sexta-feira, 31 de março de 2017

95 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Vias Romanas 
A Via Romana que atravessava as terras de Capelins, estava ligada à XII via, que ligava Lisboa a Mérida, a capital da Lusitânia!


VIA XII - Item ab OLISIPONE EMERITAM m. p. ITINERARIO XII - Lisboa (OLISIPO) - Alcácer do Sal (SALACIA) - Évora (EBORA) - Mérida (EMERITA) CLXI milhas - 238.5 km
Em Alandroal a via deveria passar próximo da villa da Tapada de Vilares (na Carta Arqueológica do Alandroal, Calado indica a azinhaga que atravessa a villa como possível via romana; ver Calado, 1993). A partir daqui é provável que derivasse uma via para Bencatel, uma ligação a Vila Viçosa (passando no vicus marmorarius designado outrora como «Vilares», compreendendo a ermida de S. Marcos, Tapada de Fonte Soeiro e «Fonte da Moura», local onde apareceu um altar votiva de Canidius, IRCP375, hoje no Museu de Vila Viçosa) e para leste rumo ao rio Guadiana em Juromenha. Esta rede viária estaria muito ligada à exploração de mármores da região;
Uma outra via no sentido N-S servia também a actividade mineira oriunda pelo menos desde Capelins que ia atravessar a ribeira de Lucefecit junto do fortim romano do Outeiro dos Castelinhos (importante estrutura romana ao abandono!)
seguindo por Rosário, Mina do Bugalho, S. Brás dos Matos e Juromenha (onde podia atravessar o Guadiana; povoado na Malhada das Mimosas; tessera hospitalis em bronze), seguindo um ramal para o vicus do Monte da Nora em Terrugem (passando entre os casais rústicos do Monte do Outeiro, da Aboboreira e da Queimada em Ciladas) e outro na direcção de Elvas, confluindo todas nos eixos principais rumo a Mérida.
Marco miliário desta via romana! Miliário = indicador de milhas!  
Extratos da net 

quarta-feira, 29 de março de 2017

94 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
Um povo, sem história, sem lendas, sem tradições, sem memórias, não tem identidade! Não existe! 
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A aventura do Ti António Fura na viagem náutica ao fundo do mítico pego de Santa Catarina no rio Guadiana 
O pego de Santa Catarina situa-se/situava-se junto à foz da Ribeira do Lucefécit no rio Guadiana. Desde sempre, foi um pego mítico, falava-se dele nas terras de Capelins como sendo o de maior profundidade nos limites de Capelins.
O Tio António Fura, desde criança, começou a dominar os segredos da água, as correntes, os perigos dos remoinhos e principalmente o domínio do fôlego o que sempre lhe permitiu mergulhar como ninguém. Grande parte da sua vida foi perto da água, desde a dita Ribeira até ao rio Guadiana. Assim, à medida que foi crescendo e ouvindo contar que não existia por aqui, nenhum pego tão fundo, começou a alimentar a ideia de um dia lá nadar e descer até às suas profundidades.
Quando teve o seu barco de pesca, cada vez que navegava pelo referido pego, mais ansiedade sentia em concretizar o seu sonho, deu voltas à cabeça a pensar como havia de fazer, mergulhou lá algumas vezes, mas não conseguia avistar o fundo, fez medições com cordas e pesos, que desciam, desciam, esgotavam-se e não chegavam a sítio firme, mas essas situações ainda lhe davam mais força. Depois de fazer mentalmente os seus planos, contou a um amigo, o Ti Nabais (falecido), que estava decidido a descer ao fundo do pego de Santa Catarina e, que precisava da sua ajuda e não lhe deu tempo para discordar, porque na sua cabeça estava tudo em andamento, foi só marcar o dia e, nesse dia lá estavam os dois, entraram no barco e o Ti Fura remou até ao lugar que já estava cansado de marcar na própria água. Disse ao Ti Nabais, que o mergulho era naquele sítio e o papel dele era segurar ali o barco, para ele se orientar e para o recolher, quando viesse à tona de água, tão simples quanto isso. A seguir, o Ti Fura, sem nenhum preparativo, sem colocar a hipótese de correr mal, sem proteção, sem oxigénio, sem traçar um plano de ajuda no caso de ser necessário, respirou fundo e desapareceu nas águas do pego de Santa Catarina e o Ti Nabais ficou a tomar conta do barco. O Ti Nabais, esperou, esperou, passou o tempo considerado normal e ele entrou em desespero, sem saber o que fazer, começou aos gritos: Fura, Fura, Fura, ai meu Deus, já não vem para cima e começou a chorar num grande pranto. Quando já não tinha esperança que o Ti Fura sobrevivesse, apareceu ele à tona de água, muito fresquinho, porque, conforme contou depois de concluída aquela aventura, o que mais lhe custou foi aguentar o frio, uma vez que, quanto mais descia, mais gelada estava a água mas nunca lhe passou pela cabeça desistir, o objetivo era atingir o fundo do pego de Santa Catarina, onde nos nossos tempos, nunca nenhum ser humano tinha chegado e, assim conseguiu concretizar o seu velho sonho, com risco da própria vida! 
Quem o conhece, bem sabe que o Ti António Fura, tinha que descer ao fundo do pego de Santa Catarina! 


Era aqui o pego de Santa Catarina


sábado, 25 de março de 2017

93 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
Um povo, sem história, sem lendas, sem tradições, sem memórias, não tem identidade! Não existe! 
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
História da Pesca no rio Guadiana em Capelins - parte 4

Quando se passou da pesca artesanal, feita através da dita tarrafa e outras armadilhas, para a pesca profissional, nas terras de Capelins, temos que nos referir ao Ti António Fura, um dos maiores, senão o maior pescador profissional das terras de Capelins e talvez não seja exagero, de todo o Alentejo interior. Como referimos, também pescou muitos anos com artes artesanais, porque começou a pescar ainda era criança, mas ao legalizar-se como pescador profissional adquiriu tresmalhos, grandes redes que ligadas quase atravessavam o rio Guadiana, proporcionando grandes pescarias. o Ti António Fura tinha um barco de pesca com o qual armava os tresmalhos, se o tempo estivesse de feição, geralmente, a faina começava cerca da meia noite, saía com o barco que estava ancorado no lado direito à foz da Ribeira do Lucefécit, levava dois tresmalhos, depois em local estratégico que só ele conhecia, com uma corda, prendia a ponta do tresmalho num amieiro ou outro arbusto e sempre navegando ia desenrolando o tresmalho e ajeitando dentro de água, quando o primeiro estava no fim, ligava outro tresmalho e continuava a desenrolar o segundo até um lugar onde o pudesse prender a outro arbusto, que ele já conhecia e, ficava a primeira parte do trabalho feita, que era melhor com um remador, mas ele mesmo sozinho fazia tudo. Depois, voltava a terra comia alguma coisa e pelas quatro ou cinco da manhã começava a levantar os tersmalhos, um trabalho que levava um pouco mais de tempo, porque tinha de tirar o peixe do emaranhado e juntá-lo no fundo do barco, com o cuidado de não o deixar saltar, porque alguns davam saltos de metros e lá voltavam à água, mas o Ti Fura sabia o que fazer para o peixe não lhe abalar. Os tresmalhos eram colocados de forma a não se enlearem senão mais tarde estava sujeito a grande trabalho. O horário e a faina que aqui se descreve, nem sempre era exatamente igual, porque dependia da época e das correntes do rio Guadiana.

Pelas seis ou sete da manhã, já estava a caminho dos locais de venda do peixe e que peixe, tanta gente com saudades deles! 

Em Capelins, nunca mais temos desse peixe!

