sexta-feira, 28 de abril de 2017


120 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
Um casamento por uma courela no Carrão 
Nos tempos, não muito distantes, nas terras de Capelins e não só, eram os pais que decidiam com quem as suas filhas casavam, ou seja faziam a escolha dos respetivos maridos, cujos critérios eram em primeiro lugar os haveres ou perspetivas de heranças materiais que eles viessem a receber, o dote, aliado à linhagem, que primava por as famílias serem consideradas honradas. A fisionomia ou estrutura física estava em segundo lugar e se as filhas gostavam ou não do marido escolhido estava em último lugar. Esta peripécia que vamos contar, é sobre uma situação em que dois pais ajustaram o casamento dos filhos devido à estratégia de, no futuro, juntarem duas courelas muito boas, uma de cada um, que tinham no Carrão. 
O Ti Luís e o Ti José, eram seareiros e compadres, porque tinham afilhados em comum, um dia, andavam a lavrar nas suas courelas do Carrão e, no momento em que vieram voltar as parelhas de mulas ao topo das respetivas courelas, encontraram-se, cumprimentaram-se e começaram a falar do tempo, das searas, das suas vidas e a conversa foi por ali adiante, assim:
- Ti Luís: Eh compadre temos aqui umas boas courelas, as melhores que existem no Carrão e por aí! 
- Ti José: Pois temos, compadre, mas olhe que nós também as tratamos muito bem, vê-se aqui o resultado do nosso trabalho!
- Ti Luís: Oh compadre, as nossas duas courelas juntas, davam o governo de uma casa, dá-se aqui de tudo!
- Ti José: É mesmo isso que tenho pensado, compadre, e já agora, não leve a mal o que lhe vou dizer compadre! 
- Ti Luís: Ora essa compadre, parece-me lá mal alguma coisa, diga lá, faça favor! 
- Ti José: Então e se a minha filha Maria casasse com o seu filho o João, assim, já podíamos juntar as duas courelas e ficava só uma para eles!
- Ti Luís: Oh compadre, eu não tenho pensado noutra coisa, isso era o melhor que podíamos fazer! Mas oh compadre, ela "cararáu"? 
- Ti José: Oh compadre, mas desde quando é que ela tem de querer, ou deixar de querer? 
- Ti Luís: Desculpe, pois não compadre, pois não tem, mas há aquele problema com o meu João e assim, não sei! 
- Ti José: Mas qual problema compadre! Ele nem coxeia muito e, onde é que a minha Maria vai arranjar um rapaz com tantas terras como vai ter o seu João? E estas courelas! Está resolvido compadre! 
E ficou combinado entre os compadres que a Maria casava com o João, gostasse ou não dele! 
A situação foi comunicada às famílias e a Maria, mais tarde, casou com o João, que não amava, nem nuca amou, não por ser coxo ou feio, ele era muito boa pessoa e tratava-a muito bem, mas ela nunca foi feliz, porque quando o casamento foi ajustado, havia muitos anos que andava perdida de amores por um rapaz do Monte do Salgueiro, que nunca conseguiu esquecer, mas era assim nos anos de 1850, podiam casar por uma courela, mesmo sem amor! 
Hoje, já ninguém casa por courelas! 



terça-feira, 25 de abril de 2017


119 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A Festa das Cruzes e o Baile das Feiticeiras de Capelins com os Rapazes do Monte do Aguilhão
Decorria o mês de Maio de 1870 e, como habitualmente, realizou-se a Festa da Santa Cruz nas aldeias de Capelins, além de muita diversão e da parte religiosa, à noite realizavam-se grandes bailes, pelo menos em duas noites, sendo o baile da noite mais forte abrilhantado por um conjunto de Jaz, designado pelo Jaz e Banda, tipo Orquestra ligeira e nas outras noites por um tocador de harmónio, (tipo concertina, com uma/duas palhetas) e que toda a noite tocava o "arroz com couve". Às Festas da Santa Cruz, vinham gentes de toda a Freguesia, de todos os Montes, e das terras vizinhas, porque já nessa época tinham grande fama! Nesse ano vieram à Santa Cruz de Capelins, dois rapazes do Monte do Aguilhão, que se divertiram o mais que puderam e quando chegou à sua hora de voltar a casa puseram-se a caminho pela estrada do Monte da Ramalha, Monte da Zorra, Ribeiro do Carrão, herdade do Roncão, onde passavam a Ribeira do Lucefécit e, era quase um reta até ao Monte do Aguilhão. Quando iam passando o Ribeiro do Carrão, quase às duas da manhã começaram a ouvir grande barulho de festa, gritos estridentes de mulheres e ficaram assustados. Diz um para o outro: Tu estás a ouvir o mesmo que eu? Então não estou! Disse o outro! Vamos ver o que se passa aí para baixo, (no Ribeiro do Carrão). Já tinham ouvido falar dos bailes de feiticeiras, onde elas dançavam nuas na presença do mafarrico, mas pensaram sempre que não passava de boatos do povo. Aquela noite, era Festa das Cruzes, suas inimigas, então, fugiram todas de Capelins. Os rapazes foram descendo o Ribeiro e não queriam acreditar no que estavam a ver, era um grande grupo de mulheres, algumas que eles conheciam e até de família que dançavam, pulavam nuas envolvidas num histerismo com mistura de loucura. Foram-se chegando cada vez mais, até ao ponto de, sem darem por isso, já andavam a dançar com as feiticeiras, na mesma loucura. Quando o sol já estava a raiar, acordaram sobressaltados a ouvir uma voz que lhe parecia que vinha do além e dizia: "Seus malandros, seus desenvergonhados, o que estão fazendo aqui? E uma destas hem!, Vai-te a eles piloto", e foi quando acordaram, com o piloto, o cão de guarda das ovelhas do Roncão quase a caçá-los. Ainda disseram ao pastor: Estávamos no baile! Um lindo baile, sim senhor, os dois nus e agarradinhos um ao outro, eu já lhe dou o baile! Disse o pastor! Os rapazes do Aguilhão, só tinham as botas calçadas, mais nada vestido, mas ao fugir ainda apanharam as ceroulas e não quiseram saber do resto da roupa, correram tanto, que só pararam quando iam quase a chegar ao Monte do Aguilhão, para combinar o que diziam quando os vissem chegar naquele estado. Depois de muito pensar, concluíram que a melhor versão era dizerem que tinham sido assaltados e que lhe tinham roubado a roupa! Assim, quando chegaram ao Monte do Aguilhão, ficaram todos admirados ao vê-los chegar só com as botas e as ceroulas e, eles apressaram-se a contar o que tinham combinado. Esta situação foi muito falada por toda a região, uns acreditaram, outros não, mas nessa altura ninguém soube a verdade, só contaram mais tarde, porque o pastor do Roncão era homem de pouca conversa e nunca abriu a sua a boca para contar o que tinha visto e, eles também não puderam contar nada sobre o baile das feiticeiras porque também tinham o rabinho preso! 



