeno rebanho de ovelhas. A pastora era tão linda que logo despertou a atenção do fidalgo, o qual se achava irresistível ao sexo feminino, assim, logo pensou que seria muito fácil arrebatar o amor de Maria, mas estava muito enganado! Dirigiu-se à pastora com muita delicadeza, cumprimentou-a, disse-lhe quem era, o que fazia, onde morava, perguntou-lhe como se chamava, se as ovelhas eram dela, quantas tinha e se não gostaria de morar no Castelo do Alandroal, que poderia ir com ele e até podia ser sua esposa. A pastora disse~lhe que já tinha namorado, que também era pastor e que não era mulher para casar com um fidalgo e mesmo que assim não fosse, nada a fazia deixar as suas ovelhas e a sua Ferreira. O fidalgo, insistiu, insistiu, mas não conseguiu demover a pastora de Capelins e devido a essa resistência e à rejeição, o fidalgo acabou por se apaixonar e passava longos períodos temporais nas terras de Capelins. Quando perdeu a esperança em convencer a pastora através dos seus dotes, pensou em o fazer à força e levá-la para o Castelo do Alandroal, assim, pediu aos seus companheiros para testemunharem a seu favor e acusar a pastora de o ter ofendido em público o que, tratando-se de um fidalgo era um crime punível com prisão. Chamaram os ordenanças (guardas do reino) formalizaram a acusação e levaram a pastora sob prisão para o Castelo do Alandroal. A pastora foi instalada num bom compartimento e muito bem tratada. O fidalgo pensava que assim a conquistava e todos os dias a visitava e dizia-lhe que se ela lhe pedisse perdão e quisesse casar com ele, retirava imediatamente a queixa e ela seria sua esposa para sempre! A pastora continuava resistente e sentia a falta das suas ovelhas, da sua família, do namorado e da sua Ferreira e, quase não comia, ficando cada vez mais triste e fraca, até que um dia adoeceu apossada por moléstia não identificada e, em poucos meses morreu! O fidalgo Álvaro Rodrigues teve tão grande desgosto que foi para um Convento, onde esteve alguns anos. Mais tarde, tornou-se eremita e foi viver para uma gruta nas margens do rio Guadiana, perto do lugar amado pela linda pastora, onde foi encontrado afogado na manhã de um Domingo de Ramos! 