Bem haja tio Fura, grande homem, grande pescador, grande nadador do rio Guadiana!
tresmalho
foto net 


92 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
Um povo, sem história, sem lendas, sem tradições, sem memórias, não tem identidade! Não existe! 
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
História da Pesca no rio Guadiana em Capelins - parte 3

O Ti António Fura e quase todos os pescadores de Capelins, pescavam o ano todo, bastava haver procura, embora houvesse algumas épocas do ano em que a pesca era mais abundante.
Para pescar usavam-se várias técnicas conforme a altura do ano e o caudal do rio. Em Março e Abril o rio Guadiana ainda tinha grande caudal, porque as Ribeiras e Ribeiros ainda metiam muita água. Nessa altura, em tempos mais recuados nos sítios mais baixos de água construíam armadilhas para apanhar os peixes. Usava-se o galrito, que o Ti Fura fazia, geralmente de buinho, mas podia ser feito de verga, o qual permitia a entrada dos peixes e dificultava a sua saída depois de terem entrado.
O galrito era instalado dentro da água, quase sempre onde havia areia, à noite e com a boca voltada contra a corrente, de forma a que a água corrente o mantivesse aberto e esticado. 
A sua instalação era feita com a ajuda de ramos de amieiro presos na areia, dispostos em cone no sentido da corrente com o galrito aí colocado. Como, durante a noite, os peixes ao nadarem viam os ramos dos amieiros tinham tendência a deslocar-se ao longo deles para poderem encontrar uma passagem, quando a encontravam, entravam no galrito de onde já não era fácil sair.
De madrugada, os pescadores iam aos galritos, armados na noite anterior e recolhiam os peixes. Nem sempre corria bem, como o rio tinha mais animais, como as cobras de água, às vezes adiantavam-se aos pescadores e deixavam os galritos sem peixe. Tal como a pesca à tarrafa, também este tipo de pesca não era autorizado, mas mesmo assim era praticado.
Continua...

galrito
foto net


91 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
Um povo, sem história, sem lendas, sem tradições, sem memórias, não tem identidade! Não existe! 
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
História da Pesca no rio Guadiana em Capelins - parte 2
Nas terras de Capelins, a pesca no rio Guadiana foi praticada desde sempre, podemos confirmar através das pinturas rupestres da Moinhola com mais de cinco mil anos. 
Mais recentemente, a pesca era uma atividade para fins de complemento da economia doméstica e com fins lúdicos, também a confeção de redes de pesca era efetuada pelos próprios pescadores, como o Ti António Fura, o Ti Miguel “Aninho”, o Ti Venâncio e outros. No rio Guadiana praticavam-se diversas formas de pesca. Nas terras de Capelins as mais frequentes eram à tarrafa, “tresmalho”, “guito”, lapa, e com armadilhas, nassas e galritos. No caso da tarrafa, o lançamento era feito, geralmente a partir das margens do rio Guadiana, enquanto o tresmalho era armado e recolhido a partir de um barco feito de madeira.
O fabrico da “tarrafa”, era feito em casa do pescador ou mesmo no rio Guadiana, nas horas em que esperavam a recolha dos tresmalhos ou das armadilhas. Normalmente, cada pescador fabricava as suas próprias artes de pesca. O Ti António Fura fazia tarrafas com dois instrumentos que ele também fazia de esteva ou outra madeira a “agulha”, uma espécie de estilete usado para conduzir o fio da rede, e o “malheiro”, utilizado para fixar a largura das malhas da rede. A parte superior da rede era fixada num suporte mais alto, até numa arvore, para dessa forma se desenvolver. O início da rede desenvolvia-se a partir de um número reduzido de malhas ou “pombinhas”, geralmente vinte, variando o número de malhas de acordo com o tamanho final pretendido para a tarrafa. A cada duas voltas, aumentava-se uma malha, diminuindo o seu tamanho à medida que se tecia a rede. Uma rede de pesca podia demorar um mês ou vários a ser concluída, depois ainda tinha de ser chumbada. Também as chumbadas eram feitas pelo pescador e levava alguns dias a fazer e a chumbar. O chumbo era derretido dentro de uma forma aquecida ao lume que depois de passar por dentro de água fria era aberta tipo alicate e a chumbada saía pronta para ser aplicada à rede. Uma tarrafa podia durar até dez anos ou mais, dependendo do uso.
A pesca à tarrafa só era feita em pegos pouco profundos e para a lançar, o pescador entrelaçava a parte superior da rede ao pulso e, de seguida, apanhava parte da “saia” colocando-a ao ombro. Segurava com a mão direita a outra parte, ficando o resto caído em frente ao corpo. Por fim prendia um chumbo com a boca e o outro com a mão direita. Na zona do rio escolhido, a tarrafa lançava-se sobre a água. De seguida, a rede era puxada pela corda do vértice, arrastando a chumbada pelo fundo até que se juntasse, puxando-a finalmente para si, (importa salientar que, cada um, lançava a tarrafa como melhor sabia).
Lançada à mão por um só homem, a partir das margens do rio, a tarrafa era recolhida pouco depois, repetindo-se a faina sempre que necessário. 
Continua...

tarrafa
foto net 



90 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

Um povo, sem história, sem lendas, sem tradições, sem memórias, não tem identidade! Não existe! 
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A história da pesca no rio Guadiana, nas terras de Capelins - parte 1
Através das pinturas rupestres que se encontram submersas pelas águas do Grande Lago de Alqueva, verificamos que na Defesa de Bobadela, junto ao lugar denominado Moinhola, (Minhola) que há 5.000 anos os povoadores aqui instalados já pescavam. Não conseguimos perceber nesses desenhos nas rochas, como era feita a captura do peixe, mas decerto, que seria com armadilhas e, à lapa (esta, deve ser a forma mais velha e fácil de pescar, desde que conheçam os lugares onde existem buracos nas rochas ou protegidos por pedras é só tapar a saída meter a mão e apanhar os peixes que lá estiverem dentro). Porém, são conhecidas armadilhas mais ou menos rudimentares, feitas artesanalmente de vegetação e arbustos encontrados no rio, como as nassas, os galritos e outras. Mais tarde, surgiram outros apetrechos de pesca mais modernos, como a atarrafa os tresmalhos e a cana de pesca. 
Ao longo dos tempos, as espécies de peixe foram variando no rio Guadiana, sabemos as que existiam nos últimos anos, mas também sabemos as que existiam há cerca de 260 anos, através de fontes muito seguras, pelos Párocos de, Juromenha de Capelins e de outras Paróquias que fazem fronteira com o rio Guadiana. 
A pesca no rio Guadiana, na maior parte dos casos, era um complemento à economia familiar, mas também para "paródias", festas de famílias e amigos, realizadas junto ao rio ou nos moinhos, onde alguns grupos se instalavam, por vezes, durante dias ou semanas, comendo peixe em caldetas e fritos, acompanhados com bom vinho e outras bebidas! 
 Continua...


89 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A importância da chaminé nas casas das terras de Capelins 
A Chaminé de uma casa era um duto que fazia a comunicação entre o interior o exterior e vice versa da dita. Eram feitas em alvenaria de forma a não permitir a entrada de águas pluviais nem vento, integradas e sobressaindo em altura em relação à casa, por cima do telhado e serviam para capturar e transferir para o exterior os fumos do lume e os cheiros indesejáveis, como ventilação. 

 Na sua base, dentro da casa, ou seja na cozinha, desenvolvia-se quase toda a vida das famílias. No inverno, era ao lume à chaminé que estavam, que riam, que choravam e que alguns morriam. As refeições eram preparadas ao lume na chaminé, eram servidas à chaminé, o serão era passado à chaminé a falar, a ouvir contos e, alguns dormiam à chaminé. O lume na chaminé aquecia toda a casa e nem o fumo se desperdiçava, o que não era consumido, secava as carnes das matanças dos porcos que durava para todo o ano. Era à chaminé que amassavam a farinha para fazer o pão, faziam trabalhos de costura e outros que pudessem ser desenvolvidos naquele espaço. Ainda hoje, as casas que estão em ruínas, geralmente a chaminé é a ultima parte da casa ou do Monte a ceder, ficam até ao fim, talvez na esperança de aqueles que elas aqueceram os que ali viveram sobre a sua proteção, ainda voltarem e muitas continuam teimosamente em pé há centenas de anos!