domingo, 23 de abril de 2017


118 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A lenda da donzela grávida, que não estava grávida
Como sabemos, se noutros tempos, uma rapariga ficasse grávida sem casar era um grande escândalo e muita vergonha para ela e para toda a família. Esta lenda que vamos descrever passou-se nas terras de Capelins há cerca de 150 anos e aconteceu com uma donzela, filha do lavrador António Gomes do Monte da Negra. 
Os lavradores do Monte da Negra tinham cinco filhos, um dia uma das filhas adoeceu com enjoos e má disposição, começou a comer mais do que o normal e, passado pouco tempo a sua barriga começou a crescer. A sua mãe e irmãs notaram que existia alguma coisa de anormal, todos os sintomas eram de gravidez, mas todas sabiam que não namorava e que nunca se tinha afastado do controlo da mãe e das irmãs mais velhas, como seria possível estar grávida? Falaram com ela, que sempre negou estar grávida, mas a barriga cada vez estava maior e o pai acabou por ver que a barriga de Joanna não era normal, confronto-a e, ela negou que não estava grávida, mas os sintomas eram tão evidentes que o pai insistiu para ela lhe contar quem a tinha "enganado", mas a Joanna sempre negou. O pai perdeu a paciência e disse-lhe que se ela não lhe contasse quem era o pai da criança que a punha fora de casa, porque não podia passar por uma vergonha daquelas. A Joanna chorava, chorava e negava que não estava grávida. O lavrador do Monte da Negra, não teve outra alternativa, porque a sua honra era tudo, senão expulsá-la de casa. Disse-lhe: Vai-te embora daqui para casa das tuas tias em Terena e não apareças mais nesta casa. A Joanna e toda a família choraram muito, mas não podiam fazer nada, apanhou uma trouxa com algumas coisas e de manhã saiu de casa, jurando que não estava grávida, decerto era qualquer doença, mas a família não acreditou. Foi pela Senhora das Neves, onde rezou, pela Boeira e, depois de passar o Ribeiro de Alcaide, ainda a chorar, ouviu uma voz: - Então rapariga, o que tens? Ficou assustada, mas uma mulher, logo a sossegou dizendo: - Não tenhas medo, que eu não te faço mal, diz-me lá o que tens? Disse a mulher! Eu? Disse a Joanna! Pois tu, há aqui mais alguém? Disse a mulher! Eu não tenho nada! Disse a Joanna! Mas tu sabes quem eu sou? Eu sou a bruxa de Terena, mas não tenhas medo de mim, vá diz-me o que tens! Disse a mulher! O meu pai expulsou-me de casa, dizendo que estou grávida, mas não estou! Disse a Joanna! Eu sei que não estás, por isso volta para casa e diz ao teu pai que me encontraste e para fazer o que eu te vou dizer e, tudo o que tens dentro vai sair e vais ficar boa, mas tem que ser ele a fazer isso, que é o seguinte: Põem um litro de leite ao lume, com água para ferver e não entornar e quando começar a ferver, o teu pai debruça-te sobre o vapor com a tua cabeça o mais baixa possível e vai sair tudo! Disse a mulher! A Joanna ainda tentou continuar para Terena, porque estava com medo do pai, mas a mulher disse-lhe: Se vais para Terena vais morrer, o que tens aí dentro mata-te, por isso faz o que te digo, o teu pai gosta muito de ti e vai aceitar fazer isso! Disse a mulher! A Joanna voltou para trás e quando chegou ao Monte da Negra, não foi bem recebida, mas depois de contar ao pai o que a mulher lhe tinha dito, ele aceitou fazer a mesinha, mandou ordenhar uma cabra e ferver o leite. Quando o leite já estava a ferver apanhou a filha e debruçou-a sobre o vapor, esteve assim alguns minutos e nada, já estavam a ficar desesperados, o pai zangado levantou-a de cabeça para baixo e, naquele momento saiu de dentro dela uma grande cobra que, irados logo a mataram! A Joanna ainda ficou adoentada uns dias, mas melhorou e a barriga ficou normal. O pai chorou muito de arrependimento por a expulsar de casa, não lhe pediu desculpa, porque não sabia o que isso era, mas a partir desse dia, demonstrava uma forma de tratamento muito especial. A Joanna, mais tarde, lembrou-se que um dia tinha bebido água num regato que corria para o ribeiro da Negra e tinha engolido, parecia-lhe uma erva, mas tinha sido uma pequena cobrinha, que se desenvolveu no seu interior. Alguns anos mais tarde, a Joanna casou-se com um filho do lavrador do Monte da Zorra, tiveram quatro filhos e uma vida muito feliz!




sexta-feira, 21 de abril de 2017


116 - Terras de Capelins  

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
O Milagre de Nossa Senhora das Neves e a Água da Ribeira do Lucefécit 
 Algumas famílias capelinenses eram oriundas da Paróquia de São Miguel do Adaval, Concelho de Redondo, entre as quais a família envolvida nesta lenda que passamos a descrever. 
Em São Miguel do Adaval, situada numa herdade pertencente ao Cabido da Sé de Évora, perto do Redondo, existia uma família, pai, mãe e vários filhos e filhas, a menina mais nova chamada Margarida de Jesus, ficou cega em criança, mas apesar disso, aprendeu a fazer tudo em casa e acompanhava a mãe em alguns trabalhos no campo. A menina cresceu normalmente e diziam ser a rapariga mais linda de São Miguel do Adaval, por isso tinha muitos pretendentes que com ela queriam casar, entre eles, encontrou o rapaz com o qual casou, num domingo do mês de Abril de 1890. O casal ficou a morar e a trabalhar em São Miguel do Adaval, perto dos pais de Margarida, mas com o passar do tempo os seus pais um dia partiram e, quase a seguir, devido a doença, o marido também partiu, ficou ela e os três filhos pequenos, duas filhas de oito e dez anos e um filho de doze anos. A sua vida tornou-se muito difícil e, como os irmãos eram ganadeiros nas terras de Capelins, um deles na herdade do Roncão, tratou logo de os trazer para junto dele. A lavradora do Monte do Roncão, depois de saber a situação de Margarida, aceitou que ela e as filhas viesse trabalhar no Monte e o filho ficava a guardar as ovelhas com o tio, ficando tudo acertado. Explicaram à Margarida como e por onde deviam fazer a viagem entre São Miguel do Adaval e o Monte do Roncão e como ela ainda tinha uma velha burrita, indicaram-lhe o caminho pelas Hortinhas, Ribeiro de Alcaide, depois era só descer este Ribeiro e seguir ao lado da Ribeira do Lucefécit até ao Roncão, muito fácil. No dia marcado, partiram de madrugada e ao nascer do sol os filhos já avistavam as Hortinhas, iam dizendo à mãe o que estavam a ver e ela logo deduzia onde estavam, conforme lhe tinham indicado e seguiram o caminho sem problemas, a não ser cada vez mais cansaço, porque não podiam montar a burra, porque ia carregada com alguns haveres que decerto lhe fariam falta no Roncão, por isso a viagem estava sendo mais lenta do que o previsto, por cada quilometro que andavam, tinham de descansar e as crianças sempre a pedir água, até que se esgotou. Desciam pela estrada que atravessava a herdade da Boeira e não encontravam água, passaram acima do outeiro dos oregãos e seguiram pela estrada que passa junto à Ermida de Nossa Senhora das Neves. Quando chegaram ao outeiro onde se avista a Ermida disseram à mãe que estavam a ver uma Igreja e casas, mas ainda longe, a Margarida soube onde estavam e começou a rezar pedindo ajuda a Nossa Senhora das Neves, para lhe dar água, e imediatamente uma filha gritou: "água ali", era na Ribeira do Lucefécit, junto às Neves, estava um grande pego de água fresca e cristalina para onde corriam as águas dos nascentes do vale de enxofre. Foram todos beber água, incluindo a burra, e encheram as vasilhas que traziam, Margarida logo pensou que foi um milagre de Nossa Senhora das Neves, em oração agradeceu-lhe e, antes de partir, como estava muito calor apanhou alguma água com as duas mãos e deitou-a pela cara e olhos e, naquele momento, deu-se um verdadeiro milagre, a Margarida começou a ver. Foi uma grande alegria para todos e na passagem entraram na Ermida, rezaram em agradecimento a Nossa Senhora e pela tardinha chegaram ao Monte do Roncão, contando pelo caminho, a toda a gente, o milagre que tinha acontecido, o qual foi falado nas terras de Capelins durante muitas gerações. A sua vida e dos seus filhos, a partir daquele dia nunca mais foi a mesma, ela e a família tornaram-se incondicionais devotos de Nossa Senhora das Neves.
Ainda hoje, existem descendentes desta família, nas terras de Capelins! 

Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins


quinta-feira, 20 de abril de 2017


115 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

A lenda da construção da Igreja Matriz de Santa Maria de Ferreira 

Conta-se que, cerca de 1314 residia um pequeno lavrador e sua numerosa família nas terras de Capelins, no vale da Ribeira do Lucefécit. Para trabalhar as terras tinha uma mula e os respetivos apetrechos necessários para a atividade agrícola que ali desenvolvia. Depois de passar um dia a lavrar a terra para fazer as sementeiras a mula adoeceu gravemente, não tinha forças, nem conseguia manter-se em pé. O lavrador e a esposa ficaram muito tristes, sem saberem o que fazer ao animal, tentaram tratá-la com boa erva, mas não comia, nem bebia, foram chamar um curioso tratador destas situações a Terena, o qual depois de observar a mula, obrigou-a a ingerir um pouco de azeite, mas disse-lhe que não havia nada a fazer e, decerto não demorava em morrer. O lavrador tinha muita pena da mula, mas não era só isso, tinha um grande problema, não podia comprar outra, nem tinha forma de fazer as sementeiras, logo não ia colher cereais para alimentar a sua família, estavam perante uma grande desgraça, sem solução à vista, começaram a rezar fervorosamente a Nossa Senhora, a pedir ajuda para salvar a mula e foram ouvidos, na manhã seguinte, a mula estava em pé e já tinha comido a erva que tinha por perto e daí a três dias não apresentava qualquer doença, estava capaz de trabalhar. Não tinham dúvidas que se devia a um milagre de Nossa Senhora, à qual muito agradeceram. 

