sexta-feira, 30 de junho de 2017

146 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
Em Junho de 1758, o então Pároco de Santo António, Manoel Ramalho Madeira, aqui na casa Paroquial, respondeu ao Inquérito efetuado pelo Marquês de Pombal, composto por 60 perguntas. Com base nas respetivas respostas do Pároco, sabemos parte da história das terras de Capelins. Também, o Inquérito respondido pelo Prior Mathias Viegas da Silva, sobre a Paróquia de S. Pedro da Vila de Terena, nos divulga muita história das terras de Capelins, da Ribeira do Lucefécit, Azevel e do Rio Guadiana!
Transcrevemos a composição do referido Inquérito: 
Memórias Paroquiais de 1758
As Memórias Paroquiais de 1758 são o resultado de um inquérito realizado a todas as paróquias de Portugal.

O inquérito teve lugar em 1758, três anos após o sismo de Lisboa de 1755, a mando de Marquês de Pombal.
O questionário foi enviado a todos os bispos das dioceses do reino, para que fossem respondidos pelos seus párocos e remetidas as respostas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.
A tarefa de proceder à organização das respostas de todos os documentos coube ao Padre Luís Cardoso, sendo concluída em 1832, já depois do seu falecimento, altura em que se terá completado o índice de todas as respostas aos inquéritos recebidos. 

O inquérito estava dividido em três partes, sobre as povoações, sobre as serras e sobre os rios.

Na primeira parte, sobre as povoações, pedia-se resposta a 27 perguntas. Entre as perguntas, era possível saber onde a paróquia ficava situada, de quem era a jurisdição da localidade, qual a sua população, que título tinha o pároco e quantos eclesiásticos e respectivas rendas tinha a igreja, se havia conventos, hospitais, misericórdias, ermidas e romarias; se tinha alguma feira, privilégios e antiguidades, fontes ou lagoas, ou muralhas e castelo, bem como personagens ilustres. Perguntava-se também pelos serviços de correio, pelas produções da terra e pelos danos do sismo de 1755.
Na segunda parte, sobre as serras, colocavam-se 13 questões.
Na terceira parte, sobre os rios, eram colocadas 20 perguntas.
Todas as partes terminavam com a recomendação: «E qualquer outra coisa notável que não vá neste interrogatório». Era uma forma de captar outras particularidades da freguesia.
Parte I: O que se procura saber da terra:
1. Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence.
2. Se é d’el-Rei, ou de donatário, e quem o é ao presente.
3. Quantos vizinhos (casas) tem, e o número de pessoas.
4. Se está situada em campina, vale, ou monte e que povoações se descobrem dela, e quanto distam.
5. Se tem termo seu, que lugares, ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem.
6. Se a Paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, e todos pelos seus nomes.
7. Qual é o seu orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem Irmandades, quantas e de que santos.
8. Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem.
9. Se tem beneficiados, quantos, e que renda tem, e quem os apresenta.
10.Se tem conventos, e de que religiosos, ou religiosas, e quem são os seus padroeiros.
11.Se tem hospital, quem o administra e que renda tem.
12. Se tem casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver de notável em qualquer destas coisas.
13. Se tem algumas ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem pertencem.
14. Se acode a elas romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes.
15. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem com maior abundância.
16. Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta.
17. Se é couto, cabeça de concelho, honra ou beetria.
18. Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas.
19. Se tem feira, e em que dias, e quanto dura, se é franca ou cativa.
20. Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra aonde ele chega.
21. Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do Reino.
22. Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória.
23. Se há na terra, ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas tem alguma especial virtude.
24. Se for porto de mar, descreva-se o sitio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir.
25. Se a terra for murada, diga-se a qualidade dos seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação. Se há nela, ou no seu distrito algum castelo, ou torre antiga, e em que estado se acha ao presente.
26. Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê, e se está reparada.
27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório.
Parte II: O que se procura saber da serra:
1. Como se chama.
2. Quantas léguas tem de comprimento e quantas tem de largura, aonde principia e acaba.
3. Os nomes dos principais braços dela.
4. Que rios nascem dentro do seu sítio, e algumas propriedades mais notáveis deles; as partes para onde correm e onde fenecem.
5. Que vilas e lugares estão assim na Serra, como ao longo dela.
6. Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras.
7. Se há na Serra minas de metais, ou canteiras de pedras, ou de outros materiais de estimação.
8. De que plantas ou ervas medicinais é a serra povoada, e se se cultiva em algumas partes, e de que géneros de frutos é mais abundante.
9. Se há na Serra alguns mosteiros, igrejas de romagem, ou imagens milagrosas.
10. A qualidade do seu temperamento.
11. Se há nela criações de gados, ou de outros animais ou caça.
12. Se tem alguma lagoa ou fojos notáveis.
13. E tudo o mais que houver digno de memória.
Parte III: O que se procura saber do rio:
1. Como se chama assim, o rio, como o sitio onde nasce.
2. Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano.
3. Que outros rios entram nele, e em que sitio.
4. Se é navegável, e de que embarcações é capaz.
5. Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela.
6. Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente.
7. Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância.
8. Se há nela pescarias, e em que tempo do ano.
9. Se as pescarias são livres ou algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele.
10. Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto, ou silvestre.
11. Se têm alguma virtude particular as suas águas.
12. Se conserva sempre o mesmo nome, ou começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória que em outro tempo tivesse outro nome.
13. Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sitio em que entra nele.
14. Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem o ser navegável.
15. Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas e em que sítio.
16. Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras ou algum outro engenho.
17. Se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias.
18. Se os povos usam livremente as suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão.
19. Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba.
20. E qualquer coisa notável, que não vá neste interrogatório.
Temos acesso às respetivas respostas! 