sábado, 25 de fevereiro de 2017


56 - Terras de Capelins 

Histórias de Vidas

Arte e Engenho do Pescador de Capelins - Tio António Fura (Ti Fura) Parte 2
O Ti Fura pegou na rede, nuns sacos e saiu no barco pelo pego de Santa Catarina e virou à direita para uma lagoa privativa, pouco profunda e que não deixava sair os peixes que ele lá colocava nos dias de pesca abundante e não tinha saída para tanto peixe que pescava, depois, nestas situações deitava a rede nessa lagoa (tipo um tanque natural) e era só meter os peixes nos sacos e foi o que fez nessa tarde. O senhor Miguel ficou à espera, mas desconfiado que não daria certo ainda se esgueirou a ver se conseguia ver o Ti Fura a pescar e viu-o a lançar a rede, então lá acreditou que conseguia levar alguns peixes para Vila Viçosa! Não demorou nada e o Ti Fura a chegar com os peixes no fundo do barco. O senhor Miguel, não via os peixes e disse-lhe: Então Ti Fura? Nada, não? Mas qual nada! Está aqui a sua encomenda conforme lhe disse! Venha cá ver se é assim que quer! O Ti Fura abriu as sacas que deixaram ver o peixe macho, barbo, alguns com mais de 2 quilogramas, aos saltos, que deixaram o senhor Miguel deslumbrado com o que estava a ver! E não deixava de repetir: Eu não acredito nisto! Ainda perguntou: - Foi nas lapas, não? Foi, foi, respondeu o Ti Fura! Pesaram o peixe que deu 32 quilogramas e custaram sessenta escudos ao senhor Miguel, que ainda deu mais 25 tostões para o Ti Fura beber um copito de vinho! E o senhor Miguel lá abalou a caminho de Vila Viçosa na sua carripana que foi em primeira até Montejuntos, onde chegou quase ao escurecer e já nem parou aqui, na estrada nova depressa chegou a Terena, parou a carranjola e entrou na taberna do senhor Neves, onde estavam 4/5 homens a beber uns copos de vinho. Cumprimentou os presentes e pediu um copo de vinho tinto, bebeu um sorvo e começou a contar que tinha ido ao rio Guadiana buscar mais de 30 quilogramas de peixe, mas não cabia nele devido ao que tinha acontecido! E contou que o Ti Fura tinha pescado todo aquele peixe e do tamanho escolhido por ele, num quarto de hora! Os presentes, ficaram desconfiados e insistiram: - Esse peixe todo num quarto de hora? Sim, e era todo o que eu quisesse, até uns cem quilogramas! Respondeu o senhor Miguel! Os clientes ficaram a olhar uns para os outros, sem resposta, mas um que estava sentado num banco no lado direito junto ao balcão e que só já abria um olho disse-lhe bruscamente: – Olha lá, não queres ir enganar outros para outro lado? Se não sabes, estás em Terena! O senhor Miguel nem acabou o copo de vinho, deu meia volta, meteu-se na carripana e só já parou em Vila Viçosa, onde continuou a contar a toda a gente o que se tinha passado, mas poucos acreditaram! Quase todos comentavam: Pescadores! 
Até hoje, o senhor Miguel ainda não sabe que o Ti Fura tinha uma lagoa privativa no rio Guadiana, sempre cheia de peixe! 
Bem haja Ti Fura!

Barbo







55 - Terras de Capelins 


Arte e Engenho do Pescador de Capelins - Tio António Fura (Ti Fura) Parte 1

Numa tarde do mês de Abril do ano de 1976, entrou num dos cafés taberna de Ferreira de Capelins um senhor que cumprimentou os presentes, pediu um copo de vinho tinto, bebeu metade, pousou o copo no balcão e perguntou: Conhecem um pescador daqui, chamado Fura? Respondemos todos em coro: Sim, toda a gente conhece o Ti Fura! Então porquê?
- Porque queria encomendar-lhe uns peixes para amanhã! 
- Olhe, ele esteve aqui à bocado e foi lá para a Guadiana (rio Guadiana)! Disse um dos presentes!
- E como é que lá o encontro?
- Conhece as Azenhas Del-Rei? Mesmo na foz da Ribeira do Lucefécit? Ele tem aí o barco mas se lá não estiver é porque anda a pescar, mande-lhe um assobio que decerto não anda longe e vem logo! 
O senhor agradeceu e seguiu viagem a caminho do rio Guadiana! 
Alguns foram à porta da taberna a bisbilhotar alguma coisa que tivesse escapado e que desse para conversa! 
- De onde será o bijagode? Disse um dos presentes! De perto não é de certeza, não me lembro desta cara, deve ser de Estremoz, porque os de Estremoz já têm por aqui aparecido ao peixe! Disse outro! Cá para mim deve ser de Bencatel, esses gostam muito de caldetas, fazem grandes paródias ali na Guadiana e desta vez devem fazê-la lá em Bencatel, disse outro! Do Alandroal não é de certeza! Conheço as pessoas todas, pelo menos pela cara, e de Terena muito menos! Disse ainda outro! Olhem lá, deixem lá ir o homem, porque ele não deve chegar muito longe! Disse outro! Então porquê? Perguntamos em coro! Pela carranjola que aqui apresentou, uma Citroen de 2 cavalos, quando abalou foi aos soluços e custou muito a subir além a chapada de Capelins de Baixo, acho que teve de ser em primeira! - Então não vai longe, não! Dissemos todos ao mesmo tempo!
Mais tarde soubemos pelo Ti Fura, o que se passou a partir daqui!
O senhor foi ter ao lugar indicado, estava o Ti Fura a merendar um bocadinho de pão com chouriça e um copo de vinho. O senhor cumprimentou-o e o Ti Fura retribuiu o cumprimento e ofereceu-lhe do seu farnel, ao que ele amavelmente declinou e agradeceu. Depois disse que se chamava Miguel, morava em Vila Viçosa e no dia seguinte íam fazer um almoço, uma pequena festa, nos Bombeiros e ele estava encarregado de comprar o peixe do rio para fazer uma "caldeta" e para fritar e que precisava de uns 30 quilogramas de peixe de vários tamanhos e peso, perguntando se o Ti Fura era capaz de os apanhar (pescar) que ele na madrugada seguinte viria buscá-los! 
- Olhe senhor Miguel, se quiser, dentro de 15/20 minutos arranjo-lhe os quilogramas que quiser e ainda pode escolher as medidas e peso de cada peixe! Disse o Ti Fura! Eh Ti Fura, está a brincar comigo não? Disse o senhor Miguel! Não estou, não senhor, eu não brinco com essas coisas! Como lhe disse, pode levar hoje os peixes que quiser e ao serão podem escamá-los, tirar as tripas e temperá-los com alho, sal, poejos e os outros temperos e o peixe da caldeta e o que fritar fica muito mais saboroso! Mas está a falar a sério? Arranja-me 30 quilogramas de peixe em 20 minutos, meia hora? Tornou a perguntar o senhor Miguel! Claro que estou a falar a sério! Fique aqui e por favor não abale daqui! Está bem, fico aqui à sua espera, disse o senhor Miguel! 
Continua... 