Nesse ano, estavam a iniciar a construção da Igreja Matriz de Santa Maria de Ferreira, ao lado da atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, onde existem as sepulturas escavadas na rocha, que estavam no seu interior. O projeto inicial tinha a porta virada para nascente, para a estrada que ainda lá se encontra atualmente, mas acabou por ser alterada, porque a partir do dia da cura da mula e do agradecimento do lavrador, este começou a sonhar com Nossa Senhora e nos sonhos Ela dava-lhe indicações de como queria a Igreja, era ao contrário da que estavam a construir, a sua porta devia ser virada para o Poente e não para o Nascente. O lavrador foi informar o mestre da obra, que se riu na sua cara, porque nessa época as Igrejas, geralmente, tinham as portas viradas para o nascente e a obra continuou, o mestre e os trabalhadores passaram o dia a rir do lavrador e, na manhã seguinte as paredes que já tinham levantado, estavam no chão. O mestre e os trabalhadores ficaram muito zangados e foram ameaçar o lavrador, pensando ter sido ele, o qual deu-lhe a sua palavra de honra que não tinha sido ele e nunca faria uma coisa daquelas, mas tornou a dizer-lhe que Nossa Senhora não queria a Igreja como a estavam a construir. Não ligaram e continuaram a trabalhar, mas todas as manhãs as paredes estavam no chão. Começaram a guardar a obra dia e noite, mas nem assim conseguiam, sem saberem como, as paredes apareciam no chão, assim, tiveram de se convencer que era impossível continuar e não tiveram outra alternativa senão construir a Igreja como o lavrador, mandado por Nossa Senhora, lhe comunicou e a partir dali nunca mais caiu uma pedra e a Igreja Matriz de Santa Maria de Ferreira ficou muito semelhante à atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, mantendo-se erguida, até cerca de 1670! 






quarta-feira, 19 de abril de 2017


114 - Terras de Capelins 

1ª Travessia Pedestre em Passeio, na Diagonal, da Freguesia de Capelins - Águas Frias - Gato, em 15 de Abril de 2017 - 3ª Parte 
Como descrevemos na parte anterior, eram 13:10 horas e estávamos em frente ao Monte da Boa Vista em Montejuntos. O sol estava abrasador para esta época do ano e o almoço muito longe, mas era impossível desistir, apesar de estarmos a ler que faltava andar 9,5 Km até ao Azevel, mais a volta até ali, ainda seriam mais 20 Km. Seguimos o caminho indicado para a herdade da Defesa de Bobadela, passamos ao portão do Monte do Peral - Turismo Rural e por outras propriedades, antes de entrarmos nos domínios da herdade do Roncanito, que para nós é Azinhal Redondo de Baixo, porque foi sempre a sua designação desde há 300 anos, quando era da Casa do Infantado. A estrada por onde seguimos pretende ligar Montejuntos à aldeia do Outeiro, mas encontra-se quase intransitável, porque era empedrada , mas devido ao abandono, a pedra soltou-se e mesmo a pé é muito difícil circular por lá, uma vez que o acesso a esta herdade é quase totalmente efetuado pelo lado da aldeia do Outeiro através da ligação por uma nova ponte sobre a Ribeira do Azevel e o caminho de terra batida estar em boas condições para a circulação de veículos, virando, assim as costas a Capelins, onde, administrativamente pertence. Viemos encontrar os célebres marcos da Casa do Infantado a demarcar a Defesa de Bobadela, tirámos a erva em redor de todos, aproximámos os olhos até um palmo e passámos a mão pelo granito, na esperança de encontrar algum rasto de história, mas como todos os que se encontram nas terras de Capelins, também aqui não encontrámos nada, porque um simples escopro apagou o que procuramos, o que se compreende, visto que, o Estado do Infantado era odiado pelo povo e, essas terras hoje têm outros donos. Fomos descendo rumo ao nosso objetivo e não demorou a visualizarmos à nossa esquerda o grande Monte da Defesa, mas já havia muito tempo que éramos perseguidos pelo outeiro de Monsaraz, ora nos aparecia pela frente, ora à nossa direita, conforme as curvas do caminho, andávamos, andávamos e aquele outeiro parecia estar sempre à mesma distância. Pouco depois de deixarmos o lugar onde existiu a pista de aviação da herdade da Defesa, à nossa esquerda começámos a avistar as águas do Grande Lago, o que nos deu mais força para continuar, mas ainda estávamos muito longe do Gato, do qual só nos aproximámos cerca das 16:00 horas, ou seja 07 horas depois da partida do lugar de origem, Águas Frias! 
Mais metro, menos metro de terreno, entre os pontos de origem e destino, considerámos concluída com êxito esta nossa aventura! 



terça-feira, 18 de abril de 2017


113 - Terras de Capelins 

1ª Travessia Pedestre em Passeio, na Diagonal, da Freguesia de Capelins - Águas Frias - Gato, em 15 de Abril de 2017 - 2ª Parte
Como referimos anteriormente, pouco passava das 11:00 horas e já tínhamos deixado para norte/nordeste os Montes de Ferreira e do Escrivão e andávamos a rondar o Monte da Talaveirinha, a escolher os melhores ângulos para o fotografar como se fossem as derradeiras fotografias enquanto ainda lá está, na esperança que alguma coisa mude e, como outros, ainda possa continuar a desempenhar a função para que foi construído pelo então seu lavrador. Alguns Montes já têm os telhados abatidos e as paredes em agonia, adivinhando-se que não estarão muitos mais anos em pé. 
Na Talaveirinha encontramos três pessoas que andavam a queimar rama de oliveira, depois da poda recente, com as quais trocamos cumprimentos e, não muita conversa para não empatar quem trabalhava. Depois de informarmos o que andávamos fazendo por ali e qual era o destino, fomos aconselhados a seguir o caminho em frente pelo Carrão - Montejuntos, mas negamos, porque o plano era ir pelos Montes da Talaveira e do Roncão e, só depois pelo Carrão, um percurso mais longo, mas foi mesmo assim. Passamos uns minutos a observar e a fotografar o Monte da Talaveira, a eira e o outro Monte da Talaveirinha de baixo, depois seguimos para sul, por São Miguel e Roncão. Neste Monte, demoramos um pouco, porque havia muito para admirar, desde o mesmo, assim como toda a região que dele se avista, a linda paisagem, em contraste com o azul do céu e das águas do Grande Lago, observar e ouvir a fauna, como cegonhas e outras aves, muitas potencialidades para o turismo da narureza, mas infelizmente, sem nenhum aproveitamento. Depois do Monte do Roncão, atravessamos o Ribeiro do Carrão, ainda com alguma água numa espécie de lagoa no lugar onde passa a estrada e ficamos logo em frente ao Monte do Ladrilho, (da Ti Margarida Cartaxa), hoje, de outro proprietário. Um pouco adiante, como eram quase 12:00 horas, debaixo de uma azinheira já idosa, abrimos a mochila, tiramos o pão com queijo e um sumo, comemos em poucos minutos e depressa continuamos rumo ao objetivo, o Gato. Fomos observando e fotografando Montes e paisagem do Carrão, Bispas, Arrabaça, Capeleira e, perto das 13:00 horas demos entrada em Montejuntos, junto ao Monte da Galvoeira, (já tinham passado quatro horas), fizemos a travessia da aldeia pelo lado sul, mas o caminho obrigou-nos a entrar na parte central, seguimos depois pela rua que levava ao Manantio e pelas 13:10 horas estávamos no Monte da Boa Vista a olhar uma sinalética que indicava: PR 7 Azevel - etapa II - 9,5 Km! 
Continua... 