quinta-feira, 29 de junho de 2017

145 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História de Capelins 
As terras de Capelins na Casa do Infantado
No dia 21 de Abril de 1698, a Vila de Ferreira (hoje Freguesia de Capelins) foi doada pelo Infante Francisco de Bragança à Casa do Infantado, incluída na Casa de Bobadela. A então Vila de Ferreira, passou a Concelho do Estado do Infantado e chegaram aqui um Alcaide, um Juiz leigo, um Escrivão, um Procurador e Lavradores. Cada um, ou grupo destes elementos foram instalados em diversos lugares. Os lavradores construíram Montes nas herdades que arrendaram, os restantes eram administradores de diversas áreas ao serviço do sereníssimo senhor Infante. O Lugar de Ferreira (habitações), situava-se entre o atual Monte de Ferreira e Nossa Senhora das Neves, mas as casas eram muito más, de taipa e colmo e não existiam condições de habitabilidade para os novos inquilinos, ou pelo menos para todos, por isso, foi construído o Monte Grande no início de 1700 e aqui se instalou o Alcaide e outros dirigentes. Parece que, o Juiz leigo ficou a residir no Lugar de Ferreira e, o Escrivão no Monte do Escrivão. Ao mesmo tempo, a Casa do Infantado autorizou a construção de Montes nas suas terras, onde se fundaram as duas aldeias de Capelins de Cima e Capelins de Baixo, assim como, os Montes de: Igreja, Pinheiro, Meio, Figueira, Serranas, Calados e outros! O desenvolvimento da Vila de Ferreira começou então a verificar-se nesta linha de passagem entre Terena e o Rio Guadiana (Cinza) onde existiam as Barcas e zona franca. Mais a sul do Monte Grande, na mesma época foram construídos os Montes: Capeleira, Galvoeira, Salgueiro, Almas, Manantio e outros que, como sabemos, cerca de 1830 deram origem a Montes Juntos! 
A Vila de Ferreira, esteve na posse da Casa do Infantado até Abril de 1834, por esta ter sido extinta após a Revolução Liberal. As herdades da Vila de Ferreira, foram todas reduzidas a menor dimensão e, algumas feitas em courelas ou pequenas propriedades! 
Importa esclarecer que, o Monte Grande de hoje, nada tem a ver com o Monte Grande de 1698 em termos de dimensão e aparência! 



sábado, 24 de junho de 2017

144 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos  
História, lendas, mitos e contos das Sereníssimas terras de Capelins 
A lenda da Ti Maria das Candeias e o Pão com Azeitonas do Ti Manoel Lopes 
No decénio de 1830, a Ti Maria das Candeias e o seu marido o Ti Manoel Lopes, moravam no Monte do Manantio, (depois Montejuntos), era uma família de seareiros, com vida normal na época e criaram cinco filhos que, entretanto já tinham debandado para casas próprias. A Ti Maria das Candeias, teve sempre fama de ser má, mas ninguém esperava que ela fizesse o que fez ao marido. O Ti Manoel Lopes, tinha uma courela no Carrão, mas também explorava outras, ao terço ou ao quarto (em que a terra era de um lavrador que permitia aos seareiros lá semearem e, depois na colheita, em cada três ou quatro partes, uma era para o dono da terra). O Ti Manoel todos os dias, de madrugada, atrelava a mula à carroça e partia a trabalhar nas courelas, levava o jantar (almoço) e só voltava ao Monte do Manantio já de noite, metia a mula no "cabanão" enchia a manjedoura de palha, para ela comer durante a noite e corria para casa onde a mesa já estava posta e as sopas de grão, de couve ou repolho, de feijão, ou uma açorda de favas, de feijão carêto, de beldroegas ou outra, estavam prontas a saltar para cima da mesa e o ti Manoel, já cheio de fome, depressa as comia e deitava-se, porque pelas quatro horas da manhã tinha de se levantar, comer e partir. Uma noite, o Ti Manoel, depois de arrumar o realejo, entrou em casa com os olhos postos na mesa, mas  não via nada para comer, então perguntou à Ti Maria o que era a ceia? E ela respondeu: Olha, come um bocadinho de pão com azeitonas! O Ti Manoel, não gostou, mas não teve outro remédio, comeu pão e azeitonas e deitou-se. Na madrugada seguinte, na hora de almoço (pequeno almoço) nada de açorda, nada de caldo, nada molhado para comer, voltou ao pão com azeitonas, chegou à hora do jantar (almoço) abriu a alcofa e ficou espantado, a Ti Maria tinha-lhe aviado pão com azeitonas, à noite a mesma coisa, o Ti Manoel já não se calou, zangou-se com a Ti Maria, disse-lhe que assim não podia ser, mas a Ti Maria, como era má, atirou-se a ele dizendo-lhe que havia por ali muita gente que nem pão com azeitonas tinham para comer e mais isto e mais aquilo e o Ti Manoel teve de se calar, mas no dia seguinte começou a contar aos vizinhos, filhos e amigos o que se estava passando, então todos falaram com ela e cada vez que entravam em casa ou estava refastelada numa cadeira ou comendo as sopas que habitualmente eram para os dois, depois dizia ao Ti Manoel que não comia nada, que já tinha comido qualquer coisa, mas afinal comia tudo ao homem, não podia estar boa da cabeça, era caso para ser resolvido pela bruxa, diziam os vizinhos e o Ti Manoel foi consultar a bruxa de Terena, contou-lhe o que se estava a passar e pediu-lhe ajuda. A bruxa depois de o ouvir disse-lhe que ia fazer umas mesinhas e que dentro de oito dias o Ti Manoel começava a comer bem. A Ti Maria continuo a fazer as sopas e antes do Ti Manoel chegar, comia tudo, mas um dia ao sentar-se à mesa começou a ouvir vozes que lhe diziam: "sua desenvergonhada como trata o marido", "sua gulosa, sua comilona" e outras palavras que lhe entoavam no cérebro, como não sabia de onde vinham as vozes saia de casa a correr à procura de quem assim falava, mas não via ninguém e, devido a isso perdia o apetite, deixando a comida para o Ti Manoel que já andava muito enfraquecido, ao contrário da Ti Maria das Candeias, que comia tudo e já tinha dificuldade em se movimentar, mas felizmente tudo  voltou ao normal e o Ti Manoel começou a encher a barriguinha de sopinhas! 
Nunca se soube se foi maldade da Ti Maria, ou se foi algum problema mental! 