Chaminé da casa da Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins! 



quinta-feira, 23 de março de 2017


88 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda do lavrador do Monte da Cerca 
Conta-se que, o Pároco da Igreja de Santo António de Capelins, chamado Marcos Gomez, nas primeiras décadas de 1800, exigia como parte do dízimo, a todos os lavradores das terras de Capelins, um jantar de carne, quando faziam as matanças dos porcos. Todos os lavradores aceitaram sem levantar nenhum problema, era um bocadinho de toucinho, umas chouriças um pequeno paio e mais alguma miudezas, como torresmos, rechina, entrecosto, lombo e manteiga, porém o lavrador do Monte da Cerca em Faleiros, conhecido como o maior unhas de fome das terras de Capelins, porque nunca dava uma côdea, um bocadinho de toucinho ou azeitonas a nenhum pedinte, não via a exigência do Pároco com bons olhos, era uma doença para ele e tentava todas as artimanhas para enganar o Pároco, nunca ia entregar a carne à casa paroquial e quando o Pároco aparecia no Monte da Cerca para a levar tinha sempre desculpa, dizia que não podia ser, porque a carne ainda não estava boa de fumo, ou que não tinha ficado boa e que ainda matava outro porco e depois logo lhe dava! Mas como o Pároco já o conhecia muito bem, nunca deixava escapar a sua parte do porco. No ano de 1812 chegou a época das matanças dos porcos e o lavrador começou a pensar a maneira de enganar o Pároco, já tinha tentado tudo e nada dava resultado, ainda por cima quando matavam os porcos no Monte da Cerca, por mais que o lavrador lhe tapasse a boca, ouviam-se a grunhir à Igreja de Santo António e o Pároco aparecia logo pelas redondezas para o lavrador perceber que ele sabia o que se estava a passar. Depois de dar voltas à cabeça e não encontrar solução, foi ter com o seu compadre, o senhor João em Faleiros a pedir ajuda, porque não achava bem ter de repartir o porco com o Pároco Marcos, tinha os filhos e os anos de colheitas não eram bons e mais isto e mais aquilo, o homem dava pena. O compadre sabia que era tudo manha, mas disse-lhe que o ajudava e começou a pensar como, coçou a cabeça, até que lhe disse: Oh compadre eu tenho uma ideia para você se livrar de ter que dar a parte do porco ao Pároco Marcos! Então, diga lá compadre! É muito fácil, no dia da matança do porco, em vez de o meter para casa, diz aos seus criados para o pendurarem no alpendre do quintal, para enxugar bem, para escorrer e diz-lhe que fica lá toda a noite e que de manhã o recolhem para casa para o desmancharem e tratar da carne, mas de madrugada, com a ajuda dos seus filhos, esconde-o em casa e depois de manhã, faz grande alarido e diz a toda a gente que o roubaram, ficam todos convencidos que foi verdade, porque tem testemunhas que o porco ficou no quintal e o Pároco vai acreditar! O lavrador achou uma excelente ideia, agradeceu e foi para o Monte da Cerca e, no dia seguinte fez a matança do porco e tudo exatamente como o compadre lhe tinha falado. De madrugada, acordou a esposa e os filhos, para carregarem o porco para casa e escondê-lo, mas quando chegaram ao quintal o porco tinha desaparecido, o lavrador procurou por todo o lado, gritava como um doido, que lhe tinham roubado o porco e uns acreditaram, outros não, mas o Pároco não lhe perdoou a sua parte noutro porco. 
O porco nunca mais apareceu e muita gente dizia que foi o compadre que o levou, outros diziam que foi castigo de Deus por ele tentar enganar o Pároco! 
E foi assim que o lavrador do Monte da Cerca, para não dar umas chouriças ao Pároco de Capelins, acabou por perder um porco inteiro! Mas não mudou! 



quarta-feira, 22 de março de 2017

87 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda da noiva de Montejuntos que foi levada pelo diabo 
Conta-se que, no tempo em que o Diabo andava pela terra a apanhar almas, um dia que passava pelas terras de Capelins, levou consigo uma noiva de Montejuntos que estava para casar no dia seguinte, porque a sua mãe inocentemente a entregou. 
 Há muitos anos, morava em Montejuntos uma mulher, já viúva e muito pobre, que tinha uma linda filha chamada Joanna já em idade de casar. Um dia começou a namorar e poucos meses depois o seu namorado chamado João, disse-lhe que queria casar e foi pedi-la a sua mãe. Marcaram logo o dia do casamento e a mulher mesmo sendo muito pobre, como tinha só aquela filha, pensou em lhe fazer um bom casamento, mesmo que tivesse de gastar tudo o que tinha. Quando se aproximou o dia do casamento, ela e outras mulheres que foram ajudar, começaram a fazer bolos, carnes assadas no forno, ensopados de borrego, muitos doces e muitas outras coisas saborosas. A mulher perdeu o controlo na despesa e quando deu por isso já tinha gastado tudo o que tinha e estava endividada em todas as mercearias de Montejuntos, mas faltavam sempre coisas e a filha voltava a pedir mais dinheiro à mãe, quando ela já não tinha. Por fim, ainda lhe faltava algum açúcar e canela para acabar uns bolos e voltou a pedir mais dinheiro à mãe. A mulher, já desesperada exclamou: "Ai filha vai-te com o diabo, que eu já não tenho mais nada para te dar". Nesse momento, o diabo passava pelo centro de Montejuntos e levou a Joanna consigo! A mãe achou imediatamente a falta da filha e começou a gritar a pedir ajuda, vieram os vizinhos, o noivo e todas as pessoas que ouviram os gritos, foram procurar a Joanna, mas como não sabiam para que lado o diabo tinha ido, umas pessoas foram para os lados de Ferreira de Capelins e outras para os lados do rio Guadiana, todos armados com o que tinham à mão e com cruzes, procuraram por todos os lugares nas terras de Capelins e quando já estavam a perder a esperança de encontrar a Joanna, viram o lenço dela, próximo do rio Guadiana, o lenço que ela usava quando o diabo a levou, assim, o seu noivo e as pessoas que o acompanhavam ficaram com a certeza que a Joanna não estaria longe dali, porque o diabo decerto não passaria a fronteira! O noivo e outras pessoas com forquilhas e cruzes na mão, cercaram toda a região dos Moinhos Novos, junto ao rio Guadiana e o diabo ao sentir-se perseguido, abandonou a Joanna e desapareceu. O noivo foi a primeira pessoa a chegar junto dela, estava apática, sem perceber o que se tinha passado, nem como tinha vindo ali parar, de resto estava bem. Levaram-na para sua casa e depressa recuperou, realizando-se o seu casamento como estava marcado, no dia seguinte na Igreja de Santo António de Capelins, seguido de grande festa em Montejuntos. 
A partir desse dia, nunca mais se falou no diabo, nas terras de Capelins.
E bem diziam que, ao falar no diabo ele aparecia e, não era mentira, este caso da noiva Joanna de Montejuntos, foi a prova provada!