segunda-feira, 17 de abril de 2017


112 - Terras de Capelins 

1ª Travessia Pedestre em Passeio, na Diagonal, da Freguesia de Capelins - Águas Frias - Gato, em 15 de Abril de 2017  - 1ª Parte
Conforme planeado, no dia 15 de Abril de 2017, pelas 09:00 horas, demos início à 1ª Travessia Pedestre em Passeio, na Diagonal, da Freguesia de Capelins, entre o Nordeste onde se cumprimentam as Freguesias de Santo António de Capelins, S. Pedro de Terena e Nossa Senhora da Conceição de Alandroal, na Defesa de Ferreira (Águas Frias) e o ponto mais a Sudoeste, no Gato, nos extremos, desta e da Freguesia de Monsaraz. Passamos sem demora pela Vila de Ferreira Romana e pelas minas Romanas e como não pudemos prosseguir para sul, devido à existência ilegal de uma cerca de arame em património do Estado, até dentro de água, fomos obrigados a dar uma grande volta e descer pelo caminho milenar que dava ao porto Romano das Águas Frias de baixo, aqui fomos observar se eram visíveis alguns restos de calçada romana, mas a mesma, encontra-se submersa. Foram tiradas algumas fotografias e seguimos para a Ermida de Nossa Senhora das Neves, indicado como, percurso pedestre 6. Chegamos junto à referida Ermida pelas 10:00 horas e aqui demoramos cerca de meia hora, porque ficamos impressionados com o estada acelerado da degradação do edifício e com a sensação de não o voltarmos a ver em pé. Além da estrutura do edifício estar quase todo em ruína eminente, apresentando perigo para quem se aproximar dele, também a porta foi arrombada e só não estava totalmente aberta, por estar ligada com um simples cordel, o qual, deve ter pouca duração e, brevemente ficará escancarada! Pouco passava das 10,30 horas e seguimos a nossa viagem, logo a seguir ouvimos um motor de moto-serra e algumas vozes, mas não vimos ninguém. Rapidamente chegamos ao Monte do Escrivão, sempre observando e fotografando a linda paisagem primaveril e com a presença constante à nossa esquerda de grandes extensões de água do Grande Lago de Alqueva, que ocupou todo o leito da Ribeira do Lucefécit. Fizemos uma visita ao Monte do Escrivão, ou seja, às ruínas deste Monte, com uma pequena paragem de alguns minutos, porque causou-nos alguma consternação a triste situação! Já eram cerca de 11:00 horas e seguimos em direção aos Montes da Talaveirinha e da Talaveira! 
Continua... 



111 - História de Capelins 

A origem de Capelins

Cada vez restam menos dúvidas de que a origem de Capelins, veio da família judaica "Gomez", Gomes e que esta Família, antes da expulsão de Espanha, eram chapeleiros em Granada, daí o apelido de Chapellins, que em português veio dar os Capellins. A verdade é que em Portugal existiu uma grande fábrica de chapéus da Família Gomez, Gomes, (de origem judia)!
Quanto à nossa Capelins, sabemos que, primeiro foi construído o Monte dos Capelins, (onde morava Maria Gomes), em Capelins de Cima e, logo de seguida surgiu o Monte dos Capellins de Baixo, que deram origem às duas aldeias de Capelins de Cima e Capelins de Baixo. Em 1712, já é mencionado pelo Pároco de Santo António, Miguel Gliz (Gonçalvez) Galego, no assento do óbito da Ti Maria Roíz (Rodriguez), que esta morava em Capelins de Cima, logo, já tinha de existir Capelins de Baixo, dentro da Defesa de Ferreira, nas terras da Casas do Infantado! 





110 - Terras de Capelins 

História, lendas, mitos e contos das terras de Capelins 
Conforme nos contaram as pessoas mais idosas das terras de Capelins, há cerca de 80/100 anos, existiam por aqui muitas feiticeiras e lobisomens e, este caso, atribuído aos ditos cujos, aconteceu num verão de um desses anos da primeira década de 1900.
Nos meses de verão, não só por ser mais fresco, mas também pela necessidade de guardar os animais que pastavam durante a noite, os seus proprietários ou trabalhadores das herdades ou propriedades, dormiam nos campos ao luar, assim como, durante a debulha, nas eiras, para guardar os cereais e, quando não os conseguiam separar da palha durante a tarde por falta de vento, se viesse pela noite fora, os homens tinham de se levantar e passar a noite a trabalhar. Este caso, que nos contaram com grande convicção de verdade, passou-se numa noites em que todos os homens, proprietários e trabalhadores das herdades das terras de Capelins, estavam a dormir nas eiras dos Montes, após a meia noite começaram a ouvir um grande tropel, que parecia de dezenas de cavalos, acordaram assustados e uma das pessoas que assistiu ao sucedido estava a dormir na eira do Monte da Talaveirinha e contou que acordou com grande barulho de cascos de animais, que faziam um estrondo medonho, como não dava para correr para dentro do Monte e tinha muita palha por perto, puxou-as para cima e ficou muito quietinho a observar o que se passava e viu apenas um pequeno burro (um borcalho) a correr que sozinho fazia todo aquele barulho, deu três voltas ao Monte, depois parou-se em frente e, em vez de zurrar como um burro, urrou como um boi e continuou a correr por todos os Montes da região. De manhã, as pessoas muito assustadas, juntaram-se para comentar o que tinha sucedido, porque em todas as eiras havia homens a dormir e ouviram exatamente o mesmo! 
Todas as pessoas,atribuíram este fenómeno, à ação de um lobisomem! Não havia outra explicação!
E como me disseram: "Que necessidade tinham as pessoas de mentir?" 
Tudo, ou quase tudo, tem explicação! Sabemos lá o que foi! Mas que alguma coisa anormal aconteceu, aconteceu! 






sexta-feira, 14 de abril de 2017

109 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A lenda da Ti Maria Gomes e da mulher misteriosa no Vale de Enxofre
Nos finais do mês de Maio de 1712, a Ti Maria Gomes, que morava em Capelins de Cima, como habitualmente, levantou-se de madrugada, carregou o cesto da roupa à cabeça e seguiu a caminho da Ribeira do Lucefécit, para o lavadouro nas Neves. Foi pela estrada das colmeadas, desceu pelo vale de Enxofre e quando chegou ao poço das Neves, estavam a surgir os primeiros raios de sol e vê na sua frente uma mulher misteriosa sentada numa pedra perto do poço, ficou ansiosa com algum receio e na dúvida se devia, ou não, dar uma volta mais larga para não passar por perto e sentiu as pernas fraquejar, porque era muito estranho àquela hora da manhã estar ali uma mulher sentada à espera de nada. Antes de tomar alguma iniciativa a mulher dirigiu-se à Ti Maria e com muita delicadeza e voz muito fraca, pediu-lhe se lhe podia dar alguma coisa para comer, porque havia já três dias que não comia nada. A Ti Maria não resistiu à maneira como a mulher lhe fez o pedido e parou-se imediatamente, descarregou o cesto da roupa e abriu a alcofa onde levava o parco almoço, um bocadinho de pão, uns torresmos, um bocadinho de toucinho e umas azeitonas. Deu tudo à mulher misteriosa e disse-lhe:- Deixe-me só uma dentadinha de pão com umas azeitonas, porque vou passar aqui o dia todo a lavar e o resto pode comer tudo! A mulher aceitou, mas pouco comeu, entregou o resto do almoço à Ti Maria e disse-lhe que chegava o que tinha comido, agradeceu muito e como reconhecimento deu-lhe uma cestinha que trazia com alguma coisa debaixo de palha, pediu-lhe para ficar com a cestinha e para não ver o que estava debaixo da palha antes de entrar em casa. Foi difícil fazer a Ti Maria aceitar a cestinha, mas depois de tanta insistência lá a aceitou e seguiu até à Ribeira e a mulher desapareceu na direção das Águas Frias. À medida que o dia ia passando mais crescia a curiosidade da Ti Maria em ver o que estava debaixo da palha na cestinha e várias vezes tentou ver, mas lembrava-se do que a mulher misteriosa lhe tinha dito e com receio de alguma má surpresa recuava e continuava a lavar. No fim da tarde, acabou a lavagem e preparou-se para voltar para Capelins de Cima, mas naquele momento já não conseguiu resistir, tirou a palha e por baixo vê apenas algumas pedras, ficou zangada por ter sido enganada e atirou-as à Ribeira, mas guardou a cestinha de verga e levou-a para casa. Quando chegou atirou-a para um canto e nessa noite não lhe ligou mais. No dia seguinte, estava a arrumar a roupa e lembrou-se da cestinha, olhou para o lado e viu dois pontos muito brilhantes no fundo da cestinha, deu um salto e ficou com ela na mão e retirou dois pedacinhos muito pequeninos de ouro que estavam presos na verga e lembrou-se que tinha deitado à ribeira todo o ouro. A Ti Maria, já não acabou de arrumar a roupa, foi novamente à Ribeira, ao lugar onde tinha atirado as pedras e procurou, procurou, tempo sem fim, mas não encontrou nada. As mulheres que estavam a lavar roupa ficaram assustadas com a atitude da Ti Maria, parecia que não estava boa da cabeça e várias vezes lhe perguntaram o que estava fazendo, mas ela não lhe deu resposta, horas depois convenceu-se que não encontrava nada e voltou para casa muito triste, mas não contou nada a ninguém e só passados muitos anos, contou às filhas o que se tinha acontecido naquele dia no Vale de Enxofre e, mostrou-lhe a prova de que falava verdade, os dois pedacinhos de ouro que ficaram presos na verga da cestinha e, disse-lhe que estavam pobres, devido à sua curiosidade! 
Já no tempo da Ti Maria, a curiosidade fazia destas coisas!