Manantio - Montejuntos 



sexta-feira, 23 de junho de 2017

143 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

Com o devido respeito transcrevemos este artigo do Jornal publico de 2010, mas que continua muito atualizado
Faleiros A árvore seca sugere um destino
RITA RANHOLA 13/06/2010 - 00:00

Há quem aqui sempre tenha vivido, mas também há os que vieram ou regressaram para contrariar a "luta desigual" com o Estado, que quer acabar com as aldeias
Uma imponente árvore, apesar de já seca, ergue-se à entrada da pequena aldeia de Faleiros, "perdida" no interior alentejano, onde cerca de uma dúzia de pessoas ainda "teima" em viver, incluindo um casal luso-inglês que ali criou "raízes".
"Num raio de 35 quilómetros, tenho bancos, hospital, lojas, supermercado, advogados. Tudo o que preciso para viver está aqui, no Alentejo", diz Peter Bernthal, de 62 anos. Alto e esguio, como a árvore, e de barbas brancas, o inglês e a mulher, a portuguesa Fernanda, dois anos mais nova, são dos poucos moradores desta aldeia da freguesia de Capelins (Santo António), no concelho de Alandroal. O casal recuperou uma casa comprada em 2002 e até tem um turismo rural que recebe visitantes dos vários "confins" do mundo, mas não atrai nacionais: "Os únicos portugueses que cá vêm são amigos nossos".
"Uma vez, telefonou um português e a primeira coisa que perguntou foi se havia televisão no quarto. E outro queria saber se tínhamos televisão por cabo. Eu disse que não", relata Fernanda, que viveu em Angola e, no Alentejo, reencontrou a "imensidão" dessa sua outra pátria africana.
Os primeiros turistas foram americanos, "à procura de cultura e monumentos", mas já por ali passaram belgas, ingleses, holandeses e até "uma rapariga da Coreia do Sul".
Preferindo expressar-se na língua do país que o acolheu, depois de partir "sem destino" de Rochester, no Sul de Inglaterra, há mais de uma década, Peter gostava de ver um maior apoio ao turismo no Alandroal.
"A última fábrica que abriu no Alandroal foi há 24 anos... O turismo é muito importante e podia dar trabalho à gente nova", defende o inglês, apaixonado pela sua casa alentejana, com "tectos brancos com barrotes pretos de madeira" e "uma chaminé para nos sentarmos lá dentro", que lhe evocam as "casas dos ricos" da sua região natal.
Mas é com tristeza que Peter Bernthal diz assistir ao abandono do interior português: "Vai tudo para Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve. Até parece obrigatório, mas as pessoas, aí, não têm condições de vida".
Do lote dos muitos alentejanos que tentaram a sua sorte nos arredores de Lisboa, fizeram parte António João Almas Veva, de 61 anos, natural da sede de freguesia, Montejuntos, e a sua mulher, Isabel do Carmo, de 56 anos, "nascida e criada" em Faleiros.
Acabaram por regressar à aldeia de Isabel nos anos de 1980, desiludidos com o fecho da fábrica onde trabalhava António João, que é agora vendedor ambulante de fruta no concelho.
"Antes, isto estava tudo habitado. Agora, não devemos ser mais de uma dúzia", diz Isabel do Carmo, enquanto olha, atenta à oferta, para o interior da carrinha da vendedora ambulante de peixe que acaba de chegar à aldeia, como é hábito todas as semanas.
Do outro lado da estrada que "corta" a aldeia em duas partes, está a escola primária de que foi aluna, na altura acompanhada por "mais uns 17 ou 18 gaiatos". Há "mais de 20 anos" que foi desactivada e, numa terra onde as crianças são raras, é a actual sede de uma associação de caça e pesca. "Para vizinhos ruins, mais vale estar só", brinca Isabel, sem pensar em deixar a sua casa, enquanto António João traça o destino: "Nem que sejamos os últimos, ficamos cá até morrer".
O jovem Arlindo Dias, de 33 anos, está no primeiro mandato como presidente da junta de freguesia, eleito pelo movimento independente que "conquistou" o município de Alandroal, e quer contrariar a "estagnação" a que a sua terra foi votada. Mas, com um orçamento anual reduzido, o presidente sabe que é "muito difícil" atrair moradores, apostando antes em "pequenas melhorias" benéficas para os que restam.
"Tenho o cuidado de ir de monte em monte perguntar às pessoas quais as suas necessidades e, aqui, vi que a entrada da aldeia, com pasto seco, está desaproveitada. Se plantarmos uma ou duas árvores e pusermos flores e um banco de jardim, este espaço fica mais simpático", sugere.
No interior do país, sobretudo quando se fecham escolas e outros serviços públicos, critica o autarca, trava-se uma "luta desigual contra o Estado", que "quer acabar com as aldeias e concentrar as pessoas todas nas grandes cidades".
"O interior está esquecido, mas, para o país ser de excelência, não podemos deixar morrer estes lugares e aldeias. É como uma árvore, que nasce por ter raízes. Até pode estar muito bonita, mas são as raízes que a alimentam e, se estas secam, mais tarde ou mais cedo a árvore morre", sentencia.
Agência Lusa 



terça-feira, 20 de junho de 2017

142 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins
Como já referimos, não encontramos testemunhos dos milagres atribuídos a Nossa Senhora das Neves de Capelins, no entanto, existem indícios que os mesmos aconteceram, devido a relatos sobre a devoção que existia por Nossa Senhora das Neves, desde o século XVI. Assim, com base em casos semelhantes que pesquisamos, fizemos a recriação do testemunho de um eventual milagre:

Milagre que fez Nossa Senhora das Neves, a favor de Maria Gomes, lavradora do Monte da Talaveira, na Vila Defesa de Ferreira que, estando doente às portas da morte e, abandonada dos recursos da medicina, seu marido, Francisco Lopes e cunhada Mariana de Jesus, desprezando então as ilusões terrestres, levantaram fervorosa suplica à virgem, que lhe deu saúde e descanso.
Recordamos que, até há poucos anos, existiam alguns testemunhos afixados na Igreja de Santo António, na parede em frente da porta mais pequena, era um pequeno quadro ilustrado pela respetiva situação, quase todos, com um doente acamado, a receber a graça concedida pelo milagre, nesse caso de Santo António, e contavam como tinha acontecido!
 Esses testemunhos, eram partes da história de Capelins, da fé e da cultura das suas gentes!

Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins 


segunda-feira, 19 de junho de 2017

141 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A Lenda do Milagre de Nossa Senhora das Neves, na Procissão da Festa de 1720 
Durante as Festas de Nossa Senhora das Neves, aqui acodiam devotos das terras de Capelins e das vizinhas, incluindo de Espanha, a maioria de São Bento da Contenda. Estas Festas, como todas, ao longo dos tempos, misturavam parte religiosa com  pagã, ou seja, havia uma parte de diversão, com cante, poesia, jogos populares, atuações de grupos e bailes e a parte religiosa com missas cantadas e rezadas/faladas, meditação e a procissão, considerado o momento mais importante da Festa e que mais devotos aqui atraía. 
Conta esta lenda que no ano de 1720, a Procissão de Nossa Senhora das Neves, saiu da sua Igreja para cumprir o circuito de sempre, em volta do Lugar de Ferreira, que se situava no alto em frente onde hoje se ergue a Ermida. Chegou a hora e verificaram a formação de grande trovoada a sul, gerando grande burburinho, os padres e outros responsáveis começaram a conferenciar para decidir se deviam, ou não, dar continuidade à Procissão, as opiniões eram muito diferentes, uns diziam que a trovoada estava longe e não podiam deixar de a fazer visto a maioria das pessoas terem vindo de tão longe e ninguém tinha a certeza se a trovoada passava por ali, já rezavam a Nossa Senhora das Neves e a Santa Bárbara para afastar a trovoada para bem longe dali. Por fim, decidiram que a procissão seria realizada e com a banda de música já a tocar, as imagens e pendões das Irmandades nos seus lugares, os devotos começaram a andar. A trovoada estava cada vez mais próxima, eram relâmpagos e trovões, uma tempestade, como nunca tinham visto, mas todos continuavam em frente rezando fervorosamente e com muita fé, sempre esperando chuva torrencial sobre eles, a qual nunca chegou. A procissão fez o mesmo percurso de sempre e quando chegaram à Igreja a tempestade tinha passado e o comentário era geral, todos diziam: "Foi uma trovoada seca", não choveu uma gota, mas estavam enganados e só souberam o que se tinha passado, após algumas pessoas se afastarem do lugar onde tinha decorrido a procissão e viram que por todo o lado havia água em abundância, toda a gente foi ver e acreditaram que foi um milagre de Nossa Senhora das Neves! 

Procissão de Nossa Senhora das Neves 1978


domingo, 18 de junho de 2017

140 - Terras de Capelins
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins
A Lenda do Menino Lenhador, Encurralado em Santa Luzia e o Milagre de Nossa Senhora das Neves
Como sabemos, a Igreja Matriz de Santa Maria, foi erguida cerca do ano de 1314, ao lado do lugar onde se encontra a atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, esta veio substituir a primitiva, nos últimos decénios de 1600.
Foram muitos os milagres atribuídos a Nossa Senhora das Neves, cujos testemunhos de moradores das terras de Capelins e de terras vizinhas, se perderam no tempo.
Este caso, passou-se no final do mês de Abril do ano de 1696, e envolveu um menino de 9 anos de idade, chamado António, filho de uma família pobre, constituída pelos pais e cinco filhos que residiam num pequeno Monte no Roncão. Os filhos mais velhos trabalhavam de sol a sol, com os pais na agricultura por conta de lavradores e, os mais novos, ou andavam em ajudantes de ganadeiros ou, se ainda estavam em casa tinham uma missão a cumprir. O António enquanto esperava vaga para ajudante de pastor, tinha de carregar lenha para casa, das redondezas e por vezes de lugares mais distantes, como aconteceu numa tarde que teve de ir à lenha à herdade de Santa Luzia, onde havia muita, mas tinha de atravessar a Ribeira do Lucefécit num pequeno barco feito de tábuas velhas, mas que era usado muitas vezes para ligar as duas margens da Ribeira, quando esta tinha maior caudal, como aconteceu naquele dia, devido às grandes chuvadas verificadas nesse mês de Abril. O António, passou rapidamente no barco, do lado do Roncão para Santa Luzia, prendeu-o a uns arbustos e afastou-se a juntar lenha para fazer um bom feixe, andou algum tempo naquela azáfama e voltou com a lenha ao lugar onde tinha deixado o barco, mas quando chegou não o encontrou e pensou que talvez estivesse enganado no sitio, descarregou a lenha e percorreu várias vezes a margem da Ribeira para baixo e para cima até que ficou convencido que o barco tinha sido levado pela corrente e entrou em desespero, porque, embora soubesse nadar, a corrente estava muito forte e ele tão pequeno e franzino, assim não conseguia passar a nado, então começou a pedir ajuda, gritou, gritou, mas ninguém o ouviu e estava a começar a escurecer, o medo do António era dos lobos, porque havia muitos em Santa Luzia, ele não tinha nada para se defender e pressentia que não iam demorar em aparecer, passaram-lhe muitas ideias pela cabeça, podia subir a Ribeira até ao Bufo e encontrar aí um lugar onde pudesse passar a nado, mas havia muito mato e ficou com medo de sair dali, até que se lembrou de rezar e pedir ajuda a Nossa Senhora das Neves, para diminuir o caudal e ele poder passar a nadar, ou para aparecer alguém que o ajudasse, então rezou, rezou, com os olhos postos na corrente, mas esta não diminuía, até que apareceu levado pela corrente um grande feixe de lenha, mesmo igual ao dele, sem se afundar, desceu uns cinquenta metros e foi encalhar na outra margem e fez-se luz na cabeça do António, percebeu o sinal, pegou no feixe de lenha dele colocou-o na água, deitou-se por cima dele e verificou que não se afundava, começou a remar com as mãos e não demorou em entrar na corrente que imediatamente o arrastou em grande velocidade mais de cem metros, até que perdeu a velocidade e ficou quase parado num pego mais largo, antes da foz do Ribeiro do Carrão, o António começou novamente a remar com as mãos e aproximou-se da margem direita da Ribeira, num lugar onde estava encalhado o seu barco, saiu de cima da lenha, tirou-a da água, prendeu bem o barco e foi para casa, onde a família já estava preocupada por ele não aparecer. O António, não contou o que se tinha passado, apenas disse que tinha andado a apanhar lenha e que se tinha demorado mais do que esperava, mas não lhe saía da cabeça a visão do feixe de lenha na corrente, no momento em que rezava e que por isso se salvou de ser devorado pelos lobos, estava claro que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves!
A partir desse dia, a sua devoção por Nossa Senhora das Neves era tanta, que acabou por confessar à família o acontecimento daquela tarde, já mais para a noite, em que tinha ficado encurralado em Santa Luzia, todos o ouviram e reconheceram o milagre!