Montejuntos 



terça-feira, 21 de março de 2017

86 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A donzela do Monte da Negra e o filho do fidalgo caçador 
As terras de Capelins, tinham fama de serem abundantes em caça, por isso, aqui apareciam muitos fidalgos do reino, onde passavam temporadas a caçar e em grandes divertimentos gastronómicos com o apoio dos lavradores da região. E foi assim que, numa dessas incursões pelas terras de Capelins a filha do lavrador do Monte da Negra se apaixonou e envolveu com um desses fidalgos. Ele prometeu-lhe que casava com ela e a levaria para o Paço Real e a donzela perdeu-se de amores por ele, entregando-se ao fidalgo convencida que ele falava verdade. Um dia o fidalgo voltou à Corte, não se despediu da donzela e nunca mais voltou às terras de Capelins, deixando-a grávida. Quando a criança nasceu, era um menino e, o lavrador do Monte da Negra falou com a esposa sobre o que deveriam fazer à criança, porque a filha não podia ficar com ela, senão ficava desgraçada para o resto da sua vida, pensaram em dar a criança, mas arrependeram-se, porque decerto se vinha saber, o lavrador propôs abandonar a criança, mas não podia ser nesta região, senão ainda podiam descobrir que era deles, então lembrou-se de o abandonar dentro de uma cesta no rio Guadiana, se eventualmente, o encontrassem seria longe de Capelins e ninguém os ligava a essa criança e até podia morrer afogado. Ambos concordaram que era a melhor maneira e de madrugada o lavrador pegou no menino dentro da cesta e foi até às azenhas Del-Rei, lançou a criança à água e voltou para o Monte da Negra e disseram à filha que a criança tinha morrido durante a noite e como ela ainda estava muito fraca, conseguiram convencê-la a não ir ao funeral e nem ver a criança para não ficar pior e ficou assim. A cesta com o menino lá dentro, não desceu o rio, foi contra a corrente e subiu a Ribeira do Lucefécit e ao nascer do sol, a mulher do Moleiro do Roncão, viu a cesta, estranhou uma coisa daqueles naquele lugar e foi a correr recolhê-la, ficou aterrada quando viu uma criança tão linda lá dentro, chamou o marido e não tiveram alternativa senão ficar com a criança. Como tinha sido mãe recentemente deu-lhe logo de mamar e pouco depois foi batizado na Igreja de Santo António como sendo seu filho, ao qual foi dado o nome de Manoel. A donzela do Monte da Negra, seguiu a sua vida e, um dia casou-se com um filho do lavrador do Monte da Arrabaça, mas não tiveram filhos, o marido faleceu muito cedo e ela não voltou a casar, ficando sozinha. O Manoel cresceu no Moinho do Roncão e acabou por ir trabalhar para a herdade da Negra, para a sua verdadeira mãe, porque a mãe adotiva também trabalhava no Monte da Negra, quando o moinho estava parado e era muito amiga da lavradora e de uma criada da casa a mais velha, que tinha sido aia da donzela no tempo em que tinha nascido a criança. Como a lavradora andava cada vez mais chorosa e a lamentar-se que estava sozinha, um dia a aia não se conseguiu calar e disse-lhe que talvez o filho fosse vivo e contou-lhe o que se tinha passado. A lavradora começou a chorar e a moleira do Roncão que ouviu a conversa, perguntou-lhe se visse as roupinhas que o filho tinha vestidas naquele dia, que lhe disseram que tinha falecido, se ainda as conhecia? A lavradora disse~lhe que cada dia que passava melhor se lembrava dessas roupinhas! Então a moleira, no dia seguinte trouxe a cesta e as roupinhas que o menino tinha vestidas no dia em que o encontrou, as quais tinha muito bem guardadas e mostrou-as à lavradora e, à antiga aia e contou-lhe a história do aparecimento do Manoel naquela manhã junto ao moinho do Roncão, tudo batia certo e a lavradora caiu desmaiada. Quando recuperou os sentidos, quis logo saber onde se encontrava o seu filho! E a moleira disse-lhe que era um dos seus criados e andava a lavrar ao fundo da herdade! A lavradora mandou imediatamente um dos criados buscá-lo e para deixar a lavoura. O Manoel chegou ao Monte da Negra sem saber nada do que se passava, a lavradora agarrou-se a ele aos gritos, chamando-lhe filho. Como ele sempre pensou ser filho da moleira do Roncão, pensou que a lavradora tinha endoidecido, mas logo a sua mãe adotiva e a criada mais velha o puseram ao corrente da sua história de vida e a partir daquele dia o Manoel passou a ser o lavrador do Monte da Negra! O lavrador Manoel Gomes!

Negra


85 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda do menino "ajuda" de pastor 
Antigamente nas terras de Capelins, as crianças não iam à escola e começavam a trabalhar pelos seis ou sete anos de idade como ajudas de pastores ou porqueiros e, alguns eram muito maltratados, sofrendo agressões físicas por tudo e por nada. Esta lenda conta a curta vida de um menino chamado António, filho de uma família extremamente pobre e que aos seis anos, descalço e com pouca roupa foi ajudar um pastor na herdade do Roncão. O António era tão pobre que nem tinha padrinhos, a sua madrinha de batismo foi Nossa Senhora do Rosário e só foi batizado porque o Pároco Manuel Ramalho Madeira (1760) obrigava todos os capelinenses a cumprir esse dever. O ajuda do pastor era tão pequenino e franzino que tinha muita dificuldade em acompanhar o rebanho e em qualquer lugar adormecia, sendo constantemente sovado pelo pastor. Um dia o pastor deixou-o junto à Ribeira do Lucefécit com o rebanho e foi à Villa de Ferreira, nas Neves, tratar de uns assuntos, quando voltou o António dormia profundamente debaixo de uma azinheira e nem deu pela aproximação do pastor, acordou levando murros e pontapés por onde o apanhava, não só por estar a dormir, mas também porque o rebanho tinha desaparecido. Após o agredir até se cansar mandou-o procurar o rebanho, que andava em Santa Luzia, o pequenino António com a ajuda dos cães trouxe o rebanho para o Roncão, mas como andava muito cansado e a dormir em pé, depressa adormeceu novamente e quando o pastor o encontrou deu-lhe uma surra muito grande e deixou-o inanimado em cima de um grande formigueiro e foi para a malhada. Muitas horas depois, como o António não aparecia, o pastor foi ao lugar onde o tinha deixado e ele estava caído e o seu corpo estava totalmente coberto por milhões de formigas. O pastor ficou muito aflito e correu a tirar as formigas, mas já era tarde, o António estava morto. O pastor pegou nele ao colo e foi entregá-lo aos pais, dizendo que o António tinha aparecido morto e não havia nada a fazer. No dia seguinte, o pequeno António foi sepultado na Igreja de Santo António. Ninguém soube que tinha sido o pastor que matou o pequeno António, e nem se importaram com isso, mas a sua madrinha não o esqueceu e, a partir daquele dia sempre que o pastor fechava os olhos para dormir, via Nossa Senhora do Rosário a fixá-lo e não conseguia dormir, passando a ser um martírio. Ao fim de alguns meses o pastor sem dormir acabou por endoidecer e começou a andar sem rumo pelos campos do Roncão, até que um dia apareceu afogado no pego da azinheira na Ribeira do Lucefécit e, nunca ninguém soube se foi suicídio ou se foi ajudado pela madrinha do António, e nem se importaram com isso!