Ribeiro das Neves 



quinta-feira, 13 de abril de 2017

108 - Terras de Capelins 
Histórias, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
O lobo amestrado e o milagre de Nossa Senhora das Neves - Parte 2 
No dia seguinte, conforme estava combinado, à tardinha lá estava o compadre do Ti João junto ao Ribeiro da Amadoreira, muito perto do rio Guadiana. O Ti João foi ter com ele, cumprimentaram-se e explicou-lhe como iam fazer, o compadre ficava num lugar mais alto atrás de umas rochas, para ver e não perturbar o lobo, depois de tudo certo o Ti João desceu uns sessenta metros, preparou a respiração e deu um assobio dobrado, ficaram à espera e em poucos minutos apareceu lá ao fundo um lindo lobo, o Ti João chamou-o: "vem cá lobito, vem cá". O lobo aproximou-se, mas parou as uns vinte ou trinta metros, demonstrando um comportamento anormal, farejou, farejou e repentinamente transformou-se numa autentica fera, eriçou o pêlo do dorso e lançou-se em voo sobre o Ti João, arreganhando os dentes que pareciam facas afiadas na direção da sua garganta. O Ti João ficou muito assustado, mas não virou costas, levantou o pau, que era ferrado, (com um ferro embutido à ponta) e gritou: "Socorro Nossa Senhora das Neves", o pau que ele tinha levantado disparou com tal intensidade contra a cabeça do lobo, que lhe caiu em cima dos pés, ficando inerte. O compadre, pastor da Amadoreira, assistiu a tudo, mas nada podia fazer, veio ter com o Ti João, mas nem conseguia falar, tremia todo dentro das botas e os poucos dentes que tinha batiam uns contra os outros que parecia estar a tocar castanholas, quando acalmou, disse: "Foi por pouco compadre, eu já ai vinha ajudá-lo, mas estava lá tão longe! Está morto, não está?" Agora está, depois venho enterrá-lo, mas como é que isto aconteceu! Ele conhecia-me tão bem! Disse o Ti João! O lobo conhecia o Ti João, mas noutras circunstâncias, faltava ali um objeto essencial ao lobo, era a tijela onde bebia o leite e comia, que substituiu a mãe que nunca conheceu, para ele, era um símbolo de respeito carinho e de amor, estando a tijela associada ao assobio dobrado do Ti João. Daí a pouco, já mais calmos, os pastores despediram-se, recolheram as ovelhas e foram para as respetivas choças. O Ti João assim que chegou, contou à mulher o que se tinha passado, ela chorou muito e recordou o que lhe tinha dito no dia em que ele levou o lobito para a choça: "Vamos ver se esse lobo não vai ser a nossa desgraça"! Não foi, mas esteve perto! O marido disse-lhe que ainda ia a correr enterrar o lobo, pegou numa enxada e dirigiu-se ao lugar onde o tinha deixado, supostamente morto, mas quando lá chegou, não existia qualquer sinal do lobo, procurou tudo em redor e nada, acabou por voltar à choça. A conversa com a Ti Margarida continuou e ele afirmou que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves que lhe salvou a vida! E agora o que fazemos para lhe agradecer? Disse o Ti João! Depois de discutirem várias ideias, concordaram em ir contar o que se passou ao Pároco de Santo António, que era o mesmo de Nossa Senhora das Neves, o Padre Jerónimo de Jesus Maria Granja. Dois dias depois, o Ti João albardou a burra e foi a Santo António contar tudo ao Pároco e pedir-lhe ajuda sobre o que deviam fazer. O padre, disse-lhe que deviam fazer uma procissão, mas também deviam oferecer um borrego ou um cabrito a Nossa Senhora das Neves, mas entregava-o a ele ali em Santo António, mas a sua família seria encomendada a Nossa Senhora das Neves para continuar protegida e, daí a quinze dias, no domingo, às três horas da tarde realizava-se lá a procissão e o Ti João entregava-lhe ali o borrego no sábado. Ficou tudo combinado e o Ti João voltou à Defesa de Bobadela. Ainda nesse dia, começaram a planear tudo, ficou assente que os três filhos mais novos iam vestidos de anjinhos e tinham de arranjar roupa a condizer com a cerimónia, porque eles seriam as estrelas da procissão e, logo no dia seguinte, começaram os preparativos, o Ti João foi encarregado de fazer a armação das asinhas dos anjinhos, em vime e em buinho e fez, depois a Ti Margarida forrou-as com pele de borrego e ficaram lindas. 
No dia 12 de Maio de 1862, realizou-se uma grande procissão na Ermida de Nossa Senhora das Neves, o Ti João e família foram agradecer a tão grande dádiva, que foi a salvação da sua vida! 
Nunca mais ninguém soube o que aconteceu ao lobo e, o Ti João não voltou a dar o assobio dobrado até ao fim da sua vida!

Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins 



quarta-feira, 12 de abril de 2017

107 - Terras de Capelins 
Histórias, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
O lobo amestrado e o milagre de Nossa Senhora das Neves - Parte 1
A partir de 1850 verificou-se a afluência de muitas famílias às terras de Capelins, com maior concentração na parte sul, no Monte do Salgueiro, Montes Juntos e nas herdades limítrofes, sendo a maioria dos novos povoadores, guardadores de gado, designados por ganadeiros. A maioria desses ganadeiros vieram na transumância, por aqui casaram e ficaram, porque nessa época, todos os lavradores tinham grandes rebanhos de ovelhas e outro gado. A maioria dos ganadeiros, eram naturais do Distrito da Guarda, da Serra da Estrela e, quase todos, fizeram a sua casa nos referidos locais, porque era necessária para quando as mulheres tinham crianças aqui permanecerem durante algum tempo e, como tinham um filho/a por ano, pouco tempo estavam nas choças. 
O caso que vamos descrever passou-se com o Ti João Gomes, ganadeiro na herdade da Defesa de Bobadela, que se situava entre a herdade da Amadoreira e a herdade do Azinhal Redondo de Baixo. Esta herdade era muito boa, tinha terras férteis e muita água, uma vez que englobava grande extensão do rio Guadiana, mas existiam por lá muitos lobos, obrigando o Ti João a redobrar o trabalho.
Um dia o Ti João guardava as ovelhas perto da Cinza, ouviu os seus dois cães a ladrar, um rafeiro alentejano e um serra da Estrela pêlo curto, foi a correr a ver o que se passava e encontrou um lobito, muito pequenino, muito lindo, que parecia esfaimado e a tremer de frio. O Ti João não resistiu a apanhá-lo para dentro do bornal, foi procurar uma das duas cabras que trazia no rebanho e começou a ordenhar para a sua mão, fazendo uma cavidade que encheu de leite, e com muito carinho meteu a boca do lobito dentro do leite, foi muito difícil, e teve muita paciência, mas quando o lobito começou a provar o leite tudo se tornou mais fácil e no final do dia já conseguia beber umas gotas de leite. Quando chegou com as ovelhas à choça, estava lá a mulher, a Ti Margarida de Jesus, que ficou muito admirada por o marido arranjar mais um cão! O Ti João explicou-lhe que não era um cão, era um lobo! Ai valha-me Deus homem, então tu trazes um lobo para casa! E se aparece aí o pai e a mãe a procurá-lo! Vê bem o que vais fazer, deixa ver se esse lobo não vai ser a nossa desgraça! Disse a Ti Margarida! Cala-te mulher! Vamos criar o lobo e amançá-lo, vais ver o cão que vamos arranjar! Disse o Ti João! A seguir, foi ordenhar as cabras e pediu uma tigela velha à mulher para dar leite ao lobito, que começou a beber o leite das cabras, todos os dias, e a crescer sem apresentar braveza, tudo estava a correr como o Ti João tinha planeado. 
Cerca de um ano depois, o lobito começou a afastar-se da choça e do pastor, cada vez dava passeios mais largos a farejar os sítios onde tinham passado os da sua raça, mas voltava sempre à choça, até que uma noite não regressou e ficaram todos muito tristes, chamaram, chamaram e nada, pensaram que os outros lobos o tinham matado. No dia seguinte, o Ti João foi a um lugar mais alto e deu um assobio dobrado, não demorou muito apareceu o seu lobito amestrado, deu-lhe leite na sua tigela exclusiva, ele bebeu o leite, mas horas depois tornou a desaparecer, continuando esta situação a verificar-se por mais de um ano, o Ti João dava o assobio dobrado e o lobito voltava, bebia o leite e depois desaparecia. O lobo, com mais de dois anos de idade, estava muito grande e bonito, o pelo brilhante e já estava integrado na alcateia que não andava longe dali, mas nunca atacou o rebanho do Ti João, decerto, devido ao seu lobo amestrado, que desviava dali os outros lobos. 
Decorria o mês de Abril de 1862 e o Ti João estava a guardar as ovelhas muito perto da Amadoreira e apareceu um seu compadre, o Ti Francisco Valente, ganadeiro da Amadoreira e, também natural da mesma aldeia, da Póvoa Nova, Seia, ao ver o Ti João, veio ter com ele, cumprimentaram-se e a conversa não podia ser outra, senão sobre o gado que guardavam e o Ti Francisco perguntou ao compadre se os lobos não lhe andavam a dar muito trabalho? Porque ele não dava conta deles! O Ti João, disse-lhe que não! E contou-lhe que havia mais de dois anos, que não tinha problemas com os lobos, desde que tinha um lobo amestrado, nunca mais a alcateia se aproximou do rebanho! Um lobo amestrado? Oh compadre, está a brincar comigo, não? Disse o Ti Francisco! Não estou, não compadre e posso mostrar-lhe que estou a falar verdade, amanhã por esta hora vamos ali ao Ribeiro da Amadoreira, eu dou um assobio dobrado e vem ter comigo um lobo como o compadre nunca viu! Disse o Ti João! Com muitas dúvidas, o Ti Francisco aceitou a proposta do Ti João, no dia seguinte ia ver o lobo amestrado! 
 Continua...

Foto net 


segunda-feira, 10 de abril de 2017


106 - Terras de Capelins 

Histórias, lendas, mitos e contos das terras de Capelins 
O sonho da Ti Maria Faleira, de Faleiros - Parte 2 
Quando o marido da Ti Maria Faleira entrou em casa repetiu as palavras da desconhecida: "A nossa vida a partir de hoje vai melhorar". A Ti Maria Faleira ainda pensou que era alguma brincadeira combinada entre o marido e a desconhecida, mas tirou logo isso da ideia devido ao que se tinha passado naquela casa e perguntou: - Então, como é que a nossa vida vai mudar? Só se for para pior! E o marido apressou-se a contou-lhe o que se tinha passado na Boeira naquele dia: - O patrão e o feitor, hoje foram lá ver as ovelhas e o patrão ficou tão satisfeito, por o rebanho estar tão bem tratado e com tantos borregos, que não se cansou de me dizer que eu era o melhor pastor que alguma vez teve, e olha, aumentou-me a jorna e deu ordem ao feitor para escolhermos duas borregas do ano passado para nós e, podemos comprar mais oito e uma cabra para ficarem lá no rebanho, são nossas e os borregos, o leite, a lã tudo nosso e sem pagarmos nada! Ninguém nessa época tinha um "povial" num rebanho do patrão! A Ti Maria ficou muito contente, mas pouco entusiasmada, porque não lhe saiam da cabeça as palavras da desconhecida, podia ser coincidência, mas a verdade é que a sua vida lhe parecia que ia mesmo melhorar! Passou algum tempo e tudo corria de feição, a sua vida melhorava dia a dia, os filhos mais novos, um menino e uma menina já estavam crescidos e mudaram-se todos para a choça na Boeira, onde havia muita largueza e tinham muitas galinhas, frangos e muita fartura de ovos, de leite das cabras, de tudo, muito raramente visitavam o seu Monte em Faleiros, até ao dia em que devido à idade e para darem o lugar na Boeira, aos filhos, a Ti Maria e o marido tiveram de voltar definitivamente para Faleiros. No derradeiro dia, carregaram as burras, a Ti Maria montou uma com a ajuda dos filhos e, em companhia da filha puseram-se a caminho, pelo Ai Ai e Monte Abaixo, quando estavam quase a chegar, a Ti Maria deu um safanão tão forte na burra, que o animal levantou as patas da frente quase a atirou abaixo e à carga que trazia, a filha e o marido ficaram surpreendidos sem perceberem o que se passava, ainda foram a correr para segurarem a burra, mas já ela estava quase em casa. Depois perguntaram-lhe o que se tinha passado, mas a Ti Maria, apenas respondeu, que não sabia, não sabia e não se falou mais no caso, mas ela a partir daquele dia nunca mais teve coragem de ir atrás do Monte, porque a razão da atitude da Ti Maria, para com a burra, no dia que chegou a Faleiros, foi porque no lugar da casa que ela tinha visitado com a desconhecida estava agora uma casa exatamente igual aquela e por muito que lhe explicassem de quem era e quem lá morava, não a conseguiram convencer, dois anos depois ficou acamada e antes de partir para a Igreja de Santo António, onde foi sepultada, um dia contou tudo à filha. A casa que estava naquele lugar e ainda está, é o Monte da Hortinha! (Que era dos meus bisavós paternos, João Nabais e Maria Francisca Correia)! 
Acredito que foi pura coincidência! 
Bem haja Ti Maria Faleira, da aldeia de Faleiros! 



domingo, 9 de abril de 2017


105 - Terras de Capelins 

Histórias, lendas, mitos e contos das terras de Capelins 
O sonho da Ti Maria Faleira, de Faleiros - Parte 1 
A aldeia de Faleiros teve origem no Monte dos Faleiro, ou seja no Monte construído nesse lugar pela família Faleiro, sobre a qual já se encontram registos na Paróquia de Santo António na década de 1630, mas também encontramos essa família na região de Borba e em Terena. O caso que descrevemos, passou-se no ano de 1850, um dia pela tardinha a Ti Maria Faleira estava sentada à soalheira à sua porta a cozer, cortando de um lado, pondo remendos e mais remendos na roupa já gasta do marido e dos filhos. Era primavera, mas o sol estava quente e a Ti Maria estava com tanto sono, que já mal via o que estava fazendo, quando ouve uma voz desconhecida: - Boa tarde vizinha! Abriu bem os dois olhos e viu à sua frente uma senhora desconhecida, muito bem vestida, uma boa figura! A senhora é minha vizinha? Não a conheço, nunca a vi aqui! Disse a Ti Maria! Sou sua vizinha, moro ali em baixo! Disse a desconhecida! Mas como pode morar ali em baixo, se não existe ali nenhuma casa! Disse a Ti Maria! Está ali a minha casa, venha lá vê-la! Disse a desconhecida! Mas o que vou eu ver, se sei que não há ali nenhuma casa, mas está bem, vamos lá! Disse a Ti Maria! Deram a volta ao Monte e seguiram o caminho do Monte Abaixo e a Ti Maria ficou abismada ao ver uma casa no sítio que todos os dias olhava e não estava lá nada! Ainda pensou que estava a sonhar, mas não, estava bem acordada. A desconhecida, no caminho pediu-lhe muito que dentro de casa nunca dissesse a palavra Deus, a Ti Maria ficou surpreendida, mas pensou que seria alguma família de origem Judia ou Muçulmana e prometeu que não dizia a palavra Deus. Chegaram à casa estranha, a desconhecida abriu a porta e convidou a Ti Maria a entrar, assim que entrou, não conseguia fechar a boca, nunca tinha visto uma casa assim, tudo brilhava, tinha mesa, cadeiras, arca de madeira, chão em laje polida, nem a casa do patrão do marido era como aquela. Quando a Ti Maria estava para voltar para sua casa, a desconhecida disse-lhe que ainda faltava ver o quarto. A Ti Maria nem hesitou, dirigiu-se com a desconhecida à porta do quarto e entraram, o quarto estava todo iluminado de vermelho, pareciam chamas e ao fundo um nevoeiro, também vermelho de onde saiu uma voz cavernosa que disse: "Bem vinda ao nosso reino", a Ti Maria ainda olhou para o lado e no lugar da desconhecida estava uma cabra virada para ela de olhos muito abertos, deu um grito: Ai valha-me Deus! e benzeu-se, naquele momento deu-se um estrondo no quarto e a Ti Maria desmaiou, quando acordou estava sentada na erva na berma do caminho, de mão dada à desconhecida e a casa tinha desaparecido, ficou sem palavras, a desconhecida puxou-a pela mão e levou-a de volta a sua casa, sentou-a e disse-lhe: Obrigada por me ter libertado do mafarico, não conte a ninguém o que aqui se passou e a partir de hoje a sua vida vai mudar para melhor. A Ti Maria abanou a cabeça a tentar sair daquele marasmo e quando olhou em frente a desconhecida tinha desaparecido. A Ti Maria pensou que tinha estado a sonhar, mas na dúvida não contou nada a ninguém e continuou o seu trabalho, até à hora de fazer a ceia (jantar) porque o marido, que era pastor na herdade da Boeira, vinha cear e dormir a casa, ficando os dois filhos mais velhos na choça, com as ovelhas. A Ti Maria estava a por a mesa quando entrou o marido aos pulos, parecia que vinha doido, pregando grande susto à mulher, gritando: - Maria, a partir de hoje, a nossa vida vai mudar! 
Continua... 