sábado, 17 de junho de 2017


139 - Terras de Capelins 

Primeira Travessia Pedestre, na Diagonal, em Passeio, da Freguesia de Capelins - De Santa Clara - Azenhas D' El - Rei, em 14 de Maio de 2017 
No dia 14 de Maio de 2017, conforme planeado, pelas 09:15 horas, demos início à primeira travessia pedestre, na diagonal, em passeio, da Freguesia de Capelins, com saída do cruzamento da estrada de Reguengos para Cabeça de Carneiro e Monsaraz, este lugar, noutros tempos, era designado por "curva", a partir daqui existia um caminho milenar, que permitia chegar de/a Ferreira de Capelins, passando a norte do Monte da Sina ou pela Igreja de Santo António e chegar mais rapidamente a Santiago Maior, Montoito, Reguengos e outras localidades, com as carroças, charretes, cavalos, burros ou a pé, mas parte desse caminho já desapareceu, assim, seguimos cerca de trezentos metros pela estrada para Cabeça de Carneiro e passámos junto ao lugar onde se juntam as três Freguesias: Capelins Santo António, Santiago Maior e São Pedro (Terena), logo a seguir, à esquerda surgiu uma porteira na cerca de arame farpado e outro, que nos permitiu seguir por um caminho milenar, pela propriedade designada por Fontanas e que intercetava o descrito anteriormente, junto à herdade da Sina. Através deste caminho, já com poucos troços visíveis demos entrada na Freguesia de Capelins e seguimos, observando tudo o que a vista alcançava, ao perto e ao longe, em direção à histórica Serra da Sina, antiga montaria do reino, desde D. João I, onde chegámos e atravessámos em menos de uma hora, ainda avistámos a Igreja de Santo António, mas seguimos pela herdade das Areias, pensando seguir em linha quase reta para Montejuntos, mas ao chegarmos aqui, deparamos com uma manada de vacas a pastar, onde existiam algumas de braveza duvidosa, senão bravas, que nos obrigaram a mudar o rumo para a esquerda e entrar na herdade do Terraço, foi uma volta mais longa, que nos atrasou pelo menos meia hora, até à herdade do Seixo e, daqui passamos para o Baldio, até à estrada de Cabeça de Carneiro - Montejuntos, que atravessamos cerca das 12:00 horas. Seguimos pela estrada pavimentada para as Azenhas D' El-Rei, mas após passarmos o Monte da Amadoreira Velha, virámos à direita na horta da Amadoreira (do Pisco), pelo antigo caminho do Bolas, onde chegamos cerca das 13:00 horas, dali subimos até à praia da liberdade, no entanto, fomos obrigados a saltar três cercas de arame, porque desapareceram os antigos caminhos, depois fomos o mais próximo que nos permitiram do nosso objetivo, ou seja, as Azenhas D' El-Rei onde, pelas 13:30 horas, finalizamos o nosso agreste passeio! 