Nossa Senhora do Rosário 


domingo, 19 de março de 2017

84 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda da pastorinha da herdade da Zorra e do cabrito malhado 
Conta-se que, nos anos de 1700, havia uma pastorinha na herdade da Zorra que guardava um rebanho de ovelhas, mas também tinha algumas cabras. Uma dessas cabras era muito amiga da pastorinha, pastava sempre junto dela e só lhe faltava falar, entendiam-se na perfeição através de gestos. Um dia a pastorinha voltava com o seu rebanho ao Monte da Zorra e ao passar o Ribeiro do Carrão estava uma mulher muito linda, de cabelos pretos muito longos, os quais penteava com um pente de ouro, sentada na margem direita do ribeiro. A pastorinha ficou muito assustada, mas ela logo a sossegou, disse-lhe que não tivesse medo dela e que estava ali para a ajudar a ter tudo o que ela quisesse, apenas tinha de cumprir o que ela lhe ía dizer e começou por lhe falar: - Sei que a tua companhia é essa cabrinha, ela é tudo para ti, são muito amigas, ela brevemente vai ter três cabritos exatamente iguais, branquinhos, ela vai dar muito leite para eles, mas só para eles, não podes tirar-lhe leite para ti, nem para ninguém e um dia um dos cabritos vai dar-te uma grande alegria que mudará a tua vida para sempre e não contes isto a ninguém! E logo a seguir a mulher desapareceu! A pastorinha, nessa noite, pouco dormiu a pensar no que a mulher misteriosa lhe tinha dito e estava na dúvida se aquilo era verdade ou se tinha sido ara brincar com ela. Os dias foram passando e a pastorinha já estava esquecida, até que um dia nasceram três cabritos branquinhos exatamente iguais e, voltou-lhe à memória o encontro com aquela mulher. Os cabritos já estavam crescidos e tinham dificuldade em beber tanto leite, mas a pastorinha lembrava-se o que a mulher lhe tinha dito e por sim por não continuava a cumprir, mas um dia aprece-lhe uma vizinha a mulher do porqueiro da Zorra, muito aflita a pedir-lhe uma pinguinha de leite porque tinha um filho doente e não tinha nada para lhe dar. A pastorinha ainda lhe disse que não podia tirar leite da cabra porque ela tinha os três cabritos para alimentar e bebiam o leite todo, mas ficou com tanta pena da criança doente e como ainda não tinha a certeza se tudo aquilo era verdade, chamou a mulher do porqueiro, foi ordenhar a cabra e tirou-lhe mais de um litro de leite. A vizinha disse-lhe que chegava meio litro e a pastora ficou com o restante. Tinha o leite na ordenhadeira e, quando passava o resto do leite para um cântaro de lata, um dos cabritos de brincadeira, saltou-lhe na frente e fez-lhe entornar o leite que se derramou por cima do cabrito que, como sabemos, era branquinho, mas as partes do pelo onde caiu o leite ficaram pretas, ficando o cabrito malhado, foi uma grande surpresa para a pastorinha, mas como não podia fazer nada, continuou a sua vida, até que um dia andava a pastar o seu rebanho junto ao Ribeiro do Carrão e viu o cabrito malhado com uma corda ao pescoço fazendo muita força e a estrebuchar, pensou que a corda estaria por ali e o cabrito a tivesse enfiado pela cabeça, mas foi a correr ajudar o cabrito, quando estava a chegar junto dele a corda desapareceu e ouviu uma voz dizer: "Carriba cabrito malhado, tiravas o tesouro se o leite não te têm roubado", e foi nesse momento que a pastorinha percebeu que tinha perdido a oportunidade de mudar a sua vida, porque se tivesse cumprido o que aquela mulher lhe disse, era dona de um tesouro! Mas assim, provavelmente, salvou a vida do filho do porqueiro da Zorra, por isso a pastorinha ficou feliz!


Ribeiro do Carrão - Capelins 


83 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda do tecido enfeitiçado 
Conta-se que, há cerca de 200 anos, o Ti Manoel Coelho, seareiro e morador no Monte do Meio, como fazia habitualmente, num dia do mês de Maio, de madrugada, carregou na sua carroça um saco de trigo e foi trocá-lo por farinha ao Moinho das Azenhas Del-Rei no rio Guadiana . Chegou cedo, mas como não havia farinha suficiente teve de esperar e só conseguiu voltar depois do meio dia, passou pela fonte da lesma para dar de beber à mula e para encher o barril de água nova e meteu-se pela estrada do Roncão e depois da Zorra, mas como já estava na hora em que costumava dormir uma sesta, começo a fechar os olhos em cima da carroça e de quando em quando saía fora da estrada, ao passar o Ribeiro do Carrão na Zorra, por pouco tombava a carroça, apanhando grande susto. Logo a seguir estava uma grande azinheira com uma boa sombra, encostou a mula, estendeu um saco no chão e deitou-se para dormir um pouco, não lhe fosse acontecer algum azar. Assim que se deitou, caiu num sono profundo e começou a sonhar. Chegou uma mulher muito bonita junto dele e pediu~lhe para a levar ás Neves, ele disse-lhe que não podia, porque não era esse o caminho que levava e que tinha a esposa à espera da farinha, para a peneirar para no dia seguinte fazerem a cozedura do pão. A mulher tanto insistiu que ele disse-lhe que sim! Então ela entregou-lhe um tecido muito lindo e disse-lhe: Pega neste tecido e dás um passo para trás, sem nunca olhares. O Ti José Coelho, olhou para o tecido e nunca tinha visto igual, pegou nele, deu um passo para trás e ficou imediatamente nas Neves com a mulher, ela disse-lhe para fazer o mesmo e depois para levar o tecido para a esposa dele fazer um vestido, o mais lindo nas terras de Capelins, ele assim fez e ficou logo junto da sua carroça e da mula, de repente acordou porque a mula estava a esgravatar terra para cima dele. Ficou melhor do sono e seguiu caminho para o Monte do Meio e não ligou ao sonho. Ao chegar, foi descarregar a farinha e ficou abismado, porque atrás do saco estava o tecido. A esposa viu o tecido e naturalmente, perguntou-lhe onde o tinha comprado, mas ele não conseguiu explicar e armou-se uma grande briga, ficando o tecido por ali. No dia seguinte trataram da cozedura e acenderam o forno, o ambiente ainda estava azedo e a sua esposa pegou no tecido e atirou-o para dentro do forno, o tecido começou logo a arder e ao mesmo tempo deu-se uma explosão saindo uma grande chama pela boca do forno. O Ti Manoel Coelho e a esposa ficaram muito assustados, ele contou-lhe o sonho e tiveram a certeza que era feitiçaria e por sorte tinham-se livrado dela e com as pazes feitas trataram da sua cozedura!

As terras de Capelins, nesses tempos, tinham feiticeiras em abundância!