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

54 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 

A lenda da Marmita e dos Lobos de Capelins 

O Monte da Vinha situa-se nas terras de Capelins, outrora da Casa do Infantado, junto ao caminho de terra batida que liga a Aldeia de Ferreira de Capelins à Aldeia de Cabeça de Carneiro e que passa pelas herdades do Terraço, Areias, Ribeiro do Peral, Monte Sêco e Monte da Vinha. 
O filho do Lavrador deste Monte, chamado Manoel Friz, começou a namorar com a filha do Lavrador do Monte de Igreja, uma menina muito bonita e muito estimada por toda a gente, chamada Maria Lopes. Devido a este namoro o Manoel tinha de se deslocar todas as semanas do Monte da Vinha ao Monte de Igreja, mas vinha sempre pela Igreja de Santo António, ficando a viagem relativamente curta. 
Na noite de Entrudo, em 3 de Março de 1805, houve um baile na ex-Aldeia de Capelins de Baixo e o Manoel Friz, veio a esse baile, chegou à tardinha e trouxe a ceia, (jantar), toucinho e linguinça, dentro de uma marmita, pão, azeitonas e umas passas de figo e usou o seu transporte habitual, a sua burra, companheira de todas as deslocações. Passou a noite a dançar com a sua Maria e antes das duas da manhã acabou o baile, regressando cada um a suas casas. A noite estava um pouco ventosa, escura e fria, o Manoel foi buscar a burra para abalar para o Monte da Vinha, mas algumas pessoas disseram-lhe para dormir no cabanão onde estava a burra porque era perigoso ir embora aquela hora e ouvia-se dizer que havia muitos lobos esfaimados que subiam o ribeiro do Peral e andavam naquela região. Ninguém o convenceu a ficar, porque ao romper do dia tinha que ir lavrar e era impossível ficar, e disse que não tinha medo de lobos, bastava acender um fósforo e desapareciam. O Manoel partiu e assim que passou o ribeiro do Terraço, mesmo na escuridão da noite viu dois lobos muito próximos dele, acendeu um fósforo e os lobos desapareceram! Seguiu o seu caminho e logo que entrou na herdade das Areias vê uma alcateia de dez ou doze lobos, ficou muito nervoso, mas pensou que com os fósforos os conseguia afastar, mas não! A presa dos lobos era a burra, mas o Manoel também estava em perigo! Começou a acender fósforos em volta da burra, mas com a aragem apagavam-se logo e os lobos pouco recuavam, já com os fósforos quase no fim e ainda tão longe do Monte da Vinha, começou a entrar em desespero e a pensar rapidamente o que podia usar para se defender, mas não tinha nada, a não seu um pau que usava sempre nestas viagens, mas tantos lobos, de pouco lhe servia, ainda menos, para defender a sua burra. Deitou a mão ao alforge à procura de algum objeto e apanhou a marmita onde tinha trazido a ceia, mas para que lhe servia a marmita, a não ser para atirar aos lobos, mas não resolvia nada, com o medo que estava, já a tremer, deixou cair a marmita em cima de pedras, a qual fez tanto barulho na noite, que assustou tanto os lobos e afastaram-se para muito mais longe do que faziam com o fogo dos fósforos e fez-se luz na cabeça do Manoel. Apanhou a marmita do chão, abriu-a e meteu lá dentro duas ou três pedras quase redondas, atou um cordel à asa e à albarda da burra e deixou-a no chão começando a andar com a burra, a marmita atrás da burra com as pedras dentro fazia tanto barulho que os lobos não se aproximavam, mas seguiam-no à distância. Quando chegou ao sesmo entre as Areias o Monte Sêco e Monte da Vinha, gritou com quanta força tinha aos seus cães, de raça rafeiro alentejano, os únicos temidos pelos lobos, os quais vieram ao seu encontro em conjunto com os do Monte Sêco e os de outros pastores que estavam por perto, afugentando os lobos para longe dali. Mas, todos os/as capelinenses diziam que, quem salvou a vida do Manoel e da sua burra foi a marmita! 
Ao fim de alguns meses foram feitas várias batidas e a maior parte desses lobos foram abatidos! 
O Manoel Friz, apanhou o maior susto da sua vida e nunca mais esqueceu a sagrada marmita!