Logo aqui, começa a Freguesia de Capelins Santo António



sábado, 10 de junho de 2017

138 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A Lenda da Partida do Ti Xico Charrua ao Ti Pedro Louceiro 
O Ti Xico Charrua era um taberneiro, dono de uma taberna que existiu em Capelins de Baixo, cerca do ano de 1836, que veio de Vila Viçosa com a sua família à procura das oportunidades anunciadas nas terras de Capelins, para onde vieram muitas famílias, devido à partilha das herdades em courelas, que foram vendidas ou arrendadas aos seareiros. O Ti Xico Charrua vendia vinho, aguardente e pouco mais, às vezes algum licor e não havia mais nada, porque, também ninguém comprava mais nada, também gostava de beber o seu copinho de vinho e dominava todas as conversas, sabia sempre mais do que os fregueses, como diziam, ficava sempre por cima, ninguém se atrevia a contrariá-lo, até ao dia em que chegou a Capelins de Baixo, o Ti Pedro Louceiro, natural do Redondo que vendia louça de barro, com o seu burro, pelos Montes e Aldeias, entre o Redondo e o rio Guadiana. Carregava o seu burro no Redondo, com panelas de vários tamanhos, tigelas de fogo, cântaros, cântarinhas, barris, barranhões, alguidares e algumas louças miúdas, dava essa volta e só voltava ao Redondo quando tivesse vendido tudo, carregava novamente e fazia sempre a mesma volta, algumas vezes ao contrário, se tivesse alguma encomenda de relevo, tarefas para as azeitonas ou azeite ou alguidares grandes. O primeiro embate de conversa entre o Ti Xico e o Ti Pedro, deu logo que falar na região, diziam que o Ti Xico não esteve à altura e teve de se calar, nem piava e mais isto e mais aquilo. Cada vez que o Ti Pedro entrava na taberna, o Ti Xico ficava irritado porque não se podia expandir e ficava retraído, os fregueses sabiam disso e alguns picavam, dizendo-lhe que o Ti Pedro sabia muito e sabia o que dizia e ele para não ficar envergonhado tinha de se calar. Aquela situação atormentava-o e começou a dar voltas à cabeça para encontrar uma maneira de o enrolar, mas o homem sabia mesmo muito e o caso estava difícil de resolver. Uma tarde, o Ti Pedro chegou com o burro carregado de louça e entrou na taberna, cumprimentou os presentes, puxou da sua bucha, um pão, azeitonas, toucinho, torresmos, uns figos secos, uma grande fartura para a época, era já a ceia (jantar), pediu um copo de vinho e comeu sem dizer nada. Entretanto começou a chover muito e fez-se de noite muito cedo, o Ti Pedro era para ir dormir ao Monte da Zorra, mas com tanta chuva começou com medo de se meter a caminho e pediu ao Ti Xico se podia dar-lhe guarida, no cabanão das burras, onde ele tinha uma tarimba com umas sacas de palha e servia para algum almocreve ou maltêz ali dormir. O Ti Xico não esperava aquele pedido, porque o Ti Pedro nunca ali tinha dormido, ficava sempre no Monte da Zorra ou da Negra, mas repentinamente viu a oportunidade da vingança e respondeu: Pode dormir ali, pode, e até pode dar palha da minha ao burro, mas em troca tem de me prometer uma coisa! 
- Ti Pedro: Então diga lá Ti Xico! 
- Ti Xico: Dorme ali na tarimba, no cabanão das minha burras, mas tem de me prometer que não se borra na cama! 
- Ti Pedro: Então, mas que conversa é essa, eu sou lá homem disso? 
- Ti Xico; Não sei, não era o primeiro, depois eu é que tenho de lavar as sacas da palha, por isso, é pegar ou largar, mas mais uma condição, no caso de se borrar na cama eu vou contar a toda a gente das terras de Capelins e arredores, está bem?
- Ti Pedro: Oh homem, se quer assim, está bem, já lhe disse que não sou pessoa para isso! 
- Ti Xico: Então vá, mas não esqueça o combinado, pode descarregar o burro, metê-lo no cabanão e se quiser pode deitar-se! 
- Ti Pedro: É Já mesmo agora, hoje estou muito cansado, abalei do Redondo de madrugada e ainda não parei, até amanhã e foi-se deitar! 
O Ti Xico, já tinha na ideia como seria a vingança e assim que fechou a taberna, foi a correr ao chiqueiro do porco, apanhou um pouco de cócó, para um caco, misturou-lhe água e farinha, misturou tudo bem, era um cheiro péssimo, empurrou muito devagarinho a porta do cabanão e logo à entrada já ouvia o Ti Pedro a ressonar, dormia profundamente, virado de lado. mesmo a jeito do Ti Xico lhe colocar o material por baixo das nádegas e saiu como entrou. Pela noite dentro, o Ti Pedro virou-se na tarimba e ficou todo envolvido na massa mal cheirosa, acordou muito aflito, cheirou-lhe logo muito mal, meteu lá a mão, levou ao nariz e exclamou alto: Ai minha mãe, já me borrei todo! E agora? Deixou-se ficar quietinho, a massa foi secando e logo de madrugada carregou o burro com a louça, meteu-se ao caminho, foi lavar-se ao ribeiro da estrada e seguiu de Monte em Monte a vender a sua louça. O Ti Xico, não contou nada a ninguém, mas os fregueses andavam desconfiados, por aquela mudança, nas conversas o Ti Pedro estava sempre ao lado do Ti Xico, que voltou a cantar de galo e quando o Ti Pedro o tentava contrariar ele olhava para ele e exclamava: Tarimba! Para o lembrar o que tinha acontecido na tarimba (cama), o outro mudava logo a conversa a seu favor. Anos mais tarde um compadre do Ti Xico perguntou-lhe o que se tinha passado, porque toda a gente sabia que ele tinha o Ti Pedro na mão e também queria saber o que queria dizer "Tarimba", que fazia corar o homem? Foi então que o Ti Xico contou tudo ao compadre e a partir daí soube-se pelas terras de Capelins, onde, ainda hoje, a palavra "Tarimba" significa, entre outras coisas, "cala-te", "põe-te a andar daqui"! 
O Ti Pedro louceiro, entretanto, deixou de aparecer a vender louça de barro, devido à sua idade e o Ti Xico Charrua continuou a cantar de galo na sua taberna em Capelins de Baixo!
Outros tempos! 