Monte do Meio - Capelins 


sexta-feira, 17 de março de 2017

82 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda do bruxedo no Monte do Seixo 
Conta-se que nos primeiros decénios de 1700, o lavrador George e sua família construíram o Monte do Seixo, nas terras de Capelins, com a devida autorização da Casa do Infantado. As terras desta herdade eram muito férteis para a agro pecuária e em poucos anos esta família tornou-se das mais ricas desta região. Os George do Seixo eram muito bons para os criados/as, e estes convidavam sempre as meninas da família para madrinhas de batismo dos seus filhos, porque, além da ajuda, os afilhados da casa ficavam sempre com os melhores empregos, dentro da própria casa, como escamel, cozinheiro/a e de outros trabalhos considerados mais leves. 
Nas terras de Capelins, não existia Monte igual ao do Seixo, por todo o lado se falava naquela família que tratava tão bem os seus criados/as, que eram muito ricos e a inveja veio ao de cima. Um dia, tudo começou a correr mal na herdade do Seixo, os animais a adoecer e a morrer, as cearas e as pastagens a desaparecer. A família George, não sabiam o que fazer e tudo piorava de dia para dia, recorreram com preces a Santo António, a Nossa Senhora das Neves e a todos os Santos das igrejas dos arredores, o Pároco de Capelins benzeu o Monte, os gados e os campos, as criadas rezavam e nada melhorava. Contaram ao lavrador George que havia uma bruxa perto de Terena, que podia ser a sua salvação e como estavam desesperados chamou um criado para preparar o seu cavalo e acompanhado desse mesmo criado no seu burro, foram procurar a bruxa. O lavrador contou-lhe o que se passava na herdade do Seixo e pediu-lhe se o podia ajudar! A bruxa ouviu com muita atenção, depois fez umas consultas e disse-lhe que era um bruxedo devido à inveja que tinham da sua família e do progresso da herdade do Seixo e que o podia ajudar, mas ele tinha de ali dormir naquela noite, porque, por acaso ela à meia noite tinha um encontro com o Diabo, para resolver os casos que tinha em mãos e, assim ela apresentava o caso do lavrador e o Diabo dizia-lhe o que de verdade se passava e o que tinham que fazer para acabar com o bruxedo. O lavrador, ainda lhe disse que voltaria lá no dia seguinte, mas a bruxa insistiu para ele ficar e de madrugada voltava ao Monte do Seixo com o problema resolvido. O lavrador, andava tão aborrecido que aceitou dormir na casa da bruxa e assim resolvia logo aquele problema. À meia noite em ponto chegou o Diabo, a bruxa apresentou-lhe os casos que tinha para resolver e chegou ao do lavrador do Monte do Seixo. O Diabo confirmou que existia lá um bruxedo e que era para acabar com aquela família, porque havia muitas queixas contra eles, então agora é só minguar, o bruxedo está no cão da casa, para tudo o que ele olhar é para minguar e desaparecer, nunca vão saber que o bruxedo está no cão que eles tanto gostam e tu ficas proibida de lhe dizer e muito menos de acabar com o bruxedo, que é só o cão estar encerrado nove dias na escuridão de uma casa e o bruxedo desaparece. A bruxa perguntou ao Diabo, o que dizia ao lavrador e, o Diabo disse-lhe para dizer que o bruxedo era feito pela criada mais velha do Monte e a seguir desapareceu. De madrugada, o lavrador levantou-se e a bruxa comunicou-lhe o que o Diabo lhe mandou dizer, o lavrador correu para o cavalo, montou e dirigiu-se para o Monte do Seixo com tanta raiva da criada que a sua intenção era matá-la. O criado, tinha dormido na cabana, que tinha uma janela para a cozinha onde a bruxa se tinha encontrado com o Diabo e através de uma fresta ouvia quase tudo tudo o que eles diziam, assim, sabia que era mentira da bruxa e gritou ao lavrador para lhe contar a verdade, mas ele com o cavalo a galope já não ouviu. O criado montou o burro e foi atrás do lavrador, mas um burro, atrás de um cavalo, cada vez estava mais distante e o criado perdeu a esperança de chegar a tempo de evitar a morte da criada que estava inocente. O lavrador, passou pelo Monte Branco, Ai Ai, Monte de Nabais e quando chegou ao Cebolal encontrou um seu compadre com o qual tinha assuntos muito importantes a resolver, mas pensou que não seria naquele momento. O compadre que também tinha muita pressa em falar com ele, fez-lhe alto e ele parou o cavalo. O compadre muito admirado de o ver ali aquela hora, perguntou-lhe o que se passava e ele contou-lhe tudo, incluindo o motivo porque estava com tanta pressa. O compadre que conhecia muito bem a criada, disse-lhe que era impossível e decerto não passava de uma mentira da bruxa e para ele se acalmar, que o ajudava a desvendar a verdade. Durante o tempo em que estiveram a falar deu para o criado se aproximar aos gritos, o lavrador ao ver a sua aflição esperou que ele se aproximasse e ficou a saber que era tudo uma mentira da bruxa, mas o criado não tinha percebido como acabar com o bruxedo que estava no cão, então o lavrador voltou atrás, disse à bruxa que já sabia a verdade e queria saber o que tinha de fazer ao cão para acabar com o bruxedo. A bruxa com medo do Diabo, respondeu que não sabia, então o lavrador atou-lhe uma corda às pernas e à cela do cavalo e arrastou-a pelas estradas de Terena até que ela levantou a mão para ele parar e disse-lhe a verdade. A bruxa arrastou-se até sua casa, mas ficou tão magoada que acabou por morrer, sem qualquer auxílio do Diabo, o qual pela meia noite veio buscar a sua alma. O lavrador encerrou o cão numa casa escura e passados os nove dias o bruxedo desapareceu para sempre e a felicidade e prosperidade voltou ao Monte do Seixo.

Lugar onde era o Monte do Seixo em Capelins  



quinta-feira, 16 de março de 2017


81 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda do maltez de Capelins, que foi feitor 
Conta-se que, num dia no início do mês de Março de 1758, iniciavam-se as lavouras (alqueve) na herdade da Defesa de Ferreira, quando à tardinha chegou junto do ganhão (responsável pelos bois de trabalho), um homem com uma manta às costas e um pau, que lhe servia de defesa, e perguntou se não precisavam de um homem para lavrar com os bois. O ganhão olhou para ele desconfiado e respondeu-lhe com outra pergunta, se ele sabia fazer aquele trabalho, ao que ele respondeu: Dou um jeito! O ganhão repetiu a pergunta e o homem deu a mesma resposta! Sendo assim, como tenho dois ou três lugares podes ficar à experiência e depois logo vejo pelo resultado, se vais ficar ou se te dou um pontapé no traseiro, porque aparecem por aqui muitos maltezes como tu! Disse o ganhão! E já posso cear (jantar) na casa? Ainda hoje não comi nada! Disse o homem! Não devias, porque ainda não estás a trabalhar, mas está bem, depois logo acertamos isso! Disse o ganhão! E o homem nessa noite já ceou (jantou) no Monte Grande, umas sopas de grãos com toucinho rançoso. Ainda de madrugada, os trabalhadores (criados) levantaram-se, comeram uma bucha e foram para o malhão onde era a lavoura. Os bois já lá estavam e os criados começaram a emparelhar as suas juntas e ficaram preparados para começar a lavrar. O ganhão deu as ordens para começarem uns atrás dos outros e depois de entregar uma junta de bois ao novo trabalhador disse-lhe para se distanciar dos outros, porque precisava de saber se ele sabia lavrar com os bois. Ele perguntou-lhe o nome dos bois da sua junta, porque isso era muito importante para se entender com os animais. O ganhão riu-se e disse-lhe: "para o tempo que há-de ser" chama-lhe boi cá, boi lá. O novo trabalhador tornou a pedir-lhe para lhe dizer o nome dos bois e o ganhão repetia sempre a mesma coisa e disse-lhe se não te calas levas já um pontapé e desapareces daqui. O homem seguiu as instruções do ganhão e foi tirar um rego, antes marcou um ponto ao longe, de onde não tirou os olhos e sempre falando com os bois, estes colaboraram de tal maneira que o ganhão não queria acreditar no que via, em toda a sua vida nunca tinha visto um rego tão direito, ainda pensou que fosse por calhar e não disse nada. O homem continuou a lavrar e os regos sempre certinhos, fazendo uma lavoura nunca vista nas terras de Capelins. O ganhão coçava a cabeça, nunca tinha assistido a um trabalho tão bem feito. Quando pararam para o almoço (pequeno almoço), aproximou-se do homem com uma atitude amigável e perguntou-lhe: Então como te chamas? Maltez! Disse o homem! Então agora! Ninguém se chama maltez! Vá diz lá o nome! Disse o ganhão! "Para o tempo que há-de ser, sou maltez! Disse o homem! E não passou disso. Continuou a lavrar e antes do meio dia apareceu o feitor da herdade que estranhou ver um homem a lavrar afastado dos outros. Esteve a apreciar a lavoura e ficou abismado, nunca na sua vida tinha visto uma lavoura assim e foi ter com o ganhão a pedir explicações. Este disse-lhe o que se passava, que o homem estava à experiência. O feitor zangou-se, mas qual experiência, agora a seguir ao jantar (almoço), pões o homem aqui com os outros e já é criado da casa. Chegou a hora do jantar (almoço), parou o trabalho, foram todos jantar e o ganhão, sempre em volta do homem, deu-lhe a melhor comida, disse-lhe que já era criado da casa e boa conversa, mas o homem pouco falou. Acabou de comer, levantou-se, pôs a manta às costas, apanhou o pau e foi-se embora. O ganhão, não queria acreditar no que estava a ver, foi atrás dele até ao alto do malhão, pediu-lhe desculpa por o ter recebido tão mal, fez-lhe promessas, com medo do feitor, mas o homem não falava e continuava o seu caminho para sul e o ganhão teve de desistir e voltar para o trabalho. O homem, chamava-se Miguel e, à tardinha desse dia, com Monsaraz à vista, chegou à herdade do Azinhal Redondo de Baixo, dirigiu-se ao lavrador e depressa se ajustaram. O Miguel ficou aqui a trabalhar e devido à sua dedicação e à qualidade do seu trabalho, um ano depois já era o feitor da herdade do Azinhal Redondo de Baixo e a sua fama de bom feitor espalhou-se pelas terras de Capelins. O Miguel começou a namorar com a filha de um jornaleiro da herdade e, alguns meses depois casaram na Igreja de Santo António, no dia do seu casamento, estava lá o ganhão a batizar um filho, foi novamente pedir-lhe desculpa da forma como o tinha tratado e a desejar-lhe felicidades. O Miguel e a esposa, ficaram no Monte do Azinhal Redondo de Baixo até ao fim das suas vidas, tiveram seis filhos que casaram pelas terras de Capelins e de São Pedro do Corval. O Miguel era de São Miguel do Adaval, Redondo, um homem muito honesto e bom trabalhador. O ganhão do Monte Grande foi precipitado no julgamento, em relação ao Miguel, as aparências muitas vezes enganam! 