Monte da Vinha 


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

53 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 

O rito e a rota dos sete poços na madrugada do dia de São João (24 de Junho)

As terras de Capelins tinham tradições centenárias que ninguém consegue explicar a sua origem, porém, sabemos que derivam de uma mistura de culturas e credos, do lado de cá e de lá do rio Guadiana, incluindo a forte influência Judaica (Cristãos novos), que por aqui viveram durante alguns séculos! 
Uma dessas tradições, que se encontra quase extinta, como outras, e na qual muitos/as capelinenses participavam, embora alguns contrariados, por terem de sair da caminha pelas cinco horas da manhã no dia 24 de Junho, era tomar banho antes do nascer do sol, nas águas de sete poços! 
Alguns dias antes, dos banhos do São João, as habituais participantes, geralmente mulheres e crianças, começavam por escolher os sete poços a visitar. Depois, na madrugada desse dia, partiam com um balde e uma bacia, que as acompanhavam em todo o trajeto. Ao chegarem ao poço, tiravam a água para a bacia e faziam a lavagem à gato/a, as mãos, cara, pés e pernas e pouco mais e partiam logo para outro poço, porque ao nascer do sol o ritual tinha de estar terminado, senão não servia para nada. A finalidade deste rito era para ficarem livres de doenças, uma garantia que passavam o ano sem adoecer!
Hoje, ainda há algumas resistentes, cada vez menos, porque a idade já é muita, mas a sua fé nestes banhos continua!