quinta-feira, 8 de junho de 2017

137 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A lenda da Perua do Rabo Alçado, Que Quase Acabou Num Assado 
Contam que, num sábado, nos finais do mês de Maio do ano de 1889, o Ti António Borralho, que morava em Capelins de Baixo, pelas 11 horas da noite vinha do Monte Santa Luzia, dormir a sua casa e fazer a mudança semanal da roupa. Como teve de deixar o gado tratado e de cear (jantar), acabou por se meter a caminho já tarde. Quando estava chegando ao alto do malhão começou a ouvir grande alarido de conversa de mulheres, ficou muito surpreendido, por andarem mulheres por ali àquela hora, ouvia as vozes cada vez mais perto mas não avistava ninguém e a curiosidade ia aumentando, quando lhe pareceu que já estavam muito perto, saiu da estrada e escondeu-se atrás de uma moita de arbustos e dali avistou três peruas a andar na sua direção e falavam como mulheres, ainda pensou que estava a sonhar e deu uma palmada na própria face para se certificar que estava acordado, em poucos minutos vieram-lhe muitas ideias à cabeça, talvez as vozes fossem de mulheres que viessem atrás das peruas e sem noção do que estava a fazer, meteu os dedos na boca e deu um forte assobio dobrado, as peruas assustaram-se e levantaram voo, duas passaram-lhe por cima, mas uma que tinha o rabo muito pesado foi-lhe cair mesmo em cima. O Ti António, apercebeu-se que era mesmo uma bela e gorda perua e meteu-a logo debaixo do braço, continuando o seu caminho para Capelins de Baixo, fazendo planos de como seria o bom almoço de ensopado ou assado de perua no dia seguinte. As peruas eram feiticeiras que moravam em Capelins de Cima e em Capelins de Baixo e que nessa noite tinham sido convocadas pelo mafarrico para o baile no pego da azinheira, na Ribeira do Lucefécit, um lugar ensombrado, onde tinham de estar à meia noite em ponto, quando iam a subir a estrada do malhão, uma alertou as restantes para o risco que estavam a correr, podiam ser vistas por alguém e o melhor seria transformarem-se em peruas, porque se fosse preciso, depressa se escondiam nas searas ou podiam voar e chegar mais depressa ao baile, logo todas concordaram que seria assim. A Ti Margarida, era gorda, tinha grande rabo, e ao transformar-se em perua ficou um pouco desequilibrada, com o rabo alçado e ia caminhando com dificuldade, foi por isso que falhou o voo e foi cair em cima do seu compadre o Ti António Borralho e agora estava metida num grande sarilho. As outras feiticeiras aperceberam-se do que tinha acontecido e voltaram para trás acompanhando a situação à distância para no caso da Ti Margarida conseguir fugir, se fosse necessário, fazerem algumas manobras de diversão para o despistar, mas nada, a Ti Margarida bem estrebuchava, mas ele não largava a presa. Quando ia passando o poço da estrada, já cansado com o peso e esperneamento da perua, desabafou em voz alta: - Vou-te já cortar a goela aqui, não me fujas tu, meteu a mão ao bolso para tirar a navalha e foi naquele momento que a Ti Margarida juntou as forças, deu um grande safanão e libertou-se, voando por cima da parede da horta e meteu-se pelo ribeiro abaixo e o Ti António, nunca mais lhe pôs a vista em cima! Seguiu para casa, triste por ter perdido um almoço tão generoso e as feiticeiras seguiram para o seu baile a correr e a voar e na hora marcada estavam aprumadas para entrar no baile sobre o olhar ameaçador do mafarrico que se apercebeu do que se tinha passado! O Ti António Borralho, no Domingo de manhã, correu a aldeia a contar a sua aventura da noite anterior, mas poucos acreditaram! 
Peripécias de outros tempos!

Alto do malhão 
Ferreira de Capelins 



segunda-feira, 5 de junho de 2017


136 - História de Capelins 

Os casamentos em 1891 na Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins 

Em 1891 realizaram-se 10 casamentos na Ermida de Nossa Senhora das Neves, que foi elevada a igreja Paroquial para esse efeito. O primeiro casamento entre Joaquim Ramalho e Mariana de Jesus, foi em Agosto de 1891, casados pelo iniciado Pároco João Manuel Queimado, que assina como Pároco Encomendado, vindo substituir o Pároco João Simões Mathias, que só o encontramos nos assentos Paroquiais até Maio de 1891, sendo substituído por 1/2 meses, pelo Pároco Encomendado de São Thiago Maior António Augusto. O Pároco Queimado, já consta num assento de óbito no dia 21 de Julho de 1891. Ainda em Agosto de 1891, o Pároco João Manuel Queimado, tornou-se Pároco efetivo da Paróquia de Santo António de Capelins e foi este Pároco que realizou os 10 casamentos na Ermida de Nossa Senhora das Neves, porém, nunca deixou de fazer as cerimónias religiosas como, batismos e óbitos na Igreja de Santo António. O último casamento realizado na Ermida de Nossa Senhora das Neves foi o de Joaquim Batista com Maria Rosário em Novembro de 1891. 
O nosso dilema é saber porque motivo os casamentos entre Agosto e Novembro de 1891 foram realizados na Ermida de Nossa Senhora das Neves, continuando as cerimónias religiosas referentes aos batismos e óbitos a ser efetuadas na Igreja de Santo António de Capelins. 
Não conseguimos encontrar outra justificação a não ser a da realização de grandes obras na Igreja de Santo António, mas em todas as fontes que pesquisamos não encontramos comprovativos específicos, a não ser o seguinte, que consta no Inventário Artístico de Portugal do Distrito de Évora de Túlio Espanca de 1978 que na descrição sobre a Igreja Paroquial de Santo António de Capelins, escreve:
"Do primitivo edifício, em traça de fins do século XVI - alvores do imediato, apenas subsiste o presbitério cupular, algumas empenas laterais de cornijas polilobadas, em grossa alvenaria rebocada, e o portal granítico, adintelado, de verga losângica e cruz relevada.
A fachada de frontão arredondado, sofreu uma profunda modificação na centúria oitocentista que alterou as proporções da nave e lhe fez perder o alpendre". Pensamos estar aqui a resposta, está bem explícito que a Igreja de Santo António de Capelins, foi alvo de grandes obras nos anos de 1800. As obras aqui descriminadas, certamente, tinham de impedir o natural funcionamento da Igreja e, ao percorrermos os assentos Paroquiais de casamentos, batismos e óbitos, dos anos de 1800, só no ano de 1891 se verifica a transferência da realização dos casamentos para a Ermida de Nossa Senhora das Neves. Quanto aos batismos, provavelmente, como juntavam duas a seis pessoas, podiam ser realizados num pequeno espaço, ou eventualmente, na casa Paroquial!
Em conclusão, sem provas concretas, parece-nos que, a realização dos dez casamentos realizados na Ermida de Nossa Senhora das Neves, entre Agosto e Novembro de 1891, foi devido às obras de alteração do edifício da Igreja de Santo António de Capelins, referidas por Túlio Espanca. 