quarta-feira, 15 de março de 2017


80 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda da Maria Gomes e do Sapo do Monte Grande 
Conta-se que, há mais de 300 anos, existia um lavrador no Monte Grande, chamado José Savedra, que se perdeu de amores por uma donzela filha do lavrador do Monte de Capelins, chamada Maria Gomes e que teve o fim que a seguir descrevemos. 
O lavrador do Monte Grande, o mais poderoso das terras de Capelins, perdeu-se de amores pela filha mais nova de Manoel Gomes, lavrador do Monte de Capelins. O José era muito feio, alto, pernas fininhas, grande barriga, olhos salientes, pele de sapo, não lhe faltava nada para parecer um autêntico sapo, foi fácil ganhar esse apelido por aqui. A Maria Gomes era a donzela mais linda de Capelins e arredores, com tudo no seu lugar e era muito cobiçada por todos os rapazes em idade de casar. Mas a Maria era filha de lavrador e só podia casar com um filho de outro lavrador ou com um lavrador. O José Savedra não deixava a Maria por um momento, mas ela não só não gostava dele, como o odiava cada vez mais, até que um dia ele foi pedi-la em casamento ao seu pai, ao Manoel Gomes, mas quando este viu e ouviu o desgraçado daquele monstro, que além de ser muito feio, não tinha maneiras, estava vazio de princípios e não teve coragem de lhe entregar a mão de Maria, mas também não a podia negar, ele era o melhor partido que podia existir para a sua filha e tentou ganhar algum tempo, pediu desculpa, dizendo que queria ouvir a esposa e a filha e que ela ainda era muito nova e não estava preparada para se casar e mais isto e mais aquilo. O Sapo, percebeu que o lavrador Manoel não queria ser seu sogro, considerou uma grande desfeita e a partir daquele dia as suas atitudes mudaram completamente. O que o sapo ainda não sabia era que na vida da Maria já existia um grande amor, era o filho do lavrador do Monte da Capeleira, chamado António, mas não demorou muito a saber. O sapo não desistiu de casar com a Maria e se não conseguia a bem, foi tentar a mal. Um dia mandou atrelar um cavalo à sua charrete e foi procurar uma bruxa que morava nas imediações de Terena e que tinha muita fama de resolver estes assuntos através dos seus bruxedos. Contou-lhe o que se passava e o que queria que ela fizesse e perguntou-lhe se conseguia fazer a Maria gostar dele, respondendo a bruxa que sim, com a maior das facilidades, mas para isso dar certo tinha de se instalar no Monte Grande e ele tinha de lhe dar tudo o que ela pedisse, ao que ele acedeu e a bruxa instalou-se no Monte Grande, como uma rainha, tudo do melhor. Começou imediatamente a fazer os bruxedos para separar a Maria do António e para ela gostar do sapo, mas quantos mais bruxedos fazia, mais unidos eles estavam e o António pediu-a em casamento, sendo bem aceite pelo pai de Maria. Tudo corria do avesso ao sapo e à bruxa o que o levou ao desespero e um dia expulsou a bruxa do Monte Grande e foi-lhe dando pontapés até ao Monte de Nabais, quase a matou à pancada. A bruxa ficou um tempo pelo Ai Ai a recuperar e, assim que melhorou jurou vingar-se do sapo e foi instalar-se perto do Monte Grande, para os bruxedos, agora contra o sapo, terem mais força. O sapo, cada dia que passava estava mais definhado, comia, comia, chegava a comer uma galinha inteira com um pão e a sua barriga estava cada vez maior e as pernas cada vez mais fininhas, todo mirrado, só tinha olhos e barriga, um autêntico sapo, até que um dia caiu de cama e não se levantou mais. 
Chegou o dia do casamento da Maria e do António e no momento que estavam a celebrar o casamento na Igreja de Santo António, o sapo deu o último suspiro e faleceu no Monte Grande. Quando os noivos, já casados, deixaram a Igreja, cruzaram-se com a bruxa que regressava a casa e, ainda lhe acenou a desejar felicidades. 
No dia seguinte, fizeram o funeral do sapo na Igreja de Santo António e nunca mais se falou dele nas terras de Capelins.
A Maria e o António foram muito felizes, tiveram muitos filhos e os seus descendentes ainda hoje estão pelas terras de Capelins! 
Nem sempre, o poder vence! 