Poço do chorão, dos mais visitados nos banhos do São João


52 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 

A Lenda do Candeeirol de Capelins 

Como sabemos, antigamente não existiam transportes rápidos para as pessoas de Capelins se deslocarem de suas casas para o trabalho no campo, ou para outras localidades, fosse para tratar de assuntos ou para assistirem a festas e bailes. Assim, conforme as distâncias que tinham de percorrer, os capelinenses começavam as viagens muito cedo, na escuridão da noite, em alguns casos, pelas três/quatro horas da manhã, por caminhos perigosos, pedregosos ou enlameados, de difícil circulação para pessoas e animais, mas não havia alternativas! 
Existiram sempre boatos sobre fantasmas, que apareciam com diversas formas, desde animais a objetos brilhantes e outros! 
 Este caso que vamos contar passou-se na estrada que ligava as terras de Capelins a Terena, vinha desde o Porto da Cinza, passava pelas Bispas, Calados, Serranas, Ferreira, Cebolal, Nabais, Ai Ai, Monte Branco, Ribeiro do Alcaide, Vila Velha, Terena. Havia um espaço nesta estrada, desde a entrada na herdade de Nabais, no cruzamento das duas estradas, até junto ao Monte de Nabais, onde por vezes aparecia um fantasma! Numa madrugada, muito cedo o meu tio foi desde Capelins de Cima para a casa do avô (meu bisavô), que morava no Monte da Hortinha, junto a Faleiros, quando chegou à referida encruzilhada, olhou à sua esquerda e vê um clarão de um candeeirol da altura de uma pessoa que o seguia, ficou muito assustado e, começou a andar mais rápido e depois a correr, mas o mesmo acontecia com o fantasma, seguia sempre a seu lado. Como o medo era tanto, pensou em pedir ajuda no Monte de Nabais, mas quando chegou perto deste Monte, o fantasma deu um estouro e desapareceu! 
 A partir desse dia, o meu tio, nunca mais foi para o Monte da Hortinha antes do raiar da aurora! 
Parece que, o fantasma, continua a andar naquele trajeto, mas já lá não passam pessoas!

Era mesmo neste sítio que surgia o fantasma! 


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017


51 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A Lenda do bondoso pastor de Capelins

Antigamente existiam muitos pastores nas terras de Capelins, podemos constatar essa realidade nos registos Paroquias de Santo António. Entre eles, existia um rapaz dentro dos vinte anos que guardava as ovelhas na herdade da Talaveira e andava quase sempre perto da Ribeira do Lucefecit e do Moinho do Bufo. Um dia chegou à hora de almoço (jantar), pegou na alcofa da merenda e quando se preparava para comer apareceu uma velhinha muito feia a pedir-lhe que lhe desse alguma coisa para comer porque andava cheia de fome e já não aguentava mais! O pastor era tão bondoso que não hesitou em lhe entregar a merenda, pensando que ela comia um pouco e lhe deixava algum bocadinho de pão com toucinho e azeitonas para ele, mas a velha comeu-lhe tudo, nem uma única azeitona lhe deixou, ficando ele cheio de fome até à hora da ceia (jantar), mas no fundo estava muito satisfeito por ter matado a fome à velhinha, pobre e feia. 
No dia seguinte, quase no mesmo sítio, à mesma hora, quando o pastor se preparava para almoçar (jantar), apareceu novamente a velhinha com as mesmas lamurias e ele não conseguiu negar-lhe a sua merenda e passou mais um dia cheio de fome. Esta situação repetiu-se vários dias, mudava de sítio, escondia-se no meio das estevas, mas a velhinha encontrava-o todos os dias. O pastor andava já muito fraco, porque à noite no Monte da Talaveira a comida era por conto e, não podia comer mais do que lhe cabia. Até que um dia, estava ele a preparar-se para comer, à mesma hora, apareceu a velhinha e disse-lhe: És uma pessoa muito bondosa, das melhores de Capelins, por isso e pelo bem que fizeste a uma velha como eu, toma lá esta toalha e sempre que queiras comer estende-a em cima da ervinha, pensas em comidas que gostes, elas aparecem e podes comer tudo o que te apetecer e de seguida transformou-se numa linda mulher e desapareceu. A partir daquele dia, quando o pastor estendia a toalha e pensava em comidas boas e bebidas, apareciam imediatamente e foi comer do bom e do melhor o resto da sua vida! 
As pessoas bondosas, decerto não são esquecidas! 