sábado, 8 de abril de 2017


104 - Terras de Capelins 

Histórias, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A história do Ti Manuel Capum 
No ano de 1965, ainda a Escola Primária da aldeia de Ferreira estava bem afreguesada e, à hora da saída, partiam, quase sempre, em pequenos grupos em várias direções, uns para os lados de Capelins de Baixo, outros para os lados do Monte da Cruz, Pinheiro e Monte Novo e um grupo para norte, Capelins de Cima e Montes em volta. Entre a escola e as respetivas residências passavam-se muitas peripécias, desde agressões morais e físicas, até provocações a transeuntes que demonstrassem alguma diferença. Este caso que vamos contar passou-se com uma pessoa, que o grupo dos diabinhos achavam diferente. Todos os dias, durante alguns anos, o Ti Manuel (Coxo) que morava em Faleiros, passava a Ferreira, duas ou quatro vezes por dia, a caminho de Montejuntos e de regresso a Faleiros numa carroça com rodas de automóvel, puxada por uma burra e sempre num passo tão lento que nos irritava, decerto levava algumas horas a fazer este percurso, e o que teríamos nós a ver com isso? Mas tivemos, a carroça era diferente de todas as que existiam na região, já era um motivo para implicar com o homem, depois ele mostrava sempre uma cara carrancuda, talvez para não dar confiança a gaiatos, mas tudo isso ainda aguçava mais a nossa vontade de lhe arranjarmos algum problema. Um dia, por coincidência, o Ti Manuel vai a caminho de casa em Faleiros à mesmo hora da nossa saída da escola, o grupo de Capelins de Cima apanha-o mesmo em cheio e fomos caminhando umas vezes à frente da carroça, outras vezes atrás, sempre em poses de provocação, quanto mais ele nos mostrava cara de pouco amigo, mais nós picávamos: "atão Ti homenzinho, o automóvel não anda mais que isto?" Ele não dizia nada, até que ao ver provocações a mais, começou a dizer: "Capum" (capo um), foi o azar do Ti Manuel e o nosso, a partir daquele momento ganhou o apelido de "Ti Capum", chegamos ao Monte Grande e acabou a festa, porque ele seguiu para Faleiros e nós pela rua de Capelins de Cima. No dia seguinte, à hora do recreio vem o Ti Manuel na direção de Montejuntos, assim que o vimos fomos a correr e a gritar em coro "Capum, Capum, Capum", o resto da rapaziada que não tinham assistido à festa do dia anterior não percebiam nada, mas gostaram e foram logo informados sobre o que se tinha passado e convocados para a próxima vez que ele ali passasse, tinhamos todos de gritar "Capum". No dia seguinte, à mesma hora, aparece o Ti Manuel com a sua carroça automóvel e os diabinhos fomos a correr formamos lado a lado e quando ele ia passando em frente à escola, começamos todos a gritar "Capum", ele não nos ligou, mas quem nos ligou foi a professora, já o Ti Manuel ia ao poço do chorão e nós ainda a gritar em força, como ele nos ignorava, mais nós gritavamos. Ainda estavamos a gritar a palavra de ordem e já estava uma colega a dizer-nos para ir-mos à professora, alguns ainda tentaram escapar, mas não, nenhum escapou de levar uma dúzia de reguadas e, a palavra "Capum" foi proibida de pronunciar pelos alunos da escola de Ferreira! 
Mas foi uma bela festa, enquanto durou, que nos perdoe Ti Manuel, foram coisas de gaiatos! 

Escola de Instrução Primária de Ferreira 



103 - Terras de Capelins

 Histórias, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
O cão piloto, rafeiro alentejano, que salvou o rebanho de ovelhas e o ajuda do pastor do Monte Seco 
O pastor do Monte Seco, o Ti Manoel Moreira, guardava mais de trezentas ovelhas, duas cabras, duas burras e uma borcalha, tendo como ajuda o afilhado de doze anos chamado João. No mês de Maio de 1870, realizava-se a feira de Reguengos e o Ti Manoel decidu ir à feira vender a borcalha e comprar uns chocalhos e outras coisas que estava a precisar. Organizou tudo com antecedência, o João ficava a guardar as ovelhas com a ajuda da Ti Joaquina, a mulher do pastor e à noite o ajuda dormia na choça e a Ti Joaquina ia dormir ao Monte, decerto não havia nenhum problema. No dia da feira, de madrugada, o Ti Manoel albardou a burra, prendeu a borcalha à albarda e partiu para Reguengos, ao nascer do sol estava a passar a aldeia de Mato e menos de uma hora depois, estava a entrar na feira. Depressa vendeu a borcalha na feira do gado, tinha boas medidas, muito semelhante à mãe, com tudo para sair uma linda burra. Entregou a burra onde tratavam e guardavam esse animais e foi dar uma volta com mais atenção à feira do gado, levando algumas horas a observar e a falar com conhecidos. Quando já tinha fome, chegou-se a uma barraca de vinhos, pediu meio litro de vinho, abriu a merenda composta de pão, toucinho, queijo e azeitonas e ficou bem almoçado e pronto para percorrer o resto da feira para procurar e apreciar os produtos que queria comprar, para ainda nesse dia fazer as compras e logo de madrugada partir para o Monte Seco. 
A choça do Ti Manoel e o bardo (curral) das ovelhas ficavam muito longe do Monte e nesses tempos existiam muitos lobos por toda a região de Capelins e terras vizinhas, mas nunca tinham atacado o rebanho da herdade do Monte Seco, porque o Ti Manoel não se descuidava nada durante a noite e com a ajuda do seu cão piloto de raça rafeiro alentejano, temidos pelos lobos, conseguia afastá-los dali. Porém, nessa noite, ninguém soube porquê, algumas pessoas diziam que os lobos conseguiam farejar e descobriram que o Ti Manoel não estava na choça, e fizeram grande ataque ao rebanho. O João acordou com o barulho da correria dos animais, com o berrar das ovelhas e com o ladrar do piloto, tinham outro cão de outra raça, o qual com medo dos lobos desapareceu, só aparecendo à choça no dia seguinte, o João saiu da choça apenas com o pau de guardar as ovelhas e foi fazer frente aos lobos, mas era uma grande alcateia e em pouco tempo estava cercado, já cansado e sem conseguir defender-se por todos os lados, os lobos, uns atacavam, outros recuavam, e apareciam ainda com mais força. Outro grupo de lobos tentavam chegar às ovelhas, mas eram impedidos pelo cão piloto, que para defender as ovelhas não conseguia ajudar o João, mas quando o João começou a gritar por socorro, o piloto fez grande investida contra os lobos para os afastar para o mais longe possível e correu a ajudar o João que já tinha os lobos a poucos metros, o piloto atirou-se aos lobos e os que apanhava pelo pescoço dava-lhe uma abanão e caiam mortos, mas os lobos eram tantos que o piloto já estava cheio de sangue, a faltarem-lhe as forças e todo mordido, mas com muita coragem corria a todos os lados matando cada vez mais lobos, até que estes já em menor número começaram a fugir e não voltaram mais. O piloto ficou muito ferido, o João levou-o para a choça, deitou-o na palha e com água lavou-lhe as feridas, o piloto estava a sofrer muito, tremia muito, mas o João não sabia o que fazer, passou o resto da noite agarrado a ele a dar-lhe carinhos, porque sabia que ele lhe tinha salvado a vida e que não tinha deixado os lobos chegar a uma única ovelha. Quando o Ti Manoel chegou, parecia-lhe tudo normal com o rebanho, mas ao aproximar-se da choça começou a ver tantos lobos mortos e logo adivinhou o que se tinha passado, ficou muito aflito por não ver o João, que estava dentro da choça ainda agarrado ao piloto, começou a chamá-lo e ele respondeu que estava ali. O Ti Manoel, entrou na choça a correr, viu o piloto muito ferido e o João a chorar contou-lhe tudo o que se tinha passado e como o piloto lhe tinha salvado a vida e todo o rebanho e choraram os dois, ainda mais com pena do piloto. O Ti Manoel, agarrou-o ao colo para cima da burra e levou-o para o Monte Seco, mas com pouca esperança de sobreviver. Nesse tempo, ainda não existiam veterinários, mas haviam pessoas que sabiam tratar os animais, o Ti Manoel foi a S. Tiago buscar um homem dos melhores tratadores e disse-lhe que, sem olhar a despesas, pagava o que fosse preciso, para ele salvar o piloto. O caso era muito grave e existiam poucas esperanças de o salvar, mas foi tão bem tratado que ao fim de três meses já estava junto do rebanho, onde ele gostava de estar, nunca mais foi o mesmo piloto em genica, mas tornou-se tão dócil e agradecido pelo que fizeram por ele que lambia as mãos a todas as pessoas que se aproximavam dele em sinal de reconhecimento. 
O piloto, nunca mais deixou o João, mas um dia partiu, morrendo aos pés do João. 
É também por isso, que cada vez mais admiramos esta raça de cães, rafeiro alentejano!