terça-feira, 14 de março de 2017

79 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda da Aldeia da Cinza - Parte 2 
A continuação da lenda, conta que, o rapaz chamado Allan e o avô Almiro subiram o rio Guadiana, passaram a Ribeira do Lucefécit e ao início da tarde, já com fome, chegaram aos Mocissos onde existia uma Tribo de Iberos. Foram bem recebidos pelos chefes e anciãos, aos quais o avô contou o que se tinha passado na sua aldeia e que só tinham sobrevivido os dois, os anciãos ficaram muito comovidos e decidiram imediatamente que ficariam na sua tribo para sempre. Allan e o avô agradeceram e disseram que a partir daquele dia aquela era a sua família e dedicaram-se de alma e coração a todas as causas em benefício da tribo. Como sabiam as razões que levaram ao desaparecimento da sua aldeia e da sua tribo, não descansaram enquanto não conseguiram construir defesas contra eventuais invasores, fizeram uma estacada, um fosso e formaram um grupo de homens com duplas funções de guerreiros e pastores, que treinavam nas horas de menos trabalho, formando, assim, uma tribo muito forte naquela região. Devido ao trabalho que fizeram e à sua dedicação, depressa ganharam admiração e respeito de todos, sendo convocados para reuniões dos chefes e dos anciãos, participando em decisões importantes sobre a vida da tribo. 
Um dia, o avô Almiro adoeceu e sentindo que teria pouco tempo de vida, chamou Allan e disse-lhe que estava na hora de partir e pediu-lhe para voltar para as terras de Capelins e fundar uma aldeia e uma forte tribo no lugar, ou o mais próxima possível da sua antiga aldeia. Allan prometeu imediatamente que voltaria e que faria tudo como ele lhe pediu e logo a seguir o avô Almiro faleceu. Foi um grande desgosto para Allan e só algumas semanas depois anunciou que tinha de partir para cumprir a vontade do avô e como era o chefe dos guerreiros da tribo, muito admirado e respeitado, quando participou que queria formar uma nova tribo, todos e todas queriam partir com ele, mas não era possível, porque a tribo que tão bem o tinha recebido não podia ser prejudicada e tinha de ficar forte e bem organizada, portanto tiveram de fazer uma seleção. Em poucos dias estavam todos preparados para seguir para as terras de Capelins e, embora fosse para muito perto a separação foi muito difícil.
A viagem demorou quase um dia, porque eram pessoas de todas as idades, animais, cereais e tudo o que era necessário para iniciar a vida na nova aldeia. Quando chegaram, Allan ficou muito triste e passou horas a chorar e a relembrar a sua infância, depois, ganhou coragem e começou a ajudar os companheiros a traçar a nova aldeia, mas em todo aquele espaço só encontravam cinza, ainda da antiga aldeia e não conseguiram encontrar terra, era cinza, muita cinza e todos gritavam, cinza e foi assim que, aquele lugar, ficou a designar-se “Cinza” até hoje. Por fim, decidiram que não podiam instalar-se ali, porque Allan começou a entender que era um aviso para não construir a aldeia naquele lugar e mandou parar os trabalhos. Convocou os chefes e anciãos que o acompanharam e disse-lhe que não podiam construir a sua aldeia naquele lugar. Alguns, ainda tentaram demovê-lo, mas ele tornou a contar-lhe o que tinha acontecido antes da destruição da sua tribo e da aldeia, dos avisos que tinha recebido e que os seus familiares não acreditaram, dando o resultado que deu. Assim, todos concordaram que deviam procurar outro lugar e no dia seguinte continuaram a viagem e, a cerca de 600 metros a norte do lugar onde muito mais tarde foram construídos os Moinhos Novos, no alto, dali dominavam o rio Guadiana e todo o planalto, foi nesse lugar que construíram a nova aldeia, bem organizada, com boas defesas e um forte grupo de guerreiros, a tribo tornou-se a mais forte da região e recuperou as férteis terras de Capelins, a qual durou até à chegada dos Romanos, há 2.000 anos. Allan, era o chefe da tribo, tal como um rei, teve muitos filhos e a história da sua vida, do passado da aldeia e da tribo da Cinza ficou sagrada e, foi sempre passando de geração em geração, ao longo de mais de um milénio, sendo o talismã desta tribo e a força da sua gente!
 Este povoado, denominava-se “aldeia de Allan”, a mesma que, os arqueólogos agora designaram de “Espinhaço de Cão”, conforme consta no presente documento!

Espinhaço de Cão 1
CNS: 16279
Tipo: Povoado
Distrito/Concelho/Freguesia: Évora/Alandroal/Capelins (Santo António)
Período: Idade do Ferro
Descrição: Sítio de habitat rural, implantado num esporão pouco pronunciado sobre o Guadiana. Estruturas habitacionais, correspondentes a várias fases de construção/reconstrução, com plantas ortogonais.
Meio: Terrestre
Acesso: A partir de Montes Juntos (Alandroal), caminho de terra batida.
Espólio: Cerâmica manual e de roda, mós, objectos de adorno, faunas e carvões.
Depositários: Manuel João do Maio Calado
Classificação: -
Conservação: Regular
Processos: S - 16279, 7.16.3/14-10(1) e 99/1(075)

Aldeia de Allan em Capelins
Foto de: DGPC 




sexta-feira, 10 de março de 2017

78 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos
Horizontes da Memória
Arte e Cultura de Capelins - Lendas Usos e costumes 
A lenda da Aldeia da Cinza 
Conta-se que existia uma aldeia na Cinza, nas margens do rio Guadiana e, como viviam sempre em festa e não ligaram aos avisos, a tribo foi dizimada e a aldeia foi arrasada por outra tribo do norte de África!
Conforme as provas arqueológicas, há cerca de três mil anos existia um povoado, ou seja uma pequena aldeia, na Cinza, nas margens do rio Guadiana, habitada por uma tribo que vivia da pesca e da caça e, sempre em festa, os homens e mulheres pouco mais faziam, senão cantar e dançar. O trabalho era feito por rapazes e raparigas, como objetos necessários, as refeições e o abastecimento de água para beber e para a comida. A água era tirada de uma fonte que existia muito perto do rio Guadiana e que tinha água em abundância e muito cristalina! Um dia, como habitualmente, um rapaz da aldeia dirigiu-se a essa fonte e encheu uma vasilha de água para levar para a aldeia, porém, estava com sede e tentou beber água, mas não conseguiu, a água estava intragável, tão salgada, que não a conseguiu engolir. O rapaz ficou assustado e pensou que era um aviso de que alguma coisa de mal estava para acontecer à sua aldeia e consequentemente à sua tribo. pegou na vasilha e foi a correr até à aldeia, onde andavam todos a cantar e a dançar. O rapaz chegou muito aflito e gritou a contar o que se tinha passado, mas poucos lhe ligaram, beberam da água da vasilha e não estava salgada, por isso pensaram que o rapaz tinha apanhado sol na cabeça e não se encontrava bem! No dia seguinte, o rapaz pegou na vasilha e dirigiu-se novamente à fonte, mas quando caminhava junto ao rio Guadiana os peixes começaram a saltar da água e morriam imediatamente. O rapaz ficou com a certeza que alguma coisa muito má estava para acontecer à sua aldeia e à tribo e voltou a correr à aldeia a contar o que se estava a passar, alguns ainda foram ver, mas não havia nenhum peixe fora da água, logo confirmaram que o rapaz estava doido e continuaram a festa. Só o avô do rapaz acreditou que o neto falava verdade e decerto alguma coisa muito má estava para acontecer e ninguém ligava. Chamou o neto e disse-lhe que acreditava nele e a partir daquele momento já não ficaram descansados, nos dias seguintes nada aconteceu, mas eles nunca mais descansaram. Um dia, enquanto a tribo ficaram na festa, eles foram explorar a região e, ao nascer do sol começaram a subir rio Guadiana, quando chegaram à Ribeira do Lucefécit ouviram grande tropel de cavalos e de homens, ficaram muito assustados, esconderam-se e em poucas horas tudo ficou em silêncio, mas aqueles homens seguiram na direção da sua aldeia e logo pensaram o que estava para acontecer, mas só os dois, não podiam fazer nada, nem ao menos avisar a sua tribo para fugirem ou preparar a defesa. Ficaram tristes e amargurados, não dormiram e nesse dia já não voltaram à aldeia, mas no dia seguinte foram descendo o rio com muito cuidado e ao chegar, ficaram desolados, a sua tribo tinha sido dizimada, a aldeia pilhada e completamente arrasada! O avô e o neto, estiveram por ali alguns dias para enterrar os seus familiares e, depois partiram rio Guadiana acima e nunca mais voltaram às terras de Capelins! 
Este triste acontecimento deu-se, porque a tribo da aldeia ou povoado da Cinza estava sempre em festa e não ligaram aos avisos que lhe foram enviados!

Veja-se o documento da DGPC sobre a existência da aldeia da Cinza!
Moinho da Cinza 1
CNS: 16273
Tipo: Povoado
Distrito/Concelho/Freguesia: Évora/Alandroal/Capelins (Santo António)
Período: Idade do Bronze - Final
Descrição: Sítio de habitat onde foi possível detectar um silo pouco profundo; uma fossa oblonga de pequenas dimensões e duas pequenas depressões, sem espólio, uma delas estruturada com pequenas pedras, que podem corresponder a buracos de poste.
Meio: Terrestre
Acesso: -
Espólio: Cerâmica manual e de roda e materias de indústrias languedocenses.
Depositários: Manuel João do Maio Calado
Classificação: -
Conservação: -
Processos: S - 16273, 7.16.3/14-10(1) e 99/1(075)

Foto da DGPC 



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