Pastor
foto net


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

50 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 

A Lenda da Menina na Ribeira do Lucefécit e o Milagre de Nossa Senhora das Neves, de Capelins 

Conta-se que um dia estava uma senhora a lavar a roupa da família na Ribeira do Lucefécit, num lavadouro que existia junto à foz do Ribeiro das Neves e tinha por companhia a sua filha com cerca de 5 anos de idade. A senhora lavava a roupa e a pequenita brincava por ali e de repente diz: olha mãe! E mostra-lhe um lindo terço dourado que brilhava como o sol. A senhora ficou muito aflita e perguntou à filha onde o tinha encontrado! A menina disse à mãe que tinha sido uma senhora muito linda que lhe o tinha oferecido. Mas como é que isso aconteceu, se não dei por nada? diz a mãe! Estava a lavar e não viu! Respondeu a menina!
E onde está, ou para que lado foi a senhora? Continuou a mãe!
Foi-se embora por ali, e indicou o curto caminho entre a Ribeira do Lucefécit e o lugar onde está situada a Ermida de Nossa Senhora das Neves!
A mãe e a filha seguiram naquela direção e quando se aproximaram viram a linda imagem de Nossa Senhora das Neves, exatamente no lugar onde a sua Ermida foi construída, ou seja, ao lado e não no mesmo lugar da antiga Igreja Matriz de Santa Maria!


O dia de Nossa Senhora das Neves é 5 de Agosto, nesse dia, aqui acodiam romeiros de toda a região!
Nossa Senhora das Neves é uma das invocações pelas quais a Igreja Católica venera a Santíssima Virgem Maria segundo o culto de hiperdulia.
Nossa Senhora das Neves é também conhecida como Santa Maria!
Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins 



49 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A Lenda do Pastor do Monte do Escrivão e o Milagre de Nossa Senhora das Neves em Capelins

Ao lado da atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, em Capelins, no lugar onde está a necrópole, existia a Igreja Matriz de Santa Maria, mandada construir por D. Dinis em 1314. A Igreja Matriz de Santa Maria entrou em ruínas nos últimos decénios de 1600, não sendo possível recuperá-la, foi escolhida a opção de construir uma nova, com invocação a Nossa Senhora das Neves (o mesmo é dizer, Santa Maria, Nossa Senhora). A construção desta Ermida iniciou-se cerca de 1670/80 e quando já estava adiantada acabou-se o dinheiro que tinha sido angariado por toda a região. As obras pararam e começou o falatório que já não a acabavam e ficaria abandonada porque ninguém podia dar mais dinheiro! 
Um dia andava um ganadeiro a guardar as suas ovelhas perto do Monte do Escrivão e vinha um romeiro dos lados das Neves, cumprimentaram-se e o ganadeiro perguntou-lhe se tinha passado por Nossa Senhora das Neves e se as obras da Ermida já estavam quase prontas! O romeiro contou-lhe o que se passava! Então ninguém pode ajudar? Posso eu, disse o ganadeiro! E continuou! Vou já resolver o problema!
Foi saber quem era o mestre da obra e quanto dinheiro faltava para a acabar, incluindo tudo o que fosse necessário para a ficar pronta a rezar lá missas! 
Depois de saber quanto dinheiro era preciso, apartou 20 ovelhas das melhores que tinha e foi vendê-las, entregando todo o dinheiro, conforme tinha combinado com o mestre da obra! 
Soube-se logo por toda a região, deixando as gentes de Capelins muito sensibilizadas com aquele ato, ainda mais, por ser este ganadeiro dos que tinha menos ovelhas e dos mais pobres, no entanto foi ele que acabou de construir a Ermida de Nossa Senhora das Neves. 
Concluídas as obras, a Ermida foi benzida e inaugurada e na madrugada seguinte, como sempre, o ganadeiro foi soltar as suas ovelhas para as levar para a pastagem, mas ficou pasmado porque depois de as contar tinha as mesmas ovelhas de antes de as vender! Ainda pensou que fossem de outro rebanho e se tivessem juntado às suas, mas não! Foi um milagre de Nossa Senhora das Neves, pela sua bondade e pelo bem praticado! 
Neste caso, confirma-se que: "Faz mais quem quer do que quem pode". 