quinta-feira, 6 de abril de 2017


102 - Terras de Capelins 

Lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A lenda da galinha da Fonte da Torre 
Nos finais do mês de Março de 1918, as feiticeiras das terras de Capelins foram convocadas para um baile que se realizou junto ao pego da azinheira, na Ribeira do Lucefécit, na herdade do Roncão, lugar baixo, como convinha para abafar os gritos estridentes das feiticeiras. Quando acabou o baile, vestiram-se e partiram para suas casas, mas a Rosa, de Capelins de Cima, a mais doida no baile, estava cheia de sede e disse às outras para irem andando que ela ainda ia beber água à fonte da Torre. Seguiu sozinha, Ribeira acima, e quando passou a encruzilhada formada pelas estradas que vinha do lado do Roncão para Santa Luzia, com a que vinha do Moinho do Bufo, disse alto, por brincadeira: "quero ser galinha", mal acabou de dizer e já estava transformada numa galinha. Podia ter corrigido logo a transformação, mas achou graça e deixou-se ir até à fonte, quando chegou, disse: "quero ser eu", mas nada aconteceu, repetiu várias vezes e nada, então percebeu que a lua cheia já tinha desaparecido e só já podia voltar ao corpo dela ao nascer da lua cheia. Depois de beber num regato que corria para a Ribeira amagou-se no meio da erva para descansar e dormir, porque só cerca da uma ou duas da tarde podia voltar ao normal. Era um domingo e um grupo de rapazes de Capelins de Baixo e de Capelins de Cima, combinaram ir aos cogumelos para Santa Luzia, levavam uns bocadinhos de pão com toucinho e umas azeitonas para o almoço e um barril para encher de água na fonte da Torre, que tinha uma água melhor que gasosa. Chegaram cedo ao Moinho do Bufo, dois ficaram ali deitados na erva e os outros dois, foram encher o barril de água, quando iam chegando à fonte, um deles, quase pisou a galinha que estava a dormir e nem deu pela chegada dos rapazes que a agarraram imediatamente, quando acordou já estava bem segura pelo pescoço e debaixo do braço de um deles. Encheram o barril e voltaram ao Moinho do Bufo, mas antes de lá chegarem já iam a gritar aos outros: "temos galinha". A Ti Rosa tremia de medo temendo pela sua vida, tinha a certeza que a iam matar e comer. Os rapazes conferenciaram sobre o que fazer com a galinha, era certo que tinham de a comer, mas faltava entenderem-se, quando e como, se iam para Santa Luzia apanhar cogumelos, não podiam andar com a galinha debaixo do braço o dia inteiro, ali não a podiam deixar, ainda pensaram em a matar e esconder, mas no fim do dia já não estava boa, e as formigas e outros bichos decerto a levavam. Por fim, lembraram-se de a levar à Ti Maria da taberna do Monte do Escrivão para a cozinhar num ensopado e eles pelas cinco horas da tarde voltavam e comiam-na, acompanhada de pão e um litro de vinho. Boa ideia, disseram todos e foram logo dois a correr ao Monte do Escrivão falar com a Ti Maria, que aceitou fazer o ensopado com a galinha e pediu-lhe para a meterem na capoeira com as dela e fechá-la muito bem por causa das raposas que até de dia por ali apareciam a atacar as galinhas. Os rapazes meteram a galinha na capoeira e fecharam-na muito bem, porque a sua galinha não podia fugir dali e foram para Santa Luzia, passando o dia a falar do ensopado das cinco da tarde. Pelas duas horas da tarde a Ti Maria, que já tinha uma panela de água ao lume, foi buscar a galinha para a matar, depenar e prepara para o ensopado e, quando chegou à capoeira ficou pasmada ao ver uma mulher muito aflita encerrada na capoeira a tentar sair sem conseguir e perguntou-lhe o que fazia ali? A Ti Rosa disse-lhe que não sabia como tinha ido ali parar e que não estava a roubar nada. Mas se não me estás a roubar os ovos nem as galinhas diz-me o que estás fazer aí? Disse a Ti Maria! Já lhe disse que não sei, porque estou aqui! Disse a Ti Rosa! Ai não sabes? Vou chamar os homens ali à taberna e já lhe dizes a eles! Disse a Ti Maria! A Ti Rosa pediu-lhe para a deixar sair da capoeira e depois contava-lhe tudo, mas a Ti Maria estava muito firme e disse-lhe que não a deixava sair dali sem ela lhe contar porque motivo estava dentro da capoeira. A Ti Rosa não teve outro remédio senão contar-lhe tudo, que era feiticeira, porque a sua avó também já era, e que tinha ficado ela no lugar porque viu a avó a sofrer tanto e foi obrigada a aceita os novelos para a avó poder descansar em paz! E pediu por tudo à Ti Maria para não contar a ninguém porque decerto a matavam e chorava tanto, tanto, que dava pena, convencendo a Ti Maria a deixá-la ir embora, porque o marido estava na herdade do Azinhal Redondo de Cima, onde era porqueiro, mas tinha os filhos sozinhos em casa sem saberem dela e a Ti Rosa abriu a capoeira e deixou-a ir embora. 
Ainda antes das cinco da tarde, já os rapazes estavam na taberna do Monte do Escrivão e, pouco esperaram pelo ensopado da sua suposta galinha. A Ti Maria trouxe a tigela de fogo, toda mascarrada, com o ensopado da galinha lá dentro, metade de um pão caseiro (nesse tempo, não havia outro) e um litro de vinho. Os rapazes estavam tão esfaimados que em pouco minutos desapareceu tudo. Pediram a conta, que importou em apenas 400 réis (4 tostões), porque era um dia de sorte para todos, menos para mim, disse a Ti Maria, porque, para proteger a Ti Rosa feiticeira, teve de matar uma das suas melhores galinha, fazer o ensopado e dá-lo aos rapazes. 



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