Igreja de Santo António de Capelins


domingo, 4 de junho de 2017

135 - História de Capelins 
Das Aldeias de Capelins de Baixo e Capelins de Cima a Ferreira de Capelins
As Aldeias de Capelins de Baixo e Capelins de Cima, tiveram origem em alguns Montes (habitações), que surgiram nesta região a partir de 1698, como o Monte Grande, onde estava instalado o Alcaide e outros administradores da Vila Defesa de Ferreira, Concelho do Estado do Infantado, Monte dos Capelins (Gomes), Monte do Meio, Monte do Pinheiro, Monte da Figueira e outros. Em 1712, já existiam as duas aldeias, que foram crescendo à medida das necessidades dos seus moradores, porém, nunca se encontraram, existindo sempre um espaço vazio em termos habitacionais e, alguma rivalidade saudável entre os residentes, embora com famílias misturadas entre ambas. Em 06 de Novembro de 1836, por um regulamento de Mouzinho da Silveira, estas duas aldeias desapareceram em termos administrativos, dando lugar a uma única, denominada Ferreira de Capelins. Em Fevereiro de 1921, não existindo aqui instalações para a Junta de Freguesia, esta foi instalada em Montes Juntos. Cerca do ano de 1949, foi construída a escola de instrução primária, com duas salas de aulas, com lareira, mas sem lume, compartimento de entrada, com cabides, onde se penduravam as boinas, chapéus e sacos ou malas do lanche, também era aqui que, geralmente, se fazia o presépio no Natal de cada ano, embora em alguns anos também se fizesse na própria sala de aulas, junto à lareira, um pátio ou alpendre para brincar no recreio, em caso de muito frio ou chuva, casas de banho para rapazes e raparigas, com águas correntes vindas de um pequeno depósito que se abastecia através de uma bomba manual ligada a um poço e ainda, um grande espaço envolvente para praticar diversos desportos, (futebol, ringue, pateira, pião e outros). A escola foi construída ao meio das duas aldeias, junto ao Monte do Meio. 
Depois de Abril de 1974, devido à melhoria no nível de vida da maioria dos seus habitantes e, surgindo a oportunidade de comprar parte do ferragial grande, situado entre as paredes do Monte Grande e a escola (de Norte para Sul, do lado direito), para o dividirem em cinco lotes e aí construírem as suas moradias familiares, foi o que fizeram os seguintes residentes: Ti José Russo, Ti João Moreira, Ti José Batista; Ti Manuel Moreira (Ti Bagage) e Ti António Canhão. Alguns anos mais tarde, também foi comprada outra parte do mesmo ferragial, situada, neste caso, no mesmo sentido, mas do lado esquerdo, por: Centro Cultural, Ti João Batista, Ti António Mexias, Ti Domingos Aldeias, Ti Celestino Bexiga, Ti Miguel (Aninho), e Ti Joaquim Moreira, (Mariano), sendo dividido em sete lotes e foram construídas as seis moradias familiares e o Centro Cultural, do lado da escola. Além do crescimento da aldeia neste espaço geográfico, também nesta mesma época surgiram outras moradias noutros lugares que aumentaram significativamente a aldeia de Ferreira de Capelins!


Ferreira de Capelins - parte aumentada após 1974 


sábado, 3 de junho de 2017

117 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A lenda da andorinha e a Freira de Capelins 
As andorinhas são aves diferentes de qualquer outra, sempre nos disseram que eram as aves de Deus, Nosso Senhor, e tínhamos de as proteger em caso algum lhe podiam fazer mal. Faziam os ninhos dentro das chaminés, passando os serões na companhia dos moradores das respetivas casas, cuja presença não as incomodava. Algumas vezes, desorientavam-se ao sair do ninho e, embora conhecessem bem a entrada e saída pela chaminé, seguiam o caminho contrário e começavam a esvoaçar dentro de casa, quando se cansavam, pousavam e deixavam-se apanhar para serem libertadas na rua. Quando isto acontecia, algumas pessoas atavam-lhe uma fita colorida a uma das asa, fazendo um lacinho e por vezes com um bilhete com uma frase, de forma a não as incomodar de voar e algumas voltavam ainda com o lacinho no ano seguinte. A lenda que vamos descrever envolve uma andorinha que através de um bilhete que transportou atado à asa decidiu a vida de uma rapariga de Capelins que se fez freira. 
Os lavradores do Monte do Roncão tinham duas filhas, a Maria a mais velha e a Margarida, que estudavam no Alandroal, onde também tinham uma casa, mas passavam as férias escolares naquele Monte. Um ano pela Páscoa, estavam falando sobre a profissão que gostariam de ter, com a janela aberta e entrou uma andorinha a esvoaçar pela casa, quando se cansou pousou num móvel, a Maria apanhou-a e lembrou-se de lhe atar um lacinho com um bilhete. Pediu à irmã para segurar a ave e escreveu: "De onde vens e para onde vais?", fez um rolinho com o papel, pegou numa fitinha, atou-a por baixo da asa e libertou-a. O tempo passou e Maria continuava a pensar que profissão devia seguir e não conseguia encontrar nenhuma atividade pela qual tivesse gosto a não ser alguma que fosse para fazer bem ao próximo e a sua tendência era ir para freira, mas deparava-se com dois problemas, um era a aceitação pela parte dos pais e o outro, era qual a Congregação onde devia entrar! Passou mais um ano e chegou outra Páscoa e as irmãs novamente no Monte do Roncão. Estavam nos preparativos Pascoais e tinham a janela aberta e entrou uma andorinha em casa, voou até se cansar, quando pousou a Maria foi a correr apanhá-la e reparou que trazia um lacinho com um bilhete debaixo da asa, tirou-o, e como estava nervosa, soltou-a saindo pela janela. Quando abriu o bilhete estava escrito: "Venho do Convento das Doroteias", por momentos ficou sem palavras, porque tinha ali a resposta ao que a atormentava havia quase um ano, achou que era um chamamento de Deus para a Congregação das Doroteias e a partir daquele dia entrou nela grande alegria e, comunicou aos pais o que se passava e qual era o seu grande desejo. Os pais ainda tentaram demovê-la, mas compreenderam e aceitaram a sua vontade. A Maria entrou como noviça no Convento das Doroteias, onde chegou a Madre Superiora, mas até ao fim da sua vida, nunca esqueceu as suas origens de Capelins!

Andorinha




198 - Terras de Capelins Vidas do Contrabando e dos guardas fiscais nas terras de Capelins  História, lendas, contos e tradições da...