48 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes
A lenda do lobisomem de Capelins

Contava-se que, há algumas centenas de anos, existia um lobisomem nas terras de Capelins e que era um rapaz ainda novo, com cerca de 20 anos de idade, que costumava transformar-se em diversos animais, mas essa transformação tinha de ser feita nos cruzamentos de estradas, ou seja no lugar onde duas estradas se cruzavam formando uma cruz. Assim, uma noite, transformou-se num chibo no cruzamento das estradas no Roncão, nesse momento, vinha um jornaleiro que trabalhava no Roncão e morava no Monte do Escrivão, viu o chibo ali perdido e pensou em o levar para casa, depois se aparecesse o dono logo o entregava ou então podia ficar com ele. O chibo não era pequeno, então tirou o cinto das calças, atou-lhe as patas e levou-o às costas, mas antes de chegar ao Monte do Escrivão o chibo pesava cada vez mais, até que, devido ao cansaço, o jornaleiro teve de o colocar no chão para descansar, mas mal chegou ao chão o animal deu-lhe um forte esticão que o fez cair de costas e fugiu. No dia seguinte, o jornaleiro foi logo cedo para o trabalho no Roncão e encontrou um rapaz que morava no Monte da Negra e que era seu amigo, fizeram um grande cumprimento, mas ao mesmo tempo o jornaleiro reparou que ele trazia à cintura o seu cinto, com o qual ele tinha atado as patas do chibo, o jornaleiro paralisou e apanhou o maior susto da sua vida. O rapaz lobisomem percebeu e seguiu caminho a rir e aos saltos como os chibos! 




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017


47 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda do tesouro do Pego das Barcas - Parte 5

Os lavradores dos Montes, da Negra, Talaveira e Amadoreira estavam convencidos de que não existia nenhum tesouro no fundo do pego das barcas e carregaram as cordas, os paus, madeiros e as ferramentas, na carreta (carroça) dos bois e partiram para os seus Montes muito tristes e amargurados que nem comeram, nem beberam o vinho que tinham levado. Os observadores voltaram ao seu trabalho, outros foram para os seus montes, mas jurando que não esqueceriam o que os ditos lavradores tinham feito, podiam ter ficado com o tesouro que se considerava ser do povo de Capelins. Os que assistiram ao trabalho dos lavradores encarregaram-se de espalhar por toda a região a novidade e sempre foram acrescentando mais alguns pontos, passaram uns dias e não se falava noutra coisa por todo o lado. Os lavradores começarem logo a desconfiar que as pessoas sabiam alguma coisa, porque quando passavam, ficavam a cochichar e a rir, e até os seus criados andavam diferentes. Alguns ganadeiros e jornaleiros, quando os cumprimentavam já nem lhe tiravam o chapéu, o mesmo é dizer que não lhe tinham respeito e começaram a surgir as piadas. Então compadre, já lá tem tesourinhos' Ou a "tesoura" ainda está a chocar os ovos no pego das barcas? E muitas outras! Foram uns tempos muito difíceis para estes lavradores, que durou, durou! 
Quanto ao tesouro, toda a gente continuou a dizer que está lá, muito perto do Castelo das barcas e que um dia há-de aparecer! há-de, há-de! E nesse dia, dá-se o esplendor nas terras de Capelins! 
Fim 


domingo, 19 de fevereiro de 2017


46 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda do tesouro do Pego das Barcas - Parte 4

Estava tudo preparado, as cordas ligadas à canga da junta de bois e os lavradores dos Montes da Negra e da Amadoreira colocados em frente dos bois deram a ordem para os animais puxarem a pedra com quanta força tinham e era muita, mas eles pararam e a pedra não mexeu. Ficaram pasmados e decidiram picar os bois que avançaram imediatamente como se não estivessem em esforço e foi difícil de os parar! O arranque dos animais foi tão brusco que a pedra foi arrastada e ficou virada a alguns metros de distância do lugar onde se encontrava, até que, não era tão grande como parecia, devido ao efeito da água. A seguir, o lavrador do Monte da Talaveira mergulhou com muito medo, porque não imaginava o que ía encontrar, com cautela, olhando em sua volta foi-se aproximando do lugar onde antes estava a pedra a tapar o suposto tesouro, mas não viu nada, procurou até aguentar o fôlego, quando veio à tona de água deixou os outros perplexos porque não trazia nada! Então o tesouro compadre? Perguntaram os dois ao mesmo tempo! Não vejo lá nada, respondeu o lavrador da Talaveira! Não pode ser, deve estar metido na rocha, leva lá a enxada para tirares a areia e o lodo, que de certeza que está lá! Disseram-lhe os dois lavradores! O lavrador da Talaveira nadou para baixo, para cima, para cima, para baixo, usou as ferramentas todas, para escavar na areia, para bater nas rochas e tentar encontrar alguma saliência e ainda mergulhou com ele algumas vezes o lavrador da Negra, viram o fundo da pedra, podia ter alguma cavidade com o tesouro, mas nada! Andaram neste trabalho mais de duas horas até se convencerem que não existia nenhum tesouro no fundo do pego das barcas! 
A pouca distância, continuavam escondidos os observadores, que assistiram a tudo e, também já estavam convencidos que o tesouro não existia, mas estava prometido que não íam perdoar os lavradores pelo seu atrevimento de tentarem roubar o tesouro que era de todos, por isso, o pior ainda estava para vir!
Continua....


sábado, 18 de fevereiro de 2017


45 - Terras de Capelins 


Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória

Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes

A lenda do tesouro do Pego das Barcas - Parte 3

Como já foi referido, os lavradores dos Montes da Negra, Talaveira e Amadoreira, chegaram muito cedo ao rio Guadiana, que devido à seca e ser Agosto, apenas corria um fiozinho de água, sendo muito fácil chegar junto do pego das barcas com a carreta (carroça), puxada pela junta de bois do lavrador da Amadoreira, que carregava os instrumentos necessários ao trabalho que íam realizar, cordas, paus, madeiros para servirem de rolamentos para apoio das cordas, sacos e grandes panos para tapar o tesouro. 
Com muito cuidado, evitando fazer barulho e alertar alguém que por ali andasse, começaram logo a descarregar a carreta, para ao romper da aurora estar tudo pronto, mas naquela hora da madrugada no rio Guadiana até se ouviam respirar os peixes, logo, o som daquela azáfama depressa chegou aos ouvidos apurados de um ganadeiro que andava por perto, o qual, com receio não fossem invasores para roubar o gado, foi logo perguntar ao ajudante se tinha visto ou ouvido passar alguém para aquelas bandas? Não! Eu não vi nem ouvi nada! Respondeu o ajudante! Então, tenho que ir ver o que se passa! E lá foi encontrar o que já descrevemos. Esteve a observar, sem ser visto, e logo se apercebeu o que os lavradores estavam a fazer. Foi a correr até onde estava o ajudante e disse-lhe que fosse imediatamente, dizer a toda a gente das redondezas o que se estava a passar, porque achavam que o tesouro era de todos! E não demorou muito, havia gente de todo o lado, até de Cheles, a espreitar, em cima de azinheiras, detrás de moitas, de rochas e de estevas, muito pertinho dos lavradores que, com o entusiasmo, não deram por nada! 
Já se via bem, com um palmo de sol e tudo preparado, as cordas estendidas, passando por cima dos madeiros e com uma laçada para passar pelos lados da pedra que tapava o tesouro e a junta de bois em posição de a puxar e abrir o tesouro. O lavrador da Talaveira, bom banhista, mergulhou e levou as cordas por debaixo dos braços, chegou ao fundo do pego, ligou-as bem à pedra e veio à tona de água a dizer que a junta de bois já podia entrar em ação! 
Continua... 


198 - Terras de Capelins Vidas do Contrabando e dos guardas fiscais nas terras de Capelins  História, lendas, contos e tradições da...